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Equipe Cine Café

No dia 20 de julho estreia o filme “Menos que Nada”, do diretor e roteirista Carlos Gerbase, responsável também por “3 Efes” e “Tolerância”. A novidade dessa produção é que o lançamento será realizado ao mesmo tempo nos cinemas, em DVD e na internet via streaming.  A proposta da produção é facilitar o acesso do público ao cinema nacional e ampliar a discussão sobre o sistema manicomial e a saúde pública no Brasil, abordados no longa-metragem.

O enredo de “Menos que Nada” conta a história de Dante (Felipe Kannenberg) um homem solitário, que sofre de esquizofrenia e vive num hospital psiquiátrico esquecido pelos amigos e a família. O estado de saúde de Dante começa a mudar quando a nova médica residente Paula (Branca Messina) se interessa pelos seus sintomas e decide investigar sua vida, buscando pessoas do seu passado. Completam o elenco: Rosane Mulholland (René), Maria Manoella (Berenice) e Carla Cassapo (Laura).

O CineCafé estará realizando uma promoção através do twitter do blog, onde será sorteado um dvd do filme “Tolerância” do mesmo diretor. Para tanto é só postar a fase “Eu quero ganhar um dvd do #FilmeTolerancia que @cafecinecafe está sorteando”.

Mais sobre o filme:

Facebook – Menos que Nada

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– Equipe Cine Cafe

No dia 20 de Abril, entra em cartaz em todo território nacional o longa Eu Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios, de Beto Brant, adaptação do livro honônimo de Marçal Aquino. O Cine Cafe vai sortear um par ingressos para assistir ao filme, além de um kit promocional que incluí um porta-retrato ou marca-página e um mini-pôster.

Para participar, basta seguir o perfil oficial do filme no twitter e postar no seu perfil a seguinte frase: “Eu quero o Kit do filme “Eu Receberia…” que o @cafecinecafe e o @Eureceberia estão sorteando http://kingo.to/13HW

A promoção será encerrada às 23:59h da quinta-feira do dia 26 de Abril – dentro de duas semanas. O sorteio será feito através do sorteie.me mesmo, e o nome do participante vencedor será divulgado pelo twitter do @cinecafe e na nossa página do Facebook. Perfis fakes obviamente não poderão participar, e se ocorrer de um desses perfis vencer o sorteio, sortearemos o kit novamente.

Além disso, ná página oficial do filme no Facebook, você pode participar de um concurso cultural onde o vencedor vai ganhar uma Câmera Semiprofissional Sony SLT-A35K. Para mais informações, apenas clique na imagem abaixo.

Nós do Cine Cafe vamos falar em alguns dias sobre o filme, e vai rolar também uma entrevista que o Bernardo Brum vai fazer com o Beto Brant, considerado um dos maiores cineastas brasileiros de sua geração, estando sobre o comando de filmes como O Invasor, Cão Sem Dono, Ação Entre Amigos e outros. Só aguardar, participem, e valeu.

 

Quem é David Cronenberg?

por Bernardo Brum

O rei do horror venéreo. Ou se preferir, o mestre do horror físico. Segundo o crítico do The Village Voice  J. Hoberman, “o mais audacioso e narrativamente desafiador diretor em atividade do cinema anglófono”. O diretor canadense nascido no ano de 1943 em Toronto (aonde também mora até os dias de hoje), nascido numa família classe média judia, filho de um escritor e uma musicista, Cronenberg estudou na University College, trocando ciência por literatura e se graduando nesta especialidade. Nesses anos de formação foi que consolidou artistas que influenciariam sua forma de pensar, como William S. Burroughs e Vladimir Nabokov.

 Foi no fim da década de sessenta, então, que Cronenberg decidiu tornar-se um cineasta. Seus primeiros dois trabalhos marcantes foram dois projetos altamente experimentais, taxados como “cinema cabeça” (ou art-house, se preferir), o preto e branco Stereo e o colorido Crimes do Futuro.

