ou aqui: Fim dos Tempos – por Bernardo Brum [4/5]

– por Guilherme Bakunin

Praticamente todos os textos por aí que falam sobre Fim dos Tempos vêm acompanhados de um tom passivo-agressivo em relação ao filme (falando, obviamente, das críticas que são favoráveis). São elogios cheio de ressalvas, que costumam definir o filme como um terror b, onde todas as coisas que não se enquadram exatamente nesse raio (do terror b), são dispensadas. Sob essa visão, não existiriam muitas coisas mais b’s do que Os Pássaros, onde uma trupe de pássaros mais recortados devastam uma cidade inteira. Mas as coisas não são exatamente assim.

Certamente inspirado em filmes b, mas sem deixar de lado a estética de seu diretor, Fim dos Tempos explora em graus um pouco mais sutis (relativos ao padrões do Shyamalan, que como eu disse no texto de Sinais, não são sutis) os mesmos temas de fé, natureza, medo, e o palco agora é toda a costa leste dos Estados Unidos que é atacada por algum tipo de toxina que faz com que as pessoas atentem contra a própria vida. Isso já denota algo inusitado: a toxina, que supostamente emana da natureza (flora), não apenas acaba com a vida humana, mas a extingue com masoquismo, crueldade, fazendo com que os homens encontrem formas criativas de se matarem. Nesse sentido, é quase um filme de vingança; e é interessante observar a maneira com a qual Shyamalan filme as plantas no filme, sempre acuando os personagens, como se fossem bestas à espreita, prontas para um ataque a qualquer instante.

Mas aí entram em cena Elliot (Whalberg) e Alma (Deschanel), no cúmulo de suas inexpressividades. O diretor parece ter uma complacência com personagens que não se expressam: Malcolm de Sexto Sentido, Joseph de Corpo Fechado ou Graham de Sinais, Lucius de A Vila. De alguma forma é não-inspirado dizer que são más atuações. A tendência perpassa por toda a carreira de Shyamalan e parece dizer que os personagens inexpressivos são os que essencialmente levam a história sempre para frente, por motivações que são muitas vezes misteriosas (já que a inexpressividade envolve certo mistério, já que não é claro o que se passa realmente na cabeça dos personagens), em contraponto com outros que realmente dizem muito do que pensam. Mas aqui temos Fim dos Tempos, onde o casal principal não conversa e também não se expressa, estando como entrave de sua própria relação.

Que Fim dos Tempos é, em parte, sobre um casal em crise matrimonial, todo mundo já está cansado de saber. E todo mundo meio que já admitiu que os diálogos são bem escusos e desconfortáveis. Mas existem mundos em choque aqui que valem a pena serem destrinchados. O primeiro e mais claro é a natureza x homem, onde o primeiro se rebela contra o segundo, numa ordem de caos que faz despertar a misantropia nas pessoas. Em certo momento do filme, Alma diz algo como “independentemente do que estiver acontecendo, é melhor ficarmos longe de pessoas agora”. Em meio ao caos, os homens se afastam e, pouco a pouco, Elliot e Alma são obrigados a se isolarem do resto do mundo e confrontarem o que há de errado com eles mesmos (mais sobre isso logo mais). É uma noção de enclausuramento bastante similar a de Sinais, exceto que Shyamalan consegue criá-la, em Fim dos Tempos, em amplos e abertos espaços. Pra quem pode.

Outro aspecto dicotômico é a relação entre racionalidade x o desconhecido. Não é exatamente fé, pois não há esse tipo de contorno no filme. É mais essa questão de aceitar que o mistério existe na vida e que nem todos os acontecimentos possuem ordem ou razão. É algo que Elliot sabe ser verdade (vida a cena introdutória na sala de aula), mas que ao longo do caminho, perde, procurando racionalizar demasiadamente em cima da situação em que eles estão, à procura de salvação, ocasionando momentos de forte significado, como a emblemática cena em que os personagens correm do vento. É interessante pegar essa cena um pouco mais, pra observar como a sobrenaturalidade do Shyamalan está pulsante em Fim dos Tempos, onde ele abstrai o e reconstrói o perigo, de forma a tornar o mero ar uma arma letal. Novamente, é pra quem pode.

