– por Bernardo Brum

Dentro todos os insanos luminares do exploitation– Takashi Miike, Ruggero Deodato, Jesús Franco, Umberto Lenzi, John Waters, entre outros – está, em um dos primeiros lugares, Joe D’amato. Uma de suas obras mais famosas, Buio Omega figura inquestionavelmente no rol das obras mais infames, odiadas, criticadas e detonadas pelos espectadores e críticos em geral. O mesmo parece não se incomodar muito com a fama, fazendo até questão de alimenta-la, já que é dono de outras obras igualmente comentadas como o terror canibal de Antropophagous e o sensacionalismo sobre o tema dos “snuff movies” de Emmanuelle in America.

Uma obra com encadeamento dramático porco, atores inexpressivos e uma maratona incansável de situações incoerentes; assim é Buio Omega, filme resultado de quando algum indivíduo realmente perturbado tem acesso a uma câmera. Você está no terreno do exploitation; esqueça das convenções cinematográficas normais; a regra aqui é sexo e violência – e no caso do filme do italiano, do que existe entre os dois. Buio Omega é uma ode à necrofilia, com um taxidermista perturbado que empalha a própria namorada falecida para poder tê-la ao seu lado para sempre.

Claro, a necrofilia fica no plano das idéias, da pura sugestão; não se trata de tesão por um defunto, mas sim de amor por um. E ódio pelos vivos – que só aparecem para serem mortos, torturados, estraçalhados, derretidos e cremados no final das contas. Só o cadáver da amada é poupado – só é violado pelos bisturis que irão retirar seus órgãos depois que a morte por doença chega. É incrível a falta de vergonha do cineasta ao invadir não só a nudez da sua personagem falecida, mas até o seu íntimo, exibindo os órgãos internos do cadáver de forma quase didática.

Tal limite entre tesão e agressão é cruzado o tempo todo – vítimas são despidas para serem estraçalhadas e então derretidas, ou são queimadas até as cinzas enquanto a câmera se ocupa de filmar partes íntimas chamuscadas. Cru e direto, simples e tosco, sem estilização específica alguma de filtros e lentes, investindo em um realismo brutal que invade os corpos dos personagens sem vergonha alguma.Quase como um álbum de splatter metal, onde técnica jamais sobrepuja a sensação geral de angústia, nojo e repulsa. A atmosfera com fedor de corpo humano é uma assinatura estilística repetida incessantemente por D’amato; nesse caso não foi diferente.

Com um fiapo de intriga, Buio Omega não passa de um grande açougue humano. Não é como as leituras que podem ser extraídas de canibalismo e vilões interioranos em O Massacre da Serra Elétrica; D’amato filma a loucura e a parafilia sem maiores reflexões por trás. É o sentimento de trangressão de um artista anticonvencional por vocação.

Nos quesitos tradicionais, é até difícil considerar Buio Omega um bom filme de verdade. Afinal, foi feito na cara, na gana e na coragem. Um homem que, em 30 anos de carreira dirigiu quase duzentos filmes, e produziu uma quantidade imensa de porcaria, com certeza não tinha a maior paciência do mundo para elaborar um discurso extremamente considerado e pensado – mas é aí que reside o ponto da questão: não é uma obra para se avaliar méritos narrativos ou dramatúrgicos. É a clássica proposta narrativa onde o que importa é a mimese, de nos levar a lugares onde nunca fomos antes – nesse caso, a um lugar onde tudo é feio, cruel e sujo. D’amato irá nos levar a um universo que não é apenas uma impressão da nossa realidade – é quase uma caricatura malvada do real.

D’amato um cineasta do choque, da impressão, profundamente sensorial, profundamente pervertido. No final das contas, ele faz seu ofício com tanta paixão que é até difícil não se impressionar com a intensidade de instintos feios e reprimidos que ele joga na tela de forma gratuita. Exploitation por excelência; o tabu deve ser encenado unicamente se for atraente de se assistir – mesmo que de forma culpada. No final, não há nada que não seja sublimado pelo clima geral de maluquice e podreira. Cinema para quem acredita que filmes de verdade não devem ter absolutamente nenhuma censura. Onde muitos tentam levar a luz, D’amato escurece. Onde normalmente há a retomada de consciência por parte dos protagonistas, há apenas mais torrentes de grafismo intrometido na câmera amoral do italiano.

