por Bernardo Brum

Saindo da fúria explosiva e inconformada de filmes como Seven e Clube da Luta, David Fincher adentrou o terreno de um dos poucos criminosos perfeitos de forma contemplativa e observadora. O resultado é Zodíaco, thriller de quase três horas  que pisa no terreno  tão caro a Fincher: a obsessão.

Como o Narrador de Clube da Luta, o sádico vilão de Seven ou o inconscientemente babaca Mark Zuckerberg de A Rede Social, uma das figuras principais do longo e complexo panorama traçado em Zodíaco, o cartunista Robert Graysmith, que apesar de não ter nada a ver com a história da mesma maneira que tem o inspertor Dave Toschi e o jornalista Paul Avery, torna-se tão obsessivo pelo assassino da vez quanto os outros personagens de Fincher são pelas suas idéias e razões particulares.

Quando a vida social e afetiva do cartunista começa a se desintegrar devido às suas frequentes caças ao Zodíaco, que se move pela cidade como um fantasma percebemos o terreno familiar: como o vilão e o herói interdependentes de Seven ou a relação Jekyll & Hyde de Clube da Luta, Robert passa a existir unicamente em função dos crimes do Zodíaco. Sem os assassinatos do Zodíaco, ele não tem o seu ganha pão, nem o desafio impossível de rastrear alguém que pode ser um em um milhão. Tentar rastrear o caçador de gente é, por assim dizer, utópico.

A preparação do filme rendeu mais de um ano de investigação a David Fincher e ao roteirista James Vanderbilt sobre a história que pretendiam retratar; daí vem a naturalidade com os quais são encenados os crimes, daí sentem-se as inúmeras texturas desenvolvidas nos relacionamentos sociais pela longa duração do filme.

O filme Zodíaco é uma sinuca de bico, uma batalha perdida que os caçadores do assassino não entendem porque lutam, mas lutam compulsivamente ainda assim. O assassino Zodíaco é praticamente um fantasma, aparece, mata e some; sempre interrompe as ações das vítimas da mesma maneira, mas praticamente não se descobre coisa alguma sobre ele; não se sabe se as cartas que manda são sempre da mesma pessoa, e por aí vai.

Como a relação de antagonismo é sempre equivalente, o cartunista Graysmith também se desintegra dia após dia. Fica sem origem, fica sem presente, sem laços ou relações; se o assassino é oitenta, ele é o oito. Dois fantasmas brincando de gato e rato.

O trabalho pesado de Fincher na direção é essencial para manter o ritmo de thriller, de desconforto, de situação insustentável, pelo longo tempo que dura a obra; se o filme não fosse tão denso quanto o período e o assunto que abordam, não sentiríamos tudo o que filme representa. No final, todo o clima de paranóia e angústia é diluído, posto em suspensão, vai embora com uma sensação fugidia.

Não é a primeira vez que tudo termina assim; não são poucos os artistas que criaram a sensação de terror justamente com o que não se conhece e não se entende. Lovecraft, Hitchcock, Romero… A sensação de que o Zodíaco pode ser qualquer um é justamente a mais opressora de todas, justamente porque, dessa forma, nunca poderá se saber nada sobre ele. Importa apenas a situação, a coisa em si, a tour de force imensa empregada para no final não resultar em nada, apenas medo e vidas destruídas. Um whodunit inconclusivo é um whodunit  de angústia duradoura, quase insuportável.  Zodíaco está para o whodunit como Os Pássaros está para o filme-apocalipse. E isso ainda é ser modesto com a obra.

5/5

Ficha técnica: Zodíaco (Zodiac) – EUA, 2007. Dir.: David Fincher. Elenco: Jake Gylenhaall, Mark Ruffalo, Robert Downey Jr., Anthony Edwards, Brian Cox, Chloë Sevigny.

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inception-paris

– por Michael Barbosa

Se em Amnésia Nolan entregou um dos filmes mais complexos dos últimos tempos – com direito a narrativa fragmentada – e nos seus dois Batman’s, especialmente em O Cavaleiro Das Trevas, fez um thriller empolgante e intelectualmente desafiador o que se poderia esperar para A Origem era um mix das qualidades de seus dois grandes filmes anteriores e, evidentemente, um pouco de amadurecimento para superar os defeitos destes, como a condução que por algumas vezes perdia a mão e caia no enfadonho – Amnésia – ou então alguns exageros não tão divertidos de O Cavaleiro das Trevas. Quando entrei na sala do cinema para enfim assistir Inception era a hora de acreditar (ou não) no hype.

