may

-por Messias Rodrigues

Com uma fotografia tão enganadora quanto à trilha sonora, às vezes climatizando um seriado adolescente, Lucke Mckee, realiza este filme que exala por seus poros muito do caracteriza o cinema dito independente. O campo de desenvolvimento da trama parte sempre do olhar da protagonista, May.  Mckee explora um mundo com cores amenas, as roupas de May quase sempre dão impressão de leveza; coloridas e estampadas com flores. As tomadas também são quase sempre diurnas banhadas de uma iluminação fresca e marcante. Para completar a marca deste naturalismo sazonal, temos que May na língua inglesa, significa, além do mês de Maio, Primavera.

Notamos como o diretor apresenta certo numero de elementos fixos que estão sempre acompanhando May, daqueles tipos de elementos que não só potencializam a composição da cena, como que também funcionam como bons conectivos na cronologia da obra. Da infância, por exemplo, temos numa pequena introdução apresentando estes elementos: as bonecas, o olho preguiçoso, etc., que funcionam para que a mitologia da protagonista se consolide. Para esse tipo de cinema que embrenha na psicologia do personagem, estes elementos parecem ser a extensão e expressão do não revelado, mas insistentemente referenciado.

A maior parte da película desdobra sobre esta fase pela qual ela passa. Angela Bettys, afortunadamente consegue sustentar tanto no físico quanto na atuação, características importantes para que May seja duplamente uma menina e uma mulher. A curiosiadade, a certa inocência e a espontaneidade fazem de May um ser quase primitivo, para não dizer propriamente animal. A trama é, sobretudo sobre sua adaptação. Modestamente ficamos cientes de que essa criança viveu isolada o bastante e que agora quer inserir-se, aprendendo e processando o grande meio do qual esteve alienada.

Apesar de todos os problemas que cercaram a personagem e os novos que apontam, May segue a contra mão deste estilo, que nos remete a Carrie, a estranha. Mckee evita sabidamente a presença de antagonistas declarados, o mundo está aberto para May que aqui parece ter superado possíveis bullings. De fato os dramas dela cabem perfeitamente num episódio de Dawson’s Creek. Tudo isso colabora para enfatizar a atmosfera primaveril e delicada do filme.

Mckee tem sempre escolhido em seus filmes trazer mulheres que se redescobrem selvagens e consequentemente mais adaptadas ao mundo. Isso pode ser comprovado com The Woman, Sick Girl e The Woods.

Enquanto Lars Von Trier busca fazer isso dissecando e alargando os dramas de suas anti-heroínas até um clímax, gerando um insuportável e crescente incomodo, a exemplo de  Dogville e Dançando no Escuro, Mckee, por sua vez, vai como que retocando a maquiagem do seus monstros, nos deixando confortáveis. Em May ele praticamente dispensa o suspense, como já dito, de relance o filme passa-se bem por uma comedia romântica. Tudo isso aumenta nossa simpatia para com May e o que ela vem a fazer.

Entre fabula e tragédia, May poderia bem representar a natureza e sua força criadora, que não pode nem ser bem nem mal é apenas expressão. Numa versão menos apimentada, May também traz algo das mulheres de Dario Argento também, considerando que a obra do italiano baseia-se exclusivamente neste gênero cinematográfico, lugar onde Argento consegue criar inúmeras situações para explorar vários arquétipos deste gênero sexual. Existem etapas bem delineadas que determinam este como um filme autoajuda.

A infância sem amigos e o olho preguiçoso vão se esvaindo à medida que ela vai aprendendo e reinterpretando como relacionar-se com os outros, saindo do que Louise Bourgeois acreditava conseguir com sua arte, sair  do campo passivo para o ativo. Conclui-se que May é uma mulher que na adversidade consegue tornar-se mais cheia de vida, incontrolavelmente repleta de vida e que estamos diante de uma peculiar história de superação, o que nos poderia leva a pensar enquanto humanos, a que nível o otimismo está sendo levado no enredo.

