– por Guilherme Bakunin

Olha, Bazin sabe que eu sou um dos primeiros a se levantar pra falar bem de Hitchcock. Não sou o primeiro, acho o diretor inglês demais pro meu top3, mas eu o amo. Ele sabe como ninguém montar um filme. Contudo, eu tenho a teoria de que por ser tão perfeito, Hitchcock as vezes falhas por não se deixar errar, vai ver por isso Frenesi é tão bom, porque apesar de ser inglês, não parece. Parece, antes, alguma coisa saída da garganta de um guitarrista de uma banda de hard rock qualquer. De Frenesi para Intriga Internacional são mais de dez anos. Aqui, o filme ainda é plenamente quadradão e não poderia deixar de ser, pois Hitchcock não investe em qualquer vanguardismo, mas utiliza das conquistas que ele mesmo recebeu nos últimos anos (estamos em 1959).

Não é pra menos que ao garimparmos pelo google encontramos pouco material pra Intriga Internacional. E quando encontramos, as pessoas geralmente rasgam elogios ao Hitch e dizem “bom suspense, boa ação”. Ora, boa ação está nos filmes do Rambo, o que não é ruim, diz meu testículo esquerdo. Mas porra, Alfred Hitchcock possui seus próprios parâmetros e resguarda suas próprias expectativas. Nem mesmo o velho comenta muito sobre esse filme, a despeito da melhor cena e mais uma que ele fez o favor de registrar pra sempre no cinema. Vocês sabem de qual eu to falando, da cena do deserto, incrível, exótica, terrivelmente apreensiva. Não existe ninguém no mundo que faria uma cena como aquela. Absolutamente ninguém. E isso deve ser reconhecido. Por outro lado, existem dezenas de diretores, diretores gente boa, não muito pretensiosos mas que sacrificam a arte da linguagem cinematográfica em prol de algo tão plebeu quando diversão, que fariam deste um filme mais agradável. Porque é justamente por ser tão pretencioso que Intriga Internacional rui.

A ideia por trás da história é interessante, a questão de nós e Cary Grant nos inserirmos no meio da história sem termos absoluta ideia do que está acontecendo também. A execução? Paia. O tom de comédia, intencional ou não intencionalmente não funciona, e simplesmente não é o apropriado. Cary Grant foi mal dirigido então alguém por favor chama o Hawks urgentemente. Ele dirigindo bêbado é vergonhoso, não só pela forma como decidiu executar aquela ação mas pela forma pragmática como o Hitchcock filmou, corte sobre corte, close-ups e fundo de retroprojeção. Gordo, vai pras ruas, pelo amor de Deus.

Os lados positivos de Intriga Internacional me parecem ser o mcguffin da Guerra Fria (se bem que existem uma imensidão de filmes que falam sobre essa guerra de 1950 a 1989);  o dedo de Hitchcock é afiadíssimo pra direção, não podemos negar. Não existe outro diretor que  executaria a cena no deserto. Um excerto que não leva o filme pra frente na história, mas é um espetáculo sensitivo pelo trabalho do espaço e das formas (percebam como a desolação do deserto só aumenta a tensão na cena, não deixando Grant opção de escapatória nenhuma diante de um avião assassino); a história tem o seu lado bacana, apesar de ser enfadonha. Um homem comum, herói máximo hitchcockiano é jogado para dentro de algo tão maior do que ele poderia imaginar. Aquela coisa de perseguição dentro de trens e taxis, aquela outra coisa de fugir através do monte Rushmore são questões inverossímeis criadas apenas para a apreciação no cinema. Ninguém liga se qualquer uma das cenas é verdade ou não. Mas a adrenalina de quando Grant é injustamente acusado de assassinato enquanto o FBI diz que nada poderá ser feito para salvá-lo, ou a vertigem  no monte são um espetáculo para o corpo do espectador, um grande prazer que Hitch nos fornece em plena uma atividade estática, passiva, como é o cinema.

