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girls

– por Guilherme Bakunin

Como parte do meu trabalho de conclusão de curso, eu tenho pesquisado um pouco a respeito de Lena Dunham, a mente criativa por trás do seriado Girls. Esse texto é a primeira parte de uma exploração a respeito do que eu tenho pesquisado, e vai lidar principalmente com Tiny Furniture, o filme de estreia da diretora, e um pouco sobre Girls, falando a respeito da narrativa e de como os personagens funcionam dentro dela. É spoiler-free, de forma que, mesmo quem não viu nenhuma das duas obras, é muito bem-vindo a ler.

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Eu não sei muito bem o que eu vou falar agora, mas já faz algum tempo que eu quero escrever sobre Girls, série transmitida & produzida pela HBO, criada por Lena Dunham e Jennifer Konner e produzida pelo Judd Apatow.

Lena Dunham é uma cineasta da tradição mumblecore, talvez, e eu já falei um pouco sobre isso, acho, no texto sobre Uncle Kent. Mas ela se desvia bastante dessa tradição, porque Tiny Furniture (estreou aqui em Belo Horizonte na mostra de cinema INDIE, em 2011, se não me engano) é um filme de camadas que estão constantemente em sobreposição. No filme, a própria diretora interpreta Aura, uma garota que acaba de se formar e volta para a casa, em Nova York, para tentar se decidir na vida. O que era de se esperar naturalmente acontece e Aura não consegue se decidir a respeito de nada, exceto que a vida é bem trágica mesmo. Isso É o mumblecore. É o esvaziamento completo de sentido e de objetivos, é uma mensagem tão preguiçosa ao mesmo tempo que bela justamente por isso. Mas o debut de Dunham oferece muito mais em questões narrativas do que os filmes que são geralmente rotulados como mumblecore.

Vocês provavelmente se lembram de Greenberg, de Noah Baumbach, em que Ben Stiller interpreta um cara bastante depressivo e patético. Acredito que o filme de Baumbach seja o advento mais assimilável e mainstream desse movimento do cinema independente americano. Em Tiny Furniture, assim como em Greenberg, a narrativa é mais coesa, estruturada, é como se as coisas tivessem uma melhor razão de ser do que em filmes como LOL ou Hannah Takes the Stairs. Mas é a sobreposição de camadas que realmente impressiona, porque a gente, enquanto espectador, não é muito capaz de definir os personagens principais. Eles permanecem enigmas indecifráveis e nós simplesmente somos obrigados a aceitá-los dessa forma. Porque sabemos que Aura é egocêntrica, mas sabemos também que é realmente difícil demais trazer algum sentido pessoal no caos da urbanidade de hoje (ou ao menos eu sei disso, porque é uma coisa que eu sinto).

E Tiny Furniture coloca espectador e personagens em um estado de letargia surpreendente, porque existe um esforço ludoviciano, pelo menos na minha apreciação cinematográfica, de tentar elevar qualquer narrativa a um sentido coeso, (fomos treinados a assimilarmos cinema dessa forma) e Lena Dunham jamais permite que esse sentido seja alcançado, porque os rumos da história sempre contradizem as expectativas e os personagens sempre contradizem a si mesmos.

É um puta espetáculo estético quando um diretor consegue dizer ao espectador que o personagem está dizendo “sim” enquanto o personagem está dizendo “não”; é um puta espetáculo estético de outa natureza quando um filme é absolutamente o tempo todo assim, exceto que em Tiny Furniture, ao invés de “sim” e “não” existem outros tipos de diálogos sendo travados, eu acho, que parecem mais murmúrios e questionamentos do que uma mensagem realmente límpida e objetiva.

Porque, voltando a questão da frustração de expectativas, existe uma relação diferente de diálogo entre obra-espectador sendo travado em um filme de suspense, onde o sentido da coisa DEVERIA ser o de surpreender. No caso de Tiny Furniture, que é apenas um exemplo de filmes que fazem isso, a questão de interesse não é a surpresa, mas em como o espectador perceberá a obra a partir do contra-senso.

Um exemplo para ilustrar esse ponto: no começo do filme somos apresentados a uma questão – Aura e sua amiga de faculdade Frankie possuem planos concretíssimos de morarem juntas em Nova York dentro de algumas semanas. Depois de mais ou menos uma hora de filme, há uma cena em que as duas conversam pelo celular e a gente descobre que 1. Aura tem ignorado as ligações da amiga porque 2. ela não quer mais morar com ela. Embora haja certa antecipação sobre essa questão, não é nada razoável ou suficiente do ponto de vista de antecipação narrativa. Essas coisas são, a todo momento, elevadas à superfície de Tiny Furniture sem que haja qualquer tipo de olhar para as coisas que podem estar submersas. Acredito que o lance aqui é que o espectador é colocado numa posição onde ele terá que mergulhar por conta própria.

Agora é importante que eu faça a observação de que, dependendo do tipo de relação que se tem com cinema, essa ausência de antecipação pode se tornar tanto uma benção quanto uma maldição. Meu posicionamento a respeito é que eu absolutamente não me importo com nada disso, enquanto o filme estiver bom (é, portanto, uma ausência de posicionamento basicamente), e Tiny Furniture é bastante bom.

Agora, um pouco sobre bagagem: a minha não é, certamente, muito extensa, e eu cada vez desisto mais de correr atrás disso. Não vi metade dos filmes que já quis ver; não vi metade dos filmes que eu considero fundamentais. Obviamente me falta repertório pra analisar historicamente qualquer coisa, mas eu vou analisar mesmo assim, porque eu prefiro o erro ao silêncio: a não-antecipação é uma questão profundamente ligada a um outro programa da HBO: Sopranos. Os episódios da icônica série de máfia eram construído de forma a funcionarem como pequenos filmes que poderiam ser assimilados isoladamente. Isso não significa dizer Joãozinho não precisa acmopanhar Sopranos para entender. Joãozinho obviamente precisa. Mas em termos de apreciação estética, em termos de ação e reação imediatas dos personagens, basicamente todos os episódios de Sopranos funcionam por si só.

Tiny Furniture parece lidar com a história da mesma forma: são os mesmos personagens, que caminham em direção a algum lugar, mas praticamente cada cena parece se bastar em funções imediatas, como se pequenas esquetes muito bem planejadas ao redor de um arco geral. E, à Sopranos, a situação é posta na lata, de maneira impetuosa. O problema da assimilação sai das mãos do autor e cai violentamente nas mãos de quem assiste ao filme.

Essa parece ser uma posição vulgar para um autor certo? Mas aí a questão do mumblecore retorna ao filme de Dunham porque autor e questionamento estão juntos, nesse tipo de filme, em direção a lugar nenhum.

