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– Luiz Carlos Freitas

Há quem reclame da mudança de estilo do diretor na passagem a este aqui quando comparado com seu antecessor, Tudo Sobre Minha Mãe. Almodóvar estaria, agora, mais contido e sério, quase abolindo o senso de humor escrachado e rasgado. Para alguns, ele decidira fazer filmes mais sérios. À parte de qualquer conceituação rasteira que possa ser imposta, é fato que Almodóvar não mudou em nada o seu cinema. Fale com Ela é, sim, mais contido. Mas ainda é brega, satírico, extremamente sexual e tão cruel quanto excitante. É um filme de amores e doenças, físicas e, muito mais, sentimentais.

A trama desenvolve-se com as histórias de Benigno (Javier Cámara) e Marco (Dario Grandinetti), dois homens que viram amigos num hospital ao se verem acompanhados das mulheres que amam que se encontram em coma, sendo Benigno o enfermeiro que cuida pacientemente de Alice (Leonor Watling), seu amor não correspondido que sofre um acidente de carro, enquanto Marco luta para aceitar a condição de Lydia (Rosario Flores), uma toureira que entra em estado vegetativo após quase morrer ao ser atingida por um animal durante uma apresentação.

Benigno passou vinte anos dedicado a cuidar da mãe louca e doente, tendo, literalmente, formado sua vida em torno disso, virando enfermeiro para poder ser auto suficiente na tarefa. Quando esta morre, ele sente-se vazio, sem rumo. Então, numa tarde em seu quarto, ele vê Alice, que fazia balé no prédio vizinho, de frente à sua janela e começa a persegui-la. Essa fixação doentia (apesar de, em momento algum, parecer algo mais que uma paixão pura de um rapaz inexperiente), que faz com que o mesmo invente um conflito com sua sexualidade para se consultar com o pai dela, um renomado psiquiatra, só para poder ficar mais próximo de seu amor. Essa fixação prolonga-se pelos quatro anos em que passa nos hospital cuidando diariamente dela logo após o acidente que a deixou em coma.

Marco é centrado, com seus objetivos traçados e vida estabelecida, sofre por um grande amor do passado. Ela, uma completa desajustada e viciada em drogas, o deixara há quase uma década, mas ele ainda não havia superado. É quando se vê atraido por Lydia, uma mulher também em rota de auto destruição devido ao fim de um relacionamento. O que muda, aqui, é que Lydia é uma famosa toureira e, ao invés de seringas, ajoelha-se diante de animais ferozes munida apenas de suas capa e lanças.

Em Benigno e Marcos, se dá outra inversão da trama. O primeiro, direciona sua obsessão ao seu grande amor. O segundo, está sempre preso às obsessões de seus amores. Ambos, compartilham de um sentimento que, sim, é amor, sendo igualmente verdadeiro e patológico. Mais uma vez, as inversões da obra de Almodóvar encontrando-se em seus pontos comuns: o amor, enquanto algo tão forte e supremo ao ponto de quebrar todas as convenções já existentes a respeito.

Benigno é, como declarado próximo ao final, um psicopata. Mas, em momento algum, vemos maldade nele. Seus atos, por mais insanos e reprováveis que possam parecer (e, de fato, o são – da vida remissa e sem objetivos ao estupro de uma incapaz), têm um tom  de ternura sempre presente e, devido a ela, lucidez. Sim, pois a ternura aproxima o personagem do expectador que, sem perceber, sente-se passivo de incorrer nos mesmos erros. Afinal, Benigno só amava e o fazia da forma mais bela e pura que o próprio poderia conceber.

Do mesmo modo, poderíamos encontrar nas duas amantes de Marco uma fragilidade imensa evocada por medos com os quais não sabiam lidar, levando a fugas. Ambas queriam mostrar que eram fortes, mas acabaram viciadas (respectivamente, em drogas e em desafiar a morte). Mas o autor nos mostra não tão sutilmente que havia algo por baixo disso. Ambas são retratadas com medo e à mercê da ajuda de Marco (a primeira, em um breve flashback, a segunda na cena em que ela entra em pânico quando encontra uma cobra em sua cozinha).