A primeira coisa que se percebe é que embora emaranhe infinitos acontecimentos com níveis diferentes e afins, remetendo naturalmente à complexidade de outrora aqui ele soa bem mais elucidativo do que eu seus últimos filmes, isto pode trazer ao espectador já apresentado ao seu trabalho duas sensações antagônicas: de que isto é fruto do amadurecimento artístico de Nolan que agora nem sub e tampouco superestima a nossa inteligência e capacidade de dedução. Ou algo mais do tipo “tudo bem, te damos essa dinheirama toda, mas dessa vez as pessoas vão ter que entender o filme”. Prefiro um meio termo, embora o roteiro transforme Ariadne (Ellen Page) quase que em uma muleta dedicada a passar o filme todo fazendo perguntas e tendo insights Nolan consegue ainda assim deixar muita dualidade e algumas várias incógnitas que mesmo quando qualquer resposta pareça mera especulação continua interessante e, sim, estimulante.

A trama em si, embora seja original na medida do possível, não traz grandes novidades, e desde o começo fica claro que é, inegavelmente, um thriller seguro sobre espionagem industrial com o plus de roubar-se as ideias ainda nos sonhos, o que evidentemente deixa tudo bem mais legal e interessante. A novidade vem quando um milionário solicita a Cobb (Di Caprio), especialista nesse serviço sujo, acusado do assassinato da esposa, e por isso afastado dos filhos, pelo processo inverso, no lugar de roubar, inserir uma idéia e daí em diante temos uma empolgante odisséia homérica no mundo dos sonhos.

Visualmente é arrebatador, apoiado por um orçamento estrondoso Nolan desenvolve um admirável exercício estilístico, com uma grande variedade de belos panos de fundo para as cenas. Como quando Paris é explodida, e aí está outra virtude, gozando da liberdade dada pela lógica interna da obra dá-se para algumas vezes ao longo da obra “brincar” de explodir cidades, dobrar ruas e desafiar as leis da física, pela brincadeira em si e por ser de algum didatismo necessário para entender certar nuances propostas pela trama e que se tonarão indispensável para tentar “compreender” o desfecho.

Há de se dizer também que mais uma vez Nolan demonstra excelente direção de atores, Di Caprio – que vem em grande fase, sabendo escolher projetos e emplacando grandes filmes – está excelente como o protagonista Cobb e, curiosamente, está em uma personagem que irrefutavelmente nos remete a seu último papel, Teddy Daniels de Ilha do Medo, estamos novamente na frente de um homem com uma história de amor mal-acabada que o encalça e afeta seu trabalho e seu autocontrole, de toda forma para por aí as semelhanças. O elenco de coadjuvantes é composto por uma série de bons atores, a começar por Ellen Page que vem se firmando como uma atriz competente, passando por Joseph Gordon-Levitt, que se destacou em 500 Dias Com Ela (e comenta-se – ou brinca-se, talvez – que pela semelhança física será o substituto do falecido Heath Ledger no papel de Coringa). Ainda temos Cotillard, Caine, Tom Hardy… Todos bem, mostrando que a junção de direção competente e boa escolha de atores podem dar um belo upgrade.

[ULTRA-MEGA SPOILERS NO PARÁGRAFO DERRADEIRO]

Enfim, Nolan parece bastante orgulhoso de seu cinema complexo, bem feito e absurdamente pretensioso – e não deveria ser por menos. No desfecho da trama aquele velho infalível truque de responder menos do que se perguntou e dar margem às infinitas interpretações e teorias malucas (ou não) de fãs que evidentemente vão extrapolar um pouco na imaginação (é provável pelo menos). O drama aqui é saber até que ponto o aparente final feliz é real, e pára instaurar dúvida o diretor se vale de várias pequenas peças soltas ao longo da história – como o conceito todo bem explicadinho do totem – e usa e abusa de diálogos e cenas pra lá de duais para que o óbvio soe dúbio e ambíguo. Efetivamente se torna impossível cravar e comprovar se aquilo – Cobb retornando ao avião e se reencontrando com os filhos – fora real, se foi fruto de sua imaginação quando perdido no limbo (outro conceito maroto solto pouco antes) ou se, vai saber, foi tudo um sonho ou se então… De fato temos que, independente disso ou daquilo, deixar claro que a experiência de ver Inception – especialmente na tela grande – é agradável e empolgante por si só. Hollywood talvez esteja de frente para, guardadas devidas proporções, seu maior sonho de cineasta desde Spielberg, Nolan parece ser realmente capaz de agradar cinéfilos e críticos e também levar milhões e milhões às salas de cinema, pois é.