No balanço final, eu fico com quem considera o filme superestimado. Meio sem tempero e com Cary Grant sendo meio irritante. O lance de dividir um vilão em três é uma jogada inteligente, mas eu não saberia elogiar muito mais além disso. Talvez na década de setenta Hitchcock trabalharia melhor com o material, talvez não. Não considero, portanto, um filme indispensável dentro da vasta filmografia do velho, e acho apenas médio. Certamente o Hitchcock é um dos diretores mais corretos pra se trabalhar em qualquer tipo de filme; certamente ele tem mais de vinte filmes ruins. Mais certo que isso, contudo, é que existem mais ou menos dez obras espalhadas por entre  as décadas que, com a escusa da opinião, sem inquestionavelmente engenhosas, geniais. Quem faz Um Corpo Que Cai ou Janela Indiscreta tem a licença do cine cafe pra não ser perfeito sempre.

2/5

Ficha técnica: Intriga Internacional (North by Northwest) – EUA, 1959. Dir.: Alfred Hitchcock. Elenco: Cary Grant, Eva Marie Saint, James Mason, Jessia Royce Landis, Leo G. Carrol, Josephina Hutchinson, Philip Ober, Martin Landau, Adam Williams, Edward Platt, Robert Ellenstein, Edward Binns.

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– por Luiz Carlos Freitas

Tido por grande parte dos críticos hoje em dia como o “herdeiro” de Hitchcock, Brian De Palma, longe de comparações e aproximações entre os dois, faz jus ao título que carrega. Começou a ser notado nessa “empreitada” em 1973, com Irmãs Diabólicas, seu primeiro thriller de maior reconhecimento, e desde então não parou mais. Em 1976 fez sua versão (livremente adaptada) de Um Corpo que Cai no excelente Trágica Obsessão, chegando à sua maior (e mais descarada) homenagem até então: Vestida Para Matar, em 1980, onde De Palma transporta Psicose para NY e substitui o chuveiro por um elevador.

Entretanto, ainda estava por vir aquela que seria sua definitiva “declaração de amor” ao mestre do suspense. Dublê de Corpo engloba as duas maiores obras-prima do inglês: o já citado Um Corpo que Cai e Janela Indiscreta. E aqui ele vai muito além das meras referências.

No filme, Craig Wasson é Jack Scully, um ator fracassado de filmes B que, após ser demitido, flagra a esposa na cama, com outro. Deprimido (sem mulher e o emprego), vai a testes para um novo filme e lá conhece Sam (Gregg Henry), também ator, que comovido pela situação do “novo amigo” o oferece a oportunidade de se hospedar na casa que ele tomava conta para um colega, uma luxuosa mansão com uma belíssima panorâmica da (nobre) vizinhança.

Sam aponta a Scully o que seria o melhor daquela belíssima vista: uma luneta direcionada à mansão de uma vizinha, a deliciosa Glória Revelle (Deborah Shelton), linda, rica e que inexplicavelmente faz todas as noites, no mesmo horário, um striptease na janela de seu quarto. Coincidentemente, naquele exato momento, ela acabara de começar o seu “show noturno”. À partir dali, Scully se entrega à uma fissura voyeur que em pouquíssimo tempo rompe a linha entre a admiração e a obsessão.

Após observar o espetáculo da noite seguinte, ele percebe que não é o único a observar a bela vizinha e, desconfiando das [más] intenções do outro indivíduo que a cerca, passa a seguí-la, iniciando uma investigação por contra própria a fim de descobrir o que aquele homem misterioso que admirava Gloria do jardim de sua casa queria.

Não precisa ser um gênio para descobrir as referências a Janela Indiscreta (e também que isso não vai acabar muito bem para nosso protagonista). Após uma breve investigação (com um desfecho bem trágico – e até mesmo inesperado, diga-se de passagem), a trama dá uma guinada completa, em uma reviravolta que leva Scully a adentrar na indústria da pornografia, buscando em Holly Body (Melanie Griffith, no auge de sua beleza) as respostas a toda aquela situação e encontrar quem estava por trás daquela armação toda.

