– por Luiz Carlos Freitas

Sempre vi o Western como um gênero bastante dinâmico. Seus maiores representantes tanto eram dotadas de tamanha complexidade, como Rastros de Ódio, do mestre John Ford, um verdadeiro tratado socio e antropológico de uma época, como pura e simples diversão, com tiros, tiros e mais tiros (vide grande parte da filmografia do Giuliano Gema ou do – divertidíssimo – Terence Hill).

Entretanto, já há um bom tempo que não vemos representantes do gênero entre os lançamentos do mês. Foi-se a época em que sua popularidade era alta. Porém, um dos poucos lançados nos últimos anos, Os Indomáveis, de 2007, e sob a tutela de James Mangold, se não tem a profundidade de um filme do Ford (tampouco força suficiente para alavancar novamente o gênero em termos de popularidade), cumpre perfeitamente seu papel do “segundo grupo”.

O filme é uma refilmagem de 3:10 to Yuma, (traduzido aqui como Galante e Sanguinário), de 1957, dirigido por Delmer Daves (que co-roteirizou no mesmo ano o belíssimo Tarde Demais Para Esquecer, com Cary Grant e Deborah Kerr). Essa nova versão, apesar de ter uma trama basicamente igual, não é tão fiél à original (mas isso em momento algum pode ser considerado demérito). Christian Bale é Dan Evans, fazendeiro inválido e cheio de dividas que está a ponto de perder o rancho onde vive com a família. Após uma série de acontecimentos, ele aceita (a troco do dinheiro suficiente para quitar suas dívidas) escoltar Ben Wade (Russel Crowe), perigoso assassino (e líder de uma gangue de saqueadores) até a cidade onde passa o trem das 3:10 para Yuma, cidade onde Wade seria julgado e condenado por seus crimes. Após esse breve resumo (de onde temos noção da origem do título original do filme), vale lembrar que o bando liderado por Wade vai atrás dele para regatá-lo antes que ele embarque rumo a uma provável sentença de morte (estes liderados por Charlie Prince – Ben Foster, interpretando o bandido homossexual – e sádico – que lidera a busca por Wade).

Basicamente é isso. A trama simples, aliada à direção bem convencional e nada pretensiosa de Mangold são o segundo grande trunfo do filme. O maior mérito deve ser dirigido à dupla que encabeça o elenco. Com uma química espantosa, Bale e Crowe são, definitivamente, o brilho do filme. Não imagino outros em seus lugares nessa refilmagem. O carisma dos dois consegue até nos fazer relevar as muitas (e grandes) falhas no roteiro. Aliás, seu roteiro tem buracos de lógica absurdos (nunca vi um “prisioneiro” ter tanta liberdade ao ser escoltado – até armas e um cavalo dão a ele – e isso mesmo após o sujeito ter matado dois dos homens que o escoltavam) e uma construção psicológica dos personagens bastante rasa.

Em contrapartida, somos recompensados com uma direção ágil e que tenta compensar tais limitações. Mangold não deixa o ritmo cair em momento algum, alternando as cenas de ação com diálogos afiados que não deixam que o interesse do espectador se disperse (destaque às falas de Wade, as melhores do filme – seu sarcasmo e cinismo são impagáveis). A parte técnica ganha destaque. Indicado ao Oscar pela trilha sonora (apesar de nada marcante, se faz presente sempre de forma extremamente bem dosada – e grande responsável pelo clímax final) e som, ainda destaco a belíssima fotografia (nada muito além do convencional, mas ainda assim muito agradável de se ver em tempos de foto “digital”) e a direção de arte (os figurinos e resconstituição de época são lindões – o aspecto “sujo” dos “homens do Oeste”, nas roupas e no rosto – unhas marcadas à pólvora – consegue tornar os personagens mais críveis que o próprio roteiro). Isso, é claro, não esquecendo de Ben Foster (o cruel parceiro “afetado” de Wade)  e Henry Fonda, os coadjuvantes que roubam todas as cenas em que aparecem.

Sem muitos arrodeios, seguimos até o final, na dita estação, o ponto alto do filme, que ainda nos reserva alguns bons momentos de tensão, com um breve embate psicológico entre Dan e Wade (novamente, ótimos diálogos), uma consideravel surpresa e um impensável tiroteio entre um homem e toda uma cidade, que se não tem nem uma nesga da “poesia” do clássico tiroteio final de Meu Ódio Será Sua Herança, obra-prima de Sam Peckipah, ainda consegue prender a atenção de quem assiste (podendo até mesmo consumir algumas unhas roídas).