Finalmente, existe a colisão entre o cinema e a estrutura do filme – enfim, a metalinguagem. Criticando o filme por situações absurdas e diálogos escrotos, o público falha em notar que a estrutura de Fim dos Tempos é bem alucinada. É um suspense catástrofe romântico meio road movie de terror: a cada cena, a necessidade dos personagens mudam para que eles se enquadrem a nova ordem estrutural de gênero que Shyamalan tenta imprimir. Existe o central park, depois o embarque na estação, depois a lanchonete, depois a estrada, depois o campo e depois a casa da senhora zumbi. É desconstrução após reformulação e vice e versa e assim por diante, para que o cineasta tenha a possibilidade de explorar todos os potenciais dos gêneros que ele resolveu se inspirar.

O resultado é Fim dos Tempos, que chega bem próximo de ser um tratado sobre a criação do medo numa história, na mesma linha de Os Pássaros (que também é catástrofe, e que depois foi filme de vanguarda). Apesar do público ter se expelido de admirar o filme, sabemos que grande parte disso envolve o nome de Shyamalan, que tem sido irrevogavelmente relacionado a trabalhos considerados de mau gosto, pelos mais diversos motivos, criando um hype que dificilmente corresponde a realidade (seus filmes são bons, e são autorais e originais além de serem de fácil digestão).

Mas toda a estruturação do perigo toma, no final, a forma de um mcguffin que existe para resolver o conflito matrimonial de Alma e Elliot. Não é exatamente um mcguffin, já que, na minha opinião, esse conflito é colocado em vários momentos do filme em espera, para que M. Night brinque com o suspense e o terror, mas é algo que existe em segundo plano, de qualquer forma. O auge da catástrofe letal de origem desconhecida é também o auge da distância entre os dois. Se durante todo o filme Shyamalan raramente coloca Alma e Elliot no mesmo quadro, nesses últimos momentos muito menos: eles estão a vários metros de distância um do outro, justamente quando a ameaça atinge seus níveis de maior intensidade. Diante desse panorama, os dois conversam e se abrem. “Qual era a cor do amor?”, pergunta Alma. “Eu não me lembro.”, responde Elliot. mas depois os dois se lembram e, no meio da ventania, um corre na direção do outro, até se encontrarem e se reconciliarem bem no meio disso tudo. Se o diálogo é o maior problema do filme, tudo bem: aqui eles não falam, e nem precisam. E também não voltam a conversar durante o resto da metragem (existe um epílogo que existe pra explicar mais ou menos a origem das toxinas, dispensável na minha opinião). Como a visceralidade de um tiro de escopeta na cabeça, a sintonia entre o casal é clara demais para ter a necessidade de demais explicações.

4/5

Ficha técnica: Fim dos Tempos (The Happening) – EUA, 2008. Elenco: Zooey Deschanel, John Leguizamo, Mark Wahlberg, Alison Folland, Brian O’Halloran, Spencer Breslin, Alan Ruck, Betty Buckley, Robert Bailey Jr., Ashlyn Sanchez, M. Night Shyamalan, Jeremy Strong.

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virada2

– por Michael Barbosa

Irmão e irmã viajam para colocar flores no túmulo do pai, irmão começa a brincar com os medos de infância da irmã, mas como em um piscar de olhos o que era engraçado vira pânico quando um homem os ataca, inutiliza o rapaz e começa a perseguir a moça, que se refugia numa casa junto a outros sobreviventes dessa estranha epidemia de seres bizarros e homicidas. É partindo deste plot simples que George A. Romero resolve criar uma das obras definitivas do cinema de horror, A Noite dos Mortos-Vivos.

Romero pode não ter inventado os filmes de zumbis, mas o que ele fez através de A Noite dos Mortos-Vivos consegue ir além. Ele reinventou, criou diretrizes, deu as cartas. Andar lento e cambaleante, desprovidos de inteligência, comedores de carne humana, “atire na cabeça para matar” e tudo mais que hoje faz parte do imaginário popular quando se ouve a palavra “zumbi” (que curiosamente não é citada em momento algum do filme). Mas tudo isso começou da maneira mais simplória possível. Alguns amigos recém formados, uma produtora recém criada, talento, vontade de fazer cinema e algo em torno de uns 100 mil dólares.

O orçamento curto que poderia se tornar um grande empecilho é transformado num trunfo. Do preto e branco se faz uso das sombras em cada canto aumentando mais e mais a tensão e transforma a maquiagem simples em convincente ainda hoje. E do filme em 35 mm se traz o tom documental. O resto fica pra inteligência e inventividade de Romero, John Russo e toda equipe.

O filme segura a tensão durante todo desenvolvimento da trama que por sinal assume seu lado sci-fi, todavia não dá respostas fáceis. Sugere um acidente radioativo com um satélite vindo de Vênus, no entanto não se confirma a ideia e com isso abre margem para todas as neuroses e paranóias do americano que vivia aquela época tortuosa.

