– por Allan Kardec Pereira

O cinema de Sofia Coppola vai além de qualquer clichê indie pré-concebido por parte de uma crítica insensata. É bem interessante notar como suas obras carregam uma preocupação com o humano que contradiz o normalmente plauzível. Nesse sentido, Somewhere parece buscar certa continuidade com o visto em Lost in Translation, muito embora o resultado em termos de execução e minimalismo – o grande mérito de Lost in Translation, de fato – seja bem aquém do que se esperava.

Astro de hollywood, playboy, Johnny Marco sai pela estrada dentro de um baita Ferrari. Sua filha, ficará uns tempos com ele, já que a mãe teve compromissos importantes e viaja. Marco terá de conciliar seu mundinho de strippers e festas com os cuidados com a jovem. Nesse tempo, a presença da família e a incapacidade daquele homem em se portar nesse meio o levará a ter realmente certeza de quão vazia é sua vida, rodeado de pessoas igualmente vazia, que consideram-o enquanto mercadoria midiática, tão somente.

Os longos silêncios, além do fato de muito do filme ser através de estradas parece remeter ao belo Brown Bunny(conhecido por uma tórrida cena de sexo oral), de Vincent Gallo, sobretudo quando percebemos um personagem angustiado em sua máquina veloz rumo a um lugar qualquer, ciente de que algo do passado lhe fere dando a impossibilidade de uma fácil solução no presente.

O que seria algo aparentemente interessante, morre em Somewhere. Se o ótimo resultado de Lost in Translation muito deveu-se a quase que divina naturalidade das encenações (o sussurro de Charlotte-Johansson no ouvido de Bob Harris-Murray, ao final, por exemplo), aqui, é tudo muito plástico, muito encenado, sem espírito, digamos assim. Algo visível e pouco sentido em termos de sensações. Exceto uma linda cena, em que pai e filha parecem sentir os reflexos do que seria o amor de pai e filha, na beira da piscina, enquanto ao fundo toca I’ll try anything once, cantada por Julian Casablancas, dos Strokes. Interessante, a mais bela cena de todo o filme parece ser uma fuga do ciclo de terror e desencanto que vive seu protagonista – ciclo de luxo e solidão em meio a hotéis e putarias -, uma agridoce crença na felicidade a ser estampada no rosto de sua filha naquele momento. Se todas as cenas fossem inspiradas como essa, certamente teríamos uma obra-prima.

3/5

Ficha Técnica: Um Lugar Qualquer (Somewhere) – EUA, 2010. Dir. Sofia Coppola. Elenco: Stephen Dorff, Elle Fanning, Benicio Del Toro, Michelle Monaghan.

 

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– Luiz Carlos Freitas

Em um desses raros casos de completa unânimidade, Showgirls conseguiu alavancar uma legião de detratores nessa década e meia de lançado. Mas o que, além do seu diretor com um nome já firmado à época (dizem que quanto mais alto, maior o tombo), faz do filme algo tão absurdamente monstruoso quanto dizem? Bem, se rodarmos atrás de uma resposta, vamos parar no mesmo (e mais óbvio) culpado de sempre: Paul Verhoeven.

O holandês tarado faz de Showgirls, travestido de crítica ao submundo do sexo e dinheiro de Las Vegas, uma espécie de “filme-essência”, em que quase quarenta anos de sua carreira são projetados em seus personagens e no seu meio. Sim, pois é isso que Showgirls nos mostra ao apresentar a jornada de  uma stripper rumo ao estrelato: como num painel, onde todos os personagens são filhos da puta (sem exceção), vemos um exercício cinematográfico de Verhoeven que inevitavelmente nos remete ao conjunto total de sua obra. Personagens sujos, amorais, com uma conduta de valores mais que duvidosa (ideais e métodos idem) nivelando-se por baixo com uma sociedade ainda mais questionável. São personagens que ganham força justamente por serem quase completamente inócuos.

Não há uma apresentação de personagens que vá muito além do mínimo necessário ao desenvolvimento da trama. Entendendo a protagonista, Nomi Malone (Elizabeth Berkley), se sabe tudo sobre os demais personagens. Em dado momento, ela se define como “de passado irrelevante e vinda de vários lugares”. Sabemos que eles estão ali e o que fazem, mas suas origens nos são desconhecidas. E assim, sem maiores aprofundamentos ou psicologismos, seguimos adiante, pois o que importa para Verhoeven não é explicar, apenas mostrar todos ali em uma trilha de pó (e iluminada pelo neon) rumo à degradação, suas humilhações, o canibalismo da disputa e da ganância desenfreada.

Showgirls, livre de qualquer pretensão maior, se põe a mostrar esse submundo, sem maiores julgamentos ou crises de valores. Apenas exibir essa miscelânea de sujeira e vulgaridade, tudo com muitos palavrões e tetinhas acesas, que transbordam sinceridade e, por mais contraditório que pareça, certa beleza.

A trama é coerente com seus personagens, partindo de uma premissa boba e acabando exatamente como começou, com um dedo levantado a pedido de carona, como se fechando um ciclo vicioso de fuga e inevitável degradação. Claro que essa degradação foi bem além de nossa querida stripper, alcançando as críticas e bilheterias. Não que esse tal de Framboesa de Ouro, o “Oscar dos Piores Filmes”, seja lá uma das melhores referências (Stanley Kubrick e Brian De Palma já levaram os seus, por O Iluminado e Vestida Para Matar, respectivamente).

Mas já era de se esperar, afinal os mais de vinte anos de Verhoeven filmando na América certamente não foram suficientes para adaptar um público constituido (em grande parte) exatamente pelos hipócritas que sustentam essa sociedade formadora de canalhas como os que abarrotam os cassinos e casas de espetáculos de Showgirls. É uma sociedade que se esconde numa pretensa postura de superioridade, mas que ainda está muito abaixo do cinema de Paul Verhoeven.

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4/5

Showgirls (Idem) – EUA, 1995 – Diretor: Paul Verhoeven – Elenco: Elizabeth Berkley, Kyle MacLachlan, Gina Gershon, Glenn Plummer, Robert Davi, Alan Rachins, Gina Ravera, Lin Tucci, Greg Travis, Al Ruscio, Patrick Bristow, William Shockley, Michelle Johnston, Dewey Weber, Rena Riffel