– de Guilherme Bakunin

Os anos setenta na América do Norte foram uma era revisionista. Sharon Tate e outras quatro pessoas são brutalmente esfaqueadas pela Manson Family, seita hippie-religiosa que surgiu por volta de 1967 em São Francisco (o CBGB da cultura hippie). A partir daí (e antes daí, na verdade; o valor de Manson nessa história é muito mais simbólico que fatual), ciclos de violência e paranoia desencadearam uma situação insustentável de medo e preconceito, que desestabilizou por completo a estrutura social vigente na América. Era o Easy Rider às avessas. A previsão de Bob Dylan se tornou equivocada. Um cara foi morto num show dos Rolling Stones. A viagem de lsd acabou. E aí os Sly and the Family Stone lançaram este albúm. A produção cultural norte americana se liga definitivamente aos mais diversos panoramas políticos e sociais, e praticamente nada parece escapar. Diretores, produtores, escritos e atores parecem não estarem interessados em neutralizar essas questões, e cada um toma seu partido. De Wes Craven a Robert Altman, todo mundo tem alguma coisa pra dizer. E Wes Craven definitivamente diz.

 Seu Quadrilha de Sádicos é um dos slashers mais poderosos que já se teve notícia. Quando o cinema ainda não era movido pela propaganda, os autores ainda tinham que trabalhar em ambientação e atmosfera, então Craven descortina seu filme para revelar dois personagens estranhos e disfuncionais, que além de caracterizar a peculiaridade daquele lugar, mostram que há peculiaridades maiores a serem temidas. E então a típica família americana dá as caras, naquela articulação que nós já conhecemos bem. Existem certos conflitos entre aquele grupo, que não os afastam do espectador, mas os aproxima, os humaniza. É uma família wasp como qualquer outra que, por acidente, se torna prisioneira das colinas.

 A partir do acidente a tensão é deflagrada, e o uso de ângulos e de posicionamentos de câmera fazem forte sugestão de que a família está cercada e condenada. Não há, portanto, durante a primeira hora de metragem, nenhuma cena de horror forte ou alguma perda significante. Há uma construção claustrofóbica e angustiante de atmosfera e de situação. Todo tipo de conflito e premissa é exposto e desenvolvido, antes que a ação possa se desencadear. Quadrilha dos Sádicos não é, logo, um filme gore. Nem tampouco trash, apesar de ter forte referência a estes estilos. É um filme de horror até às últimas consequências.

 E após a primeira hora de filme, Craven acha que já é tempo de libertar a sua ação. Depois de algumas perdas, a família americana se vê em tremenda desvantagem diante dos selvagens inimigos locais. É então que a carta na manga de Quadrilha dos Sádicos é posta à mesa, e esses comportados protestantes se revoltam e dominam o adversários com requintes de extremo sadismo. Não é apenas uma carnificina para auto defesa. É um prazer pelo sangue e pela vingança.

Dizem que a produção americana dos anos setenta é fortemente investida de valores políticos, e esse mero horror de baixíssimo orçamento não parece fugir do contexto geral. Parece, antes, dizer que dentro de cada indivíduo existe uma besta masoquista adormecida, despertada pelo menor dos abalos, pronta pra destronar os oponentes, defender a honra e o território. Também parece fazer fortes insinuações a respeito da própria gênese do estado americano, que invadiu e dizimou selvagens proclamando boas novas  de um que faz acepção de pessoas. E sugere, ao seu final, que a violência sádica é o berço da américa e permanecerá ali para sempre, à espreita, aguardando o momento de ser cutucada.

Mas definitivamente, a questão fundamental e mais impressionante de Quadrilha de Sádicos é sua construção atmosférica exímia, que impressiona e choca até os dias de hoje, que revela a fonte da juventude para que os filmes não envelheçam datados: articulação narrativa, apenas.

Outras observações:

 – Dizem que, antes do filme ser lançado, ele foi classificado como Rated X, o que proporcionaria um lançamento restrito aos circuitos pornográficos. Então Craven foi obrigado a recortar o filme, amenizando-o para um Rated R (maior de 18 anos). A primeira versão se perdeu para sempre.

 – O filme precede o debut  bem sucedido de Craven com Aniversário Macabro, de 1972. Com orçamento de 230 mil dólares, o filme rendeu apenas mais de cem vezes o valor do custo.