O grande mérito do filme é sair da homenagem pura e simples a Hitchcock e, por meio desses dois clássicos, se transformar em uma verdadeira salada de referências, não só ao diretor inglês, mas ao cinema como um todo, seus estereótipos e “dogmas”.

Ao mesmo tempo em que De Palma mantinha em Scully a essência de Jeff (personagem de James Stewart em Janela Indiscreta), carregando as características básicas dos heróis Hitchcockianos, com sua simplicidade e certa inocência, o que o tornava completamente suscetível às tramas dos vilões (fazendo uso, inclusive, de sua mania de perseguição) e de Scottie (personagem de Jimmy, em Um Corpo que Cai), que se deixa seduzir pelos encantos de uma bela e misteriosa mulher, Gloria (e um trauma que desencadeia sua fobia) – elementos estes definitivos para entendermos como os acontecimentos se desencadearam e o rumo trágico que tudo tomou.

Ele faz de Scully uma junção desses dois personagens, em alguns momentos, às avessas, fazendo do protagonista [também] uma verdadeira desconstrução do arqueótipo do herói que eclodia à sua época: um ator de filmes B (grandiosidade do cinema? Não mesmo!) desempregado, enganado pela mulher (nem mesmo tinha onde morar – além de traído, é expulso de casa – que nem era dele, mas de sua ex), além de ser claustrofóbico, o que acabava atrapalhando-o em seu trabalho (logo nos primeiros minutos do longa ele perde o papel principal de um filme no qual trabalhava por ter tido uma crise ao filmar uma cena em que precisava ficar preso num caixão).

Essa desconstrução parte de dois pontos relativos às obras em que o filme se baseia. Enquanto, em Um Corpo que Cai, os medos de Scottie afloravam nas alturas, os de Scully vinham “de baixo”. Um dos maiores clímax de Um Corpo que Cai (a primeira crise de vertigem de Scottie), logo no início do filme, em Dublê de Corpo é transferido ao final, e o alto de um prédio é substituído por um buraco (uma cova para ser mais específico). É o ápice da canalhice (sim, isso foi um elogio) do De Palma. O glamour da Hollywood da década de 50 (tida por muitos como a “Era de Ouro” do cinema) é substituído por um buraco que se transformava num imenso precipício (o que ouve-se falar da década de 80 para o cinema, mesmo?).

Ademais, poderia dedicar parágrafos e mais parágrafos só para elogiar a parte técnica, mas isso serviria somente para cair em redundâncias. Todos os filmes do De Palma após Irmãs Diabólicas têm um aspecto técnico invejável, mesmo nos mais fracos (a fotografia e os travellings iniciais de Dália Negra são um deleite – já o filme como um todo, é melhor nem comentar). Sem falar na sua grande habilidade para dirigir cenas de tensão com forte impacto no espectador. Não há um filme do De Palma que não tenha pelo menos uma cena de ação de prender a atenção e nos fazer suar (como as fantásticas sequências do assassinato e de sua revelação mostrada por vários ângulos diferentes em Olhos de Serpente).

Aqui, há o que ele sabe fazer de melhor em termos de “peripécias” com a câmera, edição e uso de trilha (mais um ótimo trabalho de seu parceiro de longa data, Pino Donaggio). Os planos da perseguição no shopping e seu desfecho na praia (a cena do beijo em que a câmera faz circulares em volta dos dois é uma cópia explícita e cara de pau do beijo em Um Corpo que Cai – sim, novamente afirmo que fiz um elogio) constituem um dos melhores momentos de toda a sua carreira, perdendo apenas para o tiroteio nas escadarias da estação de trem em Os Intocáveis (1987) e toda a sequência do acidente – e de sua reconstituição – em Um Tiro na Noite (1981).

A trama, como já foi dito, apesar de assumidamente “cafona”, não deixa a desejar em momento algum, tendo tanto um desenvolvimento de fácil assimilação a quem procura apenas um bom filme de suspense como elementos e sacadas metalinguísticas para deleite dos cinéfilos mais afoitos. E impressionante como, mesmo tendo uma solução bem simples, a revelação não se faz completamente evidente até os momentos finais (e olhe que logo no meio do filme as respostas já nos são jogadas praticamente “na cara” – vide o trocadilho genial com o nome da personagem da Griffith).