A grande convergência entre Tiny Furniture e Girls vem dessa questão: se o filme é episódico, e a série obviamente também o é (ou seja, as situações não funcionam necessariamente para cobrir um arco narrativo claro), o risco para que a contradição exista é extremamente maior do que num filme clássico, de forma que, tanto no filme quanto na série de Dunham, os personagens são capazes de expressar inconsistência. É quase como se um mesmo personagem pudesse ser vários ao mesmo tempo, tamanha a discrepância entre seus discursos e atitudes entre as cenas; a pergunta que a cineasta parece fazer a partir dessa questão é: e não somos todos assim?

Girls, desconfio, é uma grande coletânea de histórias que possui, assim como a maioria dos dramas da HBO, a pretensão de se confundir com o grande romance americano. Dezenas de personagens existindo dentro de um arco amplo e aparentemente desconexo. É com Girls que cada uma das características de Tiny Furniture é levada à exaustão e agora, após duas temporadas, as pessoas têm a grata surpresa de que a série se sustenta cada vez mais como uma das séries mais intricadas, narrativamente falando, dos últimos anos.

O aspecto mais superficial digno de nota é que Girls é uma série extremamente feminina e isso é algo extremamente raro. Isso quer dizer que a série vai enaltecer o tempo todo os poderes e as fraquezas de ser mulher, de acordo com a percepção que as escritoras tem do que é ser uma. Isso é tão importante e necessario que, através de reações das pessoas aos episódios a gente consegue perceber que não, o mundo não está ainda completamente pronto pra aceitar que todas as pessoas são iguais. Um dos exemplos mais comentados na segunda temporada, foi um texto da revista Slate, morbidamente misógino. Um exemplo:

I felt trapped by my unwillingness to buy into the central premise. Narcissistic, childish men sleep with beautiful women all the time in movies and on TV, so why should this coupling be so difficult to fathom? I think it’s because Hannah is especially and assertively ugly in this episode. She’s rude (“what did you do?” she asks Joshua, referring to his broken marriage), self-centered (“I’m too smart and too sensitive”), sexually ungenerous (“no, make me come”), and defiantly ungraceful (naked ping-pong). In sum, the episode felt like a finger poked in my guys-on-Girls eyeball, or a double-dog dare for me to ask, How can a girl like that get a guy like this? Am I small-minded if I’m stuck on how this fantasy is too much of a fantasy and remembering what Patrick Wilson’s real-life partner looks like?

Eu poderia me alongar nesse parágrafo e comentar exatamente meus problemas com ele e o porque de eu achar que ele é extremamente sexista, mas eu sinceramente acredito que ninguém precisa se convencer disso, porque o sexismo está bastante aparente ali. A questão que me atraí é que Girls incita esse tipo de reação e provoca o intercâmbio de ideias a respeito disso; Lena Dunham nunca se acorvadou diante dessas críticas, muito pelo contrário, segundo as palavras da própria autora, na segunda temporada, todas as coisas que as pessoas usaram para falar mal de Girls foram utilizadas mais recorrentemente ainda – a nudez, o sexo desconfortável, os temas femininos, os personagens masculinos carentes e desequilibrados emocionalmente, personagens egocêntricos, etc. O fato de que Dunham insiste nesses temas, mesmo com críticas, demonstra não apenas uma certa coragem, mas também demonstra que ela sabe exatamente o que está fazendo com sua série; ela sabe exatamente o que QUER dizer.

As coisas começam a se aprofundar, no entanto, a respeito da questão já mencionada de que arcos e personagens são livres para serem o que querem ser em determinado momento, e depois serem outra coisa em um momento diferente. Isso é importante para uma série como Girls porque ela lida com personagens que são a certo modo infantis, ou possuem, pelo menos, certas questões de auto-estima a serem trabalhadas; pressupõe-se que esses personagens não estão completamente formados (e podem nunca estar), de forma que a questão da inconsistência seja parte determinada na própria personalidade não-completamente-desenvolvida deles. Obviamente existem aspectos claros da personalidade de cada um: Adam é impetuoso, explosivo, ao passo de que Shoshanna é inocente, mas incrivelmente perceptiva, etc. Mas existem partes não preenchidas naquilo que cada personagem é, e essas partes vão sendo completadas com diferentes peças a cada momento, quase como se as pessoas que criaram esses personagens (Dunham, junto de seus escritores e atores) não soubessem muito bem como preencher essas lacunas.

 Ficha Técnica: Tiny Furniture – Estados Unidos, 2010. Direção: Lena Dunham. Elenco:  Lenha Dunham, Laurie Simmons, Grace Dunham, Meritt Wever, Jemima Kirke, Alex Karpovsky, Amy Seimetz, Rachel Howe.

Ficha Técnica: Girls – Estados Unidos, 2012. Direção: Lena Dunham. Elenco:  Lenha Dunham, Jemima Kirke, Zosia Mamet, Adam Driver, Alisson Williams, Alex Karpovsky, Christopher Abbott.

Na parte 2: mais sobre Girls e sua narrativa; ironia e pós-ironia na obra de Lena Dunham; Mike Leigh, Kubrick e Hal Hartley; hipsters?

trash humpers

– por Guilherme Bakunin

Gummo se mantém como uma das experiências mais impactantes que eu já tive com cinema. Figura ao lado de Sombras (John Cassavetes, 1959) como uma daquelas coisas monumentais que podem ser feitas a partir de praticamente lugar nenhum. A narrativa se esvazia e as tramas, mais do que nunca, deixam de existir. Eu me importo com o que o artista tem a dizer a respeito de sua obra e de suas intenções, mas nesse caso, me esquivei de qualquer informação adicional; fiquei, apenas, com as impressões que eu mesmo captei, sejam elas inequívocas ou não.

Apenas cito Gummo porque parece ser o único filme que se relaciona, em poucos aspectos, com Trash Humpers, um dos filmes mais recentes de Korine; só que este filme se esvazia ainda nas questões narrativas, não cede absolutamente nenhum espaço para tramas ou crônicas (algo que o debut do cineasta tinha em pequenos graus). O diretor nem ao menos se dá ao trabalho de contextualizar. O espectador é apenas violentamente lançado nas desventuras de uma gangue de velhos sociopatas, que andam por aí grunhindo ao praticarem pequenos delitos, que de certa forma, talvez, se escalonem, até chegar num apogeu de loucura e psicopatia, que começa a ocorrer por volta dos quarenta minutos da metragem.

Mas aí alguém pode chegar e perguntar o que um filme com mais de uma hora de duração onde velhos (ou pessoas jovens com máscaras monstruosas de velhos) saem cometendo barbaridades pelas ruas tem a acrescentar a qualquer pessoa; o que, afinal, esse filme tem a oferecer.

Bom, eu acho primeiramente que é interessante pra caralho que, passeando por textos na internet, a principal crítica dirigida ao filme (e ao diretor) seja a de “trapaceiro”. A questão do trapaceiro é extremamente percebida no cinema underground e no cinema independente. É percebida, porém, mais ainda no universo da arte, especialmente se o crítico em questão não tem a menor disposição de sacar a arte que ele analisa. “Trapaceiro” é o que você provavelmente vai ouvir se levar, sei lá, Agnaldo Timóteo? pruma exposição do Gerhard Richter.