 Nos anos seguintes, após começar uma parceria com o diretor Ivan Reitman (diretor de clássicos da Sessão da Tarde como Os Caça-Fantasmas, Junior e Um Tira no Jardim de Infância) produzindo suas obras nesse período, iria acontecer sua primeira mudança de estilo: sempre interessado em gêneros como terror e ficção científica, David lançou na segunda metade da década de setenta seus primeiros filmes conhecidos, como Calafrios, Enraivecida na Fúria do Sexo e Os Filhos do Medo, além do mais desconhecido Fast Company.

 Desde o início já se mostrando bastante ousado, ao mesclar horror gore e apelação exploitation com algumas reflexões científicas e existenciais e uma atenção especial aos conflitos psicológicos do seu personagem, inevitavelmente chamou a atenção. Em Calafrios, recebeu a crítica de estar praticamente fazendo pornografia. Respondendo à provocação, Enraivecida na Fúria do Sexo apresentaria Marilyn Chambers, atriz pornô, atuando como protagonista.

 Ateu convicto, os primeiros traços de estilo já apareceriam nessa época: a ciência como o meio de transformação; o ser humano como fruto do meio e do acaso; uma interdependência entre o lado introspectivo e o mundo social. As manifestações de conflitos psicológicos internos sempre explodem nos filmes de Cronenberg em forma de horror e ficção científica, ou tornando os indivíduos em monstruosidades guiadas pelo instinto ou deformando toda a noção de ordem e sociedade. Afinal, para ele, tais coisas não passam de meras convenções. E o ser humano não é nada mais, nada menos que uma besta reprimida.

 Isso se confirmou principalmente nas décadas seguintes – primeiro a de 80, que foi o auge de popularidade de Cronenberg, onde conheceu os grandes orçamentos, as obras mais visualmente e graficamente ambiciosas. Depois de Scanners, um de seus filmes mais comerciais e mais lembrados nostalgicamente como um bom entretenimento sangrento, vieram obras-primas comentadas até hoje, como Videodrome, A Mosca e Mórbida Semelhança, além de talvez o seu filme mais comercial, A Hora da Zona Morta, dirigindo o então conceituado ator Christopher Walken.

 Na mesma década, além de ter dirigido outros atores do calibre de Jeff Goldblum, Geena Davis e Jeremy Irons, Cronenberg também conquistou o Oscar de Melhores Efeitos Especiais para A Mosca e foi sido cotado para dirigir duas das mais lembradas aventuras oitentistas – O Retorno de Jedi e O Vingador do Futuro.

 Porém, é na década de 90 que Cronenberg dirigiria duas de suas obras-síntese de sua carreira, Mistérios e Paixões e Crash – Esranhos Prazeres, duas adaptações de obras notadamente contraculturais. A primeira veio de O Almoço Nu, clássico maldito do beatnik William Burroughs, obra muitas vezes considerada infilmável pela sua extrema fragmentação narrativa, que Cronenberg transformou numa mistura de biografia e delírios junkies. O segundo veio da obra de J. G. Ballard, sobre pessoas com o curioso fetiche por acidentes de carros.

 “O extermínio de todo o pensamento racional”. A frase cai como uma luva no estilo do diretor. Inimigo de convenções e tabus, Cronenberg nessas obras amadurecia ainda mais a questão da construção da subjetividade e dissolvia suas obras até o ponto de não sabermos o que separava realidade e alucinação. Em outras obras, como M. Butterfly, mistura entre teatro, espionagem e o ainda polêmico tabu dos gêneros e identidades sexuais, e a aventura escatológica eXistenZ, que tal como um Videodrome recauchutado, atualiza a questão da televisão para a dos videogames, pensando como os seres humanos reagem a tecnologias interativas.

 Cronenberg chegou no novo século aprofundando o melhor que criou em cada um de seus momentos formais mais radicais. Vieram Spider – Desafie Sua Mente, que explora o drama de um esquizofrênico que após anos em um hospital psiquiátrico tem que voltar ao mundo e aprender a lidar com ele e com a cultura de bens e valores sempre mutante, e o novo auge de Cronenberg – quando dirigiu em seqüência duas histórias de crime, Marcas da Violência (baseada numa graphic novel), esta falando sobre a identidade e construção da mesma, e Senhores do Crime, um mergulho no submundo da máfia russa, (seus rituais e quem são e como são os indivíduos que integram esse grupo em particular).

