– por Guilherme Bakunin

O estranho é prova personificada do talento narrativo do diretor/escritor/ator/produtor Orson Welles. Um thriller fascinante do e sobre o pós-guerra, que além de encantar independentemente de qualquer fator histórico, é polêmico justamente por incitar o perigo de uma conspiração, em uma época onde os contornos que definiram o fim da segunda guerra mundial não estavam completamente claros.

Na história do filme, Orson Welles interpreta o ex-oficial nazista Franz Kindler, responsável pelos planos mais crueis do regime nazista de Adolf Hitler, incluindo o holocausto. Mr. Wilson, um oficial americano da comissão de crimes de guerra, viaja até uma pequena cidade no interior de Connecticut procurando capturar Kindler, com o agravo de que ninguém nunca viu seu rosto, logo, apesar da certeza que Mr. Wilson (e o expectador) tem, ele precisa de uma prova cabal para poder condenar o cruel braço direito de Hitler.

O aspecto mais interessante de O estranho é a forma como Welles manipula a atmosfera. Logo nos primeiros minutos de filme, a edição, iluminação e enqudramentos em geral remetem a uma ambientação tensa, enervante. Mas após um corte-seco, a aura do filme é completamente transformada, assumindo um semblante singelo, alegórico. Esse corte, esse contraste, é um excelente exemplo do controle atmosférico, da capacidade e autoconfiança criativa de Orson Welles. Com um trabalho livre, autônomo, e com o humor negro sagaz de sempre, o diretor entrega um excelente trabalho, especialmente bem decupado, editado e fotografado.

Contudo, a impressão que permanece ao final é a de que o filme poderia ser melhor trabalhado, tanto no aspecto do suspense, quanto aos potenciais expositivos do próprio roteiro, mesmo. Enfim, basicamente, é uma direção maravilhosa que corrige, dentro dos limites possíveis, muitos dos vícios do roteiro, mas que infelizmente não consegue revertê-lo a uma obra-prima, apesar de chegar bem perto disso. O estranho foi um dos poucos sucessos de Orson Welles, o primeiro filme de ficção a revelar ao mundo as terríveis imagens do holocausto e, ironicamente é relativamente esquecido entre as melhores obras do diretor. Seja como for, é surpreendente, bonito e, especialmente ao final, quando o destino do personagem interpretado por Welles é selado no relógio da igreja, emblemático.

4/5

Ficha técnica: O Estranho (The Stranger) – EUA, 1946. Dir.: Orson Welles. Elenco: Edward G. Robinson, Loretta Young, Orson Welles, Philip MErivale, Richard Long, Konstantin Shayne, Byron Keith, Martha Wentworth.

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por Bernardo Brum

Se em Louca Paixão Paul Verhoeven já havia dissertado sobre os limites (ou a falta dos mesmos) por um outro indivíduo, o épico de guerra Soldado de Laranja é a história da dedicação a um ideal: a de um universitário que passará os auréos anos de sua vida batalhando como infiltrado, mercenário e sabotador disposto a livrar o seu país da lei que ele não queria – o avassalador nazi-facismo que oprimiu várias culturas com suas idéias generalistas e totalitárias.

A abordagem não poderia ser outra vinda de quem cresceu perto de bases e campos de batalha – Eric, o herói de guerra intepretado por Rutger Hauer, é o alter-ego do diretor: preso à velha cultura, servo da rainha e, aparentemente, um verdadeiro caxias, mas também um libertário, inseguro e perdido. São poucos os diretores do mesmo período que, ao retratar um herói de guerra, também se preocupariam em mostrar seu lado mais humano, seu lado sexualizado, sua certa ingenuidade (atentem,  não do  filme, mas sim do personagem, às voltas contra toda uma sociedade impassível e só ao longo do filme tendo dimensão da mesma) e sua única chance de sobrepujar e sobreviver no seu maior norte: o ideal.

O ideal, é claro, irá custar caro: amigos, mulheres e demais relações de afeto serão trituradas sem dó por traições, torturas e assassinatos. Ao mesmo tempo que parece ser um câncer e destruir toda uma vida, é esta esperança, este símbolo que representa para ele que o mundo ainda poderá ser um lugar melhor, que lhe dá um motivo para continuar. Essa ambiguidade afasta o filme de qualquer saída fácil ou maniqueísmo de “nós contra eles”: todos temos ideais, todos estamos a caminhos de uma corrupção sob a qual podemos nos submeter ou não e todo qualquer indivíduo é vítima das circunstâncias do coletivo. Regra número um de Verhoeven, que perdura até os seus filmes recentes: “o inferno são os outros”.

Ao final do filme, Erik lembra, nostalgicamente, dos seus áureos anos, antes de toda a violência da Segunda Grande Guerra assumir seu lugar na ordem das coisas de forma violenta, e quanto de seus companheiros não tiveram a mesma sorte que ele. Mas isso não importa mais. O ideal prevaleceu e perdeu o sentido. E agora, tudo que ele pode fazer é pensar no futuro. Que apesar de tudo, tem a possibilidade de trazer melhores dias para se viver, longe daquele insensato mundo.

4/5

Ficha técnica: Soldado de Laranja (Soldaat Van Oranje) – Holanda, Bélgica. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Rutger Hauer, Jeroen Krabbé, Edward Fox, Derek de Lint, Susan Penhaligon, Lex van Delden