por Bernardo Brum

Antes de mais nada, é necessário ressaltar a provocação genial de David Cronenberg: não muito tempo após ser criticado por causa do conteúdo temático do predecessor Calafrios, taxado por certos críticos de “pornográfico”, o canadense ao invés de se dobrar às linhas deles chama uma das maiores estrelas dos filmes hardcore da época – Marilyn Chambers – para atuar como protagonista do seu grande filme setentista, Enraveicida na Fúria do Sexo.

Com uma câmera bem mais apurada tecnicamente falando e um orçamento um pouquinho mais gordo, Cronenberg foi mais incisivo ainda – deixando claro para os críticos que repudiaram sua obra anterior que seu cinema não era feito para ser sutil e, querendo eles ou não, a grande potência do horror canadense iria mostrar sua visão de terror, direto na veia: David antecipou todo o clima de desespero das décadas seguintes – que sofreram com a ressaca do espírito hedonista setentista que desaguou doenças sexuais e a paranóia conseqüente – ao contar novamente uma história de um vírus que se espalha através da troca de fluidos corporais e torna os parasitados criaturas violentas e explosivas. Ainda que revestido pelo manto de filme “gore”, fica claro o recado: impossível não se sentir ameaçado

Rose, a quem Marilyn Chambers encarna, é a primeira a apresentar os sintomas, tendo relações sexuais e matando seus parceiros sexuais, mas ela própria é imune ao vírus. Ao contrário dos contaminados que perdem toda a racionalidade, a viúva negra sai à caça em uma cidade movimentada para beber sangue e disseminar o vírus.

É daí que o diretor tira imagens violentíssimas em seu grafismo de preocupação cirúrgica. Se existem dois medos (e portanto, dois fetiches e tabus que fascinam indivíduos, justamente, como um vírus) enraizados em nossa condição são  os temores pela violência física e sexual.  Quando o prazer é posto em risco, a própria disposição para o ato de reproduzir também. O jogo de dominação e submissão é invertido pelo diretor: a fêmea despedaça os machos e os devolve à condição de feras soltas em plena metrópole. Cria-se então, um jogo entre os que liberaram os seus instintos e aqueles ameaçados por demais para conseguir liberá-los.

Preocupação típica do diretor, a sexualidade e a carne jamais podem ser separadas do fator psicológico. Como muitos diretores dos anos setenta, Cronenberg fazia um terror com uma adesão mais realista: deixava de lado os espíritos e demônios e iria mexer com mutações, aberrações, disfunções e perversões. Para que recorrer à espiritualidade se o ser e o corpo humano já eram tão assustador?

E ele sempre mete o dedo na ferida com sua narrativa pouco convencional, altamente sexualizada (até esmo para os dias de hoje) e seus momentos violentíssimos acompanhados com a calma e  a passividade de um monge: não adianta tentar polemizar, pois isso mora em todos nós. Obcecado em destruir as convenções de corpo e ego, o canadense estuda o instinto, a obsessão, a busca pelo orgasmo (ou êxtase) perfeito: algo que está dentro de cada um de nós desde o início da civilização e que sempre procuramos repreender.

Exercício de estilo amadurecido que representa um artista que já havia definido seus objetivos: o corpo humano e toda a sua complexidade intimidante. E para isso, criou um cinema tão intenso quanto. A arte de David é a pura “psicologia do açougue”: se você vai estudar um cérebro, escalpele o topo da cabeça primeiro.

4/5

Ficha técnica: Enraivecida na Fúria do Sexo (Rabid) – Canadá, 1977. Dir: David Cronenberg. Elenco: Frank Moore, Susan Roman, Joe Silver, Robert A. Silverman, Marilyn Chambers, Howard Ryshpan, Patricia Gage

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