Não há muito mais a falar, a não ser citar o título adotado aqui, Os Indomáveis, mais um pro “Hall das Traduções Porcas” (esse pessoal deve se esforçar muito pra pensar em títulos tão ridículos – não acredito que tenham feito isso realmente acreditando que seria a melhor escolha). O filme tem vários problemas, mais relativos ao seu roteiro e os já citados buracos de lógica. Entretanto, ainda vejo méritos em suas limitações, pois uma vez que não desenvolve os personagens, também não procura aprofundar-se mais do que seu texto permite.

O que importa mesmo é que são quase duas horas de um monte de tiros, diálogos inteligentes, boa carga de tensão e mais outro monte de tiros, que vão fazer os adoradores do gênero (como eu) exclamarem alguns [muitos] palavrões na frente da TV e sentirem aquela saudade dos tempos em que os bons “bangue-bangue” ainda eram presentes nas listas de recém-chegados nas locadoras.

Mas quem é que precisa da sessão de “lançamentos”, mesmo?

4/5

Ficha técnica: Os Indomáveis (3:10 to Yuma) – 2007, EUA. Dir.: James Mangold. Elenco: Russell Crowe, Christian Bale, Logan Lerman, Dallas Roberts, Ben Foster, Peter Fonda, Vinessa Shaw, Alan Tudyk, Luce Rains, Gretchen Mol, Lennie Loftin, Rio Alexander, Johnny Whitworth, Shawn Howell, Pat Ricotti

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– por Guilherme Bakunin

Ao tocar no campo de trigo ao voltar para o seu lar depois do combate, ainda vestido de soldado, Maximus, com uma interpretação brilhante de Russel Crowe, encarna muito bem a postura de um homem de Roma. Nasceu como agricultor, é soldado e político. O toque na planta denuncia muito mais do que uma composição visual bacana, mas sintetiza a função do civil romano, sua cultura, sua vida, através de corretos, quando necessários, registros históricos. É importante ter em mente que essa obra-prima de Ridley Scott não é a documentação de um fato histórico e não pode, jamais, ser criticado por isso. Antes, porém, é um trabalho inteligente e preciso sobre um momento, composto por décadas ou séculos, do império mais poderoso que já existiu.

Maximus é um nobre e dedicado soldado do império, leal ao imperador Marco Aurélio. Durante um combate onde Maximus, como general, procura impedir a invasão dos bárbaros germânicos, ele toma ciência do fato que o imperador, já velho, quer entregá-lo o trono. Commodus impede, matando seu pai, Marco Aurélio, assumindo o trono. Enquanto isso, Maximus é ferido, se perde de seu exército, torna-se escravo e depois gladiador, e começa a disputar batalhas ferozes até chegar na capital, no Coliseu.

Grande parte da beleza do filme está aí. Maximus é um cidadão de destaque para Roma, saiu do campo, ascendeu como soldado, decaiu, transformou-se, pelo destino, como se uma força maior exercesse algum controle sobre sua vida, escravo, e depois gladiador. Da plateia, saltou para o circo, passeando por diversas camadas políticas e sociais, representa várias classes, elementos. Podemos começar a ver o filme principalmente sobre essa ótica: não um mera história ambientada na antiguidade, com atos nobres e heroicos, mas um retrato humano de uma humanidade ativa, poderosa, que conquistou meio mundo e deixou marcas para sempre na história. Somos mais romanos do que desejaríamos. Nosso direito, nossos dogmas, nossas convenções, nossa arquitetura e nosso pequeno universo derivam diretamente daquele império e é, provavelmente, isso que Scott tenha desejado mostrar, afinal, mesmo o poster do filme já evoca a continuidade interrupta: ‘o que fazemos em vida ecoa por toda a eternidade’, um caráter notável principalmente se pararmos para pensar que era exatamente esse o aspecto que girava o mundo durante o período do crepúsculo do império: o povo romano levantavam monumentos, esculpiam retratos e erguiam sepulcros, acreditando que através dessas coisas, jamais estariam completamente mortos.

Seus memoriais trabalham muito menos com a índole da pessoa – algo que se tem certo destaque em funerais atuais – e muito mais com suas obras. É por esse motivo que a honra adquire uma importância muito mais fundamental da vida daquelas pessoas, e é aí que encontramos a motivação que engatilha a história de vingança de Maximus. O resgate da honra, o acerto de contas consigo mesmo, o culto aos antepassados e à família, as conspirações, as neo-filosofias, os jogos de poder, a mente megalomaníaca… Roma está retratada em Gladiador, não sob a ótica de um documento fiel, mas na elaboração ficcional de um épico. A retratística não é perfeita, o filme possui pequenos ou grandes erros (vai depender de quem assiste), mas a mensagem é clara.

5/5

Gladiador (Gladiator) – 2000, EUA. Dir.: Ridley Scott. Elenco: Russew Crowe, Joaquim Phoenix, Connie Nielsen, Oliver Reed, Richard Harris, Derek Jacobi, Djimon Hounsou.