por Bernardo Brum

Muito provavelmente, A Mosca é a mais fiel adaptação de A Metamorfose, de Franz Kafka, para o cinema – sem jamais se assumir como tal – e a melhor das adaptações do escritor, competindo páreo a páreo com O Processo, de Welles. As tônicas das obras do tcheco e do canadense David Cronenberg nunca foram muito distantes, é verdade; e o livro mais famoso do autor parecia pedir uma adaptação que, além de abordar os temas tão caros a ele – a solidão, o vazio, a paranóia a inadequação e por fim a angústia existencial, caros ao diretor através da lente da sexualidade, da carne e as psicoses tão inerentes a nós que praticamente são virais – também fizesse jus aos seus detalhes escabrosos, especificamente, o horror de tornar-se algo repulsivo e monstruoso.

E o que Cronenberg entrega no final é o melhor dois dois mundos, o famoso gore com cérebro, muitas vezes desprezado pela injusta fama de filme “trash”; acepção esta que se tornou um tanto vulgar pelo seu uso tão constante de forma tão abrangente. De fazer os amantes de um cinema mais polido, límpido e que procura não ofender ninguém saltarem de suas cadeiras, a transformação de um cientista é mostrada de forma praticamente clínica pelo canadense, em um detalhe mais nojento e escabroso que o outro.

O horror físico do filme descortina a relatividade do que pode ser considerado humano – e não apenas fisicamente, mas também no aspecto de consciência e da moralidade. O solitário cientista interpretado por Jeff Goldblum já era uma aberração social bem antes de começar sua metamorfose em homem-mosca. Sua busca por um sonho de uma vida inteira – a máquina de teletransporte – fez dele um indivíduo recluso, maníaco e paranóico. A monstruosidade só traz à tona o lado podre que conseguia esconder – e seu par romântico, Geena Davis, logo está assustada demais para conseguir ter piedade.

Como na obra de Kafka, logo tudo é reduzido a meros interesses. Se Gregor Samsa era apenas a fonte de sustento para a família, o doutor Seth Brundle era pouco além de uma paixão passageira, e não seria necessário muito para rejeitá-lo como o nerd excêntrico e cheio de falhas de caráter que era. A Brundlemosca revela a camada de instintos agressiva e furiosa por trás de um intelectual. A mosca que quis ser um homem e o homem que quis ser grande e memorável tornam-se um só.

E o resto da sociedade, se já não tolerava Brundle por muito tempo, logo o expulsa de vez quando o homem civilizado dá lugar ao animal primitivo e guiado por nada mais do que a fome por comida e instintos.  O medo pela própria segurança física é muito maior do que qualquer afeto – o que leva a personagem de Geena Davis se preocupar mais em saber se foi engravidada e está esperando um mutante (como atesta a seqüência do sonho) do que genuinamente preocupada com a situação do atual namorado.

Com pouquíssimos personagens, A Mosca demora o tempo que é preciso para dissecar Seth Brundle – metaforicamente e literalmente, como não poderia deixar de ser.  O gore e o medo nunca foram tão indissolúveis em um mesmo filme. Mais do que apenas golpear um ou outro, Cronenberg ataca o neocórtex e o estômago. O teste de resistência a escatologias não é maior que a destruição das mentes dos seus protagonistas, que no final, revelam-se ambos repulsivos.

A Mosca é um filme notoriamente pessimista: se há algo mais assustador do que um homem virando um híbrido humano-inseto, é saber que desde o início ele está sozinho, fodido e mal-pago e sem segunda chance. A solidão de Brundlemosca e da barata Gregor já estavam decretadas desde o início. Suas metamorfoses foram nada mais do que meros artifícios. Para Kafka mostrar a hipocrisia e corrupção morais do indivíduo (e também da sociedade como um todo) e para Cronenberg arrasar as solidões sociais e mostrar que tal indivíduo é nada mais que uma pilha de instintos e complexos andando constantemente na corda bamba e sempre a um passo de cair no abismo da bestialidade.

Com tal filme, que o catapultou para o sucesso, o grande gênio do cinema do Canadá cravou uma obra-prima ambiciosa e ambígua sobre as relações humanas – pena que muitos pensem que não passa de uma refilmagem violenta do filme original do Vincent Price…

5/5

Ficha técnica: A Mosca (The Fly) – EUA, Canadá, Reino Unido, 1986. Dir: David Cronenberg. Elenco: Geena Davis, Jeff Goldblum, John Getz, David Cronenberg, Joy Boushel, Leslie Carlson, George Chuvalo

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