– Luiz Carlos Freitas

Rene Gallimard (Jeremy Irons) é um diplomata francês que está em Pequim a serviço do governo. Em um jantar de oficiais, ele assiste à apresentação da ópera “Madama Butterfly”, de Puccini, e fica completamente encantado pela sua intérprete, Song Liling (John Lone), indo elogiá-la após o espetáculo e iniciando dali um contato que conduziria os dois a um tórrido romance proibido, culminando em um bem esperado desfecho trágico.

Eis a trama de M. Butterfly, a tão renegada obra da filmografia do diretor canadense David Cronenberg que, como boa parte da crítica especializada insiste em apontar, é um trabalho “fora dos padrões do diretor”. Mas só a olhos bem desatentos e superficiais que podemos considerar M. Butterfly algo deslocado entre os outros trabalhos de Cronenberg, como “apenas” uma história de amor onde uma das partes esconde um segredo bizarro e de sustentação inverossimilhante.

David Cronenberg ficou mundialmente conhecido por tratar em seus filmes de temáticas fortes e reflexivas acerca do homem e o papel de sua existência conflitante na convivência em sociedade, pesadas a si por terem na escatologia o seu maior catalisador. E de todo esse bizarro, imergia o centro de todos os acontecimentos do homem: o corpo. O espaço físico, carnal, aqui era mais que um “recipiente” à vida, mas sim um templo mediador e que carregava a analogia do eterno conflito do homem e da finalidade de sua existência.

Em A Mosca, acompanhamos a transformação de Jeff Goldblum, um cientista que, ao se entregar à sua ambição desmedida de realizar o experimento científico perfeito, enlouquece e começa a se transmutar em uma criatura assassina; Scanners – Sua Mente Pode Destruir mostra um grupo de pessoas com o poder de manipular pessoas (e até matar) com a força da mente; o protagonista de Marcas da Violência tem dupla personalidade, tendo de conviver no mesmo corpo com um pacífico pai de família e um assassino frio e sanguinário.

Se formos pegar a filmografia do diretor, iremos observar que os exemplos não são poucos e, principalmente, fogem da mera coincidência, nos conduzindo a uma tese: a essência do ser humano é o poder mais supremo que existe, acima de qualquer limitação física que nossos corpos possam impôr. Daí, desenvolvem-se as tramas onde temos que só não somos seres mais harmônicos justamente por regrarmos aos nossos corpos para que essas limitações sejam impostas, havendo um choque e, ao fim,  uma desgraça.

A transformação em A Mosca é gradativa e, à medida que o corpo do protagonista vai se deteriorando, sua mente vai liberando impulsos psicóticos cada vez mais intensos, restando ao fim o monstro que estava aprisionado no corpo humano; ao fim de Scanners – Sua Mente Pode Destruir, a mente se mostra imortal mesmo quando o corpo é consumido em chamas; o lado “bom” do protagonista de Marcas da Violência acaba sucumbindo ante o assassino frio que, em tese, “não pertencia” àquela forma física. É assim para Cronenberg: o corpo tanto pode ser um templo quanto uma prisão, e quando é visto do segundo modo, há um rompimento exageradamente nocivo. Essa é a linha de análise seguida por M. Butterfly, onde Song Liling carrega um segredo que representa a inadequação entre corpo e alma/espírito, responsável por um twist próximo ao final que, aos que desconhecem a obra original de Puccini (da qual o filme é adaptado), será realmente uma grande surpresa.

Cronenberg encerra sua versão de M. Butterfly construindo um plano de estado mental/espiritual  do casal de protagonistas com uma poética (e belíssima) sequência de imagens que, substituindo as cabeças implodindo, saliva ácida derretendo ossos e headshots em close por uma máscara de maquiagem e pomposos adornos em brilhante, como um golpe certeiro e limpo de punhal, mesmo passando longe da escatologia explícita, consegue ser tão desconcertante, claustrofóbica (real e simbólicamente) e literalmente agonizante quanto qualquer plano final já filmado pelo canadense.

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.::SPOILER ::.
Daqui em diante, o texto revela detalhes importantes acerca do final do filme. Portanto, se você ainda não assistiu, sugiro que não leia. Enquanto isso, faça um lanche e siga o Cine Cafe no Twitter:
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Ao final, após ter sido preso acusado de traição e corrupção pelo governo, Gallimard descobre que Song Liling é, na verdade, um homem. Exatamente isso, um homem.

O americano passou anos se relacionando com um homem e não sabia. E como ele nunca descobriu? Entre eles só rolava sexo anal e com Song Liling sempre completamente vestida, com ela argumentando que o sexo vaginal era exclusividade do casamento e que suas fortes raízes culturais a impediam de se mostrar nua a quem não fosse seu esposo. Ele, cego de amor, concordou.

Em tese, é uma boa saída do roteiro para justificar a “surpresa” ao final. Porém, são vários os fatores que nos levam a questionar isso. Primeiro, e mais ilógico, é o fato de que, no longo período em que se relacionaram, Gallimard não deu nenhuma “apalpada”, nem uma mínima esbarrada (mesmo que acidental) no pacote de fumo abaixo da linha do equador de sua amada. Nem sentiu uma leve balangadinha enquanto ela sentava no dele (coisas balançam e fazem ventinho – é a cinética, não há como lutar contra a física).

Outro ponto questionável é o fato de tal revelação ser realmente necessária, uma vez que o filme não é uma adaptação fiel da obra de Puccini, podendo usar de tais liberdades para dar outro rumo ao conflito dos personagens. Logo no começo do longa, Gallimard conhece Song Liling justamente quando ela encenava a peça no qual o filme se baseou. Uma liberdade criativa e metalinguistica que poderia eximir o roteiro de seguir o original. Além do mais, a tal revelação nem é tão significativa enquanto ponto de virada da trama, já que o testemunho de Song Liling em julgamento o colocaria na cadeia da mesma forma, independente de seu sexo.

Em contrapartida, podemos defender a escolha de Cronenberg de prosseguir com a homossexualidade de sua protagonista em oculto como cerne da sua proposta já tratada nesse texto, o conflito interno do personagem, a luta para exteriorização de seu verdadeiro eu, até então um demônio em comum a Song Liling e a todos os personagens da filmografia de Cronenberg (fazendo-se exceção de Spider – Desafie Sua Mente, onde a jornada do herói é feita “de fora para dentro”, com o personagem título buscando dentro de si a sua verdadeira face, penetrando e rasgando sua exterior bestificada).

Supondo que e a obra optasse por uma abordagem diferente, talvez não passasse de uma “simples” análise de costumes, o que não a inferiorizaria, mas fugiria completamente de um propósito de análise existencial que já é evidentemente uma das marcas mais características de seu cinema de autor, ao lado da escatologia, outro ponto que não está presente no filme, deixando-o quase um “filme não-Cronenberg”.

Particularmente, acredito que ele fez a escolha certa.

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.:: FIM DO SPOILER ::.
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4/5
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M Butterfly (idem) – EUA/China, 1993 – Diretor: David Cronenberg – Elenco: Jeremy Irons, John Lone, Barbara SukowaIan Richardson, Annabel Leventon, Shizuko Hoshi

M. Butterflym
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