– por Luiz Carlos Freitas

Apesar de completamente rodado na Europa, Conquista Sangrenta é considerada a primeira produção americana de Paul Verhoeven (além do dinheiro investido, o filme é todo falado em inglês). E é interessante observar como o autor imprime marcas em suas obras, como se cada novo filme pontuasse uma página de um diário onde ele, escalonando, avaliaria os rumos de sua carreira.

O filme em questão, colocando à parte possíveis analogias à filmografia do diretor, ainda é uma obra de transição. A trama começa quando o nobre Arnolfini (Fernando Hilbeck) convoca Martin (Rutger Hauer), chefe de um grupo de combatentes, para liderar a retomada de seu castelo com a promessa de permitir que estes saqueiem seus inimigos à vontade como  forma pagamento. O problema é que, logo após a batalha, Arnolfini muda de idéia e os expulsa de  sua propriedade sem dá-los nada em  troca. Em busca de vingaça, Martin lidera um ataque a uma carruagem de Arnolfini que levava Agnes (Jennifer Jason Leigh), jovem prometida em casamento ao filho do nobre, sequestrando-a. E, quando de um acidente encontram uma estátua de São Martin, que supostamente os oferecera proteção em uma batalha sangrenta contra os homens de Arnolfini, passam a crer que o seu lider seria uma encarnação do santo e sua missão um chamado divino.

Apesar de extensa, essa descrição da trama é deveras necessária para que compreendamos alguns fatos ao analisar a obra e a relação estabelecida com o período em que a trama se desenrola. Como especificado logo após os créditos, o ano é 1501, início da chamada Idade Moderna, e tudo referencia esse período histórico, a começar pelo que dá o chute inicial aos conflitos entre os personagens, o capital. Arnolfini rompe com os princípios medievais da vassalagem (ele falta com sua honra), os explorando em prol de uma acumulação de capital em benefício próprio apenas.

Além disso, logo na primeira cena, enquanto um padre abençoa os soldados para a batalha, uma velha prostituta o interrompe e profere: “o tempo de se preocupar com Deus já passou, agora todos podem fazer coisas que realmente interessam aos homens, como beber, mentir, ostentar e sair com nobres moças impuras. O Inferno é aqui e Deus não tem que meter seu nariz no que nós fazemos”. Um  discurso, apesar de radical, bem coerente com o Neoplatonismo e o Humanimo, que vinham para amortizar o controle de Deus na vida das pessoas, até então vistas como criaturas completamente fracas e submissas à vontade divina (este último não pregando um total rompimento, apenas uma interpretação mais “humana” das Escrituras). Essa suposta personificação de São Martin pode ser encarada como uma alusão à descentralização do poder da Igreja e a proliferação de novas crenças Cristãs.

Também é mostrado o uso das novas tecnologias (as armas de guerra desenvolvidas por Steven, filho de Arnolfini, que em certo momento se declara um devoto de Leonardo Da Vinci) e de técnicas medicinais (quando um dos médicos diz que “apesar de impuros, os muçulmanos sabiam mais do corpo humano que qualquer médico cristão”).

O Racionalismo é gritante, certamente o ponto mais forte da obra. Aliás, não só dessa, mas de praticamente tudo que Verhoeven fez. O diretor, que tem formação católica, ja fez muitos personagens frios, outros manipuladores, alguns incoerentes; mas em geral, todos eram contestadores. Aqui, suas crias têm todas essas características. Não há um que possa ser chamado, de alguma forma, de ‘inocente’. São cientes do que fazem, manipulam, seduzem, chantageiam, comovem, ameaçam e matam de acordo com sua própria conveniência. Claro, isso é mostrado com certo exagero, mas a sutileza nunca foi lá dos maiores dons do holandês.

Conquista Sangrenta, em todos os outros aspectos cinematográficos, se sai muito bem, figurando entre os melhores trabalhos do diretor. Como já dito, trata de transições; de uma fase histórica à outra, da saída de Verhoeven da Europa à Hollywood. Relacioná-las (coincidentemente) ao capital não deixa de ser algo bem coerente.

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4/5

Conquista Sangrenta (Flesh+Blood) – EUA/Espanha/Holanda, 1985 – Direção: Paul Verhoeven – Elenco: Rutger Hauer, Jennifer Jason Leigh, Tom Burlinson, Jack Thompson, Fernando Hilbeck, Susan Tyrrell, Ronald Lacey, Brion James, John Dennis Johnston, Simón Andreu, Bruno Kirby, Kitty Courbois, Marina Saura, Hans Veerman, Jake Wood

por Bernardo Brum

Se em Louca Paixão Paul Verhoeven já havia dissertado sobre os limites (ou a falta dos mesmos) por um outro indivíduo, o épico de guerra Soldado de Laranja é a história da dedicação a um ideal: a de um universitário que passará os auréos anos de sua vida batalhando como infiltrado, mercenário e sabotador disposto a livrar o seu país da lei que ele não queria – o avassalador nazi-facismo que oprimiu várias culturas com suas idéias generalistas e totalitárias.

