Desde a sua gênese definitiva em A Noite dos Mortos Vivos, o gênero de filmes de zumbi tornou-se o sinônimo do horror moderno, onde os monstros são pessoas normais, que batem à porta de nossas casas sem precisarmos ir até os confins do mundo para encontrá-los. Em muitas oportunidades, foram usados como elementos de crítica social, para representar aspectos da cultura como família, consumismo, autoritarismo e racismo. Encontrar com a comédia, que pretende subverter e destruir padrões, foi um passo natural e que rendeu excelentes filmes.

5.  Juan dos Mortos (Alejandro Brugués, 2011)

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4. Doghouse (Jake West, 2009)

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3. Fome Animal (Peter Jackson, 1992)

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2. A Volta dos Mortos-Vivos (Dan O’Bannon, 1985)

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1. Todo Mundo Quase Morto (Edgar Wright, 2004)

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– por Guilherme Bakunin

É indispensável que, acima de qualquer coisa, ao se assistir Todo Mundo Quase Morto, tenha-se a consciência das inúmeras referências e o entendimento de que o filme é antes de tudo (antes, não fundamentalmente) uma homenagem. Somente tendo isso em mente, a experiência de ver essa pequena obra-prima pode ser plena. Não que conhecer todas as referências seja indispensável, porque não é, mas é importante saber ao máximo, e acredito que isso valha pra praticamente qualquer filme, as intenções do criador.

Shaun é todos nós. Tem cerca de trinta anos, trabalha numa loja de eletrônicos, é fã de video-games, pubs e da sua namorada. Vive com os amigos Pete e Ed e de alguma forma, começa a se perguntar se a sua vida é satisfatória, ou se está estagnada pela jovial rotina. É mais ou menos em meio a essa turbulência existencial que dá puta que pariu e sabe-se lá como, começam a aparecer zumbis pela cidade. Pouco a pouco a cômica ameaça dos mortos-vivos vai se alastrando, até chegar ao estágio de calamidade pública, onde jornalistas respeitados mandam os espectadores enfiarem estacas no coração das ‘pessoas’ e vinis da original soundtrack de Batman são arremessados contra monstros.

É necessário apontar que o diretor inglês Edgar Wright, veterano em seriados de tv, realiza um trabalho impressionante, consciente. É, definitivamente, um filme fora dos padrões, mas Wright tem noções de ritmo e narrativa, e constrói todo o roteiro e toda a decupagem com perfeições invejáveis em quem finge trabalhar com comédia hoje em dia. É uma obra fora dos padrões por, trabalhar com o B de forma tão pop e limpa, por construir a base narrativa em cima de absolutamente nada, mesclar elementos claramente antagônicos de gênero (assim, só de cabeça, cito romance, comédia, suspense, drama e horror) e o faz de maneira consisa, impecável.

A comédia, enfim, é isso daqui. Diálogos rápidos como sempre forem, super contextualisados, boas sacadas, excelentes gags (alguém crie um Oscar só pro Pegg e pro Frost por favor?), cortes exagerados e geniais, nos momentos certos mesmo, violência nem um pouco moderada, que choca e graceja ao mesmo tempo. São o Wright e o Pegg (junto com o Wright, roteirista da empreitada) escancarando a perfeição do gênero.

E não tem, enfim, muito mais o que falar. Quem não viu, simplesmente veja, porque é difícil lembrar de filmes mais engraçados e também não é fácil lembrar de filmes tão bons quanto. Afinal, apesar da comédia definitivamente se destacar – porque é o melhor do filme mesmo e por isso ele deve ser exaltado -, existe, por trás, toda uma construção de personagem bem becana, que se mescla de verdade e de um jeito meio metalinguístico com a nerdisse e a infantilidade dos criadores do filme de um jeito bem interessante. O final de Todo Mundo Quase Morto mostra bem isso, já que o personagem não elimina a problemática, mas a esconde dentro do galpão. Ri de novo.

5/5

Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead) – 2004, Reino Unido. Dir.: Edgar Wright. Elenco: Simon Pegg, Nick Frost, Kate Ashfield, Lucy Daves, Dylan Moran, Kier Mills, Niccola Chunningham.

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– por Guilherme Bakunin

Existem plots que nascem com a gente. Todo mundo conhece o plot da cidade supostamente perfeita do interior que acaba sendo na verdade uma conspiração neo-maçonica entre os cidadãos mais velhos desse vilarejo, ou do policial problemático que é transferido de cidade pra livrar os companheiros de sua inconveniência, ou do homem que se dedica demais ao trabalho, etc. É louvável, no entanto, que Chumbo Grosso seja um filme tão surpreendente, já que é uma homenagem a esses e a tantos outros trabalhos, algo perto duma junção de todos os clichês e maneirismos de filmes de ação, que foram aqui reinventados, trabalhados de um prisma bem particular, do promissor cineasta inglês Edgar Wright.

Nicholas Angel é um policial exemplar da força de Londres. Obrigado a se transferir para uma cidade pequena (por ser bom demais no que faz!), ele chega a Sandford, cidade pacata onde os cidadãos parecem se unir para relevar atitudes tidas para Angel como subversivas em prol de ‘um bem maior’. Não apenas os civis, mas toda a força policial da cidade (genialmente constituída por exatamente sete policiais) estão centradas na ideia de alcançar o ‘vilarejo perfeito’. Angel, apesar de ser contrário a ideia, cada vez mais se deixa levar pela ideologia da cidade, até o momento em que uma série de assassinatos – fantásticas homenagens à filmes desse gênero, vale dizer – engenhosos, classificados como acidentes pela perícia policial, o transforma num policial marginal, obrigado pelas circunstâncias a empreender uma investigação por conta própria para solucionar o negócio.

Vale ressaltar que a história é de uma consistência exemplar, porque não deve haver nada fora do lugar aqui. Para todo ato, há uma explicação prévia, ainda que veloz. O final, caravilhosamente bem construído, encontra sustentação numa barraquinha de tiros no festival da cidade, ainda que Chumbo Grosso, sendo a homenagem que é, poderia se dar ao luxo de mimetizar filmes pauleiras mesmo de ação. Mas Edgar Wright não se coloca como fã. O cineasta é um profissional, homenageia, sim, mas não se deixa afetar por vícios nem por defeitos, ainda que esteja se inspirando em filmes, por exemplo, dirigidos por Michael Bay.

Como parte da influência/homenagem, a edição do filme é exageradamente frenética. Mesmo quando não há cenas de ação, a impressão dada pelo diretor é que estamos diante de explosões, tiros e perseguições, onde o som e os cortes em cenas triviais colaboram na construção atmosférica de um filme simplesmente foda, muito bem construído e desenvolvido (reparem que os sobrenomes dos personagens remetem diretamente à sua função), ainda que ele, o filme, queira mesmo é mandar tudo à puta que pariu, sendo vulgar, intenso e explosivo. Chumbo Grosso é terceiro filme de Edgar Wright, o segundo que praticamente todo mundo viu (o primeiro longa, de 1995, é mais obscuro), não é tão engraçado quando Todo Mundo Quase Morto, mas reservadas as peculiaridades de cada um, é tão bom quanto. Vejam esse filme.

Filmes ruins de ação nunca mais serão o mesmo pra vocês. Sério.

4/5

Ficha técnica: Chumbo Grosso (Hot Fuzz) – 2007, Reino Unido/França. Dir.: Edgar Wright. Elenco: Simon Pegg, Martin Freeman, Nick Frost, Billy Nighy, Timothy Dalton, Jim Broadbent.