4/5

Ficha técnica: May – Obsessão Assassina (May) – EUA, 2002. Dir.: Lucky McKee. Elenco: Angela Bettis, Jeremy Sisto, Anna Faris, James DUval, Nichole Hiltz, Kevin Gage, Merle Kennedy, Chandler Riley Hecht.

– por Messias Rodrigues

Ao fim de Martyrs, de Pascal Laugier, senti um grande incômodo oriundo da carnificina, mas também me pareceu que acabava de participar de uma festa. E como pode ocorrer a qualquer um, o evento pode ser muito desagradável, mesmo que você não faça parte do cardápio. E, aliás, em Martyrs o corpo humano é o principal ingrediente. De modo que, para os amantes do carnaval cinematográfico, temos um filme que não economizou em efeitos quando a violência era o foco.

Laugier nos convida a acompanhar Lucie (Mylène Jampanoï) e Anna (Morjana Alaoui) num passeio cujo objetivo é vingar os abusos que uma delas sofreu em sua infância.

Antes do grande delírio final, as personagens passarão por uma longa via-sacra, em que é ofertado para nós o gradual desintegrar do corpo e da sanidade delas. Para o caso da desintegração física, esta é provavelmente correspondente a gula do espectador ávido do gênero horror e drama, mas que também flerta com aquilo que alguns chamam de porn torture .

Quando Mel Gibson realizou sua versão de A Paixão de Cristo, optando por captar meticulosamente os sucessivos ferimentos de Cristo, gozando para isto de impecáveis recursos da indústria de cinema norte-americana, acredito que ele farejara esta carência alimentar que ainda existe em certo nível, em nossa espécie. Sede de sangue e fascínio pelo sofrimento alheio.

Sabendo disso também, Laugier não poupou quando teve que adotar o sofrimento, como o tempero principal na sua cozinha. Um sofrimento que não cessa ao atravessar a carne, ele continua até aquele “seja lá o que for” dentro de nós, vulgarmente chamado de espírito. Quando Laugier resolve por isto, ele sabe que está adicionando caras questões cristianas à luz da mesa, como a culpa (sentimento que aqui de certo modo, se materializa e age), a dúvida ou incredulidade (abordagem que ocorre na relação de Lucie e Anna, principalmente, calcada na confiança que alimentam uma ante a outra) e na minha opinião a questão mais cruel, mas que não pretendo demorar nela: a resignação.

Outro ponto forte em Martyrs é o erotismo, superficialmente ele parece negado, se tivermos em mente seu caráter sexual objetivo. Prova disto, é que os médicos reponsaveis pelo tratamento de Lucie, afirmam que ela não sofreu abuso sexual. Contudo, Laugier parece relembrar algo dos antigos cultos a Dionísio, em que a violência e morte, via sacrifício, eram elementos chaves das orgias. Impossível também não mencionar Saló, de Píer Paolo Pasolini. Se Pasolini escolheu ser claro sobre o sexo propriamente dito em seu filme por um lado, contrário de Martyrs, por outro ele também retrata os excessos do desejo e o total desequilíbrio de forças entre os pares, mais especificamente no capitulo Circulo de Sangue. Laugier e Pasolini mostram o corpo, o corpo jovem e belo, estandartes da sedução, sujeitos ao gigante perverso que a Igreja, Estado e a Cultura podem assumir.

Quanto à sedução, vale ressaltar que a mulher sempre foi encarada como fonte deste adjetivo, e ao longo da história isto lhe valeu muito desgosto. Acredito que Laugier não ignorou este “fato”, para potencializar a parte psicológica da composição ocupada pela sensualidade.

