Equipe do Cine Cafe

Melhor filme

Cavalo de Guerra, de Steven Spielberg
O Artista, de Michel Hazanavicious – por Guilherme Bakunin [2/5]
O Homem que Mudou o Jogo, de Bennett Miller – por Guilherme Bakunin [3/5]
Os Descendentes, de Alexander Payne por Allan Kardec Pereira [1/5]
Árvore da Vida, de Terence Malick – por Allan Kardec Pereira [4,5/5]
Meia-Noite em Paris, de Woody Allen – por Guilherme Bakunin [3/5]
Histórias Cruzadas, de Tate Taylor – por Guilherme Bakunin [1/5]
A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese – por Allan Kardec Pereira [5/5]
Tão Forte e Tão Perto, de Stephen Daldry

 Melhor ator

Demián Bichir, por A Better Life
George Clooney, por Os Descendentes – por Allan Kardec Pereira [1/5]
Jean Dujardin, por O Artista – por Guilherme Bakunin [2/5]
Gary Oldman, por O Espião que Sabia Demais – por Bernardo Brum [4/5]
Brad Pitt, por O Homem que Mudou o Jogo – por Guilherme Bakunin [3/5]

Melhor atriz

Glenn Close, por Albert Nobbs – por Guilherme Bakunin [2/5]
Viola Davis, por Histórias Cruzadas – por Guilherme Bakunin [1/5]
Rooney Mara, por Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Maryl Streep, por A Dama de Ferro
Michelle Williams, por Sete Dias com Marilyn

Melhor ator coadjuvante

Kenneth Branagh, por Sete Dias com Marilyn
Jonah Hill, por O Homem que Mudou o Jogo – por Guilherme Bakunin [3/5]
Nick Nolte, por Warrior – por Mike Dias [3/5]
Max von Sydow, por Tão Forte e Tão Perto
Chrisopher Plummer, por Beginners

Melhor atriz coadjuvante

Octavia Spencer, por Histórias Cruzadas – por Guilherme Bakunin [1/5]
Bérénice Bejo, por O Artista – por Guilherme Bakunin [2/5]
Jessica Chastain, por Histórias Cruzadas – por Guilherme Bakunin [1/5]
Janet McTeer, por Albert Nobbs – por Guilherme Bakunin [2/5]
Melissa McCarthy, por Missão Madrinha de Casamento – por Guilherme Bakunin [2/5]

Melhor roteiro original

O Artista, de Michel Hazanavicious – por Guilherme Bakunin [2/5]
Missão Madrinha de Casamento, de Annie Mumolo – por Guilherme Bakunin [2/5]
Margin Call, de JC Chandor – por Guilherme Bakunin [3/5]
Meia-Noite em Paris, de Woody Allen – por Guilherme Bakunin [3/5]
A Separação, de Asghar Farhadi – por Mike Dias [5/5]

Melhor roteiro adaptado

Os Descendentes, de Nat Faxon e Jim Rash – por Allan Kardec Pereira [1/5]
A Invenção de Hugo Cabret, de Josh Logan – por Allan Kardec Pereira [5/5]
Tudo Pelo Poder, de Grant Heslov e Beau Willimon – por Guilherme Bakunin [4/5]
O Homem que Mudou o Jogo, de S. Zaillian e A. Sorkin – por Guilherme Bakunin [3/5]
O Espião que Sabia Demais, de O’Connor e Straughan – por Bernardo Brum [4/5]

//

A lista ainda está incompleta, mas até o final de fevereiro esperamos completá-la (inclusive, daqui a um tempo, com os indicados ao Melhor Filme de Língua Estrangeira, cujos downloads devem demorar um pouco mais para sair). Ainda em relação aos Oscars, nós temos preparado um outro especial, pra cobrir de forma panorâmica todos os 84 anos da premiação. As coisas estão meio difusas, ainda, mas certamente vai acontecer, em breve. Vocês são obviamente bem vindos com sugestões e opiniões, tanto a respeito de qualquer especial, quanto a respeito dos filmes que compõe a premiação do Oscar desse ano, ou a premiação de um modo geral.