Me fode se eu algum dia disser que essas pessoas são simplesmente despreparadas para apreciaram tal ou tal trabalho artístico, porque eu repudio completamente essa noção hierárquica de arte. A questão, a meu ver, simplesmente não é essa. Mas parece ter um senso de baixa auto-estima regendo essas percepções; não que tal ou tal filme seja necessariamente difícil ou complicado, mas porque as regras narrativas e estéticas podem ser outras. Me parece plausível demais que a pessoa, por algum motivo maluco, vai imediatamente se sentir ameaçada pelo baque da diferença.

Então eu tenho como extremamente maldosa essa noção de trapaça, porque simplesmente tenta deslegitimar algo que é legítimo, concreto, sincero. É um tipo de crítica que procura neutralizar o que é desconforme e diferente e que, portanto, em última instância, tenta transformar todas as coisas em iguais.

Cada vez mais eu tenho mais certeza de que, em um texto que fala sobre um filme, é irrelevante que o autor tenha gostado ou não do objeto de estudo dele. As ideias que podem ser extraídas da obra (através de pontos positivos ou negativos) são muito mais interessantes, reveladoras. E o que comentários que circundam a ideia de “trapaça” tem a revelar, exceto que o autor do texto tem um puta complexo de inferioridade? Bom, talvez revela uma pá de outras coisas, todas a respeito da pessoa que escreveu o texto, e como ela enxerga arte, estética, narrativa, imagem, som, e nada a respeito do filme em si.

Portanto eu vou simplesmente agir como um louco aqui e inferir que o Korine não atuou como trapaceiro durante um segundo sequer. Vou inferir, além disso, que Trash Humpers é uma exploração estética séria, e que o diretor está realmente bem interessado em como os desafios que ele se propôs serão explorados e irão resultar no objeto final. Vou inferir que Korine não é um cara que está apenas interessado no choque pelo choque, embora eu ache que o choque pelo choque é uma abordagem bastante legítima pra vários objetos de estudo, mas é um cara que tá interessado no no cinema como linguagem mesmo.

Trash Humpers é uma estimulação brutal à linguagem cinematográfica. É um filme extremo em todas as questões: extremamente insuportável, extremamente inócuo, extremamente fascinante. Desafia o espectador a perdurar na experiência mesmo sem saber que tipo de experiência está sendo mostrada. O que  devemos propor não é se Korine é um farsante ou não. Devemos nos perguntar o que um bando de velhos (ou jovens trajando máscaras mal acabadas de velhos) fodendo lixeiras podem elucidar a respeito do cinema de hoje. Digo cinema de hoje porque me é bastante claro que os filmes do Korine são proposições a respeito desse cinema, da maneira com a qual ele se configura e se configurará a partir de então.

Portanto enxergar como a narrativa de Trash Humpers pode estimular determinadas sensações parece ser, pessoalmente, o caminho mais próspero. Do amor ao ódio e do riso ao medo, é quase como se fosse um Laranja Mecânica sem história: apenas o horror brutal que o homem & o desconhecido podem gerar. Não sabemos quem são aquelas pessoas e porque elas agem daquela maneira, mas é impossível ficar impassível diante de tudo que elas fazem. Ainda que muitos declarem que o filme é apenas chato e insuportável, existe, sem a menor dúvida, uma resposta emocional primária que reage diante dos golpes impassíveis de Harmony Korine. O cinema não precisa de histórias para contar.

Ficha Técnica: Trash Humpers – Estados Unidos, 2009. Direção: Harmony Korine. Elenco:  Paul Booker, Dave Cloud, Chris Crofton, Rachel Korine.

– por Bernardo Brum

A Máscara de Satã, de Mario Bava (1960)

Apesar de já ter seus antecessores – como Riccardo Freda, para quem completou alguns filmes – pode-se dizer que Bava e seu debut como diretor autoral que deu o pontapé para o “boom” dos filmes de horror da Itália. Muitos dos diretores conterrâneos, após a consolidação do estilo, passaram a se tornar “especialistas” e não apenas versáteis realizadores de encomenda, assim como o próprio Bava. O diretor e a atriz Barbara Steele formaram uma das mais consagradas duplas do horror nesta obra que combina o horror gótico expressionista da Hammer e uma antecipação da violência gráfica que tomaria de assalto a década seguinte. O início da violência hiper-estilizada italiana já demonstrava a sua força no preto-e-branco demarcado pelos filtros bruxuleantes de Bava, um verdadeiro artesão da luz, já inigualável à época de sua estréia.

profondo rosso

Prelúdio Para Matar, de Dario Argento (1975)

Após a trilogia dos Animais, Dario Argento  levou ao máximo o que Bava havia iniciado em Seis Mulheres para o Assassino e fez o grande filme do gialli, onde o assassinato é encenado de forma ritualística. Ao colocar o espectador no lugar do assassino, Argento costurou uma obra que nos torna cúmplices da obsessão pelo diretor de encontrar a catarse final da violência através de imagem e som.É uma obra onde assassino e investigador só existem por intermédio de quem assiste. Nós somos os olhos do covarde, que não hesitam em matar mas não querem ser pegos, e também somos os olhos do paranoico, arriscando a própria vida para conhecer algo que preferia não saber. O “profundo vermelho” reflete em suas poças fatais o lado feio de cada um.

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O Estranho Vício da Senhora Wardh, de Sergio Martino (1971)

Martino é a quarta via do cinema italiano após Bava, Argento e Fulci. O caráter mais narrativo de seus filmes não isenta suas obras de um caráter sombrio e alucinatório, onde em histórias de cunho contracultural (encenando o sexo livre, o consumo de drogas, os fetiches, o ocultismo) personagens perdidos e confusos tem o mesmo lado feio e imoral dos seus algozes. Senhora Wardh, interpretada pela musa Edwige Fenech, é o ícone do seu cinema – uma personagem que compartilha uma relação de prazer e dor com seu antagonista. Enquanto desenrola a trama sobre traição e conspiração, somos tragados à espiral de alucinações sadomasoquistas da protagonista, uma jovem burguesa perdida em seu papel social  numa sociedade em plena revolução de costumes. As lentes distorcidas do diretor  apontam para cantos escuros e situações fragmentadas e bizarras que só aumentam a sensação constante de perigo – os filmes de Sergio Martino são em toda a sua perturbação sensorial uma verdadeira bad trip de LSD.