A abordagem não poderia ser outra vinda de quem cresceu perto de bases e campos de batalha – Eric, o herói de guerra intepretado por Rutger Hauer, é o alter-ego do diretor: preso à velha cultura, servo da rainha e, aparentemente, um verdadeiro caxias, mas também um libertário, inseguro e perdido. São poucos os diretores do mesmo período que, ao retratar um herói de guerra, também se preocupariam em mostrar seu lado mais humano, seu lado sexualizado, sua certa ingenuidade (atentem,  não do  filme, mas sim do personagem, às voltas contra toda uma sociedade impassível e só ao longo do filme tendo dimensão da mesma) e sua única chance de sobrepujar e sobreviver no seu maior norte: o ideal.

O ideal, é claro, irá custar caro: amigos, mulheres e demais relações de afeto serão trituradas sem dó por traições, torturas e assassinatos. Ao mesmo tempo que parece ser um câncer e destruir toda uma vida, é esta esperança, este símbolo que representa para ele que o mundo ainda poderá ser um lugar melhor, que lhe dá um motivo para continuar. Essa ambiguidade afasta o filme de qualquer saída fácil ou maniqueísmo de “nós contra eles”: todos temos ideais, todos estamos a caminhos de uma corrupção sob a qual podemos nos submeter ou não e todo qualquer indivíduo é vítima das circunstâncias do coletivo. Regra número um de Verhoeven, que perdura até os seus filmes recentes: “o inferno são os outros”.

Ao final do filme, Erik lembra, nostalgicamente, dos seus áureos anos, antes de toda a violência da Segunda Grande Guerra assumir seu lugar na ordem das coisas de forma violenta, e quanto de seus companheiros não tiveram a mesma sorte que ele. Mas isso não importa mais. O ideal prevaleceu e perdeu o sentido. E agora, tudo que ele pode fazer é pensar no futuro. Que apesar de tudo, tem a possibilidade de trazer melhores dias para se viver, longe daquele insensato mundo.

4/5

Ficha técnica: Soldado de Laranja (Soldaat Van Oranje) – Holanda, Bélgica. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Rutger Hauer, Jeroen Krabbé, Edward Fox, Derek de Lint, Susan Penhaligon, Lex van Delden

por Bernardo Brum

Comparando os quinze minutos iniciais com os quinze minutos finas de Louca Paixão, chegamos a uma certeza: que Paul Verhoeven é um completo demente quando liga uma câmera. Mas um demente apaixonado pelo ofício. Os quinze primeiros minutos são amorais, escandalosos, sádicos e fazem da exposição corporal uma arma para contextualizar o choque. Por outro lado, seu encerramento é impiedoso, melodramático e catártico na mesma medida.

O terreno aqui é o das paixões. E Rutger Hauer, interpretando um escultor obcecado por sexo que passa seus dias em uma mistura desenfreada de mulheres e arte, é cria e criador desse ambiente. Sua rotina inclui esculpir figuras bizarras, humilhar mulheres de bunda flácida, seios caídos e pêlos pubianos frondosos. Mesmo com esse comportamento bastante desregrado, também é um homem neurótico, capaz de perder a vontade de trepar pelos mínimos e mais estúpidos detalhes.

O filme prossegue nessa ciranda bêbada em todo seu desenvolvimento, mesmo depois de sermos apresentados à grande paixão do protagonista, Olga. O filme vai da alegria à amargura, da paixão ao resentimento, do humor negro à dramaticidade over com uma naturalidade impressionante. Apesar de ser comumente visto como um romance, guarda cenas que o público alvo deste gênero pouco estará acostumado a ver – como humilhações dolorosas, momentos escatológicos (alguns deles inclusive envolvendo fezes, vermes e o que mais de bizarro a mente do diretor conseguisse conceber) – mas é transcendendo esse bom gosto que Verhoeven consegue ser mais piegas do que nunca, num bom sentido: um casal que se ama a qualquer custo é apaixonado da boca até o ânus do companheiro. E claro, ao que dá para perceber, ao longo do filme, o casal de protagonistas se auto-destrói de tanto trepar – e demoram meses e anos para inclusive tomarem consciência disso.

E quando isso é constatado no filme, bang – eis que o filme é deformado brutalmente, as roupas aparecem, a escatologia quase some, aquele romance irrefreável do início torna-se escondido por meio de gestos, um assunto que ao que parece só dava um toque de humor negro à trama torna-se um arco dramático quase depressivo orquestrado com uma insanidade e frieza de um completo maluco. Iniciado depois de uma separação, esse ciclo do filme não poupa ninguém, e não sabemos qual personagem o diretor quis punir (a mulher promíscua ou o homem ciumento e rancoroso?)

Em quase duas horas de filme, Verhoeven invade não apenas o psicológico, mas também o físico dos seus personagens – suas resistências ao nojo, suas reações corporais, a degradação de suas formas são testadas ao limite e quem sobra é obrigado a jogar os restos de quem sobrou num triturador de caminhão de lixo (filmado, como aprecia Verhoeven, de forma muito próxima, muito exposta, muito direta). Longe de levantar questões fáceis, o diretor joga no ar o tempo todo perguntas, inclusive no final. O que resta de uma paixão tão maluca? Culpa? Lembrança? Ou apenas sucata, de onde viemos e um dia retornaremos?

4/5

Ficha técnica: Louca Paixão (Turks Fruit) – 1973, EUA. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Rutger Hauer, Dolf de Vries, Monique van de Ven, Tonny Huurdeman, Wim van den Brink, Hans Boskamp