 Em 2008, Cronenberg realizou dois projetos não-cinemaográficos: a exibição Chromossomes no Rome Film Fest e uma versão ópera de A Mosca em Los Angeles e Paris. Pode parecer extravagante, mas esse lado exótico já tinha transparecido, com muito bom humor, em sua inusitada participação no filme Jason X., uma das inúmeras continuações da saga Sexta-Feira 13.

 Sem filmar desde Senhores do Crime, em 2007, Cronenberg anunciou que seus dois próximos projetos são A Dangerous Method, ainda este ano, sobre o relacionamento entre os célebres Sigmund Freud e Carl Jung (é o terceiro filme do diretor com o ator Viggo Mortensen como um dos protagonistas) e, e em 2012, Cosmopolis, sobre um milionário em uma epopéia através de Manhattan. O primeiro é uma adaptação de uma peça, e o segundo, de um romance. Adaptações são uma constante onipresente na carreira de David, que tem um talento ímpar para conjugar múltiplos universos criados por diferentes autores em filmes com sua inconfundível assinatura.

 Assinatura esta que fez Cronenberg ser, quando foi sugerido nas reuniões do Cine Café, ser imediatamente escolhido. Apesar de ter investido de leve em filmes mais comerciais, David foi, ao longo de mais de 40 anos de carreira, um dos cineastas mais originais e, conseqüentemente, anticonvencionais de seu tempo. Infiltrado no cinema de gênero, conseguiu tornar-se verdadeira referência nas últimas décadas, ao igualar sem igual mente e corpo, carne e intelecto para erigir um cinema forte, visceral e impactante. Cronenberg se refinou como ninguém na arte de filmar mirando nossas entranhas – e sempre acertar.

Finalmente, após longo inverno, aí vai o cronograma do especial:

– Cronograma Especial David Cronenberg –

Dia 1: Texto de Abertura , por Ber + A Mosca, por Ber
Dia 2: M. Butterfly, por LC + Filhos do Medo, por Troy
Dia 3: Scanners, por LC + Na Hora da Zona Morta, por Mike
Dia 4: Crimes do Futuro, por Mike + Marcas da Violência, por Troy
Dia 5: eXistenZ, por Mike + Enraivecida na Fúria do Sexo, por Ber
Dia 6: Spider, por Troy + Mórbida Semelhança, por Mike
Dia 7: Calafrios, por Ber + Stereo, por Troy
Dia 8: Mistérios e Paixões, por Ber + Senhores do Crime, por Mike
Dia 9: Videodrome, por Luiz Carlos Fruta (LC)
Dia 10: Tops

E com o texto anteriormente publicado de Crash, por Ber, toda a filmografia do Cronenberg (até Junho-2011, Brasil) foi contemplada.

Ninguém pensou que o blog duraria mais do que um ano, mas, aqui estamos nós. Só passando aqui pra desejar aos visitantes um feliz ano novo, e agradacer pelas visitas e comentários nesse primeiro ano que o blog efetivamente completou. Certamente não é o melhor lugar onde se comenta cinema na internet, mas a gente espera sinceramente que, com o blog, o gosto por bons filmes se disperse cada vez mais nas pessoas, aniquilando toda a passividade no processo de se assistir a um filme, incentivando uma análise crítica saudável e um filtro responsável na escolha dos filmes. Se você visita o blog há bastante tempo, já deve ter percebido que a gente não tem hábito de comentar os filmes do ano, as estreias. Bom, as estreias estão aí disponíveis pra todo mundo assistir e comentar, em trocentos blogs e foruns espelhados pelo mundo virtual. Mas a nossa vontade aqui é ajudar a divulgar certos filmes que a história infelizmente pôs à parte. Laranja Mecânica e Taxi Driver todos certamente conhecem, mas existem uma infinidade de outros trabalhos, que conseguem atingir níveis de percepção-identificação muito mais intensos. E são mais ou menos esses filmes que a gente prefere escolher.