Pouco preocupado com o discurso, transmissão de valores ou coisas assim, D’amato foi lá registrar suas taras mais perversas em película – e assim nascia um cinema que ainda que muitas vezes esquemático e muitas vezes nem isso, tinha uma paixão doentia pelo ofício que não tinha paralelos. Um poder de atração às partes e instintos baixos que, décadas depois, ainda é impactante – para o bem ou para o mal.

3,5/5

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masters of horror– por Bernardo Brum

Pesadelo Mortal

cigarette burns 2

Carpenter, com orçamento limitado, formato de televisão e um roteiro bastante simplório a nível de história – porém possuidor umas discussões bastante interessantes a respeito da criação cinematográfica, faz o espectador perder o fôlego durante uma hora. A direção, o ritmo e a intensidade imprimidas no filme demonstram um fôlego que parecia que o diretor tinha perdido desde A Cidade dos Amaldiçoados.

Neste episódio é contado a história de um endividado dono de cinema especialista em econtrar cópias de filmes obscuros por quantias módicas. Certo dia, é contratado por um ricaço excêntrico para encontrar a única cópia existente do filme mais perturbador que se tem notícia no universo ficcional da história, uma película francesa que atende pelo nome O Fim Absoluto do Mundo, cuja única vez que foi exibido pelo público fez o mesmo matar uns aos outros e destruir o cinema. O interesse só cresce quando o proprietário do cinema, seu ex-sogro, o ameaça de morte caso não quite a dívida.  No meio do caminho, envolve-se com o lado barra pesada do mercado negro, o lado underground e obscuro do cinema e uma série de eventos sobrenaturais. A própria obsessão do protagonista faz o mesmo lembrar-se do seu passado que envolve vício em drogas e uma namorada morta, misturando-se com uma suposta maldição que faz quem procura o filme ver “queimaduras de cigarro” (aqueles círculos tostados que projetores velhos fazem em películas expostas ao calor intenso, como também vemos em determinada cena de Clube da Luta, de David Fincher).

Homenageando tanto o cinema de segundo escalão quanto a profissão de projecionista (como a sequência em que o projecionista gordinho do cinema revela manter uma coleção de fotogramas recortados e roubados das cópias que chegam no cinema de clássicos filmes de terror), Carpenter mistura efeitos bem toscos com sequências bem perturbadoras, e também brincando com a própria forma de se montar e exibir um filme, como quando faz o próprio espectador ver as “queimaduras de cigarro” que sempre dão alguma reviravolta inexplicável na história. Afora o lado semiótico do roteiro que discute a responsabilidade e liberdade dos criadores e responsáveis pelo cinema, o episódio é uma hora inteira de sangreira, suspense e diversão ininterruptas, incluindo sequências próximas ao genial – tipo a que mistura um projetor, película, sangue e tripas. Oh, yeah!

3/5

Pesadelo Mortal (John Carpenter’s Cigarette Burns) – 2005, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Udo Kier, Christopher Redman, Norman Reedus, Gwynyth Walsh

Pro-Life

pro life 2

Será que quem é contra o aborto mudaria de idéia caso a cria de uma união forçada fosse o filho do próprio tinhoso? Sei lá. Carpenter também não sabe. Mas a idéia é tão tosca e engraçada que com certeza poderia render um filme, certo? Não? Ok!

Sem maiores discussões aprofundadas, a preocupação única é contar uma história maluca de uma jovem grávida que está correndo pela floresta e quase é atropelada por um casal de médicos amigos coloridos. Ela é levada, em estado de choque,para uma clínica de abortos, onde implora que tal procedimento seja feito. Aí, então, chega o pai dela, um bandidão perigoso impedido de chegar a menos de quinhentos metros do hospital. Ele quer que liberem a filha dela, já que uma voz sinistra, que ele acreditar ser Deus, o manda proteger o bebê. Munido de fanatismo, muitas armas e seus filhos quase tão maníacos quanto, parte para o ataque ao “matadouro”, como ele chama – e onde irá descobrir a real origem do rebento.

Enfim, é só isso, com pequenos toques de Assalto à 13ª DP e O Príncipe das Sombras, junto com uma criaturinha meio sinistra à lá Enigma do Outro Mundo. Sobra tiro, mutilação e tortura pra todo lado, inclusive um clímax muito hilário onde o capeta (um bonecão macabro que mais parece feito de látex ou papel machê) sai do hospital com o filho morto por um balaço na testa, com direito a musiquinha triste, câmera lenta e o escambau. Molecagem divertidaça do velho mestre.

2/5

Pro-Life (John Carpenter’s Pro-Life) – 2006, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Caitlin Wachs, Ron Perlman, Derek Mears