por Bernardo Brum

Por cerca de quatro décadas de sua vida dedicadas ao cinema, Fuller fez questão de remar incansavelmente contra a maré. Botou canalhas, decadentes e covardes no papel de protagonistas, apresentou fatos chocantes em teor de denúncia jornalística, renovou a montagem americana típica com os jump-cuts, trabalhou por produtoras-distribuidoras pequenas, fez filmes com uma miséria, raramente trabalhou com atores reconhecidos…

Foi esta fibra de herói da resistência que deu ao homem gana o suficiente para fazer em plena era do McCarthismo filmes como Renegando Meu Sangue, que com suas doloridas questões acerca de patriotismo, identidade étnico-cultural e guerras civis, fatos estes que carregam grande peso e simbolismo para os estadunidenses, toca aonde dói sem a mínima parcimônia. Um dos mais clássicos westerns de sua carreira, não abandona a força truculenta nem a melancolia arrasadora dos seus noirs e filmes de guerra em momento algum; o Velho Oeste, para Fuller, era outro lugar de gente vencida e de perdedores de marca maior.

Não à toa, o protagonista é um sulista vencido na Guerra de Secessão que, recusando a dobrar-se perante os vencedores do norte, foge para o Velho Oeste e acaba se misturando a uma tribo de índios sioux, procurando abandonar sua identidade caucasiana e derrotada, tentando fazer brotar dali um indígena guerreiro e vencedor.

Vivido com intensidade e angústia por Rod Steiger, o protagonista é nada mais que uma América do Norte caída e arrasada tentando se reerguer (a longa guerra civil ceifou quase um milhão de vidas, afinal de contas), filmado com habilidade e, principalmente, sinceridade por Samuel Fuller. Jamais tornando o filme banal ou politicamente correto, o filme aborda de forma febril essa transfiguração que acontece na tal “corrida da flecha” do título original – começando em planos descritivos de terras em ruínas com poucos homens vagando e, pouco a pouco, desembocando em níveis cada vez mais crescentes de tensão e violência (foi o primeiro filme a reproduzir ferimentos realistas causados por armas de fogo).

Levando uma nova vida mas ainda obrigado a lidar com o fato que nunca deixará de ser branco, o anti-herói do filme precisará cruzar um longo caminho marcado por fogo, pólvora e tragédia para buscar uma renovação moral no fim do caminho; apenas essa redescoberta de uma consciência ignorada em períodos de desespero que poderão unificar um povo tão dividido, sempre às margens de um atrito contra os seus ou contra os outros.

Na cartela final, o filme, que termina no começo de outra estrada a ser trilhada, nos avisa: o final dessa história só pode ser escrito por você. Não por pessoas de determinada etnia, região ou o que for. Fuller, então, cria um diálogo com o seu espectador, sem nunca enclausurá-lo em sua opinião sobre a Pátria. Deixa nas nossas mãos o que nós tiramos dali e que esforço iremos fazer a partir dali nesse determinado sentido. Assim sendo, poucos filmes conseguem ter impacto humanista tão forte quanto esse.

4/5

Ficha técnica: Renegando Meu Sangue (Run of The Arrow) – EUA, 1957. Dir.: Samuel Fuller. Elenco: Rod Steiger, Charles Bronson, Ralph Meeker, Jay C. Flippen,Brian Keith, Sara Montiel

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por Bernardo Brum

A mão pesada e despudorada que deu origem a clássicos malditos como O Que Terá Acontecido com Baby Jane? e Os Doze Condenados e elevou o nome de Robert Aldrich entre um dos mais conceituados, autorais e subversivos diretores do seu tempo  jamais alcançou um patamar tão frenético e amalucado quanto em A Morte Num Beijo – obra-prima onde, sutil feito uma britadeira, atacou a sociedade americana de forma explícita e direta com a única intenção de quebrá-la em mil pedaços e não deixar pedra sobre pedra.

O poder de fogo da obra é constituído exatamente na traição do próprio gênero – sem muitas preocupações, Aldrich destrói o próprio noir desde o início. A femme fatale irá morrer logo no início e a sua presença maldita própria a todos os heróis do noir infestará o protagonista Mike Hammer como um câncer, tendo que carregar o seu fantasma e a sua lembrança perniciosa (ao invés de apenas ser traído pela mesma ao final, como acontecia na grande maioria dos filmes do gênero) pelos lugares mais improváveis e sendo obrigado a ter que nocautear um sem número de almas corruptas e apanhar implacavelmente de um número maior ainda.

Apesar de parecer, Hammer não é como seus contemporâneos Sam Spade e Philip Marlowe, homens medíocres que conheciam o lado barra-pesada da vida mas se recusavam a vender sua alma; Mike Hammer é grosso e ríspido, no melhor estilo “pergunte depois”, sem a grande perspicácia e língua ferina que garantiram seus companheiros mais famosos uma vida mais longa e próspera no cinema e na literatura.

Se grande parte dos filmes noir revelavam por meio de sintomas a grande crise de consciência que o mundo vinha passando e acabaria desembocando na literatura beatnik, no movimento Flower Power, nas revoltas estudantis de Maio de 68, seguidos pelo hedonismo e plasticidade das décadas de 70 e 80 e o niilismo noventista, a outra grande traição de Aldrich é, a partir de tal quebra de elementos estilísticos próprios ao policial, fazer um filme totalmente deslavado. Sim, o assunto é corrupção, segredos governamentais, coisas que podem botar todos os Estados Unidos abaixo; assuntos esses que nem revisões como Chinatown e O Homem que Não Estava Lá se propuseram a fazer, pelo menos, não de forma tão clara e direta. Tudo isso concluindo em um final (literalmente) apocalíptico, pessimista e doentio, tornando A Morte num Beijo um filme único em sua época e seu período.

Não se pode fingir que não vê; como Samuel Fuller fez incontáveis vezes, Aldrich se utilizou do cinema de gênero americano, oculto pela verossimilhança, pela camuflagem do processo de montagem e pela dramaturgia bem resolvida para antecipar em anos o cinema de guerra que batia de frente com os problemas sociais que atordoavam sua época. Desta feita, em condições estratoféricas. Mesmo os diretores desse período não tratavam de um assunto de esfera tão grande; cutucavam várias feridas ao longo de vários filmes. Mas o diretor deste inflamado noir se recusa a passar despercebido e vai cutucar a onça com vara curta: Guerra Fria, bombas nucleares, o mundo acabando num botão e desabrochando em um mar de cinzas e cadávares pegando fogo. Vale lembrar, em plena época do McCarthismo, onde até artistas membros do partido comunista acabavam delatando os outros, como por exemplo o talentoso diretor e famigerado cagüete Elia Kazan.

Injustamente relegado à posição de subclássico que não conseguiu o mesmo reconhecimento que obras como O Falcão Maltês, À Beira do Abismo ou Pacto de Sangue, A Morte Num Beijo é o tipo de filme inflamado e deslocado em sua época, que disparada com fúria militar para todos os lados de forma incessante. Não rachou o cinema em dois, não criou nada, não estabeleceu nenhum novo paradigma; deu o murro e foi sendo encoberto pelas areias da memória. Mas marcou como prova incontestável de até onde o cinema pode chegar nas mãos de alguém sem noção de discrição alguma e culhões de sobra.

5/5

Ficha técnica: A Morte Num Beijo (Kiss Me Deadly) – 1955, EUA. Dir.: Robert Aldrich. Elenco: Cloris Leachman, Jack Elam, Paul Stewart, Wesley Addy, Ralph Meeker, Albert Dekker, Juano Hernandez, Marian Carr