pela Equipe Cine Cafe

Chegamos ao fim do especial. Foram, acho, nove dias de resenhas unicamente voltadas à análise dos filmes de M. Night Shyamalan, procurando decifrar não apenas o que está na superfície e no subtexto de seus filmes, mas também todas as relações contextuais que constituem o hype e o ódio do seu cinema. O obrigado da equipe a todos que acompanharam, comentaram e curtiram, e fiquem com a certeza que terão mais especiais logo mais.

Pra finalizar, tops da cada membro da equipe. Quem quiser é bem vindo a deixar o seu.

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– por Guilherme Bakunin

Shyamalan não é um cineasta preocupado em ser sutil. Ele se preocupa, de fato, com o subtexto, e não procura camuflar suas reais intenções. Sinais é um filme tão objetivo e tão escrachado em seu subtexto, que quase não é um mcguffin. Quase. Ainda assim, finge ser um intimista filme sobre uma invasão alienígena hostil.

Desarmado de sua fé após a morte da esposa, o ex-padre Graham Hess acorda um dia para encontrar estranhos sinais nas suas plantações de milho. Na busca pelos culpados, Hess e sua família vão tomando consciência que as origens destes sinais estão, muito provavelmente, fora do planeta Terra.

Desde Corpo Fechado, os filmes de Shyamalan constantemente extrapolam a diegese e tornam-se metalinguísticos na medida em que são ponderações a respeito da arte de se contar histórias (storytelling). Nesse sentido, o diretor não sai do didatismo na hora de constituir o corpo de seus filmes. Mas há o bom e o mau didatismo, e eu só posso supor que um filme de corpo didático precisa ter necessariamente uma intrincada relação imagética – Sinais certamente o tem.

Porém, Sinais é um filme cheio de paradoxos e incoerências, diegéticas ou não. A primeira é que, apesar de ser, em tese, didático na storytelling, parece ser completamente diferente de tudo que se faz nos altos escalões de Hollywood: quieto, sombrio, contido, emocional. Além do mais, é altamente simbólico. Não o tipo de simbolismo capenga referido por Susan Sontag como “tradução” (elemento A, na verdade, é elemento B), mas há uma compromissada e irrevogável relação entre os aliens e a invação alienígena e a fé e a manifestação do poder da fé.

Sinais parece ser um filme tão conformado com seu status de “simbólico”, que se permite até brincar com isso. Em uma cena significativa nesse sentido, a família Hess encara o feed de notícias da invasão extra-terrestre na televisão, e um dos personagens diz: “parece Guerra dos Mundos”. A invasão de Sinais não se parece, nem remotamente, com Guerra dos Mundos, mas a narrativa diegética que os personagens acompanham em escala global pela televisão talvez resguarde suas semelhanças. Apenas durante os poucos minutos que os seus personagens aparecem se inteirando de tudo que acontece do “lado de fora” que Shyamalan permite que seu filme se torne um sci-fi de gênero. Durante praticamente toda a metragem, no entanto, Sinais é um filme sobre fé, família e medo.

Ao colocar frente a frente o trauma de Graham e a invasão alienígena (embora haja um bom espaço de tempo entre os dois acontecimentos), cria-se logo a relação. Inicialmente, a ameaça alien vem, para o personagem, como confirmação da sua descrença – embora exista menos em Graham Hess de descrença do que uma enfática anti-fé. Ao confrontar-se com a iminência de, não apenas vida extra-terrestre, mas uma vida que é maléfica e hostil, Hess estabelece que todo o universo é igualmente hostil ou, na pior das hipóteses, indiferente.

É um caso de antítese similar a mencionada no texto de Corpo Fechado – mas a antítese aqui não está apenas contra os personagens, mas contra a manifestação da espiritualidade, que existe, em Sinais, como uma cicatriz de feridas que passaram. Como a fantasmagórica mancha da poeira deixada pela cruz na parede do hall da casa Hess, a espiritualidade dos personagens palpita, latente, os lembrando que perderam algo que possuíam.