Anúncios

– por Guilherme Bakunin

Impressionante como o Woody Allen consegue criar essas histórias simples e formatadas mais ou menos da mesma forma há mais de 40 anos sem passar a impressão de ser um cafajeste, um aproveitador, um disparate, mas um artista que descobriu como fazer e, desde então, faz. Meia-Noite em Paris envolve os mesmos conflitos existenciais, matrimoniais e artísticos de dezenas de outros filmes do cineasta, e não é exatamente a roupagem que o destaca. Mesmo que o diretor faça filmes tão parecidos, existe alguma coisa que torna cada um, com o perdão da doçura, especial. A individualidade de cada filme muito provavelmente reflete a sinceridade e humildade com os quais Woody investe no seu trabalho. A arte é uma reflexão do indivíduo e Woody apenas resolveu mostrar uma parcela de si mesmo nesses últimos 40 anos.

O aguardado ‘filme de paris de Woody Allen’ mostra Owen Wilson, o romântico, neurótico e saudosista alter-ego do diretor em uma viagem de verão à capital das luzes lidando com a futilidade de seu tempo, com a prepotência de seus amigos, com os embates políticos de sua família, até que enigmaticamente ele consegue voltar à significativa Paris dos anos 1920, a mesma que ele admira, lar de monstros como Duchamp, Pound, Eliot, Buñel, Porter, Miró, Picasso, Man Ray, Dali e, especialmente, Fitzgerrald e Hemingway, grandes ídolos do escritor-protagonista. O personagem de Owen Wilson então, encara a dicotomia entre um presente opaco e um passado iluminado por grandes mentes e grandes momentos.

O guia de Wilson, no entanto, não será uma grande mente do crepúsculo da arte europeia, mas Adriana, uma linda dondoca anônima, adorável em sua falta de aptidão artística, fatal nos seus encantos femininos, groupie. Interpretada por Cotilard, Adriana passeia pelas calçadas parisienses, sob as luzes, por entre os cafés, seduzindo-o ainda mais para uma época em que ele não pertence. É assim que Meia-Noite em Paris emerge como a reflexão mais terapêutica de Allen nos últimos anos. A jornada do personagem de Wilson preocupa-se em convencê-lo que o saudosismo é uma ilusão agregada de problemas de auto-estima e conflitos não resolvidos; que engrandecer épocas mitificadas e cuspir em seus próprios dias é uma celebração da auto-enganação: o homem sempre buscará reconforto na história para amortecer os problemas de sua própria modernidade.

Gil se convence dessas observações ao confrontar-se com seu prório anjo-da-guarda. Adriana, uma contemporânea da grande paris dos anos 1920 diz que a época de ouro da cidade são os anos 1890. O aparente disparate leva o personagem de Wilson a decidir-se em voltar para 2010. Meia-Noite em Paris é simples, fechado, mas coerente. Possui um protagonista que inquire, que se desenvolve, que se rende, uma galeria imensurável de personagens bem construídos que mesmo com pouco tempo de ação conseguem fazer-se vistos, e consegue, acima de tudo, ser bastante claro e objetivo a respeito de suas propostas ao espectador. É um grande exemplar dos filmes pós-Match Point, que fazem parte da última fase de Woody Allen. Figura junto com Vicky Cristina Barcela, O Sonho de Cassandra e o próprio Match Point como os mais coerentes trabalhos dos últimos anos do cineasta.

– Adorei a forma como Allen trabalhou com as referências. Não soa nada como um desfile da própria intelectualidade do Woody (até porque são referências básicas para quem gosta de ler, gosta de ver filmes, gosta de arte). Não são despejadas desnecessariamente na tela, mas bem colocadas dentro de um contexto útil e interessante.

– A dicotomia entre o paradoxo dos dois tempos rende momentos interessantes. Gil encomendando “uns sete” Matisses por 500 francos, ou entregando o argumento de Anjo Exterminador, por exemplo (alguém chegou a ver o filme sem que alguém no cinema falasse “ele tá falando do Anjo Exterminador” pra pessoa do lado?)