Quando o prazer em Martyrs mostra-se aparentemente ignorado, como já dito, por ambas as partes no jogo da tortura, surge outro vínculo com a religião cristã, que desde sempre se mostrou avessa a isto. Contudo, mesmo que o romance latente entre Lucie e Anna não se consubstancie ao longo do filme e sequer ocorra um estupro assumidamente, a atmosfera sexual do filme não é destruída, mas ampliada. O sadomasoquismo se afirma e firma-se como a possível forma de afetividade, a forma mais duradoura e funcional nas relações estabelecidas entre as personagens. Sobretudo, não devemos esquecer o nosso papel nesta estória : o seguro e protegido voyeur.

4/5

Ficha técnica: Martyrs – França/Canadá, 2008. Dir.: Pascal Laugier. Elenco: Morjana Alaoui, Mylène Jampanoï, Catherine Bégin, Robert Tupin, Patricia Tuslane, Juliette Gosselin, Xavier Dolan.

– por Allan Kardec Pereira

Desejo e Obsessão é um filme cronenberguiano por excelência, sobretudo se compararmos com uma obra-prima do porte de Crash. O transtorno sexual é visto como uma doença, como um vício, mais ainda, a narrativa fragmentária de Claire Denis sugere que todo esse processo se deu por conta de um erro científico, mas um tema caro a Cronenberg. Entretanto, tanto a Fotografia sensorial, quanto a forma de filmar os corpos, quase que investigando pele e anatomia daqueles, talvez sirva pra demonstrar que Denis busca marcar ponto com as estéticas do cinema contemporâneo.

Shane (Vincent Gallo) e June Brown (Tricia Vessey) são dois norte-americanos recém-casados que estão em viagem a Paris. Shane parece um homem atormentado, tomado por um incontrolável apetite sexual e, por isso, está procurando desesperadamente um velho conhecido: Léo Semeneau (Alex Descas), um médico francês com quem trabalhou em perigosos experimentos sobre a libido humana. Dr. Semeneau. Este, por sua vez, persegue Core (Béatrice Dalle), sua insaciável esposa, que fugiu do quarto onde era mantida presa.

Se em “Crash” a doença/vício dos personagens vem de provocar e participar de acidente de automóveis, mesmo que, e sobretudo se, isso resultasse em fraturas, perfurações e de, em seguida, fazer sexo. Em “Desejo e Obsessão” vemos dois personagens que provavelmente tendo participado de misteriosos experimentos sobre a libido, passaram a sofrerem distúrbios sexuais extremos, levando até mesmo ao canibalismo. Em ambos, os processos, os vícios se interligam.

Filme sobre a carne que atende a impulsos fora da racionalidade,  filme à flor da pele, cinema sensorial, onde transita por um clima ao delicado (destaque para a bela e discreta música de Tindersticks que acompanha todo o filme) e bestial, onde se fala muito pouco, se age muito pouco, mas quando se fala ou se age, é de uma vez por todas.quando os impulsos de suas feras parecem tomar o mote narrativo em uma explosão poucas vezes vistas de gore e sexo. Obra-prima do cinema francês recente, o olhar aflito da esposa de um dos canibais ao final do filme sugere toda uma gama de possibilidades, nem de todo confortantes, algo que Cronenberg certamente aprovaria.

5/5

Ficha Técnica: Desejo e Obsessão (Trouble Every Day) – Alemanha/França/Japão, 2001. Dir.: Claire Denis. Elenco: Vincent Gallo, Tricia Vessey, Alex Descas, José Garcia.

zatoichi

– por Michael Barbosa

Tem os filmes de samurai. Tem Kurosawa e Masaki Kobayashi, tem também Yoji Yamada e Takeshi Miike e tem os animes e tem muito mais. A figura do samurai, um dos grandes símbolos da cultura nipônica, foi explorado e recriado diversas vezes. Muitas delas no cinema. Eis que em 2003 se valendo de um dos samurais mais conhecidos dos japoneses e que já rendera entre filmes e séries; versões, continuações e prequels, mais de vinte Takeshi Kitano não tenta reinventar, mas apenas trazer algo que vibre novo, e a novidade aqui está nas personagens. Além do massagista-samurai-cego (sic) temos ainda uma dupla de gueixas vingativas – com direito a uma gueixa-travesti – e um amigo não muito esperto e no inimigo um mercenário de causa e nobre.

