– por Luiz Carlos Freitas

Após abandonar a Alemanha, fugindo da ascenção do Nazismo, e com uma breve passagem pela França (durante a qual realizou Liliom), Fritz Lang se instala na América e, com o respaldo de um Joseph L. Mankiewicz ainda engatinhando como produtor, retoma sua carreira com Fúria, filme seguido por Só se Vive Uma Vez e que, de modo não declarado, se propõem a uma análise do modo de vida americano.

O filme conta a história de Joe Wilson (Spencer Tracy) e Katherine Grant (Sylvia Sidney), um jovem e humilde casal que passa um ano trabalhando em cidades diferentes juntando dinheiro para o seu casamento. Quando finalmente chega o tão aguardado dia do reencontro, algo inesperado acontece: Joe é parado no meio do caminho pela polícia e detido, confundido com o chefe de uma gangue de sequestradores, levado à delegacia e interrogado, mas se uma acusação formal imposta (como o próprio xerife coloca, ele era apenas suspeito). O homem com o qual Joe foi confundido havia sequestrado e matado uma moça na pequena cidade, gerando comoção e ódio na população. E, quando um dos policiais escapa a informação de que eles poderiam ter capturado o tal bandido, os boatos começam a correr e, em pouco tempo, todos na cidade acreditam que Joe é mesmo o assassino, organizando um mutirão de linchamento rumo à cadeia.

Por mais que tente, o xerife não consegue acalmar a multidão que, em pouco tempo, rende os poucos policiais que ali estavam, invade a delegacia e, por fim, incendeia o prédio com Joe dentro. As chamas consomem o prédio e, após acompanharmos a passagem do tempo por recortes de jornais que estampam que um inocente havia sido queimado vivo por uma multidão de linchamento, a trama dá sua primeira grande virada: Joe aparece aos seus irmãos, vivo (apesar de algumas queimaduras pelo corpo) e completamente sedento por vingança, e os obriga a contratar um advogado para levar os que participaram de seu atentado ao tribunal e, por fim, à Pena Capital pelo seu suposto assassinato.

Em Fúria, podemos identificar dois caminhos tomados pelo diretor. O primeiro e, mais evidente no seu primeiro ato, é uma análise da sociedade americana, dos modos e costumes daquele que, agora, era seu povo. Tudo que ocorre na trilha de boatos, iniciada numa barbearia e findada num bar, quando são tomados por certeza absoluta, tem um tom de caricatura tão hilário quanto perverso, como a cena memorável em que são alternados planos de um grupo de senhoras à porta da igreja discutindo sobre o já provável assassino e um galinheiro cheio, bem semelhante à M – O Vampiro de Düsseldorf, quando a montagem alterna policiais e bandidos discutindo seus planos para apanhar o assassino de crianças (opostos que não deveriam, mas estão mais do que próximos).

Há também um certo interesse pessoal do diretor nessa análise de costumes, a exemplo da primeira discussão na barbearia, quando todos falam do “assassino”, tratando seus direitos com desdém, e um dos homens intervém: “Vocês nasceram aqui na América, não precisaram estudar a Constituição. Eu vim de fora e tive de ler tudo quanto pude para poder exigir algo”. Não fica difícil notar nesse personagem (que permanece menos de três minutos em cena e sem mais falas) um breve alter-ego de Lang, que buscava entender essa sociedade “nova” para, então, se entender nela (interesse que o próprio externou em outros momentos).

Em meio à compreensão, está a critica. E Lang, ainda recorrendo à caricatura, usa seus personagens para atacar as bases do Estado. O governador que nega o pedido de reforço do xerife pela Guarda Nacional por temer que seja visto como um “acolhedor de assassinos” (arriscando, inclusive, a vida de seus próprios policiais e condenando um inocente à morte), o juiz que diz que “participar de um tribunal de assassinato é indiscutivelmente a maior honra para um bom americano” e a mídia, mostrada no filme sempre à espreita da próxima notícia ruim, além da própria multidão que faz de um linchamento uma grande festa; todos parecem constatar o ideal americano como uma “cultura de morte”.