É por isso que pra 2011 a gente têm preparado certas mudanças no blog, pra aumentar nosso alcance, a aditivar nossa ‘missão’. Já vamos começar, em Janeiro, com especiais do David Cronenberg e M. Night Shyamalan, cobrindo completamente suas respectivas filmografias, e certamente muito mais ainda vai chegar. Por isso continuem acompanhando, favoritem e acessem diariamente o blog, que em breve muita coisa vai ficar diferente.

Que André Bazin e David O. Selznick lhe acompanhem.

Chegando ao final de mais um especial que, mesmo com todos  os atrasos de cronograma e períodos de inatividade, podemos considerar um período extremamente satisfatório e saudável pro blog, que junto vários posts de screenshots, conseguiu também mais de mil visitas e uma média de 50 pageviews por crítica e cerca de cento e vinte comentários, só comprovando nossa escolha acertada ao escolher esse diretor que realizou tanto obras alternativas quanto clássicos da televisão aberta, sem nunca deixar de lado a inteligência e o exagero que sempre tornaram seus filmes tão pessoais e universais ao mesmo tempo.

Sem perder mais tempo, aqui vão os tops de Bernardo Brum, Luiz Carlos Freitas e Guilherme Bakunin.

– Equipe

Bernardo Brum

1. O Vingador do Futuro – O poder do cinema (de ação, claro) de reinventar o indivíduo, contestar a ordem estabelecida e desobedecer a si mesmo em prol de algo maior. Tudo isso encoberto por um ritmo frenético e um senso de humor pra lá de doentio.

2. Tropas Estelares – Uma das sátiras definitivas ao militarismo, um irônico filme de propaganda cruzado com climão de filme B que mostra o grande poder de fogo das “sacanagens cinematográficas” de Verhoeven.

3. Louca Paixão – Amoralidade, humor negro e escatologia encontram melodrama e breguice. A maioria dos diretores iria se atrapalhar todo com uma mistura dessas, mas na mão do holandês a obra torna-se uma abordagem impactante sobre arte, existência e finitude.

4. Robocop – Um clássico do cinema com todas as letras, merecidamente um dos luminares do gênero ação, envolvendo críticas à publicidade, televisão, polícia e o mundo dos negócios. Alex Murphy pula de alienado à vítima à algoz. Contra uma tecnologia corrupta, Verhoeven usa o fator humano para combater.

5. Soldado de Laranja – Épico de guerra sem grandes frescuras ou moralismos que fizeram o diretor ser visto como um herói em seu próprio país por revelar os absurdos e contradições da Segunda Grande Guerra sem jamais esquecer de construir seu protagonista, que perambula e sobrevive por duas horas e meia numa terra de ambições, frustrações e brutalidade e revela-se, no final das contas, um grande personagem, síntese da fase holandesa do diretor, onde os absurdos cotidianos eram confrontados com o cinema, pura e simplesmente. Filme plenamente consciente de si, de uma forma que quase não se vê mais hoje em dia.
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Guilherme Bakunin

1. Instinto Selvagem – Hitchcock encontra fatalmente Paul Verhoeven num negócio forte, sensual, denso. Cheio de vertentes e antologias, com atuações catárticas que dizem sem dizer e chocam e emocionam através da captura do cineasta.

2. O Quarto Homem – Poderoso, grande.

3. A Espiã – Épico. Revelou não só uma grande atriz mas também o controle preciso do Verhoeven pra contar uma história que não é apenas grande, mas das mais importantes e fundamentais para seu país.

4. O Vingador do Futuro – Legal.

5. Louca Paixão – Romântico, identificável, invejável. Tudo que acontece ali pode facilmente acontecer com qualquer um. Verhoeven reuniu tudo de forma tão romântica, porém, que todos os acontecimentos são produto de uma única mágica: o cinema.
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Luiz Carlos Freitas

1. Louca Paixão – Somos apresentados a um amor demente, exagerado, bizarro e, acima de tudo, auto-destrutivo. Mas, diferente do que a grande maioria faria, Verhoeven não se entrega a julgamentos, não taca pedras; ele mostra essa “louca paixão” como um amor digno tal qualquer outro.

