– por Guilherme Bakunin

O prelúdio de Spider – Desafia Sua Mente mostra paisagens interiores da região provinciana de Londres em close-up, numa espécia de estudo do padrão abstrato-natural desse cenário. Através dessa analogia, todo o filme se constrói a partir das conexões entre realidade-memória-e-loucura do protagonista (chamado de Spider, interpretado por Ralph Fiennes) da história. O que Cronenberg atinge é um surpreendente mergulho na mente de um esquizofrênico maconheiro com complexo de édipo (embora seja sempre complicado entrar na cabeça de alguém que você não é, então deixando esse entrave existencialista de lado, vamos apenas supor que Cronenberg realmente consegue realizar essa tarefa e ponto).

A mente de Spider é explorada com a subjetividade do próprio, portanto o maniqueísmo latente dos personagens é justificável. Spider odeia o pai, não enxerga nele nada além de um bêbado misógino egocêntrico e fracassado; ama a mãe, por isso possui recordações beatificadas de suas atitudes. Essas recordações são transformadas em fantasias na medida que o filme avança na história, enquanto Spider avança em sua auto-investigação. Através do olhar para seu passado, mais precisamente para o ponto em que ele perde sua mãe, o personagem tenta encontrar o sentido para a catástrofe que se tornou e, com isso, restaurar-se de sua patologia.

O grande lance da cinematografia do filme de Cronenberg é que a ação se conduz sem a menor preocupação de resolver suas ambiguidades. A memória e o corrente, a fantasia e o real não são estabelecidos a partir de concepções imagéticas (como se costuma fazer em filmes onde há carência de linearidade, como Namorados para Sempre, com os filtros de cores apontando se a ação está acontecendo no passado ou no futuro, ou Magnólia, com os cenários desempenhando o papel emblemático de localizar qual o arco sendo narrado). A dificuldade em estabelecer a localização de certas cenas (a dificuldade existe principalmente em apontar o que é flashback e o que é projeção da mente do protagonista) reside na dificuldade em que o próprio Spider possui de fazer essa distinção.

O filme é, afinal de contas, o confronto de Spider contra a sua própria mente (e mais um título nacional se explica) para exorcizar seu passado. O que Cronenberg cuida de fazer é deixar a experiência conceitualmente incrível, e praticamente falha. A história é monótona, a ação se desencadeia num ritmo torturante, não existe praticamente nenhum diálogo que seja realmente importante. As ideias por trás do filme são interessantíssimas (especialmente para alguém mais interessando nas desmembramentos psicológicos da história), mas assistí-las enquanto peça de cinema é desagradável.

2/5

Ficha técnica: Spider – Desafie Sua Mente (Spider) – Canadá/Inglaterra, 2002. Dir.: David Cronenberg. Elenco: Ralph Fiennes, Miranda Richardson, Gabriel Byrne, Lynn Redgrave, John Neville, Bradley Hall.

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