4/5

Ficha técnica: A Origem (Inception) – EUA, 2010. Dir.: Christopher Nolan. Elenco: Leonardo DiCaprio, Marion Cotillard, Ellen Page, Cillian Murphy, Joseph Gordon-Levitt, Ken Watanabe e Michael Caine.

– por Bernardo Brum

Sem alongar muito, Um Tiro na Noite é, basicamente, a obra-prima do gênio chamado Brian De Palma. Aqui, ele desmontou o cinema e o reconfigurou a seu bel-prazer. Um thriller de ação que vai bem além de ser fechado em si e exalta o poder de criação do cinema, ainda que da forma mais trágica o possível, ligando-o indissoluvelmente à vida.

É, simplesmente, cerca de uma hora e quarenta poucos minutos de um cinema hiperbólico, escandaloso e intenso com uma abordagem tão diferenciada que quando sobem os créditos finais, não temos certeza se o que vimos foi realmente coisa desse mundo.

Mas claro, se você não confia em mim, já pode ir olhando os screens abaixo…

Crítica

5/5

Ficha Técnica: Um Tiro na Noite (Blow Out) – 1981, Estados Unidos. Dir: Brian De Palma. Elenco: John Travolta, Nancy Allen, John Litgow, Dennis Franz, Peter Boyden, Curt May, John McMartin

– por Luiz Carlos Freitas

Atualmente, com sua carreira de mais de 30 anos como diretora, Kathryn Bigelow finalmente se vê em evidência após ser a primeira mulher a ganhar os Oscar de Melhor Direção e Melhor Filme (por Guerra ao Terror). Seus filmes quase sempre foram modestos, com repercussão e orçamento baixos, e nem mesmo seus trabalhos mais conhecidos, Caçadores de Emoção e Estranhos Prazeres, não bastaram para que ela tivesse uma notoriedade que fosse além do título de “ex-mulher do James Cameron”.

Jogo Perverso é um de seus melhores (e mais esquecidos) trabalhos, produzido por Oliver Stone e estrelado por uma Jamie Lee Curtis no auge do sucesso e tentando emplacar em filmes mais diversificados, para fugir dos estereótipos que a perseguiam – de ‘Scream Queen’, após slasher’s vagabundos como Enigma na Estrada e A Morte Convida Para Dançar, e as obras-prima de John Carpenter, A Bruma Assassina e Halloween – A Noite do Terror, à imagem de símbolo sexual por  seus papéis cheios de erotismo – e poucas falas – nas comédias Um Peixe Chamado WandaTrocando as Bolas.

Na trama, a atriz vive Megan Turner, uma policial recém-graduada que acaba matando um assaltante em um tiroteio num supermercado logo na sua primeira ronda. Após a troca de tiros, Eugene Hunt (Ron Silver completamente psicótico), um respeitado corretor da bolsa que fazia compras no local, pega a arma do bandido caído no chão sem que ninguém veja e foge, fazendo com que ela seja suspensa de suas atividades por suspeita de ter atirado em um homem desarmado. Fascinado com o que presenciara, Eugene passa horas admirando a Magnun 44, mirando contra espelhos, vasos e quadros enquanto, até que, na noite seguinte, resolve sair às ruas com seu ‘brinquedinho’. Em meio aos becos escuros de NY, ele atira em um homem. Do nada, sem motivo aparente, sem justificativa. Ele simplesmente descarrega sua vontade de atirar na cabeça do primeiro azarado que encontra no caminho.