2. O Quarto Homem – Um espetáculo surreal de loucura, demência, confusão, sexo, desejo, morte, fé … Um surto esquizofrênico que reverencia, acima de tudo, o cinema.

3. Robocop – Verhoeven faz uma crítica ferrenha à ‘Sociedade do Espetáculo’ e à tecnologia se sobrepondo ao homem, um dos personagens mais icônicos do cinema e (provavelmente) o filme mais divertido dos 80’s.

4. Instinto Selvagem – Também conhecido como “Alfred Hitchcock perde o cabaço e vira homem” ou “A Maior Cruzada de Pernas do Glorioso Cinema Americano”.

5. Conquista Sangrenta – O período de transição da Idadé Média à Moderna retratado por seus personagens, párias imundos, mentirosos, manipuladores e amorais (mais Paul Verhoeven impossível).

Como todos puderem perceber, nós saímos ligeiramente do nosso cronograma. Hoje, por exemplo, só postamos um texto. A explicação é simples: hoje é aniversário do nosso compatriota BERNARDO BRUM, grande comentarista aqui do blog, como todos devem saber. Parabéns, cara. Em ritmo de festa, alcool e domingo, acabou-se por deixar de lado o texto de hoje. Claro que o aniversário do Ber não é desculpa para o atraso do cronograma. E nem precisamos de uma. Averdade é que o maldito chromos investiu-se contra nossas vidas, e temos feito malabarismo humano para poder continuar com o especial. E continuaremos, podem ter certeza. Todos os filmes de Paul Verhoeven serão devidamente comentados até os próximos dias, junto com tops, screenshots e sabe-se lá o que mais vamos inventar de incluir. Não falta muito pra terminar, mas achei que era uma hora oportuna pra dar esse rápido esclarecimento.

Amanhã teremos mais comentários aqui, só aguardar. Comentem, critiquem, deixem suas impressões sobre os filmes, questionem. O cinema é a sétima das belas artes e assim como as outras, jamais teria sobrevida se não gerasse discussões, discordâncias. Não existe uma opinião absoluta. As notas, pelo menos nesse blog e acho que Luiz Carlos e Bernardo vão concordar comigo, servem apenas para darem uma ideia bem geral e acima de tudo instintiva sobre o que achamos de cada filme comentado. Não existem critério para elas e elas, assim como os filmes que ranqueiam, não são absolutas. As impressões mudam com o tempo por diversos motivos e um 3/5 de hoje pode ser um 5/5 amanhã. O que eu estou querendo dizer, acho, é que todo mundo é muito bem vindo a participar e opinar, seja qual for a opinião. Nosso histórico de recebimento de críticas pode não ser dos melhores, mas estamos sempre tentando melhorar, e não existe maneira mais adequada pra isso do que elas (críticas).

Enfim, voltemos logo mais com nosso especial.

Quem é Paul Verhoeven?

por Bernardo Brum

Para a maioria esmagadora da comunidade cinéfila, em todos os meios  – na internet ou nos cineclubes – Paul Verhoeven é comumente conhecido como um dos cineastas “tipo exportação” que proliferam há décadas nos Estados Unidos, responsável por alguns clássicos filmes de ação e bombas de proporções gigantescas – e nada mais. Mas como reza o velho (e clichê) ditado nem sempre pode-se julgar um livro pela capa. O poder de fogo de Verhoeven é, mesmo que relegado a um segundo escalão cinematográfico, de um alcance longo e duradouro, capaz como poucos de cumprir a missão número um do cinema – cristalizar no inconsciente coletivo as imagens em movimento.