Mas impossível falar de Fúria sem remeter a seu posterior, Só se Vive Uma Vez. Além da trama praticamente idêntica (casal que tem seus planos frustrados por uma falsa acusação que leva o homem à cadeira e, após sua fuga, à busca da vingança) e da Sylvia Sidney repetindo o mesmo papel deste aqui, as questões abordadas são basicamente as mesmas (fugindo do esquema do tribunal e batendo um pouco mais na mídia). Ambos os protagonistas vêm de fora e têm dificuldades em serem aceitos na nova comunidade, sofrendo com a resistência e o preconceito. Em Fúria isso é mais evidente. O provincianismo que impera entre os moradores da pequena cidade e os leva a mentir em pleno tribunal, tudo em nome da comunidade (um bem maior para eles), a faz um arqueótipo perfeito da sociedade americana “fechada” ao resto do mundo. Novamente tornando a Lang, os personagens de Spencer Tracy e Henry Fonda teriam muito do diretor.

Mas, apesar dessa tentativa de adaptação à nova pátria e, claro, a seu cinema, Fritz Lang não deixa de imprimir suas marcas. Ao inverter a trama, apresentando o “mocinho” vivo e agora desejando a morte de todos, mesmo que isso o custe passar o resto de seus dias escondido e sustentando a farsa de sua morte, Lang vai muito mais além de uma perspectiva social que teria se o foco do filme fosse apenas o linchamento, voltando as atenções ao desejo de vingança do protagonista e abordando um tema recorrente em sua filmografia: a análise da maldade humana. A barbárie dirigida contra Joe e a tal “cultura de morte” não se mostram apenas como um sintoma da sociedade corrompida, mas dos próprios homens e dessa fúria que carregam consigo. A certa altura do filme, já não há mais um herói ou vilões propriamente ditos; todos são vítimas de sua própria fúria

Os closes nos rostos dos linchadores assistindo ao prédio ser consumido pelas chamas e um olhar perverso de extremo prazer (as sombras em forte contraste com o reflexo do fogo brilhando em seus olhos – a força do Expressionismo Alemão mesmo no modo americano de se filmar) são a essência da obra: a fúria que serve de catalisador às transformações de vítimas em algozes e coloca carrascos frente ao cadafalso; é a roda que move a pequena cidade, a América e, bem além, os homens.

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4/5

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Fúria (Fury) – EUA, 1936 – Dir.: Fritz Lang – Elenco: Sylvia Sidney, Spencer Tracy, Walter Abel, Bruce Cabot, Edward Ellis, Walter Brennan, Frank Albertson, George Walcott, Arthur Stone, Morgan Wallace, George Chandler, Roger Gray, Edwin Maxwell, Howard Hickman, Jonathan Hale

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– Luiz Carlos Freitas

Para fugir ao Nazismo, Fritz Lang teve de emigrar para os EUA, mudando sua vida, seus costumes e, consequentemente, seu cinema. Para alguns, o declínio; para outros, a maturidade criativa. Prefiro não me ater a nenhum dos dois extremos. Seu cinema continuou grande, talvez sem o mesmo impacto e brilhantismo de suas maiores obras Expressionistas, mas ainda assim tão ácido, sarcástico e crítico quanto.

Só Se Vive Uma Vez, seu segundo filme em território yankee, conta a história de Eddie Taylor (Henry Fonda), um ex-membro de gangue que já fora preso três vezes, todas por crimes “menores” e que está saindo em liberdade. Porém, segundo a lei estadual vigente à época, a sua quarta condenação, independente do motivo, representaria um passe imediato para a cadeira  elétrica. Disposto a se reabilitar e levar uma vida honesta, pede ajuda à sua noiva, Joan Graham (Sylvia Sidney), jovem secretária do Defensor Público Stephen Whitney (Barton MacLane), que o arranja um emprego como motorista e tenta mantê-lo a todo custo longe do crime.

Dividido em três atos distintos, acompanhamos a evolução do casal e sua relação de anacronismo progressivo com a sociedade, iniciando com a adaptação, seguindo a rejeição e, finalizando, a total negação do meio. No começo somos apresentados aos personagens principais. O clima é leve, agradável, com direito a algumas tiradas cômicas, como o jogo de baseball na cadeia, e juras de amor trocadas em um jardim, em meio às flores; logo vem o preconceito, os olhares tortos ao ex-presidiário, depois um crime e, por conseguinte, a condenação à morte por uma culpa presumida, culminando na revolta completa contra o meio, com a fuga da prisão e o desfecho trágico (e  bem previsível) do casal.