5/5

Ficha técnica: Quadrilha de Sádicos (The Hill Have Eyes) – EUA, 1977. Dir: Wes Craven. Elenco: John Steadman, Janus Blythe, Russ Grieve, Virginia Vincent, Peter Locke, Susan Lanier, Dee Wallace, Brenda Marinoff, Robert Houston, James Whitworth, Michael Berryman, Lance Gordon, Cordy Clark.

Anúncios

No imaginário judaico-cristão, o sangue lava, purifica. Nos cinemas, o sangue também pode corromper. Me vem à mente cinco filmes que não apenas possuem uma carnificina atuando como clímax da história, mas que trabalham com a estética da violência para criar, desenvolver ou discutir um determinado ponto vista. Cinco grandes filmes de cinco grandes cineastas com cinco grandes sequências que não podem ser esquecidas depois de apreciadas.

(mais…)

por Bernardo Brum

A Hora do Pesadelo figura, provavelmente, como o filme mais bem acabado que Craven já entregou para a Sétima Arte: consegue atingir, confortavelmente, um meio termo entre a violência exploitation de Aniversário Macabro e Quadrilha de Sádicos, o roteiro bem bolado inteligente de A Maldição dos Mortos-Vivos e a acessibilidade de Pânico.

A história real de um moleque de um pais asiático que teve um sonho tão horrível que morreu dormindo convergeu para a idealização e criação de Fred Krueger – e poucas vezes, o subgênero slasher teria outro vilão com um conceito tão original e um background que realmente funciona, ao invés das muitas besteiras e incorências da história de, por exemplo, Jason Vorhees em Sexta-Feira 13. John Carpenter em Halloween – A Noite do Terror já tinha avisado, ora bolas: se você não tem uma história realmente boa na mão, então não explique muito.

Craven segue esse recado de uma forma muito funcional: pouco sabemos além do básico, que Krueger era um pedófilo psicótico que foi queimado vivo pelos moradores da Rua Elm, e então volta para vingar-se, queimando seus filhos. O fato de todos os pais terem relações problemáticas com suas proles, apesar de ter certo valor semiótico, tem um valor muito maior na história – Craven cria um suspense incrível quando exibe o assassino de todas as formas – nas sombras, esticando os braços, nos corredores de uma escola, se auto-mutilando, deformando o tempo espaço – e deixa o grupo protagonista de adolescentes e o espectador ilhados sabendo que aquela história só pode ter um desfecho dos mais cruéis – não quando você está sozinho, não quando ninguém acredita em você, não quando você tem que ficar acordado o tempo inteiro. Se o ser humano tem medo do desconhecido,  o medo que ele tem da solidão é mito maior.

Aliás, é nessas cenas de pesadelos que Wes se realiza como um cineasta, distorcendo tempo, espaço, realidade e sonho ao seu bel-prazer – desde o início, em que closes de uma garota perdida em algum lugar desconhecido e todo branco chocando-se contra imagens de mãos deformadas por fogo fabricando uma luva cheia de navalhas até a impressionante morte em que a mesma garota, mais para frente, é arrastada pelas paredes e tetos e é retalhada impiedosamente, entedemos então qual é a do Craven e pensamos que, sim, ele merece estar naquela galeria de “Masters of Horror” – poucas vezes um cineasta conseguiria aliar instintos violentos e delírios aterrorizantes de forma tão tensa e marcante e, ainda por cima, saber vender o seu produto de modo a tornar o filme e a mitologia ícones da cultura pop.

Esqueça todas as bobagens posteriores, esqueça o fantasminha da mãe de Krueger, esqueça Fred se materializando no mundo real, esqueça garotas telepatas combatendo o vilão, esqueça ele renascendo através de um útero zoado. Esse sim, é o verdadeiro pesadelo na Rua Elm.