– O persoangem do Wilson acaba terminando com um anjinho francês interpretado por Léa Seydoux (a “Bela Junie” de Honoré). Um ex manchina sinceramente dispensável pra história. Woody utiliza a personagem de Gabrielle para mostrar a Gil que o presente é interessante e une os dois no final como reflexo da esperança que o próprio personagem deposita no seu tempo. Um final mais emblemático custaria menos ao filme.

– O subestimado fotógrafo Darius Khondji trabalhou com Woody Allen em Igual a Tudo na Vida (2003) e voltou a atuar aqui, pontuando muito bem a opacidade dos tempos modernos com a embaçada luminosidade dos anos 1920.

– Carla Bruni muito linda mas muito incomodada de estar no filme. Decepcionou. Por outro lado, sempre um prazer ver um filme de 12 milhões de dólares reunir atores dos mais bem pagos de Hollywood hoje em dia. Cotillard, Wilson, McAdams, Sheen, a própria Seydoux, e até por trazer Brody pra um cameo dá o tom da influência ‘intelectual’ (risos) que o Woody ainda é capaz de incitar em Los Angeles. Claro que a absoluta falta de rumo de Hollywood também não ajuda.

– Os debates políticos (que acabaram dando às caras em duas ou três cenas no filme, infelizmente) entre republicanos e democratas lembra bastante os de outro filme de Woody, Todos Dizem Eu Te Amo (1996), um dos grandes filmes de sua carreira. Além disso, Meia-Noite possui um elemento de escapismo na sua história (Gil tentando escapar do seu fracasso artístico como escritor de romances, culpando sua época) que reflete muito certos elementos de Rosa Púrpura do Cairo (1985).

4/5

Ficha Técnica: Meia-Noite em Paris (Midnight in Paris) – EUA/França, 2011. Dir.: Woody Allen. Elenco: Owen Wilson, Rachel McAdams, Kurt Fuller, Mimi Kennedy, Michael Sheen, Carla Bruni, Marion Cotillard, Corey Stoll, Alisson Pill, Tom Hiddlestorn, Adrian Brody, Kathy Bates.

por Bernardo Brum

Woody é como todo bom mágico: todo mundo acha que ele sempre faz a mesma obra indefinidamente ao longo de toda a sua carreira, mas sempre encontra algum meio de parecer totalmente novo aos nossos olhos.  É assim mais uma vez com Neblinas e Sombras, filme que mesmo sendo uma homenagem ao expressionismo alemão, não foge ao estilo Allen de produção: ótica ateísta, personagens complexos e complicados, humor afiado e sempre com aquela velha pontinha de desconforto…

Assim, não se trata de mera cópia ou homenagem vazia em si, mas apenas um terno novo na vasta coleção do realizador. Assim como já vestiu o manto de Bergman em Interiores ou se cobriu de Fellini em Memórias e jamais pareceu derivativo, com Woody, o expressionismo alemão renasce como uma comédia de de personagens, e não de ação.

Em uma história que envolve a busca por um assassino, o humor é negro, seco, cruel. Não há matadores atrapalhados, investigadores imbecis, nem gags visuais. Pelo contrário; apesar de ainda ser ainda possuir um texto afiado e hilário, é um dos filmes mais opressivos de Woody. O riso nervoso vem das próprias enrascadas em que indivíduos perdidos em seus próprios problemas têm de lidar com um criminoso, provavelmente louco, à solta nas ruas.

Em outros filmes, todos esqueceriam seus próprios problemas para caçar ou fugir da figura que parece onipresente em todos os cantos. Mas o universo de Woody é outro. Entram aqui a engolidora de espadas sentimental, o palhaço cheio de dilemas, o escrituário covarde e puxa-saco que desfilam pelo cenário de época de Santo Loquasto enegrecido pela fotografia personalíssima e sombria de Carlo Di Palma.  Tudo isso deixa o filme a um passo do puro desespero: normalmente, problemas pessoais e situações de perseguição vêm em filmes separados. Juntos, nos dá a idéia de como somos vulneráveis e frágeis. Como sobreviver naquela noite fatídica?