A história d’O Massagista, um homem cego com um apurado senso de justiça e habilidades incomuns com uma katana, é contada com um apuro e estilo louvável por Kitano. Se valendo de belos cenários, violência explícita – glamurizada e nunca gratuita – cenas de ação ágeis – aqui as lutas são resolvidas quando se saca a espada – e bem filmadas e um pra lá de típico humor pastelão e cheio de gags visuais típicos dos filmes de samurai mais “bem-humorados”, e até nisso ele é be sucedido, o vizinho que acha que é samurai e a absurda ideia de uma gueixa-traveco (essa por sua vez que é levada a sério) arrancam boas risadas e quebram o rítmo entre uma cena gore e outra de maneira muito virtuosa.

Pro bem ou pro mal há de se dizer que Zatoichi é bem menos empolado que outros filmes do diretor. Comparado à metalinguagem de Glória ao Cineasta este parece realmente um filme mais… Despretensioso diríamos. Se em Brother, por exemplo, ele fez a sua leitura da Yakusa e seus valores e dogmas aqui é “apenas” a sua e tão sua história de samurai e ele faz disso é uma experiência prazerosa ainda que a certa altura alguns flashbacks com propósitos elucidativos pareçam deslocados, na conclusão há ainda  um pouco de “filosofia oriental”, mas sem forçar a barra, fluindo naturalmente e – como não podia deixar de ser – com algum apelo cômico (afinal termina em um tropeção).

E no final, enquanto despeja na tela o desfecho da trama e releva verdades tão bem guardadas ao longo dela Kitano ainda faz questão de deixar algumas coisas claras e nos dá uma bela sequência musical, com música, danças e figurinos folclóricos e típicos. Zatoichi é – ao mesmo tempo – uma afronta e um ode ao samurai e ao que o cerca. Sua cultura. Takeshi bate e assopra com uma naturalidade e inspiração inacreditável.

4/5

Ficha Técnica: Zatoichi (座頭市) – 2003, Japão. Dir.: Takeshi Kitano. Elenco: Takeshi Kitano, Tadanobu Asano, Yui Natsukawa, Michiyo Ookusu, Gadarukanaru Taka, Yuuko Daike, Daigorô Tachibana, Ittoku Kishibe, Yoji Tanaka

por Bernardo Brum

Assim como outras produções igualmente específicas como Doghouse, Kick Ass – Quebrando Tudo é um oásis. Daquele cinema  que só é cult porque mesmo em 2010 o mundo anda muito careta. Daquele cinema que não tem medo de utilizar o verdadeiro humor grosso e politicamente incorreto para provocar quem assiste. E, principalmente aquele cinema realmente divertido, sem freios ou autocensura, que anda um tanto esquecido pelas grandes produtoras e distribuidoras mais interessadas em alienígenas azuis e robôs gigantescos milimetricamente projetados para o sucesso…

Uma adaptação de quadrinhos de Mark Millar e John Romita Jr., por si só, inegavelmente, resultaria em algo divertido. Mas com a visão de Matthew Vaughn (ironicamente, vindo do muitíssimo bem comportado Stardust – O Mistério da Estrela), a coisa tomou proporções bem além. Muito além da mera curiosidade pela curiosidade de ver um garoto nerd agindo (ou pelo menos tentando agir) como um vigilante urbano metido num ridículo collant verde e amarelo, o outro acerto disfarçado de ironia de Vaugh, além de deseducar seu próprio estilo, foi fazer de Kick Ass tudo o que o Watchmen de Zack Snyder poderia fazer pelo cinema blockbuster atual; uma revisão realista do super-herói no cinema.

