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– por Guilherme Bakunin

Esqueça que crianças são crianças, e simplesmente crie personagens (e dirija os atores) sem a menor noção disso. Não que a infantilidade deva ser fator de limitação, mas a gente sabe que existem coisas que crianças simplesmente não fazem. Truffaut sabe bem disso, porque fez, provavelmente, o filme mais belo sobre o assunto. E eu fico cagando e andando pra ‘mas o livro é assim, o cara só adaptou’. Bom, se for o caso, mesmo sem ler eu já começo inferindo que o trabalho peca por isso.

Eu Sou o Senhor do Castelo conta, sem o menor compromisso com a história e sem o menor esforço de um sentido, a história de duas crianças: Thomas, mimado e rico que acabou de perder a sua mãe e Charles, quase que um nômade, que tem como única companhia a sua mãe, Madame Vernet. Enquanto Charles é uma criança relativamente independente, Thomas é fortemente ligado à mãe recém-perdida, ao passo que possui um relacionamento distante com o pai, Monsieur Bréaud. Bréaud contrata Madame Vernet como governanta de Thomas e agora, as duas crianças passam a ter um caótico convívio forçado, foco do filme na maior parte de sua projeção.

O problema: a relação é má construída, não há sinceridade. Os personagens são o que são e ponto, não havendo nenhum esmero em se aprofundar nas suas motivações. O filme, também, não é sincero. Dá mais atenção às crianças, mas o desfecho é concentrado no casal, num relacionamento sutra forçado, inconstante, incoerente. Não é preciso se prolongar mais, nem é preciso citar, por exemplo, o tolo esforço do diretor em emular Os Incompreendidos, nem a péssima direção de atores, com a galera gritando e explodindo o tempo todo (novelas da Globo).

Para justificar a nota, assumo que a trilha é bela. Não que seja lá tão mérito do filme, mas do Mozart, por exemplo, e ainda que algumas músicas apareçam completamente deslocadas em cena, vale a pena fechar os olhos e só ouvir (ei, vale a pena mesmo). A cena da dança, verdade seja dita, é fantástica, bem conduzida por si só, como que num curta-metragem.

É difícil acreditar; os franceses, quase que por mágica, tem uma sensibilidade e coragem notáveis na hora de criar filmes sobre (e não para) crianças, mas Eu Sou o Senhor do Castelo se destaca por ser bem ruim, vazio, falso, gratuito e apelativo. E o final, não vale comentar. Vejam A Guerra dos Botões. Revejam Os Incompreendidos. Ou fiquem 100 minutos sem fazer absolutamente nada. O tempo será mais sabiamente gasto do que o esforço pra acompanhar esse lixo.

1/5

Ficha técnica: Eu Sou o Senhor do Castelo (Je suis le seigneur du château) – 1989, França. Dir.: Régis Wargnier. Elenco: Jean Rochefort, Dominique Blanc, Régis Arpin, David Behar.

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