À partir daí, a velha e batida, até mesmo para a época em  que fora lançado, fórmula da policial em conflito com seus superiores sendo acusada por algo que não fez corre em paralelo com a busca pelo assassino que, até então, não sabe-se que tem relação com ela. Porém, Eugene faz com que eles se esbarrem “acidentalmente”, dividindo um táxi e, após uma breve conversa carregada de indiretas, saiam para jantar. Esse ato, mais que a um envolvimento amoroso eminente entre os dois, é a partida do tal jogo perverso do título: na mesma noite, um homem é encontrado morto e com o nome de Megan cravado na cápsula que  o atingiu. Agora ela estava diretamente ligada ao caso (só não se sabia ainda se como suspeita ou provável vítima).

Basicamente, o filme se divide em dois atos distintos: a busca pelo assassino, onde tenta-se descobrir sua identidade, quem serão as próximas vítimas e qual a razão de Megan ter sido a escolhida para figurar em tais crimes, e a fuga do mesmo, após descobrirem sua identidade e ele, então, pôr em prática a última parte de seu plano, matar Megan. Em momento algum, o ritmo cai. Pelo contrário, o clima de tensão é crescente, aumentando à cada nova mensagem deixada junto às vítimas e, principalmente, à medida em que vemos Megan mais e mais envolvida com seu próprio algoz.

Nesse meio, uma característica que marca a carreira da diretora se mostra bem evidente: as tramas e motivações de seus personagens, em geral, se baseiam em suas obsessões que, consequentemente, acabam por destruí-los. Em Caçadores de Emoção, Patrick Swayze liderava uma gangue que roubava bancos  para financiar suas viagens para surfar ao redor do mundo (!!!), além, é claro, da iminente adrenalina da fuga das autoridades; O Peso da Água conta com uma escritora que pesquisa sobre um crime do passado para compôr seu livro e, completamente imersa na história, sente como se pudesse mudar o que ocorreu séculos antes; Estranhos Prazeres e seu protagonista “contrabandista de emoções” e o atual Guerra ao Terror, com sua tão elogiada abordagem da guerra como um “vício”, também reafirmam esse veio autoral, que muito lembra um Abel Ferrara (só que de modo bem mais contido).

Eugene é um assassino frio que, aparentemente, tinha algum distúrbio mental latente que é despertado pelo “trauma” do assalto, passando a agir como se estivesse possuído pela arma. Ron Silver confere um ar completamente doentio ao seu personagem, mas o roteiro escorrega bonito por não explicar de forma convincente as motivações aos crimes, limitando-se a mostrá-lo conversando com as “vozes” em sua cabeça. Há referências bem vagas que relacionam sua psicopatia com seu trabalho, inferindo, talvez, uma crítica social (de dia um figurão respeitado, de noite um louco matador frio), mas que se mostram pouco convincentes ou nulas, até, tendo visto a abordagem superficial do roteiro que, à certa altura, pára de tentar explicar as coisas e foca apenas na perseguição do assassino à Megan.

Se por um lado o filme perde em termos de trama, cresce consideravelmente na construção de uma atmosfera de tensão. Longe do vício irritante da “câmera na mão” de seus trabalhos mais recentes, Bigelow se mostra competentíssima ao tornar becos, ruas, um corredor escuro dentro de casa e até mesmo o próprio reflexo de Megan espelho de banheiro, inimigos em potencial. A sequência final peca por uma reviravolta desnecessária e absurda (a psicose adquirida e a inversão de papéis), talvez a maior das falhas do roteiro,  mas é recompensada com o grande clímax do filme, da perseguição no metrô e seu desfecho ao duelo em uma avenida movimentada da cidade, favorecido também pelo excelente trabalho de fotografia de Amir Mokri, de fazer brilhar os olhos dos mais saudosistas àquela época.

Espero que seu Oscar por Guerra ao Terror sirva ao menos para dar maior visibilidade a esse e outros filmes da diretora, excelentes trabalhos que, infelizmente, não tão lembrados quanto as bobagens de orçamentos milionários do seu célebre ex-marido.

