– por Guilherme Bakunin

Com um prólogo visualmente definido como “Star Wars sob LSD”, seria difícil imaginar que Andrzej Zulawski poderia elevar o escopo imagético a níveis mais enfurecidos e caóticos do que o dos primeiros minutos do seu filme interminado. Mas durante duas horas e meia, o cineasta polonês conduz uma viagem de impressionismo alucinógeno ao explorar as paisagens, costumes, rituais e personagens que compõe uma nova ordem de mundo – exatamente igual à nossa.

Um grupo de astronautas sai, por algum motivo, da terra, aterrizando em um planeta sob condições climáticas similares: dois homens e uma mulher frente a um mundo completamente natural com a missão de populá-lo. O percurso dessa nova humanidade é marcado por sangue, perdas, loucuras e indagações filosóficas, ao pior estilo de Koji Wakamatsu e Jean-Luc Godard. Na medida em que mais e mais crianças nascem, mais instáveis se tornam as relações entre as pessoas, e diante da atmosfera do planeta, dos oceanos, da vegetação, as personagens se confinam no limiar entre a agressividade e o transe.

Andrzej Zulawski usa, assim como inúmeros outros autores, o elemento sci-fi para refletir a respeito da humanidade – a metáfora de um novo planeta nada mais é do que um discurso sobre a origem selvagem que está, supostamente, inserida na natureza do homem – e por isso a abordagem filosófica é compreensivelmente essencial.

Porém, o projeto de On The Silver Globe nunca realmente emplacou – as filmagens foram sumariamente interrompidas, o ministério da cultura polonês foi aparentemente responsável pela perda de mais de uma hora de material que comporiam o épico percurso de quatro horas de metragem, isso ainda nos anos de 1970. No final da década de 1980, Zulawski por algum motivo resolveu criar uma assemblagem com todas as filmagens que estavam à disposição e intercalou a ação do filme com uma narração descritiva das cenas remanescentes. Um esforço inútil, vale dizer, já que a narração de Zulawski parece fazer sentido apenas para ele mesmo.

Diante de um filme incompleto à sr. Welles, o que realmente faz sentido em On The Silver Globe são suas sensacionais sequências visuais que, à mockumentário, oferece a partir da visão em primeira pessoa uma percepção pessoal do universo criado pelo cineasta polonês. São longos planos-sequência, um após o outro, que exploram lunaticamente uma história que é, afinal, sobre a loucura inerente ao comportamento humano.

4/5

Ficha Técnica: On The Silver Globe – Polônia, 1988. Dir: Andrzej Zulawski. Elenco: Andrzej Zulawski, Jerzy Trela, Grazyna Dylag, Waldemar Kownacki, Iwona Bielska, Jerzy Gralek, Elzbieta Karkoszka, Krystyna Janda.