– Luiz Carlos Freitas

Podemos afirmar que Videodrome – A Síndrome do Vídeo, sem medo de cair em exageros (tampouco de fazer trocadilhos ridículos) é o filme mais exagerado de David Cronenberg. Louco, rasgado, insano, sujo e surreal, como quase todas as outras obras do diretor, com a diferença de carregar uma literalidade ímpar nesses adjetivos, Videodrome conta a história de Max Renn (James Woods), dono de uma pequena estação de tv voltada à pornografia, que descobre a existência de uma fita com vídeos de mortes e torturas em meio a sexo e que, aparentemente, são reais. Interessado em fazer da descoberta uma possível alavanca comercial ao seu ‘negócio’, ele procura descobrir a origem dos vídeos, pedindo auxílio de Nikki Brand (Deborah Harry), uma jornalista investigativa, que mergulha com ele na busca pela real origem das fitas.

O salto de uma simples trama investigativa para uma das crias cinematográficas mais insanas do diretor canadense se dá quando se descobre que o vídeo exerce um estranho poder sobre quem o assiste, provocando alucinações extremamente reais que podem levar o indivíduo a um fim trágico. Esse é o maior twist, logo no começo, quando as alucinações começam a acontecer aos protagonistas. Na verdade, não há uma virada propriamente dita, porque elas são inseridas na trama de modo assustadoramente natural, impedindo a nós qualquer definição de quando a realidade deixa de existir em meio à loucura induzida. De certo, não há como saber mesmo se o primeiro ato do filme, o “real”, é mesmo real, tampouco que o tido como alucinações não sejam mesmo um real efeito transmorfo da exibição do vídeo, parte de algo maior e além da compreensão humana.

O fato é que descobrir isso se torna irrelevante. Videodrome é, além de mais uma forte marca autoral de David Cronenberg, apresentando os conflitos internos do ser e com seu meio e fazendo uma desconstrução existencial destes por uso da escatologia, uma grande metáfora ao poder que a televisão exercia. Mais que a televisão, a essência da crítica está na transfiguração, nas deformidades que nos destroem à medida em que nossos desejos são postos para fora “puxados” pela força da mídia, seja ela qual for. A televisão soa mais como mero escopo situacional (década de 80, o “vídeo” que batiza as forças ocultas tendo seu boom) que não exime os demais veículos difusores que estão, sim, representados em Videodrome.

Renn é dono de uma estação de tv, Nikki é uma radialista e, claro, Cronenberg – um cinematógrafo que faz uso de seu objeto de estudo como matéria-prima de seu próprio experimento. E o faz de modo absurdamente chocante, com todo aquele hipergrafismo que ainda hoje impressiona, mesmo com a tecnologia nos possibilitando boquetar um alien azul por meio do 3D (não que eu queira fazer isso, que conste nos autos), tempos em que o VHS (Betamax, no caso de Videodrome) não é mais que vaga lembrança para a maioria (dessa geração em diante, será apenas um relato).

Esse realismo visual é crucial para transmitir a essência de Videodrome e sua crítica, entre tantas sequências memoráveis e ricas em significado, em uma única e grande cena: James Woods enfiando a mão dentro de uma espécie de buceta gigante em sua barriga e retirando dela uma fita como a que o projeta às alucinações. A genitália que conceitua a concepção, com o ser humano parindo a própria destruição por meio de seus desejos tão imundos quanto a merda que os intestinos saltados de seu corpo carregavam, fazendo dessas poderosas ondas alucinógenas algo diferente do que se supunha antes, não externas, mas um fruto de nós mesmos.

Um poderoso ciclo infinito onde reside a força insana de Videodrome.
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5/5

Videodrome – A Síndrome do Vídeo (Videodrome) – EUA/Canadá, 1983 – Diretor: David Cronenberg – Elenco: James Woods, Sonja Smits, Deborah Harry, Peter Dvorsky, Les Carlson, Jack Creley, Lynne Gorman, Julie Khaner, Reiner Schwartz, David Bolt, Lally Cadeau, Henry Gomez, Harvey Chao, David Tsubôchi, Kay Hawtrey

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