E vejam só, Kick Ass realmente faz isso – mesmo tendo uma cena de pancadaria a cada cinco minutos com sangue, gore, tiroteios e  explosões sobrando para todo lado. A sensação de ver a personagem da Hit Girl fazendo o que o título anuncia é ver uma versão em miniatura da Noiva em Kill Bill – e se Tarantino em meio aquele festival de kung fu, katanas e nojeiras havia arrancado ambiguidade e esbanjado credibilidade a uma personagem que passava o filme fazendo coisas impossíveis, Vaughn faz a mesma coisa. Aliás, vou além: é o tipo de filme que encheria o queixudo de orgulho e ver que  suas “crias” foram muito além de macaquear seu estilo e souberam referenciar as pequenas revoluções de Tarantino no paradigma da indústria sem serem meramente derivativos.

Cada personagem de Kick Ass tem um conflito do tamanho de um bonde para resolver, e a maior parte deles nem envolve ser um vigilante. Não são problemas que você pode resolver socando as fuças, rasgando o pescoço ou metralhando as  tripas: timidez, juventude roubada, ressentimento que corrói por dentro, necessidade de aceitação. Indivíduos distintos, que são um em um milhão, que só conseguem sair da sua “invisibilidade social” quando vestem algo ridículo o suficiente para conseguir chamar a atenção das pessoas na rua.

Os heróis de Kick Ass podem apanhar de qualquer um na rua, e têm falhas de caráter como qualquer pessoa, e claro, estão nessa por serem pessoas para lá de insensatas. Você combateria o crime vestido de Batman, de collant verde ou de peruca roxa? Com provas para fazer, uma garota para conquistar, com problemas familiares para resolver, você sairia fantasiado e armado com porretes para enfrentar gente aramada com facas, espingardas e granadas?

Vaughn faz a decisão acertada de mostrar que todos os que tentam ser heróis no filme não estão sendo particularmente inteligentes – por mais longe que cheguem, só se metem em enrascadas por razões puramente pessoais e só saem dela por sorte e artilharia superior.

Mas claro que você não deve, quando ler “realismo”, esperar cem por cento dele. A verossimilhança com o mundo real, nesse caso, é bem mais psicológica. E ainda bem! Pois o senso de ação de Matthew é fantástico, principalmente dirigindo a pequena Hit Girl, capaz de fazer frente a um exército de Rambo, T-800 e Braddock. Indesejada pela produtora, a garotinha de 11 anos só viu a luz das telas por causa do diretor ter acreditado que a garota teria todas as chances do mundo de virar um ícone de culto dos aficcionados – e ele estava coberto de razão. É a personagem mais carismática do cinema de ação dos últimos anos, capaz de fazer os apagados Chev Chelios e Dominic Toretto corarem de vergonha! Tudo isso por ter personalidade e conflitos a serem resolvidos. Conflitos que o público pode se identificar, mesmo em meio a saraivada de pólvora e TNT que quase fazem cheiro dada a profusão on screen. Duvido, ao final da projeção, você não querer ter uma irmãzinha menor feito Chloe Moretz. Ela é a pirralha mais legal da face da terra!

Candidato ao provável titulo de filme mais divertido de 2010, Kick Ass não é nada mais, nada menos, que um filme vitorioso em seu propósito. Um filme que não tem medo de projetar uma criança esfaqueando e metralhando centenas, um nerd apanhando o filme inteiro, um erotismo adolescente pra lá de malicioso aqui e ali, uma sinceridade nos diálogos entre jovens que só perde para Superbad e talvez o melhor filme até agora que retrate a influência da internet nesse meio, tudo nesse clima ao mesmo tempo escrachado e dramático. E pô, ainda tem o Nicholas Cage de bigodinho fazendo uma piadinha imbecil a cada 5 minutos…