Mas deixando a retórica de lado, vamos nos ater aos fatos. Nascido na Holanda em 16 de julho de 1938, filho de um professor e uma chapeleira, Verhoeven curiosamente parecia não ter o cinema como sua primeira opção. Quem conta isso é o seu diploma em Matemática e Física, pela Universidade de Leiden. Sua infância foi um tanto agitada: crescido em uma casa perto de uma base alemã constantemente bombardeada pelos Aliados e, ao mesmo tempo, banhado na escola e nos cinemas da região por filmes informativos e películas americanas que aprendeu a gostar desde a mais tenra idade – como Frankenstein, Guerra dos Mundos e filmes B de detetives. Nesta época, também, teve interesse por desenhar histórias em quadrinhos.

Talvez seja esse background que tenha feito ele desistir de usar profissionalmente sua graduação e investir sua energia e recursos na feitura de filmes. Nessa época, dirigiu alguns curtas-metragens e documentários para a marinha (um deles, inclusive, ganhou um premio francês destinado a filmes militares) e para a televisão e casou-se com Martine Tours, que mais tarde daria a ele duas filhas.

No início da década de 70, finalmente Paul Verhoeven estrelaria em longas-metragens, com o exploitation tornado cult Negócio é Negócio, uma comédia de humor negro sobre duas prostitutas que foi mal recebido pela crítica. Mas iria à forra em 1973, com o sucesso Louca Paixão, que foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e, duas décadas depois, foi considerado o melhor filme holandês do século. O filme marcaria o início da parceria do diretor com Rutger Hauer, prosseguida dois anos depois com Os Amantes  de Katie Tippel, que não alcançou o sucesso do anterior.

Mas isso não parecia motivo para parar Verhoeven, que logo emplacou outro sucesso, o épico de segunda guerra Soldado de Laranja, novamente com Hauer. Choveram prêmios e indicações mais uma vez: concorreu para o Globo de ouro e ganhou como melhor filme de língua estrangeira na premiação dos críticos de Los Angeles. Curiosamente, na tal eleição dos filmes mais importantes da Holanda ocorrida na década de 90, Soldado de Laranja ficaria com o segundo lugar, perdendo para o supracitado Louca Paixão.

Nessa época, o cineasta já havia cravado suas marcas de estilo: perversão, nudez frontal, diálogos “sujos”, escatologia e  outros elementos do gênero eram filmados de forma despudorada e direta. É o caso de Sem Controle, seu quarto filme com Rutger Hauer, considerado por muitos na época uma versão bem mais violenta e sexualizada de Os Embalos de Sábado à Noite. O último filme do diretor em sua terra natal seria o horror O Quarto Homem.

Daí então teria início o ápice e também o período mais polêmico (para críticos e para os fãs) da carreira de Verhoeven. Exportado junto com seu ator de estimação (vocês sabem quem) fez o filme de época Conquista Sangrenta, com Jeniffer Jason Leigh (que, mesmo se passando em 1500, não abandona a violência e o sexo que são tão característicos de sua obra!). O ponto de virada, que fez Paul ser lembrado por todos como um cineasta que gira suas obras em torno de pólos como efeitos especiais incrementados, orçamentos altos e violência explícita, viria com a ficção científica policial Robocop, que além de ganhar vários prêmios por efeitos especiais, tornou o seu protagonista um ícone da cultura pop – daqueles que todo mundo já ouviu falar mesmo sem ter visto.

A boa fase continuaria com outra ficção científica, O Vingador do Futuro, com o “terminator” Arnold Schwarzenegger, baseado em um livro do célebre escritor do gênero cyberpunk Philip K. Dick. Outro sucesso de público, crítica e premiações. Depois de dois filmes sci-fi seguidos, decidiu voltar aos tempos de sexualidade, tensão e provocação com o suspense à lá Hitchcock Instinto Selvagem, que novamente abalou as estruturas cinematográficas e populares por apresentar a famosa cena em que, num vestido curtíssimo e sem roupas de baixo, uma Sharon Stone no auge da gostosura dá a cruzada de pernas mais famosa do cinema.