Essa inversão mantém a ideia de que aquele encontro deveria acontecer. Porque os dois eram opostos que se completavam e, portanto, poderiam trazer um pouco de bem de seus mundos para o outro. Tanto é que a cena inicial reforça essas duas ideias. Ambos coincidem de sentarem lado a lado na mesma apresentação e, ainda mais surpreendente, um lembra do outro (quais as chances de um desconhecido realmente marcar ao ponto de ser lembrado numa ocasião aleatória?). Adiante no discurso, vemos que o fato de Benigno ter se percebido impassível ao choro de Marco e até comentar sobre, mostra que ali já evidenciava que a convivência dos dois resultaria em uma auto reflexão que transformaria suas vidas. E essa ideia é defendida, também, além do discurso, na cena  próximo ao final em que ambos conversam separados por um vidro, com seus reflexos sobrepostos que funde-os em uma só imagem.

Esse encontro nos torna ao conceito do filme, que pode ser visto como uma exploração do amor primitivo acima das outras coisas. Dois lados, quatro pontas. Há um cruzamento dessas duas formas de amor, cada uma com duas óticas em choque e, como citei anteriormente, é a exposição de um amor que supera até convenções morais. É simplesmente o amor de possuir e se realizar, mesmo que custe uma vida inteira dedicada a cuidar de duas pessoas inertes, dando e tomando para si o amor que julgar ser preciso, ou lutar contra um desejo egoísta de largar tudo para o alto e seguir sua vida, como Marco, que se mostra notadamente desconfortável em alguns momentos por ter de ficar cuidando de uma mulher que, ele sabe, jamais tornará a reagir. E se ele não desistiu, foi pelo fascínio despertado pelo inacreditável Benigno, que mostrava ser possível amar, não só um corpo inerte, mas também uma pessoa que nem sabia de sua existência.

Tornando a evocar a questão do estilo do diretor, Fale com Ela tem o sexo como canal  para que conheçamos melhor seus personagens, mesmo que o sexo praticamente não aconteça durante a exibição da obra. Fica sugerido por acontecimentos narrados e, claro, nos momentos de nudez. Uma nudez, aliás, que não é sensual, retratada no corpo inerte de Alice em seu leito no hospital, mas que vem para representar a tensão sexual e o consequente conflito moral que culminaria na virada final da trama. Porque, para Almodóvar, não há como falar de um amor mais forte que as convenções estabelecidas pelo homem (e, portanto, não naturais) sem usar, para tanto, do sexo, certamente das características mais primitivas e instintivas da raça humana.

Como mostra num filme assistido por Benigno, passado a nós paralelamente como um curta mudo de terror/ficção, onde o arrogante protagonista paga um preço alto por sua ganância e, numa experiência fracassada, encolhe, ficando do tamanho de um dedo. Sua condição o castiga por seus erros, tornando-o uma pessoa mais simples e atencioso com sua esposa (a quem, agora, não podia mais satisfazer). Todavia, ao ver a esposa nua, ele contempla a nova situação como uma possibilidade de se perder na própria luxúria (e isso é representado na famosa cena em que ele entra completamente na vagina da mulher), deixando claro que seu “arrependimento” se dera apenas vinculado a uma impossibilidade momentânea e que, sem nada para impedí-lo, seus desejos voltariam.

Relação semelhante se dá com Benigno sobre Alice (inválida e inconsciente, completamente à mercê dele) e Lydia sobre Marco (este, à mercê constante de perder um grande amor por impulsos suicidas que, cruelmente, deveriam ser assistidos por ele junto ao grande público). O que impedia Benigno de abusar de Alicia antes não eram convenções morais ou sociais, mas o receio de ser pego (ele nunca ficara sozinha com ela até então). Já Marco não deixou Lydia morrendo sozinha, não por amá-la plenamente, mas por sentir-se impelido a permanecer pelo exemplo do amigo, pois deixá-la após tão pouco tempo, enquanto Benigno permaneceu por quatro anos sem de nada reclamar, o faria sentir-se covarde, fraco (estigma que ele já carregava por conta do relacionamento anterior). Dessa forma, tínhamos Benigno, um psicopata (suas ações eram controladas por convenções, e não por remorso) ensinando a um dito “normal” como amar.