Infelizmente, da mesma forma que Vestida Para Matar (outra obra-prima inconteste), e boa parte de seus trabalhos, Dublê de Corpo foi duramente massacrado pela crítica à época do lançamento e seu reconhecimento só veio bem mais tarde do que deveria (e, mesmo assim, ainda não à altura). Além das retaliações às cenas de alto teor sexual (que nem chegam perto do que o De Palma realmente pretendia – reza a lenda que ele queria lançar uma versão “X-Rated”, com uma famosa atriz pornô americana interpretando a Holly Body) criticaram a violência em alguns momentos (lembram da motosserra em Scarface? Bem, agora é a vez de uma enorme furadeira). Porém, o mais revoltante foi baterem tanto na tecla do filme ser “plágio de um cineasta mais famoso”. É, definitivamente a ‘crítica’ não entendeu o filme.

De sua filmografia, meus preferidos ainda são os já citados Os Intocáveis e Um Tiro na Noite (estes alternando o topo à cada vez que os revejo). Entretanto, chega a ser um completo desrespeito não reconhecer a grandiosidade deste aqui. Desrespeito não só com esse grande diretor (sim, o De Palma é um dos que podemos chamar de brilhante sem receios, mesmo com tantas “escorregadas” em sua filmografia), mas com todo o cinema que esta obra-prima procura homenagear do seu primeiro ao último frame.

5/5

Dublê de Corpo (Body Double) – 1984, EUA – Dir.: Brian De Palma – Elenco: Craig Wasson, Melaine Griffith, Greg Henry, Deborah Shelton.

– ou aqui: Dublê de Corpo (Brian De Palma, 1984) – Guilherme Bakunin [5/5]

Alguém me Vigia

– por Guilherme Bakunin

Em 1978, John Carpenter dirigiu uma das suas obras mais aclamadas, Halloween – A Noite do Terror. O que nem todos sabem é que o cineasta tem, no mesmo ano, um filme perdido. Escrito originalmente para o cinema mas feito para a televisão por motivos que ninguém até hoje sabe ao certo, Alguém Me Vigia é uma obra-prima. Em absolutamente nada fica devendo algo pra qualquer outro bom filme do gênero e qualquer outro bom filme do diretor.

Ao receber uma ligação de um perseguidor, Elizabeth, em desespero, se joga da janela do apartamento 4320 e comete suicídio. Algum tempo depois, Leigh Michaels, em fuga de Nova York devido a um amor não correspondido, compra o mesmo apartamento. Começa, pouco a pouco, uma perseguição psicológica que leva Leigh à beira da loucura e que irá explorar vertentes idealizadas por Hawks e Hitchcock, num suspense que é caótico e bastante psicológico.

Uma das belezas do filme está em sua base, sua construção. Não em relação aos plots mas aos personagens que fazem parte dele. É impossível não lembrar do Hitch, quando vemos em um filme personagens tridimensionais, com sentimentos e ‘issues’, que as vezes não são bem explorados mesmo, não por preguiça de quem escreve ou dirige, mas porque a vida não nos permite isso, até porque, a história é sempre contada de um ponto de vista particular da protagonista. Esta, inclusive, tem um desenvolvimento impressionante. Saiu de Nova York por uma decepção amorosa, tenta a vida em Los Angeles como mulher forte, madura e independente que é e encontra uma outra paixão, que de certa forma vai apoiá-la no mar de tortura – sempre psicológica – que está à sua espera. Durante boa parte do filme Leigh fala sozinha; está só, numa cidade estranha, em luta constante contra um psicopata e, além de tudo, foge de seus fantasmas individuais. Ainda sim, mantêm-se obstanada durante boa parte do ‘acontecimento’. Um desenvolvimento de personagem notável e muito bem realizado.