Ademais vale destacar que Romero dá aqui sinais do campo que pretendia se aventurar nos seus próximos filmes, o que já fica bem mais evidente na sequência O Despertar dos Mortos, o estudo social. Mas aqui ainda que de forma mais esboçada e menos consistente isso já se mostra presente na luta pela liderança, no conflito de ideologias, nas reações das pessoas em uma conjuntura tão extrema como essa.

Ah, tem o herói improvável, ele é negro, mais inteligente e mais racional que os outros, tem postura de líder, se mostra estável ainda que nem sempre esteja certo e parece capaz de sobreviver ao fim de tudo. Mas numa jogada arriscada para época Romero dá a sua cartada final, sem dó, sem rodear muito, ele vai e estraçalha a sua esperança, o sonho de redenção e o happy end que pareciam tão próximos – quase que de relance – se transformam em pessimismo. Uma forte pancada. Como conforto você pode finalmente relaxar os ombros, pois a viagem àquele mundo sombrio e aterrorizante acabou e o que fica é a sensação de que você acabou de ver um pedacinho da história.

5/5

Ficha Técnica: A Noite dos Mortos-Vivos (Night of Living Dead) – EUA, 1968. Dir.: George A. Romero. Elenco: Duane Jones, Judith O’Dea, Karl Hardman, Marilyn Eastman, Keith Wayne, Judith Ridley.

the beyond

– por Bernardo Brum

Quando, muito tardiamente, descobriram Lucio Fulci em Zombie, foi muito injustamente que só então o mundo pode testemunhar então as obras daquele que levou o gore, aquele gênero extremo querido a cinéfilos tidos como perversos, a uma arte intensa, visceral e agoniante. Não tinha, então, para o refinamento formal de pintor de Mario Bava ou para as hipérboles oníricas de Dario Argento. Quem veio e reinou na década de oitenta foi Fulci e seu cinema fragmentado, ilógico e hipergráfico. Em cada obra-prima sua a lógica vai embora depois de alguns minutos e dá espaço à obsessão com a imagem em movimento, pura e simples.

E nesse esquema de história besta que só serve de pretexto para dar lugar a algo maior – no caso, uma mulher que herda uma mansão mal-assombrada que não demora muito a agir contra quem habita/entra nela – encontra seu grau máximo em Terror Nas Trevas, ou The Beyond, como é chamado na terra do Tio Sam. Aqui, Fulci esculpe com mão ensanguentada o que havia apenas rascunhado em obras anteriores como O Segredo do Bosque dos Sonhos, Zombie e Pavor na Cidade dos Zumbis. Com um roteiro tão furado que parece ter sido esquartejado com um picador de gelo – e fazendo isso da forma mais descarada e sem se importar com o que vão achar – sem resquícios de realidade, sem necessidade de “fazer sentido”, e portanto, sem amarra alguma. Não há o que racionalizar e querer ficar tecendo teoria sobre isso e aquilo é totalmente inútil – e provavelmente faz o velho Fulci dar uma risada sete palmos abaixo da terra.

E o que, então, há para ser visto? Simplesmente, uma atmosfera inacreditável. É incrível o que tiozinho conseguia fazer com sangue falso, música instrumental densa, lentes de contato coloridas, fotografia abusando das sombras, mulheres gostosas gritando, pessoas vestidas de zumbis e bichos escrotos – é tudo insuportavelmente pesado, uma verdadeira tortura mental, um pesadelo elevado ao extremo do espírito carniceiro de um italiano demente e genial (esqueçam dos apenas dementes que faziam filmes de canibais) que desfila sua criatividade em set pieces das mais variadas, como a que um homem cai de uma escada e é devorado por tarântulas, as lutas contra os zumbis que aparecem numa simples mudança de plano, aquele início em uma soberba cor sépia que mostra os danos reais que uma crucificação pode causar (em algo que faz Mel Gibson e sua Paixão de Cristo parecerem especial de fim de ano da Sessão da Tarde) e , então, aquele final opressivo – quando não há mais mansão, hospital, cidade, mundo ou canto da mente para fugir, em um dos finais abertos mais impressionantes da história do cinema.

