– por Michael Barbosa

Dizem que Cronenberg fez Marcas da Violência um pouco a contra gosto, teria sido um projeto “empurrado” a ele. Verdade ou não, a inserção de Crona no mundo da máfia rendeu um baita filme e não demorou muito para sair seu novo projeto, Senhores do Crime, novamente abordando o submundo dos mafiosos.

Aqui Viggo Mortensen é o motorista do filho do chefão da máfia russa em Londres e pouco a pouco, no desenrolar da trama, vamos descobrindo quem realmente é aquele motorista que tem a história cruzada com a de Anna, Naomi Watts, uma enfermeira londrina de origem russa que acaba por ter em mãos o diário de uma adolescente russa que morreu no parto, Anna se vê na missão de rastrear a origem daquilo e acaba assim se vendo jogada no meio da máfia, é por si só uma história e tanta e que nasceu com a vontade da BBC de criar algo que explorasse a situação do tráfico de mulheres do leste europeu para o Reino Unido, o que poderia ter sido apenas um documentário para tevê ou algo do tipo caiu nas mãos de Cronenberg que acabou por criar – “novidade” – um filme pesado, na abordagem e nas imagens que passam pela tela.

Há quem diga que o Cronenberg dos anos 2000 é uma versão light do que o cineasta fora nas décadas de 70 e 80. Bem, manter esse lado mesmo depois de ver Eastern Promises é no mínimo estranho, ainda que seja um cinema mais “classudo”, visivelmente preocupado com figurino e direção de arte, por exemplo, de uma forma mais aplicada do que antigamente e ainda que as linhas narrativas quase desleixadas de outros tempos tenham dado lugar a algo mais bem estruturado, ainda assim é um cinema pesado, em todos os aspectos possíveis, Cronenberg não hesita em, com nem 30 minutos, ter entregado o assassinato de um retardado e dedos sendo decapitados, tudo isso na tela, sem desfocar, on screen. Mais light? Certeza?

A grande jogada é fazer que a história se desenvolva numa progressão que acompanha o tanto que o espectador sabe sobre quem é Nikolai, suas atitudes que em um dado momento parecem estranho (a recusa de transar com uma prostituta e a forma como ele faz isso com certo pesar – e lá vai Cronenberg, novamente, entregando uma cena de sexo sintomática, sendo a melancolia que marca a toada aqui) e as suas atitudes extremamente dúbias para alguém a serviço da máfia passam a fazer sentido conforme se sabe mais sobre ele.

De certa forma as coisas parecem serem feitas para que tudo esteja no seu devido lugar no momento da famigerada cena da sauna, uma aula. Extremamente bem coreografada, com uma mise en scène precisa e numa cena complicada o que vemos é quase uma síntese do cinema do Cronenberg, todo o virtuosismo técnico aliado a violência gráfica e a escatologia (o Viggo Mortensen ensanguentado e com o saco balançando pela tela é meio incômodo, convenhamos). Ainda que tente passo longe de conseguir entender porque Marcas da Violência foi tão mais bem recebido, de alguma características similares, mas aqui com até certo inédito tom de denúncia (mas distante de maniqueísmos), Senhores do Crime é – no mínimo – tão grande quanto o seu antecessor. Não deve nada… A nada na carreira do mestre. Que venha A Dangerous Method e Cosmopolis, e que o cinema tenha mais longos anos de Croneneberg na ativa.

5/5

Ficha técnica: Senhores do Crime (Eastern Promisses) – Canadá, EUA, Reino Unido – 2007. Dir.: David Cronenberg. Elenco: Viggo Mortensen, Naomi Watts.