Essa possível conclusão nos mostra que Fale com Ela é um legítimo Almodóvar, com todos os elementos que o consagraram, mesmo sendo uma obra tão diferente do que já era esperado àquela altura de sua filmografia. E, indo além, podemos tomá-la como algo bem maior que uma mera mudança de estilo, pois aqui o diretor sai do berrante, espalhafatoso e gritado, para uma obra muito mais contida, retornando ao seu tradicional no filme seguinte, Má Educação (mesmo que ainda numa obra pesada, densa e, até, sombria), fazendo de Fale com Ela uma obra quase isolada. E se mostrar contido no estilo chamativo em uma obra onde suas protagonistas, duas mulheres cheias de vida, estão em coma constitui uma ironia que, particularmente, considero algo além da coincidência. Seria Almodóvar reafirmando uma das características do cinema de autor, que é mostrar a linguagem como algo tão ou mais importante que o texto para se contar uma estória. Uma visão interessante, ainda mais para refutar os que dizem que seus filmes são apenas novelões cheios de cores e gritos.

4/5

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Ficha técnica:

Fale com Ela (Hable com Ella) – Espanha, 2002 – Direção: Pedro Almodóvar – Elenco: Javier Cámara, Darío Grandinetti, Leonor Watling, Rosario Flores, Mariola Fuentes, Geraldine Chaplin, Pina Bausch, Malou Airaudo, Caetano Veloso, Roberto Álvarez, Elena Anaya, Lola Dueñas, Adolfo Fernández, Ana Fernández, Chus Lampreave

– por Allan Kardec Pereira

O cinema de Sofia Coppola vai além de qualquer clichê indie pré-concebido por parte de uma crítica insensata. É bem interessante notar como suas obras carregam uma preocupação com o humano que contradiz o normalmente plauzível. Nesse sentido, Somewhere parece buscar certa continuidade com o visto em Lost in Translation, muito embora o resultado em termos de execução e minimalismo – o grande mérito de Lost in Translation, de fato – seja bem aquém do que se esperava.

Astro de hollywood, playboy, Johnny Marco sai pela estrada dentro de um baita Ferrari. Sua filha, ficará uns tempos com ele, já que a mãe teve compromissos importantes e viaja. Marco terá de conciliar seu mundinho de strippers e festas com os cuidados com a jovem. Nesse tempo, a presença da família e a incapacidade daquele homem em se portar nesse meio o levará a ter realmente certeza de quão vazia é sua vida, rodeado de pessoas igualmente vazia, que consideram-o enquanto mercadoria midiática, tão somente.

Os longos silêncios, além do fato de muito do filme ser através de estradas parece remeter ao belo Brown Bunny(conhecido por uma tórrida cena de sexo oral), de Vincent Gallo, sobretudo quando percebemos um personagem angustiado em sua máquina veloz rumo a um lugar qualquer, ciente de que algo do passado lhe fere dando a impossibilidade de uma fácil solução no presente.

O que seria algo aparentemente interessante, morre em Somewhere. Se o ótimo resultado de Lost in Translation muito deveu-se a quase que divina naturalidade das encenações (o sussurro de Charlotte-Johansson no ouvido de Bob Harris-Murray, ao final, por exemplo), aqui, é tudo muito plástico, muito encenado, sem espírito, digamos assim. Algo visível e pouco sentido em termos de sensações. Exceto uma linda cena, em que pai e filha parecem sentir os reflexos do que seria o amor de pai e filha, na beira da piscina, enquanto ao fundo toca I’ll try anything once, cantada por Julian Casablancas, dos Strokes. Interessante, a mais bela cena de todo o filme parece ser uma fuga do ciclo de terror e desencanto que vive seu protagonista – ciclo de luxo e solidão em meio a hotéis e putarias -, uma agridoce crença na felicidade a ser estampada no rosto de sua filha naquele momento. Se todas as cenas fossem inspiradas como essa, certamente teríamos uma obra-prima.

