Quem é David Cronenberg?

por Bernardo Brum

O rei do horror venéreo. Ou se preferir, o mestre do horror físico. Segundo o crítico do The Village Voice  J. Hoberman, “o mais audacioso e narrativamente desafiador diretor em atividade do cinema anglófono”. O diretor canadense nascido no ano de 1943 em Toronto (aonde também mora até os dias de hoje), nascido numa família classe média judia, filho de um escritor e uma musicista, Cronenberg estudou na University College, trocando ciência por literatura e se graduando nesta especialidade. Nesses anos de formação foi que consolidou artistas que influenciariam sua forma de pensar, como William S. Burroughs e Vladimir Nabokov.

 Foi no fim da década de sessenta, então, que Cronenberg decidiu tornar-se um cineasta. Seus primeiros dois trabalhos marcantes foram dois projetos altamente experimentais, taxados como “cinema cabeça” (ou art-house, se preferir), o preto e branco Stereo e o colorido Crimes do Futuro.

 Nos anos seguintes, após começar uma parceria com o diretor Ivan Reitman (diretor de clássicos da Sessão da Tarde como Os Caça-Fantasmas, Junior e Um Tira no Jardim de Infância) produzindo suas obras nesse período, iria acontecer sua primeira mudança de estilo: sempre interessado em gêneros como terror e ficção científica, David lançou na segunda metade da década de setenta seus primeiros filmes conhecidos, como Calafrios, Enraivecida na Fúria do Sexo e Os Filhos do Medo, além do mais desconhecido Fast Company.

 Desde o início já se mostrando bastante ousado, ao mesclar horror gore e apelação exploitation com algumas reflexões científicas e existenciais e uma atenção especial aos conflitos psicológicos do seu personagem, inevitavelmente chamou a atenção. Em Calafrios, recebeu a crítica de estar praticamente fazendo pornografia. Respondendo à provocação, Enraivecida na Fúria do Sexo apresentaria Marilyn Chambers, atriz pornô, atuando como protagonista.

 Ateu convicto, os primeiros traços de estilo já apareceriam nessa época: a ciência como o meio de transformação; o ser humano como fruto do meio e do acaso; uma interdependência entre o lado introspectivo e o mundo social. As manifestações de conflitos psicológicos internos sempre explodem nos filmes de Cronenberg em forma de horror e ficção científica, ou tornando os indivíduos em monstruosidades guiadas pelo instinto ou deformando toda a noção de ordem e sociedade. Afinal, para ele, tais coisas não passam de meras convenções. E o ser humano não é nada mais, nada menos que uma besta reprimida.

 Isso se confirmou principalmente nas décadas seguintes – primeiro a de 80, que foi o auge de popularidade de Cronenberg, onde conheceu os grandes orçamentos, as obras mais visualmente e graficamente ambiciosas. Depois de Scanners, um de seus filmes mais comerciais e mais lembrados nostalgicamente como um bom entretenimento sangrento, vieram obras-primas comentadas até hoje, como Videodrome, A Mosca e Mórbida Semelhança, além de talvez o seu filme mais comercial, A Hora da Zona Morta, dirigindo o então conceituado ator Christopher Walken.

 Na mesma década, além de ter dirigido outros atores do calibre de Jeff Goldblum, Geena Davis e Jeremy Irons, Cronenberg também conquistou o Oscar de Melhores Efeitos Especiais para A Mosca e foi sido cotado para dirigir duas das mais lembradas aventuras oitentistas – O Retorno de Jedi e O Vingador do Futuro.

 Porém, é na década de 90 que Cronenberg dirigiria duas de suas obras-síntese de sua carreira, Mistérios e Paixões e Crash – Esranhos Prazeres, duas adaptações de obras notadamente contraculturais. A primeira veio de O Almoço Nu, clássico maldito do beatnik William Burroughs, obra muitas vezes considerada infilmável pela sua extrema fragmentação narrativa, que Cronenberg transformou numa mistura de biografia e delírios junkies. O segundo veio da obra de J. G. Ballard, sobre pessoas com o curioso fetiche por acidentes de carros.