Zombie eyeZombie – A Volta dos Mortos, de Lucio Fulci (1979)

A já clássica cena da porta arrombada sintetiza bem o cinema de Fulci: não estamos mais no terreno das imagens catárticas de Argento. Não há imagem definitiva. Há a imagem, pura e simples. Brutal, agressiva e rústica. A atmosfera de seu filme de zumbi feito para lucrar em cima do frisson em volta do Despertar dos Mortos de Romero trouxe zumbis tropicais de aparência pode e decomposta, com uma violência tão ou mais extrema que o filme do americano. O aspecto empobrecido do filme de Fulci, filmado na pressa e na fúria, só reforça a atmosfera menos fantasiosa que intentava tornar os zumbis mais críveis em toda a sua ameaça muito mais física que sobrenatural. Após esta obra, os filmes do italiano tornariam-se progressivamente mais irracionais e fragmentados, mas neste emblemático filme (que consagrou Fulci como artífice do gore) já há toda uma atenção especial dispensada mais às set-pieces do que propriamente à história em si. Essa sucessão de maneiras de se destruir um corpo humano garantiu um merecido e duradouro culto ao filme.

cannibal holocaustHolocausto Canibal, de Ruggero Deodato (1980)

Deodato, ao fazer o filme pioneiro do falso documentário de terror – no qual décadas mais tarde renderia diversos filhotes como a Bruxa de Blair, [REC], Cloverfield e Atividade Paranormal – também fez um daqueles filmes malditos, muito mais comentados do que vistos. A polêmica que rondou o filme, que fez inclusive Deodato ter que responder legalmente quanto à localização dos atores cujos personagens morriam no filme, rendeu alguns fãs célebres, como Sergio Leone. Em carta enviada a Deodato, o mestre do spaghetti classificou seu filme como uma obra-prima realista que seria, por causa disso, injustamente incompreendida. Relevando o superlativismo de Sergio, dá para entender o que o mesmo quis dizer: abandonados os filtros e refletores, abandonada qualquer temática sobrenatural e exagerando mais do que nunca na violência (providenciada pelos efeitos simples e verossímeis de Aldo Gasparri), tendo direito inclusive à matança snuff on-screen de uma tartaruga, Deodato fez um filme que era tônica dos anos setenta, onde a ideia era explorar o lado bestial da raça humana da forma mais gráfica possível.

house 3A Casa com Janelas Sorridentes, de Pupi Avati (1976)

A pérola esqueci de Pupi Avati é um caminho sem volta. Embalado em um ritmo de filme de investigação, o cineasta mostra a contraposição entre campo e cidade, mas invertendo o escopo que era praticado décadas antes, quando o campo era símbolo dos valores morais: aqui, segredos escondidos no tempo revelam uma cidade interiorana hipócrita e doentia, cristã e satânica ao mesmo tempo. A trama envolvendo restauração de imagem acaba trazendo consigo a ideia de acontecimentos e histórias que ninguém gostaria de saber – quanto mais testemunhar. E junto com o restaurador, iremos lentamente desencavar um final perturbador que não conseguimos ignorar com o nosso interesse mórbido. Essa perturbação culpada tão característica dos filmes metalinguísticos italianos encontra uma de sua expressões máximas aqui. Sem jamais deixar de insinuar o horror, A Casa com Janelas Sorridentes é brutalidade à conta-gotas.

Buio_OmegaBuio Omega, de Joe D’Amato (1979)

O apaixonado filme de D’Amato pode não ser o mais controverso da sua imensa filmografia – o posto pertence ao infame Antropophagous – mas com certeza bem que tenta. Se o filme com o gigantesco George Eastman promovia um verdadeiro bacanal da repulsão, o sensacionalista Buio Omega vai direto no campo da necrofilia. Longe de julgar o personagem, o próprio diretor caminha junto com o mesmo, num bizarro cruzamento entre Eros e Tânatos, onde a maioria dos corpos humanos despidos vistos são de cadáveres. A cinematografia simples e tosca é tão pervertida quanto seu protagonista, e é aí que reside a força de Buio Omega, que pode não conter avalanches de sangue, mas que por mostrar seu protagonista não como um vilanesco monstro mas sim como um ensandecido apaixonado ainda é uma cotovelada na boca do estômago ainda nos dias de hoje. Apesar de se gabar por sua violência extrema, ainda não vi nenhum dos “terrores de multiplex” ter coragem de dar close em um mamilo que fosse. Que dirá carbonizado….

nightmare-city2Nightmare City, de Umberto Lenzi (1980)

Poucos cineastas desse ciclo são tão “baixos” quanto Umberto Lenzi. Sem requinte, sem aprofundamento, apenas o interesse de chocar da forma mais sensacionalista possível. Não há um questionamento quanto a quem é o verdadeiro monstro, tampouco uma tentativa de desencavar os cantos mais obscuros da mente: apenas um profundo sentimento de misantropia onde o perigo está à espreita quase o tempo todo. Umberto foi pioneiro nos filmes de canibais, dirigiu um sem número de polizieschi e também adentrou no campo zumbi. Nightmare City possui zumbis que correm e usam armas bem antes de Extermínio ou Madrugada dos Mortos terem sua primeira linha de roteiro escrita e um fatalismo que evita a catarse e se interessa, unicamente, em catalogar uma morte atrás da outra, sempre filmadas da forma mais seca, apelativa e simplória. Não à toa, o cineasta é quase um sinônimo do cinema exploitation.

demons5Demons, de Lamberto Bava (1985)

A geração mais nova desse levante de cineastas já fazia filmes com caráter tardio e, por que não, revisionistas. Filho de Mario Bava, Lamberto fez em Demons um dos filmes de horror mais icônicos dos anos oitenta. Se antes Argento se preocupava em ser metalinguista sem propriamente tocar no assunto, Demons já manda a sutileza ladeira abaixo: a história do filme realmente se passa em um cinema onde o filme de horror salta da tela para a realidade. Uma temática recorrente, o fetiche pela violência de quem assiste é encarnado em um filme claustrofóbico onde, após um rápido início, o sangue é espirrado nos olhos de quem assiste quase o tempo todo, até um improvável heroísmo embalado pelo melhor do heavy metal oitentista. A experiência metalinguística de Lamberto é, no final das contas, um bem-humorado comentário sobre o hábito adquirido no último século de se entreter com imagens em movimento – inclusive da forma mais grotesca e gráfica o possível.

dellamorte dellamorePelo Amor e Pela Morte, de Michele Soavi (1994)

Depois de fazer pontas como figurante e ser assistente de direção de filmes de Lamberto e Argento e fazer um documentário sobre Dario, Soavi lançou-se com O Pássaro Sangrento em 1987. O slasher italiano foi o primeiro de uma série de quatro filmes que fez antes de um longo hiato que só teria fim em 2006. O mais marcante talvez tenha sido essa adaptação livre dos quadrinhos fumetti Dylan Dog, de Tiziano Sclavi. O detetive sobrenatural inglês transformou-se no coveiro Francesco Dellamorte, em um filme simbólico e angustiado. Uma espécie de Caronte cansado e confuso que tem de devolver os mortos aos seus túmulos. Uma metáfora dos anos 90, o filme mostra um protagonista e um mundo apáticos que só saem do seu estado de alienação geral com sexo e violência – para logo em seguida voltar ao tédio. As pitadas generosas de humor negro e surrealismo são o fio condutor de um filme tardio no horror italiano  – e um dos seus últimos – que refletiu a condição de um mundo alienado demais para se esbaldar na orgia sangrenta de décadas passadas. O cinema fantástico italiano, mais uma vez, relacionava libido e rigor mortis para comentar o absurdo do real de forma exagerada e grotesca. O prego de ouro na tampa do caixão.

