trash humpers

– por Guilherme Bakunin

Gummo se mantém como uma das experiências mais impactantes que eu já tive com cinema. Figura ao lado de Sombras (John Cassavetes, 1959) como uma daquelas coisas monumentais que podem ser feitas a partir de praticamente lugar nenhum. A narrativa se esvazia e as tramas, mais do que nunca, deixam de existir. Eu me importo com o que o artista tem a dizer a respeito de sua obra e de suas intenções, mas nesse caso, me esquivei de qualquer informação adicional; fiquei, apenas, com as impressões que eu mesmo captei, sejam elas inequívocas ou não.

Apenas cito Gummo porque parece ser o único filme que se relaciona, em poucos aspectos, com Trash Humpers, um dos filmes mais recentes de Korine; só que este filme se esvazia ainda nas questões narrativas, não cede absolutamente nenhum espaço para tramas ou crônicas (algo que o debut do cineasta tinha em pequenos graus). O diretor nem ao menos se dá ao trabalho de contextualizar. O espectador é apenas violentamente lançado nas desventuras de uma gangue de velhos sociopatas, que andam por aí grunhindo ao praticarem pequenos delitos, que de certa forma, talvez, se escalonem, até chegar num apogeu de loucura e psicopatia, que começa a ocorrer por volta dos quarenta minutos da metragem.

Mas aí alguém pode chegar e perguntar o que um filme com mais de uma hora de duração onde velhos (ou pessoas jovens com máscaras monstruosas de velhos) saem cometendo barbaridades pelas ruas tem a acrescentar a qualquer pessoa; o que, afinal, esse filme tem a oferecer.

Bom, eu acho primeiramente que é interessante pra caralho que, passeando por textos na internet, a principal crítica dirigida ao filme (e ao diretor) seja a de “trapaceiro”. A questão do trapaceiro é extremamente percebida no cinema underground e no cinema independente. É percebida, porém, mais ainda no universo da arte, especialmente se o crítico em questão não tem a menor disposição de sacar a arte que ele analisa. “Trapaceiro” é o que você provavelmente vai ouvir se levar, sei lá, Agnaldo Timóteo? pruma exposição do Gerhard Richter.

Me fode se eu algum dia disser que essas pessoas são simplesmente despreparadas para apreciaram tal ou tal trabalho artístico, porque eu repudio completamente essa noção hierárquica de arte. A questão, a meu ver, simplesmente não é essa. Mas parece ter um senso de baixa auto-estima regendo essas percepções; não que tal ou tal filme seja necessariamente difícil ou complicado, mas porque as regras narrativas e estéticas podem ser outras. Me parece plausível demais que a pessoa, por algum motivo maluco, vai imediatamente se sentir ameaçada pelo baque da diferença.

Então eu tenho como extremamente maldosa essa noção de trapaça, porque simplesmente tenta deslegitimar algo que é legítimo, concreto, sincero. É um tipo de crítica que procura neutralizar o que é desconforme e diferente e que, portanto, em última instância, tenta transformar todas as coisas em iguais.

Cada vez mais eu tenho mais certeza de que, em um texto que fala sobre um filme, é irrelevante que o autor tenha gostado ou não do objeto de estudo dele. As ideias que podem ser extraídas da obra (através de pontos positivos ou negativos) são muito mais interessantes, reveladoras. E o que comentários que circundam a ideia de “trapaça” tem a revelar, exceto que o autor do texto tem um puta complexo de inferioridade? Bom, talvez revela uma pá de outras coisas, todas a respeito da pessoa que escreveu o texto, e como ela enxerga arte, estética, narrativa, imagem, som, e nada a respeito do filme em si.

Portanto eu vou simplesmente agir como um louco aqui e inferir que o Korine não atuou como trapaceiro durante um segundo sequer. Vou inferir, além disso, que Trash Humpers é uma exploração estética séria, e que o diretor está realmente bem interessado em como os desafios que ele se propôs serão explorados e irão resultar no objeto final. Vou inferir que Korine não é um cara que está apenas interessado no choque pelo choque, embora eu ache que o choque pelo choque é uma abordagem bastante legítima pra vários objetos de estudo, mas é um cara que tá interessado no no cinema como linguagem mesmo.

