por Bernardo Brum

Baseando-se em uma história real, Fuller fez de O Barão Aventureiro seu “filme-farsa”; uma visão extremamente irônica e ácida, ainda que bastante dramática, da formação da América. Talvez seja um filme de visão praticamente anárquica, ao reduzir o Estado a nada mais que uma mera invenção humana. Essa crença compartilhada de algo nem um pouco concreto é ridicularizada por James Reavis, “o barão do Arizona”, que forja documentos antigos ligados à uma família espanhola que lhe daria o direito de clamar posse da Arizona. É isso aí: por mera questão de papelada, um homem vira dono da terra, supostamente tendo mais direitos que os outros.

Tema que sempre seduziu Sam Fuller, como bem pode-se ver nos seus outros westerns, Matei Jesse James, Renegando Meu Sangue e Dragões da Violência,  a desmistificação dos mitos norte-americanos e de todo o patriotismo exagerado que eles trazem consigo. São western “noir”, onde a fotografia é preto e branca e não cinza, onde as cenas de maior dramaticidade acontecem à noite, onde os homens são perigosos, as mulheres ambíguas e a grande massa, ameaçadora ao invés de ingênua. Nesse seu segundo filme, fazendo companhia ao debut sobre Jesse James, Fuller encontra na postura, na voz e nas feições de Vincent Price o charlatão obstinado que faz de uma figura tão bizarra e improvável – inspirada em acontecimentos reais – algo acreditável e passível de ser material reflexivo.

Dessa atmosfera seca e bruta que Fuller repensa questões como terra e propriedade e coloca um questionamento sobre o próprio surgimento da América.  A construção de um país, de uma mentalidade, afinal de contas, jamais se faz de maneira limpa e honesta. É sempre em cima de sangue e mentira;  James Reavis apenas havia exagerado ao tomar posse de todo o Arizona, mas quem disse, afinal de contas, que grandes donos de terra realmente merecem ser o proprietário da mesma?

Um assunto que já custou tantas vidas e já foi alvo de tantos protestos, a relação entre terra, indivíduo e comunidade  ainda é algo forte nos dias de hoje, e a maneira como Fuller encenou sua obra – em um tom farsesco, que seria irônico se não fosse trágico, encontra paralelos com outros filmes estadunidenses feitos à época – de Ford em Rastros de Ódio com seu cowboy misantropo e nada heróico a Ray e seu adolescentes sem rumo em Juventude Transviada, já era compreensível que tanto a velha geração que ergueu os mitos já os questionava – e a nova geração à época ia ainda mais fundo. – não custa nada lembrar que Fuller, Ray, Anthony Mann, Preminger e tantos outros que trouxeram à tona para gêneros mais consagrados temas controversos que acabaram por sacudir o cinema da época – que influenciaria a Nouvelle Vague de forma marcante com sua admiração pelos tipos errados que a geração pós-Welles vinha encenando – e por conseguinte todos os cinemas regionais, refletindo no próprio cinema da terra do Tio Sam, que no final dos anos 60 e início dos 70 foi finalmente capaz de fazer da subversão algo icônico para o grande público.

Apesar de não ter sido o único em sua época, Fuller talvez tenha sido um dos mais explícitos e eficientes e ousados em matéria de não só trazer temas novos mas também aplicar os conceitos que Welles trouxera desde que desembarcara em Hollywood – a iluminação demarcada, preocupada mais em realçar a emoção do que justificar-se, o trabalho com lentes e angulações de câmera criando um ambiente confuso e bruto, tão claustrofóbico quanto imenso, está tudo em O Barão Aventureiro, filme que já demonstrava um claro amadurecimento de estilo. Todo o o trabalho de composição de luz e atuação pode nos dar a impressão, por alguns segundos, que Price é realmente o dono do Arizona, com toda a sua imensidão projetando sombras sobre a terra, sobre o chão e sobre as paredes – a vitória da farsa. Quando o castigo vem à cavalo, ecos da brutalidade dos cineastas expressionistas (principalmente de Fritz Lang, em Fúria), tudo é amedrontador e o Barão do Arizona não é nada mais que um homem frágil, intimidado por uma massa que já não pode conter, a mesma já cansada da incompetência do governo e querendo resolver da forma mais quente e imediata possível, e tudo que pode fazer é jogar pela própria vida, como todo bom farsante faz quando é flagrado.

No final ,com sua estilização e obsessão por trazer ao espectador uma imagem-síntese que os tempos estavam mudando, Fuller fez um filme mentiroso – honesto o tempo todo conosco, jamais entre seus personagens até o momento da resolução. Quando um único homem abdica da terra, dá-se o primeiro passo para a democracia. Essa simples recusa frente à farsa é aquela tal redenção que Sam tanto procurava em seus filmes. Só haverá democracia com igualdade de direitos. Só haverá um homem livre quando todos também o serem. No final, James Reavis, o homem que foi a caricatura grotesca de todos os brancos donos de terra que por tanto tempo subjugaram outros imigrantes, é mais um homem entre tantos. Pelo menos na ficção, esse homem que passou por uma tomada de consciência era livre, finalmente, como tanto almejavam Sam e sua geração de colegas  – chama de esperança que talvez se perderia com o tempo, ao fazer da verdade algo insuportável em Paixões que Alucinam e do outsider algo incômodo demais para a sociedade tolerar em O Beijo Amargo – mas, pelo menos em seus primeiros filmes (Matei Jesse James, O Barão Aventureiro e Capacete de Aço), exalavam um desejo de liberdade urgente e inegavelmente sedutor.

