– por  Allan Kardec Pereira

Esse Hugo de Scorsese figura não apenas como um testemunho do amor pelo cinema que nutre o já experiente diretor, mas também, é um filme sobre o (s) encanto (s) possíveis através do cinema. Pois, Scorsese vai na raiz da mágica no cinema, no ilusionista que passa do teatro de variedades até o recém inventado cinematógrafo e injeta-lhe boas doses de mentira, sonhos e imaginação. Méliès foi um sopro de inovação e encantamento à sétima arte semelhante às possibilidades do 3D. O paralelo de Scorsese, nesse caso, mostra que o diretor está perfeitamente atento às novas tecnologias, afinal, Hugo é o grande filme a usar tal efeito.

A história se passa em uma estação de trem na Paris dos Anos 30 e conta a história de Hugo (Asa Buterfield), um jovem órfão que vive acertando os relógios dessa estação e que está sempre tentando roubar peças de brinquedo da loja de  Georges (Ben Kingsley), que certo dia acaba lhe roubando um caderno – que, junto com um autônomo desativado, é a única herança deixada por seu pai (Jude Law). O menino se junta com Isabelle (Chloë Moretz), afilhada de Georges, e agora  tentarão descobrir quais os segredos que Georges e aquele misterioso caderno guardam.

Nesse processo, nas constantes fugas de Hugo do chato inspetor da estação (Sacha Baron Cohen), há o grande mérito de Scorsese em explorar o 3D. Hugo passeia por aqueles labirintos de engrenagens dos relógios e a câmera o acompanha com um travelling semelhante a já famosa sequencia de Goodfellas (http://www.youtube.com/watch?v=3Sr-vxVaY_M. Na resolução do mistério, onde o jovem vai entender a ligação do enigma deixado por seu pai aos filmes de Georges Méliès, o agora melancólico dono da loja de brinquedo e outrora primeiro grande cineasta, Scorsese imprime um tom didático ao filme. E daí porque, a sedução do olhar de Asa Buterfield/Hugo ser tão próxima ao diretor, já que o personagem lembra bastante as aventuras de Scorsese descobrindo o cinema em sua infância complicada em Nova Iorque. Sedução que também é nossa, na medida em que a didática metalinguística de Scorsese revela a magia do ilusionista Méliès e todo aquele cinema se descobrindo.

Se Scorsese já nos levou por uma “Viagem pelo Cinema Americano” e nos presenteou em sua “Viagem à Itália”, em Hugo o cineasta nos leva ao nascimento do ilusionismo da sétima arte. Em seu documentário sobre o cinema americano, ele fala com entusiasmo dessas possibilidades, em Hugo tal condição se materializa no 3D. Se em “O Aviador” víamos um Howard Hughes e sua megalomaníaca paixão por aviões e cinema e suas potencialidades de invenção, aqui em Hugo, o diretor vai até os primórdios do cinema e traz uma aventura espetacular em torno desse invento. O tempo, aspecto importantíssimo do filme, é matéria de trabalho, de concerto, de luta do jovem Hugo e do velho Scorsese. Ele passa, esquece uns tantos e glorifica outros mais. Scorsese entende perfeitamente a função da lembrança no decurso do tempo, afinal ele é também uma das personalidades decisivas na criação do The Film Foundation, que desenvolve projetos (culturais e económicos) de conhecimento, revalorização, restauro e difusão do patrimônio cinematográfico, tendo já recuperado muitos filmes “perdidos”. Não tem como não pensar  Hugo como um filme-manifesto, um prolongamento dessa empreitada, celebrando o verdadeiro amor pelo cinema, pelo fazer cinema.

5/5

Ficha-Técnica: A Invenção de Hugo Cabret (Hugo) – Estados Unidos, 2011. Dir. Martin Scorsese. Elenco: Asa Butterfield, Sasha Baron Cohen, Jude Law, Ben Kingsley,