Trash Humpers é uma estimulação brutal à linguagem cinematográfica. É um filme extremo em todas as questões: extremamente insuportável, extremamente inócuo, extremamente fascinante. Desafia o espectador a perdurar na experiência mesmo sem saber que tipo de experiência está sendo mostrada. O que  devemos propor não é se Korine é um farsante ou não. Devemos nos perguntar o que um bando de velhos (ou jovens trajando máscaras mal acabadas de velhos) fodendo lixeiras podem elucidar a respeito do cinema de hoje. Digo cinema de hoje porque me é bastante claro que os filmes do Korine são proposições a respeito desse cinema, da maneira com a qual ele se configura e se configurará a partir de então.

Portanto enxergar como a narrativa de Trash Humpers pode estimular determinadas sensações parece ser, pessoalmente, o caminho mais próspero. Do amor ao ódio e do riso ao medo, é quase como se fosse um Laranja Mecânica sem história: apenas o horror brutal que o homem & o desconhecido podem gerar. Não sabemos quem são aquelas pessoas e porque elas agem daquela maneira, mas é impossível ficar impassível diante de tudo que elas fazem. Ainda que muitos declarem que o filme é apenas chato e insuportável, existe, sem a menor dúvida, uma resposta emocional primária que reage diante dos golpes impassíveis de Harmony Korine. O cinema não precisa de histórias para contar.

Ficha Técnica: Trash Humpers – Estados Unidos, 2009. Direção: Harmony Korine. Elenco:  Paul Booker, Dave Cloud, Chris Crofton, Rachel Korine.

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– por Luiz Carlos Freitas

Atualmente, com sua carreira de mais de 30 anos como diretora, Kathryn Bigelow finalmente se vê em evidência após ser a primeira mulher a ganhar os Oscar de Melhor Direção e Melhor Filme (por Guerra ao Terror). Seus filmes quase sempre foram modestos, com repercussão e orçamento baixos, e nem mesmo seus trabalhos mais conhecidos, Caçadores de Emoção e Estranhos Prazeres, não bastaram para que ela tivesse uma notoriedade que fosse além do título de “ex-mulher do James Cameron”.

Jogo Perverso é um de seus melhores (e mais esquecidos) trabalhos, produzido por Oliver Stone e estrelado por uma Jamie Lee Curtis no auge do sucesso e tentando emplacar em filmes mais diversificados, para fugir dos estereótipos que a perseguiam – de ‘Scream Queen’, após slasher’s vagabundos como Enigma na Estrada e A Morte Convida Para Dançar, e as obras-prima de John Carpenter, A Bruma Assassina e Halloween – A Noite do Terror, à imagem de símbolo sexual por  seus papéis cheios de erotismo – e poucas falas – nas comédias Um Peixe Chamado WandaTrocando as Bolas.

Na trama, a atriz vive Megan Turner, uma policial recém-graduada que acaba matando um assaltante em um tiroteio num supermercado logo na sua primeira ronda. Após a troca de tiros, Eugene Hunt (Ron Silver completamente psicótico), um respeitado corretor da bolsa que fazia compras no local, pega a arma do bandido caído no chão sem que ninguém veja e foge, fazendo com que ela seja suspensa de suas atividades por suspeita de ter atirado em um homem desarmado. Fascinado com o que presenciara, Eugene passa horas admirando a Magnun 44, mirando contra espelhos, vasos e quadros enquanto, até que, na noite seguinte, resolve sair às ruas com seu ‘brinquedinho’. Em meio aos becos escuros de NY, ele atira em um homem. Do nada, sem motivo aparente, sem justificativa. Ele simplesmente descarrega sua vontade de atirar na cabeça do primeiro azarado que encontra no caminho.

À partir daí, a velha e batida, até mesmo para a época em  que fora lançado, fórmula da policial em conflito com seus superiores sendo acusada por algo que não fez corre em paralelo com a busca pelo assassino que, até então, não sabe-se que tem relação com ela. Porém, Eugene faz com que eles se esbarrem “acidentalmente”, dividindo um táxi e, após uma breve conversa carregada de indiretas, saiam para jantar. Esse ato, mais que a um envolvimento amoroso eminente entre os dois, é a partida do tal jogo perverso do título: na mesma noite, um homem é encontrado morto e com o nome de Megan cravado na cápsula que  o atingiu. Agora ela estava diretamente ligada ao caso (só não se sabia ainda se como suspeita ou provável vítima).