Verhoeven continuou nesse universo altamente sexualizado em Showgirls, filme criticado impiedosamente quando foi lançado, recebendo censura máxima e conquistando os  “prêmios” de Pior Filme e Pior Diretor no Framboesa de Ouro. Curiosamente, ao longo dos anos, Showgirls viraria um verdadeiro cult, fazendo um sucesso alucinado no mercado das videolocadoras, arrecadando mais de 100 milhões de dólares com aluguel de fitas VHS e tornando-se um dos vinte filmes mais lucrativos da MGM…

A polêmica continuaria quando Verhoeven retornou ao universo das ficções científicas sangrentas Tropas Estelares, que fazia alusões a uma sociedade militarista e totalitárias no futuro, percebido por alguns como uma crítica sarcástica do diretor aos Estados do mundo, e por outros levado a sério, chegando inclusive a alguns taxarem abertamente o diretor de facista (polêmica semelhante também enfrentada pelo livro homônimo do qual o filme foi adaptado). Em 2001 viria O Homem Sem Sombra, o último filme de Verhoeven em terras americanas, a livre adaptação (no sentido de tomar muitas liberdades criativas em relação a obra original) do clássico livro de H. G. Wells O Homem Invísivel. Apesar das duras críticas ao roteiro, o filme foi elogiado por uma parcela do público pela excelência no uso de efeitos especiais gerados por computação gráfica (sendo inclusive indicado ao Oscar nessa categoria).

Depois de morar 20 anos nos Estados Unidos, Paul Verhoeven retorna com festas e glórias aos Países Baixos e filma uma nova obra em 2006, A Espiã. Dividindo a crítica e abocanhando três prêmios da premiação nacional de cinema da Holanda, o filme foi definido pelo anfitrião da entregra dos prêmios como “o retorno de um herói”. Desde então, apesar de ter anunciado alguns projetos, Verhoeven ainda não dirigiu mais nenhum filme. Mais recentemente, como membro de uma associação de críticos do cristianismo, lançou um livro em 2007 sobre Jesus Cristo que desagradou muitos por suas acusações de corrupção da instituição religiosa e supostas ofensas contra o símbolo maior dessa religião.

Em quarenta anos de cinema, Paul Verhoeven conheceu altos e baixos como nenhum outro. Foi chamado de gênio, incompetente, refinado e escatológico na mesma medida e, lentamente, após grande início de carreira, empurrado por crítica e cinéfilos para o underground do mundo cinematográfico, sendo considerado, hoje em dia, autor de poucos clássicos, filmes primogênitos desconhecidos e obras recentes desprezadas. Mas, como sempre, não para o Cine Café. Por ser forte e direto como poucos cineastas ousam ser, por ter a coragem de entrar na nação mais poderosa do mundo e brincar acidamente com seus costumes, tabus e manias e pela sua autoralidade altamente descarada e maluca, costurando tudo isso com uma linguagem narrativa sempre densa, bem estruturada e ganchuda, ele merece mais do que comentários ocasionais aqui e ali. Direto do subsolo, com todo os litros de sangue, seios de fora e abuso sacana dignos de um bom maldito, com vocês, Paul Verhoeven.

Sem mais delongas, segue abaixo o cronograma do Especial, com o calendário direitinho dos textos que serão publicados.

– Cronograma Especial Paul Verhoeven –

Dia 1: Texto de Abertura, por Ber + Robocop, por LC
Dia 2: O Amante de Keetje Tippel, por Troy + O Homem sem Sombra, por Ber
Dia 3: Sem Controle, por LC + Screenshots: Robocop, por LC
Dia 4: Louca Paixão, por Ber + Negócio é Negócio, por LC
Dia 5: Instinto Selvagem, por Troy + Screenshots: Instinto Selvagem, por Troy
Dia 6: Soldado de Laranja, por Ber + Showgirls, por LC
Dia 7: Tropas Estelares, por Ber + A Espiã, por Troy
Dia 8: O Quarto Homem, por LC + Conquista Sangrenta, por LC
Dia 9: Vingador do Futuro, por Ber + Screenshots: O Vingador do Futuro, por Ber
Dia  10: TOPs

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