É claro que é um filme tecnicamente delimitado, por ser um trabalho da televisão. Mas quem está por trás das câmeras é John Carpenter, mente criativa. Ao invés de pirotecnia e ação, Carpenter cria um ambiente, uma atmosfera, trabalha com suspense ascendente, sem jamais deixar o ritmo cair, mesmo quando envereda pelos caminhos que dão sustância à persona de seus personagens.

É notável também perceber que o filme possui dois pontos de pico, ambos copiados de Janela Indiscreta. Não se trata de uma crítica, mas de uma observação. Tomando como base a maior e uma das mais influentes obra-primas de Hitchcock, cria um trabalho parecido, mas autoral. O primeiro pico, ocorre via telescópio no 4320, o segundo, no mesmo apartamento, numa cena caótica, megalomaníaca, remete a Um Corpo que Cai, a Psicose, a Os Pássaros e ao caralho a quatro, simplesmente porque é um clímax que todo o filme de suspense deve ter e que poucos – como vários do mestre gorducho – conseguem ter. O final é magnífico, o desenvolvimento é inteligente e o início é empolgante, créditos criativíssimos que delimitam e apresentam perfeitamente o campo de ação.

Alguém Me Vigia firmou-se, pela sua qualidade e mesmo sendo um trabalho para a televisão, pra mim, como o filme mais fantástico de John Carpenter, que é, por sua vez, um cineasta autoral, criativo e independente do mercado, que se destaca, com toda certeza, em todos os cenários de gêneros que representa. A versatilidade do mestre é evidente, o talento pode ser visto em seu trabalho que não é passageiro, mas que se entende por quase quatro décadas de cinema fino, leve e divertido.

5/5

Ficha Técnica: Alguém Me Vigia (Someone’s Watching Me!) – 1978, Estados Unidos. Dir: John Carpenter. Elenco: Lauren Hutton, David Birney, Adrienne Barbeau, Charles Cyphers

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– por Luiz Carlos Freitas

De Palma sempre foi um cineasta de vanguarda. E apesar de notada irregularidade em sua filmografia, todos os seus filmes (até mesmo os piores) têm algum mérito, mostras de sua inventividade. Em Irmãs Diabólicas, seu primeiro filme de reconhecimento mundial, ele já dava mostras do grande cineasta que viria a ser futuramente. O filme tem um argumento bem simples, começando com um assassinato e convergindo rapidamente para uma trama mais sombria e “doente” (característica de quase tudo que o De Palma lançou na década de 70), envolvendo investigações e psicoses.

Danielle Breton (Margot Kidder) envolve-se com Phillip Woode (Lisle Wilson) e, após um jantar conturbado, com direito à briga com seu ex-marido, Emil Breton (William Finley), leva-o até sua casa onde passam a noite juntos. Na manhã seguinte, após discutir com uma mulher misteriosa (a qual descobrimos ser Dominique, sua irmã gêmea) enquanto Phillip ainda dormia, e ter uma misteriosa crise por falta de seus remédios, ela o esfaqueia brutalmente até a morte (numa cena realmente assustadora).

Entretanto, Grace Collier (Jennifer Salt), sua vizinha, assiste de tudo pela janela da frente e chama a polícia, que vai ao local mas acaba não encontrando nada, uma vez que os Emil aparece e limpa o local, tirando todas as evidências e escondendo o corpo antes que os investigadores cheguem. Grace, revoltada (e após ser chamada de “louca” pelos policiais) resolve partir pra uma investigação por conta própria.

A premissa é até interessante, no entanto seu desenvolvimento pelo roteiro deixa a desejar. A entrada efetiva de Grace na trama, com sua investigação por conta própria, faz o ritmo cair um pouco, mas nada relevante. Em suas investigações sabemos mais sobre a origem de Danielle e Dominique, além de entendermos a participação de alguns personagens importantes na trama. Suas investigações a levam (literalmente) ao inferno.