– por Guilherme Bakunin

JACQUES TATI & Modernidade

Cineasta francês discípulo dos grandes mestres da era do cinema mudo, Jacques Tati representava de maneira bem clara um último esforço contra a modernidade desenfreada.

Atuando principalmente nos anos 1950 e 1960, é justamente a época em que o cinema ao redor do mundo passa por eloquentes transformações: a nova Hollywood dá seus primeiros passos com a absorção da efervescente cultura dos jovens sessentistas (Easy Rider, Zabriskie Point);  França forma críticos de cinema que cresceriam para se tornarem diretores de cinema (Godard, Chabrol); movimentos de cinema de vanguarda atuam em porção considerável em países como Japão, Itália, Inglaterra e até Brasil, com o cinema novo e o cinema marginal.

A época na qual Jacques Tati realiza a maior parte dos seus grandes trabalhos é a era na qual cataputou-se a maior parte das transformações que nos levaram a ser a sociedade que somos hoje: fervilhante, globalizada, caótica, corporativista, selvagem, desumana. Numa época em que o mundo era bombardeado como nunca com informação e ideologias, Tati oferece a seus espectadores uma chance de parar e contemplar o que acontece (e o que acontecerá) ao nosso redor.

Mais do que isso, a figura de Monsier Hulot é uma espécie de totem que Jacques Tati erege em homenagem ao passado. Hulot parece caracterizar, acima de tudo, uma profunda admiração por tudo que existe de mais singelo e simples na vida.

Não por coincidência, o primeiro filme no qual o persoangem dá às caras é “As Férias do Senhor Hulot” (1953). Se existe um filme que se caracteriza essencialmente em ser simples e singelo, eu ainda não conheci. Na história, um grupo variado de pessoas passam sete dias em uma praia no interior da França, sem que absolutamente nada de grandioso chegue a acontecer. Apenas a rotina despreocupada e libertária das férias desses franceses (e alguns estrangeiros) bem de vinda, acompanhados pelo simpático e atrapalhado Monsier Hulot.

Monstieu Hulot perante a modernidade

 

“Buster reage contra policiais e bandidos sem distinção, livrando-se dos criminosos de maneira injuriosa e violenta. Ele declara guerra às massas, às multidões, à loucura das coisas que se multiplicam sem controle no mundo industrializado, onde tudo é fabricado em série” (NAZÁRIO, Luiz, Sombras Móveis, Belo Horizonte, Editora UFMG/midia@rte, 1999, p. 60)

Tati, assim como Keaton em Convict 13, semelhantemente reage contra o descontrole do uniforme na modernidade, porém, de maneira mais ingênua e instintiva. Não há violência emanando de Monsieur Hulot, mas em todos os filmes, o personagem de Tati parece ser o único (ou um dos únicos) mais ou menos ciente do absurdo que cresce em sua volta.

Em “PlayTime” (1967), Hulot se incomoda com as cadeiras de couro desconfortáveis e barulhentas, se intriga com a demora do gerente em chegar até ele (o gerente do local onde Hulot estava tem que atravessar um longo corredor para sair de sua sala até chegar ao hall do prédio, onde Hulot esperava). Portanto, é sem grande percepção, a não ser por estimulos mais ou menos inconscientes, que Monsieur Hulot não se encaixa muito bem ao mundo conformado em que vive. É mencionado diversas vezes em “Meu Tio” (1959), por exemplo, que Hulot não gosta da casa da irmã, mas nunca menciona-se o motivo do desgosto, provavelmente porque Hulot, sendo um homem simplório, não saiba muito bem precisar o que lhe incomoda ali. Mas existe, certamente, um incômodo.

Meu tio & PlayTime

“Meu Tio”, segundo filme protagonizado pelo icônico Monsieur Hulot, pode não ter a contundência de “PlayTime”, mas certamente preludia questões que seriam abordadas enfaticamente pelo filme que muitos consideram a obra-prima de Jacques Tati.

“PlayTime” é um grande manifesto contra a modernização desenfreanda e impessoal. Todas as coisas convergem para a grande crítica que o filme faz à uniformidade. “Meu Tio”, porém, oferece uma característica que torna o filme especialmente interessante: o contraste. Os prédios acinzentados não martelam na cara do espectador durante todo o filme, mas somos também levados a explorar um outro ambiente da fictícia Paris de Tati, uma outra região, mais pobre e imaculada, onde as construções ainda possuem charme e caráter, e o verde ainda é àquele natural.

Esse contraste, acredito, confere mais força à critica de Jacques Tati, porque constantemente somos lembrados do fato de que aquele ambiente suburbano, conquistado pelas construções em tons enfadonhos de cinza, não é normal. Em “PlayTime”, se não prestarmos muita atenção, corremos o risco e nos acostumarmos com aquela Paris impessoal.

MEU TIO – Aspectos gerais

Os créditos inicias ocorrem numa cena interessante: arranha céus estão sendo barulhosamente eregidos, sinal claro de um desenvolvimento urbano que avança desenfreadamente. Então somos levados a conhecer o primeiro lado da moeda que Tati arquiteta: a velha cidade, com ruas estreitas de terra e um fluxo constante de todos os tipos de pessoas. Os cães farejam as latas de lixo espalhadas pelas ruas e marcam, com urina, seus territórios, até nos guiarem para os “subúrbios”, onde a grama é cuidadosamente delimitada pelo asfalto, e os cinzas dos metais e pedras das construções ocupam a maior proporção do quadro.

É aí que o espectador conhece a casa dos sonhos do Sr. e Sra. Arpel, que mais parece a cabeça gigantesca de um robô, prenunciando a principal característica do local: a automação. Tudo no lugar funciona à toques de botões, do portão frontal que leva ao jardim, a odiosa fonte de peixe do quintal, até os apetrechos mais fúteis da cozinha. Para entrar na sala, os moradores precisam passar por um estreito caminho em forma de “S”. Para jantar, as cadeiras e as mesas, portáteis, precisam ser colocados em um espaço apertado na pequena varanda frente à porta de entrada. Logo no começo, o espectador é capaz de observar que, uma casa que se pauta pela funcionalidade e praticidade, é terrivelmente complicada e inconveniente.

