– por Guilherme Bakunin

No momento em que o personagem de Henry Beckman, pai de Nola está prestes a morrer, ele começa a falar com a esposa como se ela estivesse presente. De forma similar o Dr. Hal Raglan conduz sua terapia com Nola, incentivando-a a conversar com pessoas que não estão fisicamente ali, mas que são personalidades construídas por uma imensa variedade de fragmentos da memória da personagem. Essa semelhança entre o delírio dos normais e a loucura dos anormais provavelmente é o elemento mais interessante em Filhos do Medo, uma ficção científica/terror dirigido por Cronenberg em 1979.

Frank Carveth é o dedcado pai de Candice, que após perceber pequenos hematomas em seu corpo depois de sua visita à mãe, procura desmascarar a técnica de recuperação psicológica do Dr. Hal Raglan enquanto uma série de assassinatos interfere com sua investigação. Os assassinatos , aliás, estão sempre relacionados com Frank e sua esposa Nola, bem interpretada pela ganhadora do Cannes, Samantha Eggar.

O filme, escrito durante o tumultuado divórcio de Cronenberg e Margaret Hindson, guarda segundo o cineasta, diversas semelhanças com a realidade, traduzindo em linguagem fílmica o que Cronenberg guardava dentro de si naquele tempo. Filhos do Medo é na verdade o Shape of Rage [Face da Raiva, livro teórico escrito por Dr. Raglan no filme] de David Cronenberg. O alto senso de proteção pessoal e de esperança na reestruturação do lar possui lá suas pontuações ao longo do filme. Mas muito mais forte do que isso é a transformação dessa história de dor pessoal num terror sci-fi existencial pouco eficiente. A atmosfera criada por Cronenberg não cativa, não penetra, apenas faz questão de gerar a espectativa de que as duas histórias (os assassinatos cometidos por aquelas crianças defeituosas e a batalha pessoal do marido para proteger a filha da loucura materna) vão eventualmente se cruzar em volta do arco principal do filme.

À parte dessa espectativa, o filme não vale muito a pena. Uma história bem desinteressante e não especialmente bem contada. O Cronenberg até tenta criar alguns bons planos de câmera e dar alguns sustos, mas nada muito memorável. Exceto, é claro, o final do filme, quase religioso de tão visceral, quando Nola revela ao marido a origem das estranhas criaturas: um diabólico útero externo, e ela rasga aquele tecido muscular semiconsistente, fere a placenta e arranca de lá o feto ensanguentado que mais tarde certamente se tornaria uma daquelas abomináveis criaturas. É uma daquelas cenas que a gente bem conhece do Cronenberg. É a cena da sauna em Senhores do Crime, ou a batalha final de Scanners – Sua Mente Pode Destruir. Já nasce pra ser clássico, e penetra definitivamente na memória, na imaginação. No caso de Filhos do Medo, junto com a trilha sonora ligetiana composta por um recém-formado Howard Shore (que mais tarde se tornaria um dos mais importantes compositores de Hollywood), faz o filme valer a pena.

2/5

Ficha técnica: Os Filhos do Medo (The Brood) – Canadá, 1979. Dir.: David Cronenberg. Oliver Reed, Samantha Eggar, Susan Hogan, Art Hindle, Henry Beckman, Nuala Fitzgerald, Cindy Hinds.

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