3/5

Ficha Técnica: Um Lugar Qualquer (Somewhere) – EUA, 2010. Dir. Sofia Coppola. Elenco: Stephen Dorff, Elle Fanning, Benicio Del Toro, Michelle Monaghan.

 


– Luiz Carlos Freitas

Em um desses raros casos de completa unânimidade, Showgirls conseguiu alavancar uma legião de detratores nessa década e meia de lançado. Mas o que, além do seu diretor com um nome já firmado à época (dizem que quanto mais alto, maior o tombo), faz do filme algo tão absurdamente monstruoso quanto dizem? Bem, se rodarmos atrás de uma resposta, vamos parar no mesmo (e mais óbvio) culpado de sempre: Paul Verhoeven.

O holandês tarado faz de Showgirls, travestido de crítica ao submundo do sexo e dinheiro de Las Vegas, uma espécie de “filme-essência”, em que quase quarenta anos de sua carreira são projetados em seus personagens e no seu meio. Sim, pois é isso que Showgirls nos mostra ao apresentar a jornada de  uma stripper rumo ao estrelato: como num painel, onde todos os personagens são filhos da puta (sem exceção), vemos um exercício cinematográfico de Verhoeven que inevitavelmente nos remete ao conjunto total de sua obra. Personagens sujos, amorais, com uma conduta de valores mais que duvidosa (ideais e métodos idem) nivelando-se por baixo com uma sociedade ainda mais questionável. São personagens que ganham força justamente por serem quase completamente inócuos.

Não há uma apresentação de personagens que vá muito além do mínimo necessário ao desenvolvimento da trama. Entendendo a protagonista, Nomi Malone (Elizabeth Berkley), se sabe tudo sobre os demais personagens. Em dado momento, ela se define como “de passado irrelevante e vinda de vários lugares”. Sabemos que eles estão ali e o que fazem, mas suas origens nos são desconhecidas. E assim, sem maiores aprofundamentos ou psicologismos, seguimos adiante, pois o que importa para Verhoeven não é explicar, apenas mostrar todos ali em uma trilha de pó (e iluminada pelo neon) rumo à degradação, suas humilhações, o canibalismo da disputa e da ganância desenfreada.

Showgirls, livre de qualquer pretensão maior, se põe a mostrar esse submundo, sem maiores julgamentos ou crises de valores. Apenas exibir essa miscelânea de sujeira e vulgaridade, tudo com muitos palavrões e tetinhas acesas, que transbordam sinceridade e, por mais contraditório que pareça, certa beleza.

A trama é coerente com seus personagens, partindo de uma premissa boba e acabando exatamente como começou, com um dedo levantado a pedido de carona, como se fechando um ciclo vicioso de fuga e inevitável degradação. Claro que essa degradação foi bem além de nossa querida stripper, alcançando as críticas e bilheterias. Não que esse tal de Framboesa de Ouro, o “Oscar dos Piores Filmes”, seja lá uma das melhores referências (Stanley Kubrick e Brian De Palma já levaram os seus, por O Iluminado e Vestida Para Matar, respectivamente).

Mas já era de se esperar, afinal os mais de vinte anos de Verhoeven filmando na América certamente não foram suficientes para adaptar um público constituido (em grande parte) exatamente pelos hipócritas que sustentam essa sociedade formadora de canalhas como os que abarrotam os cassinos e casas de espetáculos de Showgirls. É uma sociedade que se esconde numa pretensa postura de superioridade, mas que ainda está muito abaixo do cinema de Paul Verhoeven.

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4/5

Showgirls (Idem) – EUA, 1995 – Diretor: Paul Verhoeven – Elenco: Elizabeth Berkley, Kyle MacLachlan, Gina Gershon, Glenn Plummer, Robert Davi, Alan Rachins, Gina Ravera, Lin Tucci, Greg Travis, Al Ruscio, Patrick Bristow, William Shockley, Michelle Johnston, Dewey Weber, Rena Riffel