– por Michael Barbosa

“emergent films presents a film by david cronenberg”, é assim, sem distinção de maiúsculas e minúsculas mesmo, e financiado por um programa governamental para o incentivo de jovens diretores canadenses de ficção, que começa o segundo e ainda imaturo e confuso longa de Cronenberg.

A trama – se é que chegue efetivamente a haver uma – é pra lá de incerta, basicamente sabemos que uma doença afetou centenas de milhares de mulheres e recentemente vem afetando também alguns homens, entre eles o médico Antoine Rouge, que descobrira a doença. O protagonista é um perdido médico dermatologista, aprendiz do falecido Doutor Rouge que transita entre suas responsabilidades em um falido instituto da pele, pesquisas relacionadas ao pé e suas origens evolutivas, e grupos conspiracionistas de objetivo incerto (mas algo bastante imoral, com certeza).

Em termos práticos o que vemos é um diretor que já demonstra a valorização do estético. O filme não tem diálogos e nem trilha sonora, o áudio fica por conta de um narração em off e quando intermináveis planos mudos são interrompidos o que ouvimos são ruídos do mar e brincadeiras sonoras afins.

O desenvolvimento da história e das personagens é nulo, a razão de ser do filme é experimentar e tentar fazer cinema, ainda que falhe na missão. Apesar de esboçar tratar temas como a exploração sexual e o abuso do corpo é tudo abstrato e, naturalmente, no rascunho demais para que Crimes of the Future chegue a ser interessante meramente como filme de ficção científica. Mesmo o ponto alto do roteiro, uma interessante ideia sobre “órgãos inúteis e perfeitos” nos corpos de doentes, é desperdiçado.

Não seria daqui que Cronenberg deslancharia, haveria ainda um hiato de cinco anos fazendo pequenos trabalhos na televisão para depois disso e de um tempo parado fazer Caláfrios em 1975 e de lá começar de fato uma brilhante carreira. Embora não seja insuportável Crimes of the Future passa bastante longe do que poderíamos chamar de bom perante conceitos mais ortodoxos de cinema (vai lá, dos não-ortodoxos também) e o pretexto básico e provavelmente único de ver um filme como esse nos dias de hoje se dá em assistir o começo de carreira do sujeito que viria a filmar obras do quilate de Scanners e Videodrome um pouco mais de dez anos depois. Só.

2/5

Ficha técnica: Crimes do Futuro (Crimes of The Future) – Canadá, 1970. Dir.: David Cronenberg. Elenco: Ronald Mlodzik, Jack Messinger, Paul Mulholland, Jon Lidolt, Tania Zolty, William Haslam