4/5

Ficha Técnica: A Hora do Pesadelo (A Nightmare On Elm Street) – 1984, EUA. Dir.: Wes Craven. Elenco: Robert Englund, John Saxon, Johnny Depp, Ronee Blakley, Heather Langenkamp, Nick Corri, Amanda Wyss

last house on the left

– por Bernardo Brum

Quando se distanciou do mundo do cinema e passou a dirigir séries de televisão e peças de teatro,  a desculpa dada por Bergman era que estava horrorizado com a baixeza atual do cinema. Sempre me pergunto se um dos motivos principais foi ter visto o que um certo cineasta americano fez usando a história que o sueco havia criado para o filme A Fonte da Donzela

Pois é, Aniversário Macabro transforma uma clássica história de sofrimento, dor e tristeza em um autêntico exploitation sujo, brutal e doentio. Na cadeira de direção, Wes Caven, um dos mais malucos cineastas do gênero e que, com o passar dos anos, iria progressivamente amolecer e passar a dirigir filmes mais levinhos como a trilogia de terror teen Pânico e o draminha água-com-açúcar Música do Coração, e é claro, criaria o vilão Freddy Krueger e dirigiria o primeiro filme da série do psicopata dos sonhos, A Hora do Pesadelo.

Mas lá pelos idos do começo dos anos 70, o papo era bem diferente. Junto ao produtor Sean S. Cunningham (que, anos mais tarde, criaria a mais rentável cópia de Halloween – A Noite do Terror, Sexta-Feira 13) e egresso da pornografia (como tantos outros cineastas do seu período que passariam a ser mais cohecidos como grandes potências do cinema americano – como Abel Ferrara, só para citar um exemplo), Craven acabou sendo reconhecido como um dos cineastas mais extremos da época. Outros filmes que iria dirigir, como Quadrilha de Sádicos e declarações que ele próprio não aguentava assistir seu debut no cinema de horror só serviram perpetuar a lenda.

A história de Bergman é subvertida logo nos primeiros cinco minutos, aonde a inocente protagonista de seu filme é transformada numa libidinosa moça típica do estereótipo daquele década. Ao invés de ir levar velas para a igreja, ela sai com uma amiga no seu aniversário para ir num show de rock e comprar maconha. Ao invés de encontrar pastores pagãos, ela é estuprada e assassinada por uma gangue clichê de psicopatas lideradas pelo amedrontador Krug Stillo (interpretado pelo ator David Hess, dono de uma expressão de psicótico-demente poucas vezes igualada).

Essas são as premissas básicas para um filme nem um pouco sutil e praticamente sem concessões. Não adianta desviar os olhos da violência para outra coisa, já que aqui, a violência é a mola-mestra da película. Ela que dita a estética suja e doente, a edição meio Peckinpah e a história, que se não é muito original, deixa pra lá a história de vingança, culpa e redenção do filme original e pega os pais da protagonista para revidarem de forma igualmente animalesca.

Aniversário Macabro é um exploitation por excelência, e as próprias aliviadas que o cineasta dá só acabam atrapalhando tudo – tipo a inserção de uma dupla de policiais palermas que passam grande parte do filme em trapalhadas à lá Os Três Patetas enquanto o pau come solto e rolam estupros, desmembramentos , assassinatos  e humilhações mil. Assim como a apresentação dos antagonistas – caricata demais para se levar a sério e óbvia sacanagem do diretor para com o espectador – que acabam deixando o filme, no final das contas,  sem todo o impacto que poderia causar.

Mas mesmo com o pézinho na auto-esculhambação desnecessária, não se deixe enganar – o filme é pauleira pura que compete de igual para igual com qualquer um dos clássicos hiperviolentos da época. O ato final é um dos mais malucos e alucinados que o filão poderia oferecer – inclusive inaugurando o uso de uma motoserra no cinema de horror  antes de Leatheface e Tobe Hooper a popularizarem de forma definitiva.

Histórico-socialmente falando, o filme é um reflexo da sua época – uma época desiludida, onde os Estados Unidos voltavam desiludidos da guerra do Vietnã, o tráfico de heroína subia de forma vertiginosa, ocorriam o escândalo de Watergate, a era hippie chegava ao final com Altamont e os brutais assassinatos da Família Manson e o mundo se via numa época que, a qualquer minuto, poderia acabar nas cinzas de uma fogueira nuclear. Com isso, nem dava para fazer algo mais elaborado – a urgência e o sensacionalismo eram o que ditava os filmes. Com isso tudo, o grito de Craven foi mais do que válido. Tanto que, até hoje, continua sendo impressionante.

3/5

Ficha técnica: Aniversário Macabro (Last House on The Left) – 1972, EUA. Dir.: Wes Craven. Elenco: Sandra Peabody, Lucy Grantham, David Hess.