Logo no começo também se percebe que os moradores dessa residência vivem sob um regime de rotina rígido e conformado. Quando o marido sai para trabalhar, a esposa está à postos com tudo o que ele precisa: paletó, chapéu, luvas e maleta. De costas, o marido estende a mão para coletar, um por vez, esses objetos. A sacada aqui é clara: morada automática, residentes automatizados.

Pela manhã, a esposa desempenha fervorosamente seus afazeres domésticos, limpando e encerando a casa: uma obcessão compulsiva por higienação, que abre espaço para dois aspectos interessantes que o filme propõe. O primeiro, a mimetização mencionada no parágrafo anterior. Enquanto o ambiente da velha cidade é de terra, e acumula, algumas vezes de maneira até desegradável, lixo, os subúrbios são completa e monotonamente higienizados. A Sra. Arpel está, reproduzindo um comportamento que surge, primeiramente, no seu habitat. Além disso, Tati parece comentar o ócio que a dona de casa burguesa é obrigada a suportar, resultando em transtornos compulsivos como o da limpeza e o do apego aos bens materiais (Sra. Arpel é completamente fissurada pela casa onde mora, e não se cansa de falar disso). Numa das últimas cenas, inclusive, numa das gags mais inspiradas, o aspirador de pó está ligado sozinho na sala-de-estar, e a criança, Gerard, vai de encontro a ele gritando “mãe!, mãe!”, antes de perceber o engano.

Gerard, aliás, é o filho de dez anos do casal Arpel. Enquanto criança, ele parece ser, além de Mensieur Hulot, o único ciente do absurdismo que o cerca. Vive miseravelmente infeliz numa existência de rotina e responsabilidades escolares. Tati não hesita em atacar aqueles que desejam aniquilar a infantilidade nas crianças. Em “Meu Tio”, os pais se orgulham de quando o filho estuda, enquanto permanecem completamente ausentes na vida do garoto, incapazes de ofecer algum tipo de saída daquele ambiente angustiante, pedante e incolor. Até o ato de deixar a criança na escola torna-se mecânico sob a direção de Tati. Em fileiras, uma a uma as crianças são despachadas dos veículos de seus pais e deixadas na escola, que é, por sua vez, sugestivamente semelhante à fábrica (inclusive filmada sempre do mesmo ângulo, pra reforçar a relação): corporatização do ensino? Uma educação que não leva em consideração a individualidade e sensibilidade de cada criança, mas cria mão de obra eficiente pra movimentar a maquinaria social? Tati certamente não negligencia essa questão, já que comenta, a respeito de “Meu Tio”:

“As pessoas pensam que eu critico a arquitetura moderna em meus filmes, mas isso não é verdade. Se fossem outras pessoas morando naquela casa, e não o Sr. e a Sra. Arpel, se fossem, vamos dizer, um pintor e uma professora de piano, certamente eles não teriam tido a brilhante ideia de construir aquela passagem em forma de “S” ou eles teriam criado um jardim de verdade, mais natural. Não é a casa que importa, mas as pessoas que estão lá” (TATI, Jacques, em entrevista exibida no documentário “Nos Passos de Sr. Hulot”, parafraseada).

Essa declaração mostra, por exemplo, que Tati não estava alheio a questões como sensibilidade artística e/ou cultural, já que menciona profissões como pintor ou professsora de piano, e também evidencia que o diretor via com preocupação o ócio burguês, ao criar um casal hipotético que usurfruiria melhor da residência, onde ambos, marido e esposa, teriam profissões.

Tati também se esforça pra levar os temas de seu filme mais além. Através do contraste já mencionado entre os dois ambientes, torna-se aparente um distanciamento entre as pessoas nos subúrbios acinzentados, enquanto em contrapartida, na velha cidade, as pessoas estão sempre esbarrando-se umas nas outras, conversando e se relacionando. Isso também é mímese do ambiente: as casas são rigorosamente separadas no bairro novo, e distantes umas das outras. No bairo antigo, prédios se misturam e numa mesma rua há uma profusão de pessoas e famílias sempre chegando ou indo de ou para algum lugar.

A relação de incomunicabilidade da família Arpel é, inclusive, escancarada através de uma gag: durante todo o filme, a Sra. Arpel usa seu bordão – “tudo se comunica!” – para se referir à disposição dos espaços e objetos da sua residência. Porém, numa cena, enquanto frita um hamburguer, ela é incapaz de ouvir os gritos do marido e ele, por sua vez, enquanto se barbeia, é incapaz de ouvir os resmungos da esposa.

Além disso, existe um triângulo no filme que constitui, até certo ponto, uma relação de incomunicabilidade: Sr. Arpel, seu filho Gerard e seu cunhado, Monseieur Hulot.*

Enquanto Hulot está sempre em perfeita sintonia com os desejos de Gerard, o pai jamais consegue alcançar o filho. A angústia em não conseguir se relacionar com Gerard afeta Sr. Arpel de diversas maneiras ao longo do filme: o mau humor, o desprezo pelo cunhado e os ciúmes. É por um ataque de ciúmes que ele acaba por despachar Monsieur Hulot para o interior. Ao deixar o cunhado no aeroporto, um mal entendido acaba se configurando numa brincadeira que as crianças fazem durante o filme e, através do humor (mesmo que não intencional), Sr. Arpel se aproxima, ao menos naquele momento, do filho, dando ao amargo final um estranho gosto agridoce.

*É interessante observar que há um senso de continuidade bem claro permeando a filmografia de Jacques Tati. Meu Tio, de 1958, é uma espécie de continuação de “As Férias do Senhor Hulot”, de 1953, fato que se torna evidente não apenas pelo uso do mesmo personagem principal, mas também porque uma família bem similar à dos Arpel aparece no primeiro filme de Tati, e há uma forte sugestão, através de um diálogo, de que eles conheciam Hulot anteriormente à viagem. 

Pessimismo em Meu Tio

Gostaria de falar sobre uma última questão aqui. Existe uma relação entre natural x inatural sendo incessantemente mencionada ao longo do filme. A relação existe em combate, é excludente e explosiva. As formas orgânicas da natureza são sempre curvilíneas, sutis e coloridas. A intrusão humana na paisagem, porém, é firme, rígida, ameaçadora e acinzentada (os enquadramentos que Tati usa possuem um certo impacto que parece fazer referência ao expressionismo alemão).

As formas humanas são geométricas, retas e incômodas: as casas, fábricas, postes, asfaltos. O ambiente humano, é, ironicamente, hostil à sobrevivência humana, já que há um grande senso de desconforto e impraticidade na residência dos Arpel. Tati chegou a declarar em entrevista, por exemplo, a famosa citação “linhas geométricas não produzem pessoas afáveis”, o que nos remonta à questão da mímese, já mencionada anteriormente.