Essa espiritualidade não é, de forma alguma, necessariamente teísta, muito menos cristã, mas se expande para adequar aos níveis de identificação de cada espectador. É o cosmos, simplesmente, atuando com ordem, sentido e significado.

Em Sinais, muito provavelmente é onde Shyamalan atingiu o apogeu na sua capacidade de causar terror. Tomando para si uma estética que mistura, em igual proporção, o melhor de Alfred Hithcock e de Roger Sterling (do aclamado seriado Twilight Zone, Além da Imaginação no Brasil). Com o espectador sempre um passo à frente dos personagens e através de uma visualidade tão contemplativa quanto incômoda, o medo está na sugestão de algo que não se vê, ou que se vê muito pouco e muito rápido.

Mas é no clímax que Sinais mostra que bebeu das fontes certas – em um plágio descaradamente derivado de Os Pássaros (de Alfred Hitchcock), a família Hess se prende dentro de casa, e pela sonoplastia temos a certeza de que a ameaça extra-terrestre se encontra ali, a alguns metros dos personagens. Pancadas, baques e gritos indecifráveis constituem o potencial da ameaça, empurrando seus personagens mais para o fundo (o porão), numa relação de desconforto inexorável e kafkiano. Quando os personagens não têm mais para onde recuar, eles explodem em desespero e asma, levando à tona (através do medo e do horror) o que existe dentro deles: a inocência de Bo (Abgail Breslin), a fragilidade de Merril (Joaquim Phoenix), e a insuperada morte da mãe/esposa, que causam em Morgan e Graham a procura de um culpado para levar significado aos mistérios inexplicáveis da existência da vida.

No pós-clímax, os personagens são conduzidos para a sala-de-estar, e encaram, frente a frente, o alienígena que age, provavelmente, motivado por uma desavença pessoal contra Graham (teve os dedos decepados pelo ex-pastor). É quando acontece o maior charme de Sinais: o escancaramento do mcguffin é também o twist (ferramente narrativa que estigmatizou o cineasta, em que uma coisa é revelada ser, na verdade, outra): os sinais que o título faz referência não estão nas plantações, mas são a derradeira manifestação da espiritualidade – sinais que a família Hess está sob a tutela de algo que existe evidentemente (os detalhes específicos não serão aqui mencionados, mas estão bastante óbvios na história).

Finalmente, é de substancial importância observar que, mais uma vez, a água aparece como elemento fundamental. Em praticamente qualquer gênero de simbologia, ela possui caráter expiatório e purificador. Em Sinais, ela é o elemento de definitiva salvação.  Mas o mais interessante é que, ao final, a família Hess é completamente redimida de suas má-formações, já que suas fraquezas (a asma, a força bruta, a ojeriza da água e a dúvida) se transformam em sua salvação. Redimir os personagens por suas fraquezas é aceitar suas limitações e falibilidade – consequentes do caráter humano.

Em Sinais ainda existe uma outra característica de extrema importância dentro da filmografia de Shyamalan: a essência do filme existe somente a partir do choque entre dois mundos paralelos – aqui, o mundo extra-terrestre choca-se contra o nosso, mas também o mundo espiritual choca-se com o natural, para restaurar a capacidade de Graham Hess em acreditar nas coisas. Não é, ainda, a mais eloquente investida de Shyamalan nesse sentido, e muito provavelmente falaremos mais sobre isso no texto de A Vila.

5/5

Ficha Técnica: Sinais (Signs)  –  EUA, 2002. Dir: M. Night Shyamalan. Elenco: Mel Gibson, Joaquim Phoenix, Abgail Breslin, Rory Culkin, Cherry Jones, Patricia Kelember, M. Night Shyamalan.

– Equipe Cine Cafe

Arrogante e prepotente, o diretor M. Night Shyamalan demonstra em entrevistas uma grande preocupação com sua popularidade e o retorno financeiro dos filmes que dirige. Curiosamente, a cada novo trabalho, seus filmes são abertamente anti-populares, na noção que desconstrói os formatos clássicos de storytelling, trazendo abordagens que, de tão originais e dialéticas, acabam por afastar o grande público.