Poucos filmes com o mesmo conceito podem competir com o de Fulci. E, talvez, nenhum vença. Com um verdadeiro arsenal de como destroçar corpos e mentes, o italiano derrubou cada parede existente entre as convenções pentelhas e o seu cinema. Não há limite. Em um cinema livre como esse, tudo pode existir ou inexistir e lógica é só uma desculpa que o homem usa para não estourar os miolos por uma parede. Felizmente, não o velho Lucio. Esse, ainda bem, esteve bem mais preocupado em espalhar pedaços de cérebro por fotogramas.

Traumatizante. Violador. E os trinta minutos finais, então, são sem precedentes em qualquer arte que já mexeu ou já quis mexer com o obscuro.

Ou aqui: Terror nas Trevas (Lucio Fulci, 1981) – Guilherme Bakunin [5/5]

5/5

Ficha técnica: Terror nas Trevas (E tu vivrai nel terrore – L’aldilà) –  1981, Itália. Dir.: Lucio Fulci. Elenco: Catriona MacColl, David Warbeck,Cinzia Monreale, Antoine Saint-John, Veronica Lazar, Anthony Flees, Giovanni De Nava, Al Cliver, Michele Mirabella, Gianpaolo Saccarola, Maria Pia Marsala, Laura De Marchi

dawn of the dead

– por Bernardo Brum

Com a colaboração de Dario Argento no roteiro e a banda Goblin na trilha sonora, George Romero fez aquele que é o seu maior sucesso comercial até hoje – e o melhor de tudo é que nunca perdeu aquele climão de filme B, de atmosfera exagerada, atores canastrões, personagens carismáticos, frases de efeito, e de bônus ainda vem uma direção irretocável, uma edição fantástica que impregna o filme dos mais variados símbolos, e claro, crítica social aos montes, em cada ato do roteiro e a cada fotograma.

A história de um casal que trabalha numa televisão e de dois policiais que se refugiam num shopping tentando sobreviver a um apocalipse zumbi é levada a níveis inimagináveis por Romero usando os zumbis como mero pretexto para denunciar racismo, miséria, segregação, consumismo excessivo e como tudo isso nos afeta diariamente. Aproveita, também, para zoar e provocar caipiras belicistas, autoridades incompetentes, formadores de opiniões absurdas, mostrar uma cidade decadente ameaçada não só por zumbis – afinal, eles são a menor das ameaças, nada comparado ao pânico, ódio, xenofobia e falta de comunicação que as calamidades provocam. Deixar as pessoas ilhadas, não apenas fisicamente, é a coisa mais fácil do mundo.

Usando a tal liberdade criativa que só o cinema independente oferece de verdade, Romero consegue, mesmo sem um orçamento estratosférico, fazer um filme denso e violento, com mutilações pra lá de gráficas e que – nostalgia pura – ainda tem aquele sangue vermelho vivo tão usado nos anos setenta e demonstrar toda  a sua perícia técnica, principalmente na montagem que explora, de forma crítica, o espaço do shopping, como aquela fenomenal sequência que alterna zumbis, manequins e sobreviventes – dá para sacar de primeira o objetivo do velhinho de reduzir tudo a mesma coisa: mortos ou vivos, todos estão atrás da única coisa que os motivava na existência: consumo, dinheiro, vaidade, se enclausurar em uma vida modelo, por aí vai. Se torna tão necessário quanto comer e dormir.

O bom humor também se faz pra lá de presente, mesmo onde impera o medo e a tensão. A sequência dos motoqueiros saqueadores chega a ser constrangedoramente engraçada de tão ridícula e impensável para qualquer que pense em um filme sobre mortos canibais – e por isso mesmo que merece um crédito extra porque, onde você esperava algo sisudo, vem Romero e faz a bagunça imperar de um jeito pra lá de impactante, cru e anárquico. Sem contar os zumbis trombando por todos os lugares com uma musiquinha big band estilo Cole Porter é outra coisa digna de nota.

Enfim, Despertar dos Mortos pode até não ser o melhor filme de terror de todos os tempos. Mas, absolutamente, é a síntese do cinema independente de terror, afastado das grandes produtoras, mas espetacularmente original, criativo, autoral, com uma visão única de mundo que vai muito além da trilha macabra dos Goblin ou da lendária maquiagem e efeitos especiais de Tom Savini e costura tudo numa obra poderosíssima em que o cara dispara para todo lado.

“Quando não houver mais espaço no inferno, os mortos caminharão sobre a Terra.”

5/5

Ficha técnica:  Despertar dos Mortos (Dawn of The Dead) – 1978, EUA/Itália. Dir: Geoge Romero. Elenco: Ken Foree, David Emge, Scott H. Reiniger,  Gayleen Ross, David Crawford, David Early, Tom Savini.