O desconforto humano perante à automaticidade chega ao ápice no final do filme. Numa das cenas, Sr. Arpel presenteia a esposa com um carro (para ele usar!) e ela, em troca, o presenteia com um portão que se fecha automáticamente quando uma pessoa cruza com um sensor instalado no jardim. Os dois decidem, então, estrear a garagem juntos, e embarcam no veículo até estacioná-lo na garagem. O cachorro da família, por acidente, passa pelo sensor, predento o casal dentro da pouco espaçosa garagem.

A resolução da cena é tratada com afabilidade e leveza característicos de Tati, mas eu não consegui me esquivar do horror de imaginar as possibilidades mais desastrosas que a porta de garagem automática oferece. No filme, a empregada acaba por libertar Sr. e Sra. Arpel. Porém, na hípotese de não haver ninguém no momento (os surbúbios são bem vazios, não seria uma hipótesa insólita), os dois ficariam confinados ali por tempo indeterminado.

Existe, nesse momento, um quase flerte com a ficção científica, onde o filme parece prever uma revolução das máquinas, teoria conspiratória sempre presente no atual imaginário popular.

O que mais parece importar para Tati, no entanto, é como nós nos conformamos a viver em ambientes que são tão desarmônicos a nossa presença. Por ostentação de poder e status social, os Arpels se autocondenaram a passar seus dias caducando numa casa que eles mesmos projetaram e construíram, e que não poupa esforços para deixá-los sempre infelizes e desconfortados.

Não é, em suma, a casa o grande vilão de “Meu Tio”. Nem tampouco as pessoas que a construíram. O inimigo parece ser invisível: é a motivação por trás da vontade de Sr. e Sra. Arpel terem arquitetado uma casa tão simpática. Que é a mesma motivação que continua atuando em outras pessoas que continuam avançando e construído casas em cinza, e que logo, como sugere “PlayTime”, ocuparam todo o espaço urbano.

Jacques Tati: França, 1907 – 1982.

Carrossel da Esperança (1949): 2/5
As Férias do Senhor Hulot (1953): 4/5
Meu Tio (1958): 5/5
PlayTime (1967): 4/5
Trafic (1971): 5/5
Parade (1974): 3/5

Como muito de vocês sabem, eu tenho experiência como professor de Química. Eu comecei a perceber que muito do que eu ensino meus alunos não se aplica apenas a assuntos da sala de aula, mas também à vida. Não é tão maluco quanto parece. Sabe, tecnicamente, química é o estudo da matéria. Mas eu prefiro vê-la como o estudo da mudança. Apenas pense nisso agora. Elétrons mudam seus níveis de energia. Moléculas mudam suas ligações. Elementos se combinam e transformam-se em compostos. Bem, isso é tudo na vida, certo? É a constante, é o ciclo. É solução e então dissolução, de novo e de novo e de novo. É crescimento, então decadência e então transformação. É realmente fascinante. É uma vergonha tantos de nós jamais pararem um pouco para considerar essas implicações“.

– Walter White, S01E01 (“Pilot”)

O que separa cidadãos comuns, como eu e você, do que Walter White se tornou na quinta temporada da aclamada série Breaking Bad? Tudo, dirá qualquer pessoa sã. E nada, dirá o espectador de Breaking Bad após muitas e muitas horas de drogas, tramas criminosas, idéias perigosas e mentiras. É a diferença entre o que diz Walter White – o pai de família com dois empregos, pai de um garoto deficiente, marido de uma esposa que não lhe dá muita atenção, ex-químico renomado – e o que diz Heisenberg, o “homem câncer”, o prepotente imperador da metanfetamina de Albuquerque, um assassino calculista, dissimulado e manipulador.

Declarada pelo criador da série (e também produtor, roteirista principal e diretor dos episódios mais importantes) Vince Gilligan, a intenção de Breaking Bad é clara:  “transformar Mr. Chips no Scarface”. As citações, que são tão dramatúrgicas quanto estéticas (e, esticando o tom de homenagem, apresenta dois atores do filme de Brian De Palma:  Steven Bauer e Mark Margolis), fazem de Breaking Bad uma das séries mais “cinematográficas” de todas: é especial a atenção dada ao uso da iluminação (sempre disforme e mutante), temperatura de cor, à perspectiva tridimensional, à evolução dos figurinos e dos cortes de cabelo, aos faux raccords visuais e/ou sonoros que ligam uma cena e outra, por aí vai:  comparado com grande parte dos seriados, que abusam da linguagem televisiva que só eles (planos fechados, diálogos expositivos, iluminação de três pontos), Breaking Bad surge, desde sua gênese, como uma percepção aberrante.

E não à toa que estão lá o sem número de metáforas visuais e sonoras para contar, justamente, a história da decadência, transformação e então ascensão de Walter White, o professor de química que descobre, um dia, sofrer de um câncer inoperável. Mesmo os tratamentos mais caros podem apenas retardar em alguns anos a fatalidade.  Perdido e confuso, o outrora introspectivo “Walt” logo de início torna-se cada vez mais suscetível e agressivo, até o momento em que forma uma aliança com seu ex-aluno e atual traficante Jesse Pinkman que causa cedo um forte impacto no submundo local: após muitas situações potencialmente fatais e inúmeras discussões os dois conseguem produzir a metanfetamina mais pura já vista.  A excitação e o perigo estimulam novamente o espírito de um Walter White apagado pelos anos, reprimido dia após dia e faz o até então patético homem começar a sonhar com dinheiro. E respeito. E, principalmente, poder.

A construção lenta e demorada na série – que, em cinco temporadas, pretende cobrir apenas dois anos da vida do protagonista – explora essa lenta metamorfose e descida ao inferno de Walter White. Nas mais variadas camadas, é desenhada essa lenta transição: desde a sanidade indo pelo ralo – indo de explosões de libido a esbanjamento desnecessário de dinheiro, marcado principalmente pelo episódio “Fly”, onde White tem um delírio paranóico com uma mosca que entra sem seu laboratório de metanfetamina, caçando-a obsessivamente, temeroso pela menor partícula que possa infectar sua puríssima droga – até na própria relação do protagonista com a vida alheia – tornando-se cada vez mais frio, demarcado pela transição que começa com o assassinato em legítima defesa, passa pela omissão de socorro e deságua tanto no assassinato premeditado quanto no puro assassinato por orgulho.

A maior luta, claro, é contra Heisenberg; luta que Walter já perdeu há muito tempo; sua relação deteriorada com o mundo encontra vários antagonistas; é o caso de Hank, cunhado de sua esposa, o homem da lei convicto, que descobre-se frágil e sensível; é o caso de Skyler, a personificação da mãe atual, perdida entre crise de valores e culpa; de Gustavo Fring, o grande senhor da metanfetamina de New Mexico, um dos grandes nêmesis de Walt durante a série, que Walt terá de destronar; de Mike, fiel escudeiro de Gus, um homem com seu próprio código de moralidade.