A neblina do título engole e cospe para a câmera piadas sexuais,  questionamentos existenciais e relacionamentos complicados; nunca se sabe com o que iremos nos deparar quando virarmos a esquina: uma nova paixão, um novo grilo na cabeça, uma lâmina reluzente. É nesse turbilhão de vida com sua carga forte de entropia presente que o diretor brinca de prestidigitador e mostra ao seu espectador o seu cinema-mentira: é engano e encanto o tempo todo.

De tão complicado que se tornou, o filme só poderia acabar mesmo em um passe de mágica. Afinal, este é o mundo dos 24 quadros por segundo e só mesmo Woody para depois de enforcar quem assiste por dezenas de minutos seguidos com dilemas claustrofóbicos e situações de puro pânico e ainda lançar um humor jocoso por cima, completar a cereja do bolo com aquele típico final ambíguo e puramente cinematográfico que só ele saberia criar. Esperança e pessimismo ao mesmo tempo, indissolúveis.  Certa vez, Groucho Marx disse que o judeu neurótico do Bronx era o comediante mais original e engraçado de nosso século. Diante de um filme como esses, quem sou eu para discordar do bigodudo?

4/5

Ficha técnica: Neblina e Sombras (Shadows and Fog) – EUA, 1991. Dir.: Woody Allen. Elenco:  Kathy Bates, David Ogden Stiers, John Cusack, John C. Reilly,Woody Allen, John Malkovich, Lily Tomlin, Madonna, Mia Farrow, Jodie Foster, Donald Pleasence, Michael Kirby

– Guilherme Bakunin

O Woody Allen de 2010 não é o que ninguém esperava. Não é ruim, como os detratores do diretor insistem em comentar, e tão não tá perto de um Vicky Cristina Barcelona ou de um Dirigindo no Escuro. É completamente regular em todos os sentidos, diverte, é bem escrito, tem bons personagens, mas é um trabalho incompleto, preguiçoso.

O arco do personagem vivido por Josh Brolin bem que se aproxima dos áureos tempos do Woody. Um escritor que só emplacou um livro tem a chance de pôr as mãos numa intocável obra-prima de seu amigo quando este entra em coma, justamente quando pensa que sua vida está caminhando pra dias melhores – separou-se da esposa e agora vive com a exótica amante chama Dia. O problema é que esse é o final do final. Nada de errado com tudo o que passou para que Allen chegasse até aqui, o problema está naquele negócio que a gente vê no começo de Annie Hall: a vida é muito ruim, e vem em pequenas porções. É sempre bom  ter um novo filme do mais autoral dos cineastas que hollywood já teve notícia (pronto, eu disse), mas ultimamente as porções estão cada vez menores. O resto do filme é bem interessante também: Helena é uma simpática velhinha bebedora de whisky que fica emocionalmente abalada com a repentina separação, iniciada pelo marido, que se recusa a envelhecer. Naomi Watts é a esposa de Josh Brolin, que consegue um emprego de secretária do Antonio Bandeiras, e choquem-se: se apaixona por ele, ao passo que o Bandeiras também enfrenta problemas conjugais, mas ao invés de enxugar suas lágrimas no delicado ombro inglês de Watts, chega junto na gatíssima Eleanor Gecks. E Hopkins (agora ex-marido de Helena) fica noivo de uma prostituta.

Sem dúvida são pequenos recortes que já foram visitados nos outros filmes do Woody, mas tudo bem, e essa vibe soapopera é bacana, sempre dá certo com o Almodovar, e quase sempre funcionou pro Woody Allen também. E o cineasta sabe fazer cinema, sabe montar um filme, escalonar o drama, a comédia, sabe criar personagens e colocar atores para vivê-los, e pouquíssima gente por aí conseguiu atingir o que Allen atingiu em direção de atores, e não é agora, depois de 40 anos, que ele ia falhar. Não, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos não é uma grande história, mas é muito bem contada. Jogando com seus clichês, Allen transforma psicólogos em videntes, finais felizes em desastres emocionais, egoísmo em comédia (Naomi Watts explodindo com a mãe no final é uma cena a ser estudada, psicanalíticamente falando), e texto em imagens. São as trocas de olhares, o voyeurismo, os incríveis e claustrofóbicos planos-sequência, que um espectador mais desatento talvez nem perceba, que darão a fluidez pra que o filme passe tranquilo, sem grandes abalos, mas também sem grandes emoções. Fica a felicidade de continuar vendo a história de um personagem tão tocante quanto o Allen sendo feita, e a expectativa pra que, finalmente em Paris, a gente tenha mais um daqueles filmes dos anos 70 ou 80 que todo mundo adora.

