No imaginário judaico-cristão, o sangue lava, purifica. Nos cinemas, o sangue também pode corromper. Me vem à mente cinco filmes que não apenas possuem uma carnificina atuando como clímax da história, mas que trabalham com a estética da violência para criar, desenvolver ou discutir um determinado ponto vista. Cinco grandes filmes de cinco grandes cineastas com cinco grandes sequências que não podem ser esquecidas depois de apreciadas.

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straw dogs

– por Bernardo Brum

Nem Laranja Mecânica, nem Violência Gratuita, nem Anticristo. Nem mesmo Saló. Nenhum filme estrangula o espectador com tanta força quanto Sob o Domínio do Medo. Sam Peckinpah realiza o maior estudo sobre a violência jamais feito. Do início ao fim, tudo é realizado com uma intensidade sem igual, sem paralelos ou precedentes. Não é a violência do estado contra o jovem, da mídia contra o espectador, do facismo contra a humanidade, do homem contra a mulher. É  a violência humana, pura, simples, cruel e degradante.

É apresentada a história do matemático americano David Sumner que se muda para o interior da Inglaterra com sua libidinosa esposa Amy e lá tem de conviver com caipiras xenófobos, as crianças curiosas e tudo o mas o que vemos nesses filmes – tem até o clichê do “idiota da vila”, mas o roteiro explora tudo até às raias da escrotidão, da degradação, dos comportamentos neuróticos explodindo em psicose, e assim vai. Poucas sequências podem ser mais cruéis que a do estupro – o conceito de montagem paralela de Eisenstein é utilizado para mostrar que enquanto David é feito de bobo em uma caçada, tendo que esperar os novos ‘amigos’ por horas sentado em uma clareira, estão arregaçando as pregas de sua mulher sem pressa. A mulher que, no início, queria algo apenas com um especificamente, acaba sendo subjugada em uma roda de sexo forçado filmado de maneira interminável.

E mais: o marido nunca saberá disso. Não dá tempo, e mesmo que desse, os dois são distantes demais para poder compartilhar qualquer desgraça sua com o outro. Pois logo o idiota da vila, que tem uma psicose relacionada a mulheres, mata a única garota que confiava nele. E foge para a casa do casal Sumner, onde acontecerá o terceiro ato mais porrada da história do cinema. A degradação aqui atinge níveis insuportáveis quando David, pelo olhar angustiado de Dustin Hoffman, ao ver que os caipiras xenófobos e agora vingativos querem invadir e sob a pressão de sua mulher para entregar o doente mental, não tira os óculos, não entra em pânico, e do alto do seu papel de homem racional, diz em alto e bom tom: “Eu não vou permitir violência contra essa casa”.

Pronto. É a chave para Peckinpah detonar uma batalha com óleo de cozinha quente, armadilhas de urso, espingardas, facas, corpos se atracando, tudo com sua estilização cruel que chega ao limite do repulsivo. Depos da consciência humana, a sociedade e a civilização rolarem morro abaixo, o resultado da avalanche é a pura selvageria, onde o mais racional dos homens mata, sem hesitar, todos que querem invadir seu território, roubarem sua fêmea e matar o chefe da alcatéia. É isso aí. Sob o Domínio do Medo é pura animalização da persona humana sem limites, concessões e arquiteado da forma mais impactante possível.

Se dizem que Aniversário Macabro, O Massacre da Serra Elétrica, A Vingança de Jennifer entre outros filmes exploitation de baixo orçamento não poderiam mais ser feitos com a mesma ousadia, quem dirá com a mesma coragem, inteligência e complexidade da maior obra-prima de Sam Peckinpah. A violência deixa de ser algo bonito para tornar-se o que é, algo nojento, destruidor, que corrompe tudo o que toca, e ao final, um dos mais pessimistas do cinema, David, o macho protetor do lar, guiando o carro em alta velocidade, deixando tudo para trás, finalmente enganando a mulher dizendo que vai levar o psicótico que protegeu para a delegacia, pergunta ao mesmo onde é que fica a casa dele. “Não lembro onde moro”, diz ele. “Tudo bem”, diz Sumner. “Eu também não”.

5/5

Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs) – 1971, Estados Unidos. Dir: Sam Peckinpah. Elenco: Dustin Hoffman, Susan George, Del Henney, David Warner