por Bernardo Brum

Uma das primeiras vezes que Cronenberg se aventurou em filmes mais narrativos (ou você entendeu alguma de Crimes do Futuro?), Calafrios tem aqueles defeitos típicos de iniciante: excesso de planos abertos, pouca elaboração da profundidade de campo, direção de atores mal trabalhada, cortes lentos, e assim vai. Mas isso não é um demérito imediato: aqui já temos os primeiros rascunhos de estilo que o diretor iria evoluir espantosamente em pouco tempo, e a história se mostra minimamente interessante para se acompanhar até o final.

O filme faz jus à fama de doentio do diretor: quando entram os poucos closes e planos detalhes, são cenas escabrosas e repulsivas. O hotel ilhado no meio do nada irá ruir pouco a pouco suas noções de civilização: os parasitas liberados por um cientista louco no hotel tem por objetivo extravasar toda a violência e sexualidade que o ser humano reprimiu durante anos. Tudo isso vem de uma forma trash (o bom trash: barato, assustador e com algumas segundas análises a serem consideradas) quase exploitation, repleto de diálogos duros e pouco naturais, mas acima de tudo, o conceito se mantém eficiente.

Afinal, se Romero tratou do tabu do  canibalismo, Cronenberg, com seus zumbis sexuais, marcou época entre os fãs de cinema “B” (de “Better”, como diria Bruce “Ash” Campbell) ao analisar o contraponto psicológico entre consciência e instinto de um jeito sangrento, direto e objetivo. A violência nunca vem só em um filme do canadense : é de um psicologismo perturbador, como nos melhores filmes de Lynch e Polanski; e é abusivamente agressiva ao corpo humano, como Tobe Hopper e Lucio Fulci em seus estados de graça. O cinema de Cronenberg deforma e ataca mente e corpo para só então analisar os escombros ao seu bel-prazer. E é essa violência conceitual que vem chamando a atenção e provocando os paradigmas há quase quatro décadas. E E Calafrios era só um dos primeiros passos de uma carreira nada menos que brilhante.

3/5

Ficha técnica: Calafrios (Shivers) – Canadá, 1975. Dir: David Cronenberg. Elenco: Barbara Steele, Joe Silver, Paul Hampton, Lynn Lowry, Allan Kolman, Susan Petrie


por Bernardo Brum

Antes de mais nada, é necessário ressaltar a provocação genial de David Cronenberg: não muito tempo após ser criticado por causa do conteúdo temático do predecessor Calafrios, taxado por certos críticos de “pornográfico”, o canadense ao invés de se dobrar às linhas deles chama uma das maiores estrelas dos filmes hardcore da época – Marilyn Chambers – para atuar como protagonista do seu grande filme setentista, Enraveicida na Fúria do Sexo.

Com uma câmera bem mais apurada tecnicamente falando e um orçamento um pouquinho mais gordo, Cronenberg foi mais incisivo ainda – deixando claro para os críticos que repudiaram sua obra anterior que seu cinema não era feito para ser sutil e, querendo eles ou não, a grande potência do horror canadense iria mostrar sua visão de terror, direto na veia: David antecipou todo o clima de desespero das décadas seguintes – que sofreram com a ressaca do espírito hedonista setentista que desaguou doenças sexuais e a paranóia conseqüente – ao contar novamente uma história de um vírus que se espalha através da troca de fluidos corporais e torna os parasitados criaturas violentas e explosivas. Ainda que revestido pelo manto de filme “gore”, fica claro o recado: impossível não se sentir ameaçado

Rose, a quem Marilyn Chambers encarna, é a primeira a apresentar os sintomas, tendo relações sexuais e matando seus parceiros sexuais, mas ela própria é imune ao vírus. Ao contrário dos contaminados que perdem toda a racionalidade, a viúva negra sai à caça em uma cidade movimentada para beber sangue e disseminar o vírus.

É daí que o diretor tira imagens violentíssimas em seu grafismo de preocupação cirúrgica. Se existem dois medos (e portanto, dois fetiches e tabus que fascinam indivíduos, justamente, como um vírus) enraizados em nossa condição são  os temores pela violência física e sexual.  Quando o prazer é posto em risco, a própria disposição para o ato de reproduzir também. O jogo de dominação e submissão é invertido pelo diretor: a fêmea despedaça os machos e os devolve à condição de feras soltas em plena metrópole. Cria-se então, um jogo entre os que liberaram os seus instintos e aqueles ameaçados por demais para conseguir liberá-los.

Preocupação típica do diretor, a sexualidade e a carne jamais podem ser separadas do fator psicológico. Como muitos diretores dos anos setenta, Cronenberg fazia um terror com uma adesão mais realista: deixava de lado os espíritos e demônios e iria mexer com mutações, aberrações, disfunções e perversões. Para que recorrer à espiritualidade se o ser e o corpo humano já eram tão assustador?

E ele sempre mete o dedo na ferida com sua narrativa pouco convencional, altamente sexualizada (até esmo para os dias de hoje) e seus momentos violentíssimos acompanhados com a calma e  a passividade de um monge: não adianta tentar polemizar, pois isso mora em todos nós. Obcecado em destruir as convenções de corpo e ego, o canadense estuda o instinto, a obsessão, a busca pelo orgasmo (ou êxtase) perfeito: algo que está dentro de cada um de nós desde o início da civilização e que sempre procuramos repreender.

Exercício de estilo amadurecido que representa um artista que já havia definido seus objetivos: o corpo humano e toda a sua complexidade intimidante. E para isso, criou um cinema tão intenso quanto. A arte de David é a pura “psicologia do açougue”: se você vai estudar um cérebro, escalpele o topo da cabeça primeiro.

4/5

Ficha técnica: Enraivecida na Fúria do Sexo (Rabid) – Canadá, 1977. Dir: David Cronenberg. Elenco: Frank Moore, Susan Roman, Joe Silver, Robert A. Silverman, Marilyn Chambers, Howard Ryshpan, Patricia Gage