– por Michael Barbosa

Violento, pesado, fantástico, escatológico, visceral, sem pudor, sem escrúpulos, muito sangue, muito bizarro, não é dos mais acessíveis. Isso e muito mais vem ao imaginário do cinéfilo quando se ouve o nome de David Cronenberg, tudo isso faz parte da identidade visual e dos recursos estilísticos comuns ao cinema do diretor, mas em 1983 Cronenberg resolveu adaptar aquele que é talvez o mais humano dos romances de Stephen King, A Zona Morta, e – como a obra que lhe inspirou está para a carreira de King – dar vida a algo longe do habitual, e que talvez cause certa estranheza para quem está acostumado com filmes como A Mosca, Scanners e Videodrome e isso pode, infelizmente, acabar atrapalhando na tarefa de abstrair os outros trabalhos do diretor e enxergar os méritos bem únicos de The Dead Zone, dentro da carreira do diretor e como adaptação de literatura pop (se bem que pra alguém anos depois encararia a missão de levar Burroughs às telas, adaptar King soa brincadeira).

Johnny Smith é um jovem professor de inglês, namorando e curtindo os pequenos prazeres da vida até que um acidente de carro o coloca num longo coma, e quando Johnny retorna, ao que parece, ele tem estranhos poderes que entram em ação ao tocar as pessoas. O que temos daí em diante é uma brilhantemente bem dirigida odisséia sobre os dilemas que esta nova condição trás a este homem e, mais do que tudo, a dificílima missão de optar entre interferir ou não. Quase que um pequeno estudo sobre a tentação de brincar de Deus.

O barulho da mídia, a fama instantânea, a dificuldade para voltar a ter uma vida normal, a responsabilidade, a paranóia, a perda do controle e o heroísmo. Está tudo ali na jornada do homem que previa o futuro com um toque. A capacidade de transformar o bizarro em belo dá lugar aqui para um trabalho de direção de atores fantástico, um Walken genial no protagonista e Martin Sheen igualmente feliz no papel do vilão. Um trabalho que ainda que singelo é extremamente digno e até memorável. Cronenberg é em The Dead Zone o cara que filma o roteiro (que pela primeira vez não fora escrito por ele) e se esforça para entregar um bom filme.

Tudo dito provavelmente The Dead Zone seja aquilo que habitualmente nos referimos como “filme menor” – o que chega a ser irônico tendo sido esse o filme mais caro e  mais próximo do mainstream de Crona até então.  Mas ainda assim é um daqueles filmes menores bons. Porque os grandes diretores, mesmo quando se desafiam a fazer algo “menor” ainda são grandes e competentes. Houve filmes melhores antes e depois deste aqui, mas nada que interfira em A Hora da Zona Morte ser – aparte do quão comercial ou menos autoral que posso parecer numa primeira olhada – extremamente bem dirigido, cheio de atuações inspiradas, uma trama envolvente com clímax dos bons e muito divertido. No fim das contas, vale mesmo a pena ver algo que parece atípico tanto pra King, quanto pra Cronenberg, mas que, com a devida atenção, se mostra um expoente pra lá de legítimo de ambos.

4/5

Ficha Técnica: A Hora da Zona Morta (The Dead Zone) – EUA, 1983. Dir: David Cronenberg. Elenco: Christopher Walken, Brooke Adams, Tom Skerritt, Herbert Lom, Martin Sheen.