on dangerous ground

– por Guilherme Bakunin

Em meio carnaval é impossível não refletir sobre como algum tipo de condição marginal pode ter sua virtude; porém, é bastante óbvio que nós, enquanto humanos, enquanto seres sociais, dificilmente poderemos viver afastado das pessoas. O que se seguiria após um autoisolamento provavelmente se relacionaria com depressão, loucura, efermidade. Pensando sobre isso, eis aqui um compêndio de dez filmes que trabalham principalmente sob a ótica da marginalidade, dos homens e mulheres que não se enxaixam e que, talvez por isso, se inserirem em histórias de crime. Ilustrando o post, Cinzas que Queimam, de Nicholas Ray, que também explora desajustados/isolados sociais num plot de crime, mas que, por pouco, não entrou no top.

hanabi

10. Hanabi – Fogos de Artifício (Takeshi Kitano, 1997)

“Mesmo sendo dois personagens depressivos, cada um lida com suas angústias de forma diferente. Horibe, após ser abandonado pela esposa e pela filha, agora se dedica à pintura (na verdade, obras pintadas pelo próprio Kitano). Belíssimas obras surrealistas fundindo flores, pessoas, fogos de artifício, fundos de cores absolutas, formas criadas por pontilhados ou por ideogramas, que ao longo do filme tornam-se cada vez mais melancólicas. Nishi, porém, torna-se cada vez mais violento e imprevisível, agredindo, roubando e matando sem piedade alguma. Só mostra ternura de verdade com a mulher, praticamente não demonstrando impaciência com ela.”

o homem que copiava

9. O Homem que Copiava (Jorge Furtado, 2003)

O filme direciona sua atmosfera na noção de que o mundo é um lugar repleto de mediocridade e apenas através da contravenção, da subversão, um zé ninguém pode quebrar a ordem do status quo e se libertar da miséria cotidiana. Embora o final seja feliz, por grande parte de O Homem que Copiava, o protagonista (Lázaro Ramos) é completamente marginal, raramente expressando empatia, felicidade, tristeza; uma pessoa tensa e lacônica vivendo em um mundo frio e distante.

drive

8. Drive (Nicolas WInding Refn, 2011)

Drive significa dirigir, mas poderia muito bem significar viver. O motorista está em sina de continuar perpetuamente dirigindo a lugar algum, apenas para sempre ser obrigado a encarar o fato de que ele não pertence, realmente, em lugar nenhum. Muito como os heróis de Two-Lane Blacktop (Monte Hellman, 1970), o motorista usa do silêncio para manter-se às trevas e ergue-se como enigma, aos personagens que os rodeiam e àqueles que o assiste.

shoot the piano player

7. Atirem no Pianista (François Truffaut, 1961)

Truffaut de certa forma costuma trabalhar com personagens marginalizados, mas aqui as coisas estão em níveis estratosféricos. O pianista, assim o motorista do filme anterior, tem sua identidade em sua profissão apenas porque recusa-se a revelá-la por completo. Entre beberrões e prostituas, o pianista, outrora erudito, se conforta na certeza de que apenas na marginalidade o homem pode encontrar pura felicidade; a mais pura que se tem notícia, pelo menos.

double indemnity

6. Pacto de Sangue (Billy Wilder, 1945)

A marginalidade desfarçada, típica dos noirs de Billy Wilder. Um vendedor e uma socialite se reconhecem, num roteiro do inigualável Raymond Chandler, enquanto perdedores e desesperados, que anseiam por uma vida que não é a deles.

a perfect world

5. Um Mundo Perfeito (Clint Eastwood, 1993)

O herói, aqui, é um psicopata truculento, mas que encontra redenção ao conectar-se afetivamente com um garoto, cuja inocência maltrapilha o atinge em cheio nas sensibilidades. Os dois, a criança marginalizada pelos pais e o bandido marginalizado pelas escolhas do passado partem em uma road trip rumo à uma compreensão mais ampla a respeito do mundo e das pessoas. É um filme sobre marginais, porém do bem.

badlands

4. Badlands (Terence Malick, 1973)

Já aqui a marginalização não é nem maldosa, simplesmente apática e amoral. Os heróis de Malick aqui dificilmente são capazes de sentir qualquer coisa; completos psicopatas que matam com a mesma força expressiva como comem um sanduíche. É como se ao longo das curtas vidas do jovem casal principal, eles tivessem sido tão renegados e entediados pelo cotidiano, que o desprezo transformou-se em total indiferença.

le samourai

3. O Samurai (Jean-Pierre Melville, 1967)

Melville cria aqui o neonoir definitivo; e Delon o protagonista mais adequado para essa expressão. O espectador não segue mais os passos de um detetive, que atua por dinheiro mas através de um código moral amplamente relacionável: seguimos um matador de aluguel, que atua através de uma ética específica, sem jamais expressar remorso ou arrependimento, ou qualquer outra coisa, na verdade. A marginalização do matador de aluguel interpretado por Delon ocorre no sentido de que, aqui, existe um homem em autoexílio, que por algum motivo se descarrilha de uma lógica social de envolvimento e aproximação com outras pessoas, e busca sobrevivência através do total isolamento corporal e espiritual.