3/5

Ficha técnica: Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos (You Will Meet a Tall Dark Stranger) – EUA, 2010. Dir.: Woody Allen. Elenco: Gemma Jones, Pauline Collins, Anthony Hopkins, Naomi Watts, Josh Broling, Freida Pinto, Antonio Bandeiras, Ewen Bremner, Lucy Punch.

por Bernardo Brum

Obviamente com o olhar de um estrangeiro, encarnado nas deliciosas peles de Scarlett Johansson e Rebecca Hall, Woody observa Barcelona. Suas exoticidades, contradições, ironias, risadas e lamúrias.  Com isso, observa o mundo também. O velho truque de ser universal sendo regional, usando o estranho familiar, o diferente do qual já ouvimos falar, olhando com distância pessoas  se enrolando em tragicomédias paralelas na colorida e sexualmente pulsante Barcelona.

Ma como o título não faz distinção de separar nem nenhuma das personagens, nem as mesmas da cidade, como se os três fossem indistintos entre si; o homem é fruto do meio, mas o inverso também é válido. São os personagens – as turistas Vicky, a comportada e reprimida, e Cristina, impulsiva e confusa, e os de casa, o casal divorciado Juan Antonio e Maria Elena, que compõem a fauna que transforma Barcelona em um rico mosaico que funde riso, desespero, neuroses e todo esse universo que Woody filma e refilma há quase quarenta anos – e mais uma vez, recria seu universo de forma deliciosamente refrescante – um sabor de novidade irresistível que só mesmo alguém com necessidade de reinvenção artística constante costuma conseguir parir de forma surpreendente – mesmo para quem já conhece sua obra há tempo considerável e que já poderia encarar os novos exemplares de sua extensa e duradoura filmografia com certo cinismo.

Dos mais notáveis aos menos imperceptíveis detalhes, Vicky Cristina Barcelona é um filme diferente de Woody. Mas, ao contrário do que espalharam por aí, não emula Almodóvar; dá para sentir isso assistindo o filme. As pulsões com as quais ambos os cineastas trabalham são diferentes desde a sua base. O cinema kitsch, intenso, exagerado para os dois lados (quando quer ser engraçado, é histérico; quando quer ser trágico, é um dramalhão arrasador) do espanhol quase não encontra voz no americano; o filme é o que se habitou a chamar de “comédia de costumes”.  Vicky Cristina Barcelona é um filme sobre o êxtase.  Rápido como um orgasmo, tortuoso feito um namoro, incomum como as viagens mais loucas que nós fazemos.

Só por ir na contramão do que seus antecessores (Match Point e O Sonho de Casandra) discutiam, Vicky Cristina Barcelona já foi percebido como uma obra pouco usual dentro do estilo de Woody, apesar de que, de fato, não foge ao que o americano sempre quis filmar. Saem os americanos de aparência um tanto comum para o glamour que Hollywood estão acostumados lá da louca e frenética New York – entram personagens com caráter sexual altamente explicitado. Mas também, é como reza o velho estereótipo;  o que se poderia esperar da Espanha, não é?