4,5/5

Ficha técnica: O Barão Aventureiro (The Baron of Arizona) – EUA, 1950. Dir.: Samuel Fuller. Elenco: Vincent Price, Beulah Bondi, Vladimir Sokoloff, Robert Barrat, Ellen Drew,Reed Hadley.

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por Bernardo Brum

Robert Ford. Segundo a lápide, “o homem que atirou em Jesse James”. Um homem medíocre que, após fazer a única coisa digna de nota da sua vida – matar um dos mais terríveis ladrões do Oeste, uma figura que ao mesmo tempo despertava repulsa e  fascínio – foi rejeitado, em todos os lugares, da alta sociedade às camadas miseráveis do contexto aonde vivia, como o pior dos traidores, aquele no qual um homem de certa forma notável depositou sua confiança e acabou levando uma bala. Pelas costas. Ao invés da glória de um benfeitor, Robert Ford passou o resto da sua curta vida entre má fama e anonimato, até conhecer a morte pelas mãos de Ed O’Kelley, que mais tarde acabaria sendo perdoado pelo assassinato do algoz do infame fora da lei..

Portanto, Robert Ford, ao longo das décadas, acabou por vezes sendo mais assunto de interesse artístico que o próprio Jesse James. Acabando por tornar-se uma figura à lá “Robin Hood do Velho Oeste”, James seria explorado por essa faceta em inúmeros filmes e canções, inclusive uma clássica canção folk que, além de descrever seus feitos e sua vida familiar, também taxava Bob como um “pequeno e sujo covarde” e perguntava como ele se sentia por “comer da comida de Jesse e dormir na cama de Jesse” para logo depois enfiar um balaço na parte de trás da cabeça da lendária figura. Ford acabaria sendo considerado um autêntico marginal, na mais pura acepção da palavra: à margem da sociedade, um homem em quem ninguém poderia confiar, que não faria mais parte nem da elite, nem do “povão”, nem dos foras-da-lei. Um autêntico pária. E uma figura que parecia ter sido feito sob encomenda de tão ideal que era para Samuel Fuller, rei dos cineastas americanos malditos (engulam essa, Russ Meyer e John Waters!) pegar para protagonista de seu primeiro filme, Matei Jesse James.

Desde o primeiro momento, é notório como Fuller se distancia de qualquer julgamento por parte da direção e filma a história exatamente como imaginava que seja: um conto sobre traição de caráter ambíguo, onde, afinal de contas, nunca saberemos a quem dar razão. Seria assim em filmes posteriores, como Anjo do Mal e O Beijo Amargo, e é assim desde o primeiro minuto da sua filmografia.

Matei Jesse James é um faroeste que bem poderia ser um noir, não pelos elementos dramatúrgicos, mais pelo clima geral de derrota: o negrume de sentimentos vindos do protagonista (que mal ou bem, nós criamos uma cumplicidade com ele – desde o título na primeira pessoa do singular, afinal), o fato de se passarem muitas das cenas mais determinantes à noite (o que já complementava o que Fuller disse uma vez: a câmera deveria destacar a ação como o negrito destaca um texto) e o abandono sofrido por Bob Ford por todos à sua volta, inclusive da mulher amada ilustram, cerca de apenas dez anos depois de John Ford consagrar o western em Nos Tempos das Diligências, que o velho oeste poderia sediar muito além de contos sobre conquista e triunfo; poderia ser, pois, um lugar palco de homens e mulheres amargurados, desesperados e muitas vezes corruptos, protagonizando histórias de traição, abandono e moral duvidosa, onde nada é o que parece ser e todos tem seus podres. Antecipando em uma década a revisão do estilo que o próprio John Ford e outros cineastas como Sergio Leone e Sam Peckinpah iriam propôr com mais impacto.

Como todo début, Matei Jesse James ainda é o diretor em estágio embrionário; as marcas de estilo que fariam do cineasta famoso pelos westerns estranhos, noirs atípicos e filmes de guerra de ponta-cabeça ainda estavam tímidas aqui.  Se desenvolveriam rápido, é verdade – Capacete de Aço, de dois anos depois, não me deixa mentir. Mas aqui sutis problemas de desenvolvimento (ou, em linguagem mais direta, cenas que poderiam ter sido cortadas da montagem final por simplesmente não acrescentarem muita a coisa) impedem a história de ter um impacto mais profundo para gerações posteriores. Nada que atrapalhe, porém, os méritos do filme pela ousadia de ir contra a maré de um gênero ainda em plena década de quarenta; por não apresentar nenhum benfeitor e sim, personagens com pontos de vista diferentes sob a mesma situação. Só por isso, Matei Jesse James já merece a fama que tem – além de, é claro, ser o alvorecer de um dos maiores e mais renegados cineastas da terra do Tio Sam.

3/5

Ficha técnica: Matei Jesse James (I Shot Jesse James) – 1949, EUA. Dir.: Samuel Fuller. Elenco: J. Edward Bromberg, Preston Foster, John Ireland, Barbara Britton, Reed Hadley, Victor Kilian