 Bring me the head of Alfredo Garcia

2. Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia (Sam Peckinpah, 1974)

Peckinpah é um marginal por excelência. Um cineasta beberrão e truculento, uma pessoa absolutamente desprezível no set de filamgem, mas que fez grandes e revolucionários filmes em hollywood, sempre on-the-edge-of-the-system. Alfredo Garcia é uma epopeia de derrotados, onde um pobre herói imundo cruza um país para violar um túmulo e coletar a cabeça de um bronco que manchou a honra de um senhor de terras mexicano. Na medida em que as moscas se aglomeram ao redor da cabeça ensacada e apodrecida, Bennie se vê cada vez mais sem a expectativa de uma desmarginalização, e o martírio (um que não entrará para a história, um que não possui grande importância) torna-se sua única esperança.

ariel

1. Ariel (Aki Kaurismäki, 1988)

O grande filme de Kaurismäki, o diretor filandês que, repetidas vezes rejeitou a mera indicação a prêmios internacionais como Oscars. Ariel é um grande romance, uma história idílica de esperança e amor de pessoas pobres e desajustadas, que conseguem, através de grande sacrifício, conciliar amor, família e trabalho. É, na minha opinião, o grande filme a respeito de marginalidade, porque ao contrário da maioria (inclusive a maioria que consta nesse top), é repleto de um otimismo paroquial. Os marginais aqui, assim como Kaurismäki, recebem com satisfação esse rótulo. Não é tanto uma condição social quanto um estilo de vida, uma escolha pensada, que reflete ao mesmo tempo quem são, esses personagens (e quem é esse diretor) e o que o mundo e as pessoas têm a oferecer para eles.

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– por Guilherme Bakunin

Os pilares sociais americanos são aniquilados pela subversão religiosa de uma família no interior dos Estados Unidos: eles não participam do Halloween. Ora, isso é um quase pecado para pessoas que são tão cegas pela tradição e que se recusam a deixar morrer o corpo doente de um país enfermo. O que a família de Phillip não percebe é que não se pode escolher. Eles serão obrigados a brincarem com o velho jogo do horror dos doces ou travessuras. O doce é a suculenta vagina religiosa da mãe e quem pede não é uma criança fantasiada, é um bandido de verdade. A mãe lhe devolve gelo, e repulsa. Então os bandidos optam pela  travessura. Butch e Terry Pugh são dois condenados que escapam da prisão no dia primeiro de novembro, logo após o Halloween. Eles procuram por carros para roubar e acabam dando exatamente na mesma casa que nós conhecemos no começo do filme – a de uma família de testemunhas de Jeová. Com o tumulto dos vizinhos, e a polícia bem perto de chegar, os bandidos sequestram Phillip e partem sem rumo para qualquer lugar na esperança de concretizar a escapada.

Abrem-se então as cortinas  para a história que Clint realmente deseja contar. Não se trata de um thriller envolvendo um sequestro de uma criança pois, na verdade, Phill não é de fato um cativo; por diversas vezes ele mesmo escolhe acompanhar Butch. Na verdade, Um Mundo Perfeito tenta falar sobre o conflito humano entre essas duas figuras tão díspares. Um quarentão condenado por assassinato e um garoto de seis anos testemunho de Jeová. O contato entre os dois é quase que uma abertura de um portal de viagem no tempo, já que podemos dizer que é o mesmo homem em dois momentos de sua vida. A infância, onde os traumas se instauram e onde o caráter é fatalmente moldado para a solidão; e a fase adulta, onde as consequências pelos pecados que ele não cometeu, mas que foram-lhe atribuidos são marcadas na flor da pele. É por esse ponto em comum que os dois sentem a necessidade de estar na companhia um do outro. E se agarram, na esperança de alguém que lhes compreenda, que lhes estenda a mão, em  um mundo tão imperfeito.

Não me interessa aqui se abordagem é melodramática demais. Um Mundo Pefeito é um melodrama existencial cabal, e não abre espaço para sorrisos ou esperanças. Antes, fada seus personagens a um futuro pessimista e necessariamente traumático, conturbado. As marcas de criação estarão latentes, apenas esperando o despertar da memória relacional. Tomemos como exemplo o segmento que dá início ao terceiro ato do filme, quando Butch e Phill vão parar na casa de uns fazendeiros negros. O homem covarde abusa de seu filho e isso desperta em Butch uma nostalgia dolorosa. Ele se torna imediatamente um psicopata, condição engatilhada por abusos que ele mesmo sofreu no passado. A intensidade dramática desse arco é sentida pelo espectador, pelo menos naqueles que ainda se permitem sentir ao ver um filme, graças ao esforços perspicazes de Eastwood para contar a história sempre do melhor jeito que ela pode ser contada. É através da sucessão de fatos e diálogos que compreendemos que Butch sofreu com a opressão de um sistema – no caso o familiar – da mesma maneira que Phill também sofre. É através da astúcia para contar essa história de forma lenta, direta e simples que o terceiro ato desse filme se torna um negócio extremamente épico, monumental. Barreiras do tempo são destruídas ali quando Phill toca o bandido, como reconhecimento de sua bondade e inocência. O sequestrado entende tudo o que o bandido passou e se sensibiliza com essa tragédia.

Quando Butch, ferido por Phill, tenta escapar da polícia, após libertar o garoto, este retorna para o bandido. Existe ali um único momento de bondade no filme. Um único momento de perfeição. Quando uma pessoa compreende a alma da outra e assim elas se conectam, o estado mais puro da sociedade se instaura. Família, poder,dinheiro, essas coisas tornam-se momentaneamente dispensáveis ao Homem e apenas a presença do outro deve bastar. Acho que esse deve ser o mundo perfeito do qual o filme faz referência. Não é bem isso, mas eu também não saberia como colocar. Me enxergo muito mais no Clint, interpretando Red Garnett, o policial responsável por mandar Butch adolescente a um presídio de menores. Ele já simplesmente não sabe de coisa nenhuma.

5/5

Ficha técnica: Um Mundo Perfeito (A Perfect World) – EUA, 1993. Dir.: Clint Eastwood. Elenco: Kevin Costner, Clint Eastwood, Laura Dern, T.J. Lowther, Keith Szarabajka, Leo Burmester, Paul Hewitt.