As inúmeras reviravoltas tornam o roteiro imprevisível – não se sabe o que esperar de personagens tão confusos, em uma cidade onde nenhuma convicção é o que parece ser, onde moças fiéis se rendem aos seus desejos libidinosos, onde garotas impulsivas e liberais podem desistir de condutas pouco usuais por simplesmente enjoar do que já virou rotina. Woody sabe disso, e não tenta elocubrar razões, justificativas ou causas lógicas para cada nova mudança de rumos. Uma das garotas cai logo vítima da cantada descarada de Juan. Maria Elena inicia Cristina na bissexualidade. Cristina, com Juan e Maria, vivem uma vida a três. Cristina enche o saco de tudo – como fez várias outras vezes. Vicky cede ao charme de Juan. Maria surta de vez. Como a Quadrilha de Drummond, ou como qualquer filme de Woody Allen, acrescido de um pouco de paella.

Mas Woody sabe que é inevitável e seu roteiro não esconde; uma hora, as férias acabam. E é hora de voltar para a terra natal. Onde tudo é tão estranho, maluco e bonito feito em Barcelona. O que a gente levou disso tudo? Mais uma das inúmeras hábeis reflexões cinematográficas sobre como o indivíduo, supostamente sofisticado e civilizado, pode ser bizarro, cômico e trágico ao mesmo tempo dentro do mundo do baixinho quatro olhos – um decalque estilizado do nosso. Um dos filmes mais inteligentemente sensuais dos últimos anos – que brinca com nossos desejos ao invés de apenas esfregar, superficialmente, nos nossos sentidos. Sexo, lágrimas, riso e neurose costurados de forma indissolúvel e indefectível. Penélope Cruz e Scarlett Johansson se beijando.

Enfim, vocês conhecem o Woody Allen.

4/5

Ficha técnica: Vicky Cristina Barcelona – EUA/Espanha, 2008. Dir.: Woody Allen. Elenco: Penélope Cruz, Patricia Clarkson, Scarlett Johansson, Javier Bardem, Kevin Dunn, Chris Messina, Rebecca Hall, Christopher Evan Welch

– por Guilherme Bakunin

A Dreamworks deu outra chance a Woody Allen e, ciente da responsabilidade (financiamento farto de uma grande companhia), ele resolve não inventar. Uma história de amor bem moderna, neurótica, pois ainda é um filme de Woody, mas com uma narrativa e personagens muito mais estáveis que o usual. Perceba que não existem grandes ambições em Igual a Tudo Na Vida; desde mais ou menos Desconstruindo Harry, em 1997, seus filmes aspiravam grandes homenagens a filmes do passado ou possuiam certos acontecimentos bem notórios. Basicamente, coisas que o afastavam ainda mais de uma história realista. Sem realismo, a identificação da platéia com o trabalho torna-se menos possível, e foi mais ou menos exatamente isso que aconteceu durante cerca de seis anos. Até que em 2003 Woody retorna com esse trabalho, que é realista. Jason Biggs interpreta um comediante judeu cuja namorada é a neurótica Amanda, garota cheia de crises, viciada em drogas e com sérios problemas maternais; Biggs, enquanto isso, vive de receber conselhos de um velho paranóico que diz coisas como “os judeus causaram todas as guerras” e etc. Não é muito identificável, é verdade. Não há um grande apelo de se chegar à alma do público. Mas é mais foot on ground do que os seus trabalhos nos últimos, sei lá, onze anos.

Através das desventuras Jerry Falk nos é permitida diversão, entrenimento de boa qualidade, desafiador. A história não é linear e segue o rumo das conversas do protagonista; é através da voz que o filme se desenvolve. Veja o filme sem som e se surpreenda com a completa falta de sentido. Você verá personagens alheios ao mundo, outros conversando consigo mesmo, outros conversando com a câmera. A questão em cheque é que Igual a Tudo na Vida reflete a mesma necessidade indispensável que nós temos de falar, de conversar, de experimentar. Porque ninguém quer acreditar, mas esse é um pequeno experimento de Woody Allen. Um filme sem história e praticamente sem personagens;  louco, desconexo, vazio? Bom, igual a tudo na vida. Em que outro filme da dreamworks e poxa, em que outro filme de hollywood nos é permitido pensar nesse tipo de conexão.