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4/5

Jogo Perverso (Blue Steel) EUA, 1989 – Dir.: Kathryn Bigelow – Elenco: Jamie Lee Curtis, Ron Silver, Clancy Brown, Louise Fletcher, Elizabeth Peña, Tom Sizemore, Philip Bosco, Kevin Dunn, Richard Jenkins, Markus Flannagan, Mary Mara, Skipp Lynch, Mike Hodge, Mike Starr, Chris Walker

blow out

– por Bernardo Brum

Muitas vezes, De Palma utilizou a história como mero pretexto para que pudesse construir toda aquela atmosfera arrasadora, claustrofóbica e increditável de seus filmes. Assim, a história de um transformista assassino (Vestida Para Matar) não era nada mais do que um jeito de desfilar sequências que de tão tecnicamente impressionantes deixavam o espectador numa espécie de êxtase maldito, em que tudo testemunhado era intenso demais para que pudesse ser ignorado numa assistida descompromissada. Nisso que diferia de Hitchcock – o inglês valorizava sim as histórias que contava, e preenchia com mão de mestre tanto a linha principal da história quanto os McGuffins com generosas e discretas ironias e subversões.

E acusado por muitos anos de ser apenas aquele que resolveu pegar e levar em frente o título de “mestre do suspense”, muitos esqueceram que cineasta simplesmente genial, autoral e maluco é De Palma. Talvez toda a desconstrução dessa idéia tenha começado mesmo em Um Tiro na Noite, antes mesmo de Dublê de Corpo. Se antes (e até depois em alguns casos) Brian resolveu enxergar o cinema por uma lente hitchcockiana, aqui ele resolve enxergar o mundo pela lente de outro dos gênios supremos e totais do cinema, Michelangelo Antonioni.

Claro, ele prefere centrar a homenagem na história, trocando o fotógrafo de Blow Up pelo registrador de sons para filmes classe B feito pelo subestimado (até por ele mesmo) John Travolta que sem querer grava o som de um assassinato político onde só sobrevive uma prostituta (Nancy Allen)  e se vê cada vez mais envolvido com a situação, até descambar num final completamente tétrico e depressivo. A movimentação de thriller é mantida, ao contrário da desconstrução narrativa dos filmes do italiano.

Mas aí que em um quesito De Palma supera Coppola, que também havia feito uma história com mote parecido com Blow Up e era quase que um Janela Indiscreta para os ouvidos, A Conversação. Se a narrativa imagética de Hitchcock era tão forçuda que mesmo se ouvíssemos o áudio em iraniano com legendas em japonês, eu aposto que qualquer um com uma compreensão razoável da língua inglesa que assistisse o filme em questão de olhos fechados entenderia Um Tiro na Noite de cabo a rabo. Simplesmente, e não tem para Jacques Tati ou cineastas assim, o status de obra-prima do filme é obtido porque usa cada som produzido na tela de um jeito tão pensado, criativo e arquitetado para deixar o espectador em frangalhos que o fato de ter a audição em dia e ouvir cada segundo do filme é uma experiência simplesmente única.

Claro que Brian também não economiza nos aspectos técnicos visuais. E nisso, também temos um dos Brian De Palma mais inspirados: movimentos e travellings impossíveis e que desprezam essa noção da câmera como um olho humano, o recurso da tela dividida usado de forma tão torturante que é capaz de deixar zonzo o mais desavisado, tudo sem a mínima consideração com a sutileza que alguns cinéfilos tanto fazem questão e cagando e andando para os espectadores mais sensíveis. O tempo todo nós somos questionados como seria ouvir várias mortes sucessivas, sempre chegar atrasado ao local, e como isso poderia afetar um homem que conheceu uma paixão do jeito mais esquisito. E que a perde do jeito mais bizarro.

A conclusão é, simplesmente, um dos finais mais tristes do cinema, e que não poupa o espectador. Tanto ela, que nada tinha a ver com a história, tanto ele, que, negligente, foi um dos grandes responsáveis por tudo, doam suas essências a um filmeco de terror slasher. Ela oferece seu grito de morte, ele eterniza o grande trauma e perda da sua vida. E esse é um eco que persiste por muito, muito tempo. Após acabar com os nervos, De Palma destroça o coração do espectador. Filho da mãe.

Screenshots

5/5

Ficha Técnica: Um Tiro na Noite (Blow Out) – 1981, Estados Unidos. Dir: Brian De Palma. Elenco: John Travolta, Nancy Allen, John Litgow, Dennis Franz, Peter Boyden, Curt May, John McMartin