4/5

Ficha técnica: Kick Ass – Quebrando Tudo (Kick Ass) – 2010, EUA. Dir.: Matthew Vaughn. Elenco: Nicolas Cage, Xander Berkeley, Chloe Moretz, Michael Rispoli, Adrian Martinez, Aaron Johnson, Mark Strong, Christopher Mintz-Plasse, Evan Peters, Lyndsy Fonseca, Clark Duke, Omari Hardwick

por Bernardo Brum

Um maníaco sequestra as vítimas – todas elas garotas lindíssimas – até o porão de algum lugar abandonado. Lá, tortura elas longamente, cortando os dedos, esmagando os ossos, mutilando os lábios…

É, Dario Argento tapeou meio mundo ao chamar de Giallo um filme que não é, via de regra, um giallo. E para os puristas com fricotes, com alguns elementos do sub-sub-subgênero torture porn. Um assassino que não usa as luvas pretas, não empunha aqueles faconaços reluzentes, que não mata as vítimas de primeira, que Dario Argento revela a identidade nos primeiros minutos, explicando sua origem em seguida por flashback…

Dos “filmes amarelos”, só restou o detetive e a companheira com algum elemento que a liga diretamente com a série de crimes. Aí que Giallo se apresenta como um filme sóbrio, maduro e consciente de si – mas nunca, nunca menos pirado ou delirante por conta disso. Cada morte violenta ainda esconde o prazer culpado de Dario Argento: a brutalidade terrível combinada com apuro estético tremendo, a eterna busca do diretor por uma imagem que cause a tal da síndrome de Stendhal no espectador.

Mas acontece que o filme é um giallo “revisionista”. Não apenas do subgênero que quer fazer conexão e discutir sobre, mas, talvez, de todo o cinema fantástico italiano que teve seu auge entre os anos sessenta e oitenta. Os faconaços só reluzem em flashback, a violência só é filmada dentro de quadro da mesma forma. E o mistério também só existe lá. À época presente que o roteiro conta, a câmera desvia da violência e nos obriga a imaginá-la, o investigador é destruído pelo passado, nós sabemos quem comete aqueles atos horríveis. Sem mais delírios visuais, sem mais roteiros fragmentados, sem mais estímulos sensoriais a níveis ensandecidos e dementes.

Daí, diferente de antigamente, prezar tanto a lógica; daí procurar aprofundamentos psicológicos ao invés do impacto emocional. Mais que isso, analisa a época com certa nostalgia e por que não, melancolia. Nós não temos mistério pra resolver em momento algum. Somos cúmplices hitchcockianos da teia de intricados joguinhos mentais de Argento. Adrien Brody, como investigador, é um “Bogart recauchutado e amarelo”: com certeza todos se lembram do elegante homem amargurado do noir; é hora de lembrar do homem do giallo, aquele tão perto da loucura sensorial o tempo todo que corre o risco de surtar a qualquer momento – porque as coisas simplesmente não acabam do jeito que ele queria, por sua culpa, tão grande culpa, e não há cigarro com chapéu de lado para consolar – resta apenas encarar uma poça de sangue. Ao final, ele fodeu com tudo.

Dessa vez, não vemos nosso reflexo no sangue; há algo entre nós e o sangue, um esgotamento, um esvaziamento, uma impossibilidade da falta de completude. E o filme acaba meio que por acidente, numa sequência filmada de forma quase corriqueira, distanciando-se da ópera de sangue setentista. Sinal dos tempos?

4/5

Ficha técnica: Giallo – Reféns do Medo (Giallo) – 2009, EUA. Dir.: Dario Argento. Elenco: Adrien Brody, Emanuelle Seigner, Elsa Pataky, Robert Miano, Lorenzo Pedrotti, Silvia Spross

masters of horror– por Bernardo Brum

Pesadelo Mortal

cigarette burns 2

Carpenter, com orçamento limitado, formato de televisão e um roteiro bastante simplório a nível de história – porém possuidor umas discussões bastante interessantes a respeito da criação cinematográfica, faz o espectador perder o fôlego durante uma hora. A direção, o ritmo e a intensidade imprimidas no filme demonstram um fôlego que parecia que o diretor tinha perdido desde A Cidade dos Amaldiçoados.