Também não ajuda a má-vontade com a qual suas obras são recebidas pela crítica especializada. Como explicar a ojeriza que Dama da Água tem apenas 24% de aprovação no rottentomatoes (13%, se levarmos em consideração apenas a crítica especializada)? Ou os 43% de aprovação pela sua obra-prima A Vila? Que o público de shopping não esteja disposto a imergir em ideias que envolvem a experiência cinematográfica já é esperado, mas que a crítica resolva simplesmente dar as costas para as questões que seus filmes levantam em nome da má-expectativa é algo que ninguém poderia exatamente prever.

O resultado disso é que ao longo de dez anos, Shyamalan passou do mais promissor dos cineastas, a um dos alvos mais fáceis de Hollywood. É um posicionamento cômodo dizer que seus filmes são “esquisitos”, “disfuncionais” ou “artificiais”, quando na verdade o indiano parece ser um encontro do cinema moderno com o jeito de contar histórias mais clássico. Uma espécie de Tarkovsky spielberguiano (guardadas às devidas proporções), onde desenvolve temas como fé, espiritualidade em meio à situações absurdas, kafkianas e um jeito de contar histórias mais familiar, mas nem por isso com recursos narrativos óbvios e infantilóides.

Mais precisamente, o cinema de Shyamalan parece existir exclusivamente a partir da colisão de mundos que são opostos, e seus filmes pretendem lidar com essa recém-adquirida dicotomia. O ocidental e o oriental em Praying With Anger. O mundo dos mortos com o dos vivos em O Sexto Sentido (e em menor grau – Olhos Abertos). O supernatural e o natural em Corpo Fechado. O terrestre e o extra-terrestre em Sinais. O conhecido e o desconhecido em A Vila. O mundo aquático e o mundo dos homens em A Dama da Água. E a própria natureza versus humanidade em Fim dos Tempos.

Trabalhar com esse tipo de proporção geralmente significa explorar vastos territórios e cobrir grandes acontecimentos. Não aqui. Trabalhando sempre em metonímia,  os acontecimentos grandiosos são tratados com intimidade e pessoalidade: um grupo reduzido de pessoas, através de suas auto-expressões, são suficientes para darem o panorama que Shyamalan precisa. Sinais e Dama ná Água ocorrem praticamente entre quatro paredes, A Vila é praticamente provinciano (apenas em O Último Mestre de Ar que o diretor alça proporções épicas, e provavelmente não é coincidência que, justamente lá, ele falhe), o Sexto Sentido coexiste através da relação de apenas três personagens.

Dotados de um caráter estoico, a inexpressividade dos filmes de Shyamalan existem como símbolo das fraquezas de seus personagens. Além do conflito dicotômico entre dois mundos, seus personagens parecem travar constantemente uma luta contra a auto-repressão, e apenas no final são libertos, podendo ser exatamente aquilo que realmente são.

Por isso, para compreender as “péssimas atuações” de Fim dos Tempos, por exemplo, é imprescindível que se compreenda que este é, em parte, um filme de amor. A incapacidade do público geral em querer enxergar os filmes como um todo, ao invés de características isoladas, parece ser o grande entrave que se tem entre o sucesso crítico de M. Night Shyamalan. Embora ele seja constantemente resguardado como um autor, os preconceitos realmente parecem ter um peso substancial na análise do trabalho do diretor. Nosso especial tem a ambição de corroborar com esse olhar, compartilhado por poucos e ignorado por muitos dos que amam cinema.

– Cronograma do Especial Shyamalan – 

Dia 1: Texto de abertura, pela Equipe + Olhos Abertos, por Bakunin
Dia 2: O Sexto Sentido, por Bakunin
Dia 3: Corpo Fechado, por Visnadi
Dia 4: Sinais, por Bakunin
Dia 5: A Vila, por Visnadi
Dia 6: A Dama na Água, por Visnadi
Dia 7: Fim dos Tempos, por Bernardo + Fim dos Tempos, por Bakunin
Dia 8: O Último Mestre do Ar, por Bakunin + Demônio, por Visnadi
Dia 9: Tops