A bem da verdade, o roteiro é o que há de menos importante aqui. Com um bom argumento, porém mal trabalhado, sem os aprofundamentos de algumas questões, e até mesmo alguns furos, o grande trunfo de Sisters é ver o De Palma começando a demonstrar sua habilidade no domínio da tensão em cena, criando atmosferas de puro pavor. Fazendo uso do split screen, técnica onde a tela é “dividida” ao meio, temos o pedido de socorro da vítima após o esfaqueamento por dois pontos de vista, de Danielle, dentro do quarto, e de Grace, de sua janela, permanecendo enquanto Danielle e Emil limpam a cena do crime e Grace liga para a polícia e segue ao apartamento dos dois.

A cena é breve, pouco mais de quatro minutos, mas o suficiente para nos fazer tremer na cadeira. E são nesses poucos minutos que percebemos que o talento do De Palma para construir e brincar com situações de tensão extrema é algo realmente nato. O “pesadelo” próximo ao final é realmente assustador, sem dúvida alguma o melhor momento do filme, e figura entre os mais brilhantes de sua carreira (o desfecho na “maca” é também, fácil , um dos seus mais doentios). Além disso, pouco antes do crime, há uma brilhante edição que alterna Phillip comprando um bolo para sua nova “amada” e Danielle ao chão, em um colapso nervoso. O contraste fica ainda maior com a grande trilha de Bernard Herrmann (genialíssima, por sinal – remete bastante às trilhas dos grandes clássicos de horror da década de 50).

Outro mérito do filme é sua curta duração. Com menos de uma hora e meia, as limitações do roteiro não se fazem muito evidentes. O tempo é apenas o suficiente para permanecermos envolvidos nos acontecimentos e, completamente tensos, contando os minutos até a revelação final, que se não é das mais originais e “inesperadas”, funciona perfeitamente bem (e ainda nos guarda uma pequena “surpresa” carregada do humor negro característico desse seu início de carreira).

Destaque também às sempre presentes referências a Hitchcock, desde Danielle sentada no sofá onde o cadáver está escondido enquanto os policiais revistam sua casa (alguém lembrou do baú de Phillip e Brandon em Festim Diabólico?), passando por Janela Indiscreta (Grace e seus binóculos enquanto seu detetive revira a casa do Breton), além da mais direta e evidente de todas: Psicose (que fica bem mais clara quando temos completa certeza de quem é o assassino). À exceção de Festim Diabólico, os outros dois seriam revisitados posteriormente na filmografia do diretor (e de forma muito mais elaborada), respectivamente em Dublê de Corpo (1984) e Vestida Para Matar (1980).

Mesmo com seus defeitos, Sisters é um bom filme. Não fica entre os melhores do diretor, mas certamente é um fantástico início de carreira (que nem era tão “início” assim, já que ele havia feito outros quatro filmes antes desse) e, aliás, início de uma grande e, mesmo com tantos altos e baixos que estariam por vir, brilhante carreira.

3/5

Irmãs Diabólicas (Sisters) – 1973, EUA – Dir.: Brian De Palma – Elenco: Margot Kidder, Jennifer Salt, Charles Durning, Bill Finley, Lisle Wilson, Barnard Hughes, Mary Davenport, Dolph Sweet, Cathy Berry, Olympia Dukakis, Bob Melvin, Burt Richards, Sealo.

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– por Guilherme Bakunin

É falsa a idéia de que Dublê de Corpo é uma esmera homenagem à Alfred Hitchcock. É clara e livre e levemente inspirado em dois filmes do mestre (como todos devem saber, Janela Indiscreta e Um Corpo que Cai), mas isso não significa nem um pouco que o filme de De Palma esteja abaixo dessas grand masterpieces do Hitch. Muito pelo contrário, pois pra mim, Dublê de Corpo é (um pouco só) mais cinema. Brian De Palma, mais uma vez, avoca Hitchcock.

