por Bernardo Brum

O mais aterrador dos filmes de Cronenberg é que você não pode desviar o olhar. Afinal de contas, você também é escravo dos seus desejos. Vivendo no mundo de agora, você também é escravo de uma máquina – na verdade, várias. Todos nós somos, na verdade, bombas-relógio prestes para detonar. Essa é a tônica de Cronenberg desde o seu primeiro filme lá no fim da década de sesseta até os dias atuais: os sete pecados capitais não são nada mais que manifestações do desejo humano.  Nós somos carne aprisionada dentro da máquina. Ele repetiu isso em Videodrome, A Mosca, Mórbida Semelhança e Mistérios e Paixões – e repete, novamente, em Crash – Estranhos Prazeres.

Talvez em seu filme mais vanguardista – não na acepção de “filme cabeça”, no real sentido da palavra, de pegar alguma coisa e tentar levá-la a um passo adiante – Cronenberg faz um filme sem início, meio ou fim. Sem julgamento de qualquer espécie. Um emaranhado de cenas sobre pessoas com um fetiche relacionado a carros, seja transar dentro deles, fazer rachas brutais, colidir e ter um orgasmo no meio das ferragens; bolinar as feridas, lamber as fraturas expostas e ter um orgasmo à simples visão de ossos com partes metálicas. O que foi recebido por grande parte do público como pouco mais que um filme “bizarro” e “estranho”.

Mas o que acontece é que o diretor ensaia tudo isso da forma mais natural do mundo. Por um simples motivo; por tudo isso ser, meramente, um desejo humano. Muitas das escolhas sexuais, hoje em dia, já foram consideradas parafilias. Muitos dos costumes sexuais dos mais bizarros, nós já ouvimos falar de sua repetição infinitas vezes ao longo da história da humanidade. Ou seja, a libido apenas existe; a perversão está nas nossas cabeças. Não cabe a Cronenberg tratar isso ou aquilo como estranho; a missão que o mesmo escolheu como diretor foi a de pegar cada um desses comportamentos extremos e de risco e abordar eles no único plano possível – o humano.  Demonizar isto ou aquilo daria origem a nada mais que um filme gratuito e barato.

E se essa forma maniqueísta de tratar sobre a natureza humana já era preterida desde suas primeiras e obscuras obras, em Crash, David alcança o auge do seu radicalismo estético. É aqui que ele alcança um de seus maiores tratados sobre coisas que não devem ser comentadas, mas ele comenta com a maior frieza e naturalidade do mundo. É esse o horror de Cronenberg; o horror profundamente humano, longe de fatos sobrenaturais ou improváveis – o horror que vem do próprio indivíduo. Em nome de suas pulsões de vida, sexo e morte, ele fará qualquer coisa, desde se deixar domar e subjugar por estado, lei, trabalho e mercado, até liberar suas neuroses em uma sucessão de taras cada vez mais psicóticas que, mais uma vez, não passam de manifestações.

É redundante afirmar isso, assim como este pesadelo erótico de Cronenberg é uma repetição interminável da mesma cena, com variações de parceiros, uma coleção de modelos do ano e um verdadeiro catálogo de como destroçar um corpo humano e revelar o seu interior – figurativamente e literalmente. A posição que o diretor nos coloca é terrível – como máquinas limitadas capazes de responder apenas a determinados contextos, pintando um retrato um tanto pessimista do ser humano: limitado em suas próprias potencialidades, agindo feito máquina, e só podendo encontrar o fator humano, novamente, em seu lado bestial. Que o une, o conecta e o faz dialogar com outras pessoas.

Essa busca obsessiva de Cronenberg pelo humano no bizarro o leva a filmes cada vez mais anacrônicos e recortados do panorama geral do que é produzido no cinema – e é um mergulho e um complemento sem precedentes nos estudos sobre o inconsciente humano. Seus protagonistas, indivíduos atormentados – são nada mais, nada menos que representações – não apenas do próprio diretor, mas de qualquer um que respire. Com isso, o diretor questiona e combate cada doença e neurose dos grandes centros urbanos com tais comportamentos estigmatizados. Seus filmes se propõem como “a doença da doença”, dispostos a varrer a lógica de nossos dias para debaixo do tapete, instaurar o caos, aceitar o ser humano tal como ele é, e só então, livre da cadeia de associações, discutí-lo mais uma vez.

E é isso que é tão aterrador; por mais que queiramos desviar o olhar, nos também somos incitados a discutir sobre o que não queremos, sobre o que nos incomoda, angustia e perturba. E Cronenberg tem mais uma vez sucesso de fazer de cada filme seu uma arma contra o pré-estabelecido, um estopim para pensar tudo de novo. Cinema à flor da pele, na boca do estômago, arranhando as entranhas.

5/5

Ficha técnica: Crash – Estranhos Prazeres (Crash) – 1996, Reino Unido/Canadá. Dir.: David Cronenberg. Elenco: Elias Koteas, Rosanna Arquette, James Spader, Holly Hunter,Deborah Kara Unger, Peter MacNeill, Yolande Julian, Cheryl Swarts,Boyd Banks, David Cronenberg

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