Sumariamente, é um bom filme. O texto é maravilhoso. “Porque você tem a impressão que eu não te amo? Só porque me afasto quando você me toca?”. Woody ainda sabe como fazer rir. O problema é, este é um filme menor, menos intenso em todos os aspectos; no final, resta a sabedoria emblemática de um cineasta consciente de seu personagem. Em poucos minutos, o protagonista recebe um tipo prendado de redenção, algo  tão singular como em Celebridades. Lee Simon clama por ajuda; Falk, porém, já recebeu auxílio. Com a ajuda de um conselheiro, tão presente quando, não sei, um espírito, se libertou dos seus tramas e conseguiu deixar Nova York. Dois anos depois, Woody Allen faria o mesmo.

3/5

Ficha Técnica: Igual a Tudo na Vida (Anything Else) – EUA, 2003. Dir.: Woody Allen. Elenco: Woody Allen, jason Biggs, Fisher Stevens, Anthony Arkin, Danny DeVito, Christina Ricci, KaDee Strickland, Jimmy Fallon, Diana Krall, William Hill, Stockard Channing, Maurice Sonnenberg, Kenneth Edelson, David Conrad, Joseph Lyle Taylor.


– Luiz Carlos Freitas

Eu juro que já me esforcei muito para entender alguns detratores do Woody Allen, mas desisti dessa batalha ingrata tem algum tempo. Injustamente acusado de “não variar, indo sempre no mesmo tema e com as mesmas abordagens” por tratar das neuroses do homem “apenas” (aspas óbvias, aliás, se observarmos o quanto que o tema é tão mais amplo do que comumente tratado), por vezes ignoram a versatilidade de um diretor que passeou pelos mais diversificados gêneros cinematográficos como poucos (e a comparação com Stanley Kubrick nesse quesito é indispensável). E se com Hannah e Suas Irmãs ele se mostrou (superficialmente) alternando entre dois gêneros específicos (drama e comédia), sua temática e abordagem colocam a obra mais além do que qualquer sinopse ou rótulo de prateleira de locadora possam limitar.

Centrada na família da personagem-título, Hannah (Mia Farrow), uma atriz de sucesso com um casamento perfeito que sustenta (emocional e até financeiramente) suas irmãs, Lee (Barbara Hershey) e Holly (Dianne Wiest) – a primeira, uma ex-alcoólatra em recuperação casada com Frederick (Max Von Sydow), homem muito mais velho e extremamente controlador, a segunda, uma atriz fracassada e drogada que só consegue se apaixonar pelos piores tipos possíveis -, acompanhamos uma situação de possível desequilíbrio quando Elliot (Michael Caine) se revela completamente apaixonado por Lee, sua cunhada, iniciando um romance que pode provocar uma ruptura completa entre a família. Paralelamente, vemos o desespero de Mickey (Woody Allen), um renomado roteirista de TV (e ex-marido de Hannah), que diante da possibilidade de estar com uma doença terminal, tenta de todas as formas possíveis “encontrar Deus”.

Visto de modo quase unânime como uma obra-síntese da filmografia do diretor, é provavelmente sua realização cinematográfica mais completa, uma miscelânea perfeita de seus maiores temas habituais, como casamento e amor (assim mesmo, separados), conflitos de gerações, artistas com carreiras fracassadas, autocomiseração, ética e moral, todos representados pelas arestas que saem de e tornam a um ciclo em Hannah, o centro gravitacional daquela família (e, claro, com o jazz presente e a indefectível Manhattan como um cenário-personagem).

Mas Allen também está nesse filme, não nos esqueçamos dele. E seu personagem, mesmo que orbitando paralelamente e quase totalmente alheio aos demais conflitos da trama, é um dos mais importantes dentre todos. Allen faz de Mickey uma versão extrema de seu personagem mais característico (ele mesmo, de certo modo), uma espécie de cruza de Alvy (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa), Sandy (Memórias) e Isaac (Manhattan) que, evoluída, repensa toda a sua pretensa autosuficiência. Por um pensamento consigo mesmo, logo após a saída do consultório médico (“Fique calmo! Você está no meio de Nova York, sua área, cercado por pessoas, trânsito e restaurantes! Como pode um dia, do nada desaparecer?”) seguido de uma crise desesperada (“Meu Deus, estou morrendo!”) que o leva à busca urgente por “Deus”, podemos ver nele somente o ponto em comum a todos os personagens da trama: o sentido da vida.