A verdade é que Dublê de Corpo é uma desconstrução completa da arte de filmar, dirigir e estar em um filme. Nada é realidade e nada é ficção, tudo é cinema. Jack Skully é um ator e está interpretando um vampiro num filme de baixo orçamento, até que numa cena, dentro de um caixão, Skylly tem um ataque claustrofóbico: distúrbio concedido por um trauma de infância, como iremos descobrir mais a frente. Dispensado mais cedo do trabalho, volta pra casa e encontra a mulher na cama com outro homem. Desempregado, sem casa e sem família, Skully recebe o apoio repentino de uma nova amizade. Sam Bouchard, também ator, oferece ao amigo um apartamento para morar, pra passar uns dias. No apartamento, Skully se coloca na posição ‘voyeurítica‘ do espectador, ao observar através das LENTES de um telescópio, uma espécie de show erótico da vizinha. Mais uma das poderosas metalinguagens do filme, dessa vez fundamentada pelo Janela Indiscreta, aspecto deste filme que De Palma toma para seu próprio e, com imagens poderosas, atinge o fim pretendido.

Como fim, De Palma pretendeu fazer mágica. Porque essa é a única palavra que pode descrever de fato a experiência de Dublê de Corpo. As lentes, tanto a artificial como as naturais – os olhos – de Jack Skully não visam apenas um mistério real. Estão vendo, na verdade, uma história orquestrada, nos mínimos detalhes, por alguém. Jack Skully é nós, está assistindo a um filme, uma peça preparada apenas pra ele. Esse é o primeiro reflexo. Outra atitude do cineasta em Dublê de Corpo é destruir absolutamente a realidade dentro de um filme. Nos créditos iniciais, não estamos vendo apenas um vampiro encaixotado, estamos vendo alguém filmando esse vampiro; ainda nos créditos, não é uma pradaria que se encontra atrás da logo do filme, é na verdade um painel. Essa desconstrução repetidamente feita ao longo do filme, reflete o objetivo do grande cinema do De Palma: o choque com a beleza de imagens, que não estão atadas a verossimilhança nem estão fundamentadas em qualquer base monótona e real mas estão livres para ‘viajar’, ”alargar’ e andar por onde e como quiserem. O filme, visto por esta ótica, é quase que um manual. Não de regras opressivas para se entender melhor os filmes do cineasta, mas um manual com apenas um aviso, para ser lido e relido a cada vez que se vê o nome do diretor nos créditos: liberte-se do mundo, experiencie.

Não é para menos que o filme acabe sem respostas. Isso mesmo, não há resposta para absolutamente nada. Durante a projeção, esposas traem maridos, maridos assassinam esposas, planos são milimetricamente pensados e postos em prática e nada disso possui qualquer motivação. É magnífica a ilusão que De Palma passa de estar fazendo, sim uma história no plano do ‘real’. Quando Skully liga para a polícia pra relatar o crime recém-desvendado de Sam Bouchard, por exemplo, aparentemente há um flashback que explica, através de imagens, o plot da primeira parte de Dublê de Corpo. Quase que sem perceber, o espectador acredita nesses flashes. Bom, eles são uma mentira. A mágica do diretor escandalizou-se aí, mais uma vez, e demonstrou um enorme talento do De Palma para lidar com o público de uma maneira geral, que mesmo sem estudar o filme a fundo, procurando compreender as intenções e méritos do trabalho como um todo, pode sair dessa experiência bastante satisfeito.

Dublê de Corpo é um estudo mitológico do cinema, a arte favorita de De Palma. Além de estudar a mecânica dessa arte, ele usa seu filme para refletir a condição atual as pessoas e retrata, segundo alguns com ‘condescência‘, segundo outros com imparcialidade, uma geração, suas manias, seus gostos, sua moda, etc. Beijos transformam-se em odisseias expressionistas, casas flutuam em montanhas, fantasmas falam ao telefone e nós, como espectador, só podemos admirar uma das grandes conquistas metalinguísticas que o cinema pôde nos oferecer até aqui, uma obra-prima clássica de um gênio. Um brinde, não à amizade, mas à Hollywood!

5/5

Ficha Técnica: Dublê de Corpo (Body Double) – 1984, EUA. Dir: Brian De Palma. Elenco: Craig Wasson, Melaine Griffith, Greg Henry, Deborah Shelton.