É notado o esforço de Lang em se adaptar e assimilar esse cinema que o era novo e o quanto isso impacta em sua obra. Ele estava na América e fazendo filmes com e, de certo modo, para americanos. Eram tempos difíceis e o reflexo disso estava em seu anti-herói, mostrado como mais uma vítima da grande Depressão e do sistema que não dá chances, a exemplo do chefe de Eddie, que o demite logo no primeiro dia por um mero atraso de uma hora e meia, além de se mostrar completamente irredutível, fazendo pouco de sua situação, esfregando na cara a condição de “ex-presidiário”, zombando e caçoando dele. Extremamente caricato, na mesma medida temos o padre Dolan (William Gargan), amigo do casal que persiste até o fim para que Eddie preserve sua integridade, chegando a clamar em favor daquele que o desferiu um tiro fatal.

O roteiro, diga-se de passagem, é bem falho. Boa parte da força do longa está mesmo em sua condução. Lang não perde ritmo, talvez ajudado pela curta duração (algo em torno de 80 minutos), que não deixa a correria do roteiro ficar entediante. Os traços remanescentes do Expressionismo se fazem presentes em algumas cenas, como de Eddie em sua ‘gaiola’ aguardando a execução e os guardas na guarita de segurança vistos por baixo, além de todo o clima sombrio e nebuloso do pátio da prisão na hora da fuga, a melhor cena do filme, ao lado da primorosa sequência da explosão das bombas no assalto ao banco.

Esquemático, se estendendo mais do que o necessário em apresentações (como as cenas do casal no jardim, os amigos na cadeia e o apelo insistente – irritante, eu diria – do verdureiro “assaltado” logo no início) e se aprofundando pouco (e rápido) em questões importantes, principalmente no terceiro ato, com a descoberta do crime, o perdão ao assassino e o casal pacífico virando “Bonnie e Clyde” e entrando para a lista dos mais procurados da América em questão de minutos. A ironia do perdão de última hora e a ânsia pela liberdade (que justificam o título do filme) quase passam completamente despercebidas, além, é claro, do tom maniqueísta de “a culpa não é minha, sou vítima do sistema” que permeia a obra.

Esses maniqueísmos lembram muito Frank Capra, cineasta americano queridão à época, com a diferença na sempre presente obscuridade do diretor alemão, mesmo que disfarçada pela ingenuidade aparente de sua dupla de protagonistas. Capra sempre encontrava um ponto em comum entre indivíduo e meio, corrigindo os desajustes, sendo eles do homem que se vê errado e, por meio do amor dos demais, se integra corretamente à sociedade (A Felicidade Não se Compra), ou quando o erro está no sistema, este se adaptando ao ideal de um homem de bom coração que desde o começo insistia em corrigí-lo (A Mulher Faz o Homem).

Para Lang, a esperança apenas não é tão forte ao ponto de operar ajustes, devendo-se, portanto, manter-se em sintonia com o meio, pois uma vez iniciada a descida, o trágico é o único destino, o que chega a ser contraditório com o defendido pelo próprio diretor em outra de suas obras (talvez a mais famosa delas), Metrópolis, aonde a subversão, mesmo acarretando consequências trágicas, levara a uma mudança para a melhor. Mas Lang não destrói a esperança. Ela ainda estava lá, diante dos olhos. A diferença é que não mais como agente de mudança, apenas um reconforto quando não resta mais nada a se fazer nem aonde ir.

Fatalista? Talvez. Mas Lang estava na América agora e tinha de dar a sua visão da nova pátria e, diferente de Capra, ele não acreditava nela.

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3/5

Só se Vive uma Vez (You Only Live Once) – EUA, 1937 – Direção: Fritz Lang – Elenco: Henry Fonda, Sylvia Sidney, Barton MacLane, Jerome Cowan, Margaret Hamilton, William Gargan, Charles ‘Chic’ Sale, Jean Dixon, Guinn ‘Big Boy’ Williams, Warren Hymer