por Bernardo Brum

Capacete de Aço é o antecessor direto, na filmografia de Fuller, ao anti-épico de guerra Agonia e Glória. Nesse pequeno filme, de pouquíssimas locações e personagens, Sam construiu um clima desolador e sufocante como poucas vezes é visto no escalafobético cinema “de guerra” que foi construído no último século.

Um dos primeiros filmes sobre a Guerra da Coréia, o terceiro filme de Fuller, feito com base em depoimentos e retratado com a propriedade de quem já havia sobrevivido a uma delas (a Segunda Grande Guerra) é uma obra de um tom um tanto fatalista que alerta o tempo todo que, apesar de conceitos como tolerância e respeito poderem existir, são sempre levados em menor consideração.  O estudo de personagem do sobrevivente Sargento Zack atesta uma luta contra a truculência da maioria – quando não resta opção para ele a não ser da voz dos mais frágeis, notadamente, de um órfão coreano que passa a acompanhá-lo.

Uma das muitas guerras que, por cerca de três décadas, iria fragmentar o mundo ideologicamente, a guerra da Coréia divide em 1953 um povo em dois, entre Norte e Sul, entre capitalismo e comunismo. O resultado, quase sessenta anos depois, é a morte de três milhões de pessoas e um acordo de paz nunca assinado. Os soldados americanos cansados, tristes e já meio perturbados de Fuller andarão por uma terra virada de cabeça para baixo, destruída em nome de duas propagações ideológicas que não respeitam tradição alguma, como pode-se ver no ato do filme em que os soldados transformam um templo budista em posto de observação.

A fotografia cinza-escuro do filme é suja e claustrofóbica, com seus poucos pontos de luz desenhando expressões raivosas e desesperadas nos rostos dos oficiais e prisioneiros. Novamente, não são os poderosos que lutam ou sofrem, mas sim aqueles que são a “presa” na cadeia alimentar antropofágica. Homens devoram homens com suas armas mas jamais vemos os superiores – entidades invisíveis, fantasmagóricas, que maquinam plebes distintas para chocarem-se uma contra as outras.

Se muitos lembram dos anos cinquenta com nostalgia, Sam desde o início já fazia questão, como faria em seus outros filmes da mesma década (O Quimono Escarlate, Anjo do Mal, Renegando Meu Sangue) em mostrar o lado duvidoso da “moral” capitalista e a faceta negra e angustiada de um Sonho Americano que só foi realizado para as minorias mais abastadas.

O capacete de aço do título é um objeto que, com o avançar da trama, será constantemente ressignifcado. A crueza dos primeiros filmes de Fuller não o impediu de criar pequenos simbolismos sobre homens que tentam manter algum resquício de humanidade enquanto tudo ao redor desmancha em sangue e pólvora.

Antes de grande parte da geração mais recente fazer filmes sobre guerras preocupados em mostrar a loucura e a tristeza da guerra, Sam, sempre pioneiro, em plena época McCarthista, nos anos de Truman e Eisenhower, fez uma obra de pequeno orçamento, sem rostos muito conhecidos – recusou o interesse das grandes produtoras e a oferta de John Wayne como protagonista, em nome de ter liberdade de expressão total, escolhendo um filme de baixo orçamento com Gene Evans no papel principal – mas que com seu teor anti-belicista, direto, na lata, mesclando cenas de locação e estúdio que cutucaram lá do underground uma consciência pública com um ego profundamente massageado e alienado.

Filmado em dez dias, com um orçamento de 100.000 dólares que retornaria seis milhões, Capacete de Aço é autêntico cinema de guerrilha, com uma denúncia clara e urgente, recusando-se a atrair qualquer tipo de glória para si ou retocar qualquer ponto específico – seus personagens, no limite do arquétipo, atravessam a pouca duração do filme e a longa estadia nos poucos ambientes que aproveita em nome de uma desconstrução grossa e furiosa.

Seus closes, sua utilização da profundidade de campo e as alturas de sua câmera aprisionam rapidamente o espectador em um universo diegético destacado em negrito com a força de sua linguagem consciente como poucas de como o cinema pode expressar nossos anseios de modo inigualável. Principalmente em filmes como os seus, que nunca vão acabar bem e pessoas são vítimas de abuso físico e emocional e de uma violência incontornável.

Só os pequenos gestos que, de fato, salvam momentaneamente os protagonistas de seus filmes. Só aí que eles abandonam sua natureza corrupta, suja e violenta – puro instinto animal de sobrevivência, tesão e destruição – para tentar compreender um significado perdido de ser “humano”.  Mas sempre tarde demais. A merda já foi lançada no ventilador. É o que acontecerá com o jornalista que fica louco de Paixões que Alucinam, com o menino de rua vingativo de A Lei dos Marginais, o ladrão de bolsos em Anjo do Mal que encontra a felicidade pessoal mas jamais “vinga” a situação de qual foi vítima e a “Big Red One” de Agonia e Glória, só interessada em sobreviver. Eles sempre entenderão o que é ser vulnerável, falho, tolerante, liberal. A sociedade não. Intolerante, racista, absolutista, nunca capaz de aprender com os próprios erros. A “máquina de moer ossos”, que engolirá o próximo iconoclasta.

O fatalismo fulleriano impera no final de seu terceiro filme, uma vez que a guerra, novamente, não respeitou ninguém. Só ele, Sgt. Zack, Samuel Fuller e tantas outras de suas encarnações, em suas utopias incoerentes, que continuarão tentando lutar contra algo muito maior. A força de sua arte underground é um grito de apelo à tomada de consciência. Sam parece concordar com Dostoiévski quando o mesmo dizia que “a beleza salvará o mundo”. Os detalhes que trarão nossa redenção, mesmo quando tudo ao redor parecer cada vez mais apático e truculento. E essa que era, afinal de contas, a beleza de um cinema tão crítico, direto e casca-grossa.

5/5

Ficha técnica: Capacete de Aço (The Steel Helmet) – EUA, 1951. Dir.: Samuel Fuller. Elenco:  Steve Brodie, Gene Evans, Robert Hutton, Richard Loo, Sid Melton, James Edwards