E, é claro, de Jesse Pinkman, o garoto viciado e rebelde que, pouco a pouco, devido tanto às maquinações de Walt quanto à própria inconsequência, terá que aprender a crescer, a conhecer a dor da perda, o gosto do medo, a culpa do crime, a vontade de perpetuação; não são poucas as suas recaídas, ataques de melancolia, lágrimas de desespero.  Ao contrário de Walt, Jesse passa progressivamente pela tomada de consciência; enquanto um deixa qualquer resquício do homem que já foi um dia para trás, o outro, jovem, lentamente começa a criar uma identidade para si. Não apenas uma estatística, mas um indivíduo. À sua maneira, com a ficha criminal suja que só; mas consciente, ao final de tudo.

Seja na fotografia escaldante e árida do deserto ou dos interiores opressivos, apertados e desesperadores, Breaking Bad é uma série belissimamente bem pensada e escrita e com uma concepção visual impressionante desde o primeiro momento, onde Walter White aponta a arma em nossa direção; mesmo com diferentes diretores a cada episódio (o próprio criador Vince Gilligan e o próprio ator central, Bryan Cranston, já assinaram a direção de alguns deles), a série consegue manter a sua unidade singular mesmo com tantas assinaturas diferentes. Cada mão do roteiro, cada plano concebido guia Walt nesse longo caminho das pedras até o auge do poder, até o pico da autodestruição.

Breaking Bad é, afinal das contas, esse longo (apesar de breve, cronologicamente falando) tratado sobre o lado oculto, feio e ruim. Sobre a angústia de saber-se final, sobre a reação desesperada. Da consequência de nossos pecados. De até onde somos capazes de chegar enquanto indivíduo. Sobre a tênue linha que separava um bom homem na besta humana, gananciosa, cruel e inconsequente.  Como um processo químico, Breaking Bad muda cada um de seus personagens; no processo, descobrem ser mortais, falhos e com desvios de caráter, vivendo contextos e tomando decisões que jamais imaginariam.  No meio do caminho, enquanto lentamente inverte clichês, estereótipos e expectativas, muda nossa própria percepção. A percepção aberrante, em constante transformação, jamais estagnada; eis Breaking Bad, o lado escuro da televisão.

– por Guilherme Bakunin

Ninguém precisa ficar se perguntando porque Mad Men dá as caras num blog sobre cinema. A resposta é visceralmente clara. Mad Men possui todas as abordagens que a classificariam como um filme, só mesmo a distribuição e a questão episódica conseguem separá-la de ser a tal ‘sétima arte’. Bom, não tanto, já que a internet tem nos feito o favor de possibilitar nossa aproximação com esse universo de programas de televisão que, pasmem, são excelentes, artísticos, criativos, inteligentes e tudo mais. Eu não to falando de profundidade de tema, ou questões satorianas, ou qualquer coisa assim, porque mesmo as comédias seguem essa mesma ideia de exaltação da criatividade e da qualidade, seja lá o que isso significar. A gente só consegue definir que é bom mesmo e ponto.

Mas essa Mad Men. Moderna e clássica, ao mesmo tempo, como esses dois conceitos lutassem a todo instante dentro das histórias, transformando o que nas mãos de pessoas menos competentes seria um conto insuportavelmente monótono a respeito de qualquer coisa dos anos 60 numa verdadeiro épico existencial/social a respeito de, sei lá, tudo?, praticamente tudo que existe nessa nossa vidinha ordinária de estudar e trabalhar e morrer? e etc?

Porque Mad Men é uma dicotomia. A começar pelo título. Homens. Loucos. A loucura não é estado do ‘homem’. Sei lá, o homem louco é o homem transgredido, destituído das ‘perfeita’ juízo mental e portanto destituído de humanidade. Mas a série se chama Homens loucos, e a luta entre dois conceitos já começa aí. E (por enquanto) são quatro temporadas de conflitos secundários que são capazes de juntar essas duas ideias tão opostas (homens – loucos) para criar uma reflexão do mundo moderno (moderno? bem, moderno no sentido do mundo de agora, e o agora indo de mais ou menos após a segunda guerra mundial até sabe-se lá quando). Falei no outro parágrafo a respeito do clássico x moderno. Assim, eu nem poderia fazer uma tese ou uma monografia a respeito disso agora, mas afinal de contas, o que foram os anos sessenta, se não esse conflito basilar entre um mundo que já era e o mundo que estava por vir? Afinal, os anos sessenta não ficaram no meio desse tempo, no ponto de impacto desse conflito existencial de gerações, de pais contra filhos, de filhos contra autoridade, de homens contra tabus e tudo mais? Mad Men não poderia ser de outro jeito. Pra falar de clássico x moderno ela se faz clássica e moderna, estabelecendo na própria estética o seu ponto central.

E por onde eu posso começar falando de arte x propaganda? Eu nem começo, porque se não eu vou longe. Mas quando Don Draper diz que ‘nós fazemos o que eles não conseguem, e eles nos odeiam por isso’, a gente sabe do que ele realmente tá falando. Quando as pessoas comentam e riem com a clássica propaganda de 1961 de fusquinha volkswagen, a gente reconhece que já tivemos o mesmo tipo de reação, e de repente a gente começa a pensar nessas coisas aí de impacto da arte e impacto da publicidade, de semiótica e Rothko e Bye Bye, Birdie e e Lucky Strike e etc.

O historiador de arte Simon Schama definiu os anos sessenta, quando falava a respeito de Rothko em O Poder da Arte (BBC, 2006) como a américa presa entre a bomba e o supermercado.

A confluência histórica precisa de Mad Men torna-se então assustadora. Vendo os episódios finais da primeira temporada, onde Don está na guerra (da Coréia, provavelmente, não me lembro agora), dá pra perceber que é exatamente sobre isso que a série fala também. Duma nação que está imersa (ver o poster da quarta temporada) num caos de incerteza, se anestesiando progressivamente (ver Uivo, de Allen Ginsberg) à procura de não se dar conta da falta de sentido de todas as coisas (ver Hannah e Suas Irmãs, de Woody Allen).

Donald Draper é a própria américa. A bomba de um lado, o supermercado do outro, e a américa no meio. A arte de um lado, a propaganda de outro, e a américa no meio. O clássico de um lado, o moderno de outro, e a américa no meio. A américa sem identidade, a américa agressiva, a américa infiel, a américa que bebe, que fuma, que bate na mulher, que procura a felicidade.

Mad Men é uma série de televisão exibida pelo canal pago AMC, nos Estados Unidos. Começou em 2007, e ate agora (março de 2011) possui quatro temporadas. A série foi premiada três vezes consecutivas no Emmy, o maior prêmio  da televisão americana, em 2007, 2008 e 2009 como melhor série de tv, drama. E a coisa mais importante a ser dita sobre a série, definitivamente é: ela possui o mais gostoso elenco de gatinhas da televisão.