Neste episódio é contado a história de um endividado dono de cinema especialista em econtrar cópias de filmes obscuros por quantias módicas. Certo dia, é contratado por um ricaço excêntrico para encontrar a única cópia existente do filme mais perturbador que se tem notícia no universo ficcional da história, uma película francesa que atende pelo nome O Fim Absoluto do Mundo, cuja única vez que foi exibido pelo público fez o mesmo matar uns aos outros e destruir o cinema. O interesse só cresce quando o proprietário do cinema, seu ex-sogro, o ameaça de morte caso não quite a dívida.  No meio do caminho, envolve-se com o lado barra pesada do mercado negro, o lado underground e obscuro do cinema e uma série de eventos sobrenaturais. A própria obsessão do protagonista faz o mesmo lembrar-se do seu passado que envolve vício em drogas e uma namorada morta, misturando-se com uma suposta maldição que faz quem procura o filme ver “queimaduras de cigarro” (aqueles círculos tostados que projetores velhos fazem em películas expostas ao calor intenso, como também vemos em determinada cena de Clube da Luta, de David Fincher).

Homenageando tanto o cinema de segundo escalão quanto a profissão de projecionista (como a sequência em que o projecionista gordinho do cinema revela manter uma coleção de fotogramas recortados e roubados das cópias que chegam no cinema de clássicos filmes de terror), Carpenter mistura efeitos bem toscos com sequências bem perturbadoras, e também brincando com a própria forma de se montar e exibir um filme, como quando faz o próprio espectador ver as “queimaduras de cigarro” que sempre dão alguma reviravolta inexplicável na história. Afora o lado semiótico do roteiro que discute a responsabilidade e liberdade dos criadores e responsáveis pelo cinema, o episódio é uma hora inteira de sangreira, suspense e diversão ininterruptas, incluindo sequências próximas ao genial – tipo a que mistura um projetor, película, sangue e tripas. Oh, yeah!

3/5

Pesadelo Mortal (John Carpenter’s Cigarette Burns) – 2005, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Udo Kier, Christopher Redman, Norman Reedus, Gwynyth Walsh

Pro-Life

pro life 2

Será que quem é contra o aborto mudaria de idéia caso a cria de uma união forçada fosse o filho do próprio tinhoso? Sei lá. Carpenter também não sabe. Mas a idéia é tão tosca e engraçada que com certeza poderia render um filme, certo? Não? Ok!

Sem maiores discussões aprofundadas, a preocupação única é contar uma história maluca de uma jovem grávida que está correndo pela floresta e quase é atropelada por um casal de médicos amigos coloridos. Ela é levada, em estado de choque,para uma clínica de abortos, onde implora que tal procedimento seja feito. Aí, então, chega o pai dela, um bandidão perigoso impedido de chegar a menos de quinhentos metros do hospital. Ele quer que liberem a filha dela, já que uma voz sinistra, que ele acreditar ser Deus, o manda proteger o bebê. Munido de fanatismo, muitas armas e seus filhos quase tão maníacos quanto, parte para o ataque ao “matadouro”, como ele chama – e onde irá descobrir a real origem do rebento.

Enfim, é só isso, com pequenos toques de Assalto à 13ª DP e O Príncipe das Sombras, junto com uma criaturinha meio sinistra à lá Enigma do Outro Mundo. Sobra tiro, mutilação e tortura pra todo lado, inclusive um clímax muito hilário onde o capeta (um bonecão macabro que mais parece feito de látex ou papel machê) sai do hospital com o filho morto por um balaço na testa, com direito a musiquinha triste, câmera lenta e o escambau. Molecagem divertidaça do velho mestre.

2/5

Pro-Life (John Carpenter’s Pro-Life) – 2006, EUA. Dir.: John Carpenter. Elenco: Caitlin Wachs, Ron Perlman, Derek Mears