 “O extermínio de todo o pensamento racional”. A frase cai como uma luva no estilo do diretor. Inimigo de convenções e tabus, Cronenberg nessas obras amadurecia ainda mais a questão da construção da subjetividade e dissolvia suas obras até o ponto de não sabermos o que separava realidade e alucinação. Em outras obras, como M. Butterfly, mistura entre teatro, espionagem e o ainda polêmico tabu dos gêneros e identidades sexuais, e a aventura escatológica eXistenZ, que tal como um Videodrome recauchutado, atualiza a questão da televisão para a dos videogames, pensando como os seres humanos reagem a tecnologias interativas.

 Cronenberg chegou no novo século aprofundando o melhor que criou em cada um de seus momentos formais mais radicais. Vieram Spider – Desafie Sua Mente, que explora o drama de um esquizofrênico que após anos em um hospital psiquiátrico tem que voltar ao mundo e aprender a lidar com ele e com a cultura de bens e valores sempre mutante, e o novo auge de Cronenberg – quando dirigiu em seqüência duas histórias de crime, Marcas da Violência (baseada numa graphic novel), esta falando sobre a identidade e construção da mesma, e Senhores do Crime, um mergulho no submundo da máfia russa, (seus rituais e quem são e como são os indivíduos que integram esse grupo em particular).

 Em 2008, Cronenberg realizou dois projetos não-cinemaográficos: a exibição Chromossomes no Rome Film Fest e uma versão ópera de A Mosca em Los Angeles e Paris. Pode parecer extravagante, mas esse lado exótico já tinha transparecido, com muito bom humor, em sua inusitada participação no filme Jason X., uma das inúmeras continuações da saga Sexta-Feira 13.

 Sem filmar desde Senhores do Crime, em 2007, Cronenberg anunciou que seus dois próximos projetos são A Dangerous Method, ainda este ano, sobre o relacionamento entre os célebres Sigmund Freud e Carl Jung (é o terceiro filme do diretor com o ator Viggo Mortensen como um dos protagonistas) e, e em 2012, Cosmopolis, sobre um milionário em uma epopéia através de Manhattan. O primeiro é uma adaptação de uma peça, e o segundo, de um romance. Adaptações são uma constante onipresente na carreira de David, que tem um talento ímpar para conjugar múltiplos universos criados por diferentes autores em filmes com sua inconfundível assinatura.

 Assinatura esta que fez Cronenberg ser, quando foi sugerido nas reuniões do Cine Café, ser imediatamente escolhido. Apesar de ter investido de leve em filmes mais comerciais, David foi, ao longo de mais de 40 anos de carreira, um dos cineastas mais originais e, conseqüentemente, anticonvencionais de seu tempo. Infiltrado no cinema de gênero, conseguiu tornar-se verdadeira referência nas últimas décadas, ao igualar sem igual mente e corpo, carne e intelecto para erigir um cinema forte, visceral e impactante. Cronenberg se refinou como ninguém na arte de filmar mirando nossas entranhas – e sempre acertar.

Finalmente, após longo inverno, aí vai o cronograma do especial:

– Cronograma Especial David Cronenberg –

Dia 1: Texto de Abertura , por Ber + A Mosca, por Ber
Dia 2: M. Butterfly, por LC + Filhos do Medo, por Troy
Dia 3: Scanners, por LC + Na Hora da Zona Morta, por Mike
Dia 4: Crimes do Futuro, por Mike + Marcas da Violência, por Troy
Dia 5: eXistenZ, por Mike + Enraivecida na Fúria do Sexo, por Ber
Dia 6: Spider, por Troy + Mórbida Semelhança, por Mike
Dia 7: Calafrios, por Ber + Stereo, por Troy
Dia 8: Mistérios e Paixões, por Ber + Senhores do Crime, por Mike
Dia 9: Videodrome, por Luiz Carlos Fruta (LC)
Dia 10: Tops

E com o texto anteriormente publicado de Crash, por Ber, toda a filmografia do Cronenberg (até Junho-2011, Brasil) foi contemplada.

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