Allen nunca escondeu que Ingmar Bergman (cujas obras abordavam constantemente os temas existencialistas) era um de seus maiores ídolos. Alguns citam o posterior A Outra como sua maior referência ao diretor sueco, mas aqui todas as questões do vazio existencial (que já se mostraram presentes em trabalhos anteriores do próprio Allen, como Interiores) são trabalhadas com maestria digna do referenciado. A construção de personagens, seus conflitos e o desenvolvimento, mesmo os acompanhando por um período de quase dois anos, são perfeitas, não se perdendo em momento algum (e trabalhados com profundo realismo). A atriz fracassada que busca a oportunidade da sua carreira e estabilidade amorosa, a mulher aprisionada a um relacionamento por conveniência que não consegue sua independência financeira e, pior, pode destruir a família ao se envolver com o marido da irmã, o homem indeciso entre a segurança de um casamento morno ou a paixão nos braços da amante, o cético que procura preencher os símbolos vazios de uma fé que não pode ser simplesmente adquirida; todos compartilham do mesmo sentimento de incompletude, da mesma jornada em busca por uma razão, um sentido às suas vidas, até então, vazias.

Mas Allen não decai sobre moralismos, artifícios bobos ou saídas fáceis. Lembrem-se, Hannah e Suas Irmãs é, acima de tudo, a vida real em tela e, como humanos que somos, não nos cabe exigir perfeição. E a isso, Hannah é chamada atenção. Próximo ao final, quando as três irmãs se encontram em um jantar e começam a discutir sobre os problemas de cada uma, Lee e Holly  a questionam justamente por ser tão perfeita, por não se irritar ou reclamar de nada. Ela é a representação da imagem do perfeito, do pleno, do equilíbrio em qualquer situação, por qualquer causa e de qualquer meio (experimentem ler “Hannah” de trás para frente). E o desenrolar dos fatos nos mostra que seja talvez nessa ocasião de falta, de vazio, que se encontre um possível sentido às nossas vidas, fugindo a busca aos conceitos pré-estabelecidos como corretos ou ideais.

Tal como Sartre definiu, a vida nos leva a fazer escolhas e traçar nossos caminhos, mas ela não nos diz qual o caminho certo ou errado, tampouco nos obriga a trilhar por algum desses. Talvez a resposta para uns não valha para outros, e quem buscava por um grande amor possa se ver feliz e completa com um novo trabalho; talvez quem via na amante mais jovem a realização de seus desejos possa reacender a chama do próprio casamento e o amor, tão forte e implacável, simplesmente se apague aos poucos; talvez quem sentia a necessidade da perfeição para se alcançar a realização de sua vida, agora já se permitia ser imperfeita e, principalmente, largar as rédeas para que os demais possam viver suas vidas imperfeitas; talvez quem agora se punia por ter passado uma vida sem acreditar em nada, largando de lado os símbolos que sempre o foram tão vazios quanto um vidro de maionese (e não o deixariam de ser por mera conveniência), possa se permitir continuar não acreditando em nada tão maior que um amor de marido e mulher, de pai e filho.

Ao fim, Allen não nos dá respostas, apenas mais questionamentos que, de um modo extremamente coeso, nos faz compartilhar do sentimento de seus personagens incompletos, mas sem a menor sensação de vazio, de falta de sentido, porque essa ainda acaba sendo a nossa vida. E, afinal, a vida nunca foi mais (talvez, até menos) que o cinema de Woody Allen.

.
5/5

Hannah e Suas Irmãs (Hannah and Her Sisters) – EUA, 1986 – Direção: Woody Allen – Elenco: Barbara Hershey, Carrie Fisher, Michael Caine, Mia Farrow, Dianne Wiest, Maureen O’Sullivan, Lloyd Nolan, Max von Sydow, Woody Allen, Daniel Stern, Julie Kavner, Joanna Gleason, Bobby Short, Lewis Black, Julia Louis-Dreyfus