Basicamente, o filme se divide em dois atos distintos: a busca pelo assassino, onde tenta-se descobrir sua identidade, quem serão as próximas vítimas e qual a razão de Megan ter sido a escolhida para figurar em tais crimes, e a fuga do mesmo, após descobrirem sua identidade e ele, então, pôr em prática a última parte de seu plano, matar Megan. Em momento algum, o ritmo cai. Pelo contrário, o clima de tensão é crescente, aumentando à cada nova mensagem deixada junto às vítimas e, principalmente, à medida em que vemos Megan mais e mais envolvida com seu próprio algoz.

Nesse meio, uma característica que marca a carreira da diretora se mostra bem evidente: as tramas e motivações de seus personagens, em geral, se baseiam em suas obsessões que, consequentemente, acabam por destruí-los. Em Caçadores de Emoção, Patrick Swayze liderava uma gangue que roubava bancos  para financiar suas viagens para surfar ao redor do mundo (!!!), além, é claro, da iminente adrenalina da fuga das autoridades; O Peso da Água conta com uma escritora que pesquisa sobre um crime do passado para compôr seu livro e, completamente imersa na história, sente como se pudesse mudar o que ocorreu séculos antes; Estranhos Prazeres e seu protagonista “contrabandista de emoções” e o atual Guerra ao Terror, com sua tão elogiada abordagem da guerra como um “vício”, também reafirmam esse veio autoral, que muito lembra um Abel Ferrara (só que de modo bem mais contido).

Eugene é um assassino frio que, aparentemente, tinha algum distúrbio mental latente que é despertado pelo “trauma” do assalto, passando a agir como se estivesse possuído pela arma. Ron Silver confere um ar completamente doentio ao seu personagem, mas o roteiro escorrega bonito por não explicar de forma convincente as motivações aos crimes, limitando-se a mostrá-lo conversando com as “vozes” em sua cabeça. Há referências bem vagas que relacionam sua psicopatia com seu trabalho, inferindo, talvez, uma crítica social (de dia um figurão respeitado, de noite um louco matador frio), mas que se mostram pouco convincentes ou nulas, até, tendo visto a abordagem superficial do roteiro que, à certa altura, pára de tentar explicar as coisas e foca apenas na perseguição do assassino à Megan.

Se por um lado o filme perde em termos de trama, cresce consideravelmente na construção de uma atmosfera de tensão. Longe do vício irritante da “câmera na mão” de seus trabalhos mais recentes, Bigelow se mostra competentíssima ao tornar becos, ruas, um corredor escuro dentro de casa e até mesmo o próprio reflexo de Megan espelho de banheiro, inimigos em potencial. A sequência final peca por uma reviravolta desnecessária e absurda (a psicose adquirida e a inversão de papéis), talvez a maior das falhas do roteiro,  mas é recompensada com o grande clímax do filme, da perseguição no metrô e seu desfecho ao duelo em uma avenida movimentada da cidade, favorecido também pelo excelente trabalho de fotografia de Amir Mokri, de fazer brilhar os olhos dos mais saudosistas àquela época.

Espero que seu Oscar por Guerra ao Terror sirva ao menos para dar maior visibilidade a esse e outros filmes da diretora, excelentes trabalhos que, infelizmente, não tão lembrados quanto as bobagens de orçamentos milionários do seu célebre ex-marido.

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4/5

Jogo Perverso (Blue Steel) EUA, 1989 – Dir.: Kathryn Bigelow – Elenco: Jamie Lee Curtis, Ron Silver, Clancy Brown, Louise Fletcher, Elizabeth Peña, Tom Sizemore, Philip Bosco, Kevin Dunn, Richard Jenkins, Markus Flannagan, Mary Mara, Skipp Lynch, Mike Hodge, Mike Starr, Chris Walker