– por Allan Kardec Pereira

A ordem do dia em termos historiográficos atualmente, tende cada vez mais a questionar a dita “história oficial”. Rever ditos, escritos e imagens detentoras da versão autorizada. Há pois amplos espectros de percepção. Há também uma linha tênue sobre o que seria história, visto que do diálogo com outros campos do saber, a disciplina vê-se agora ameaçada quanto à sua legitimidade. Mais ainda, o historiador do presente disputa território com outros profissionais que de alguma forma (re) escrevem a história indiretamente: jornalistas, cineastas, literários etc. Clint Eastwood, nesse sentido, parece fazer um trabalho de historiador, tamanho é o arsenal do processo de investigação. “A Conquista da Honra” figura quase que como um laboratório de pesquisa. Seja do caráter de criação de imagem oficial (a famosa foto da “conquista da Iwo Jima” tirada por Joe Rosenthal), seja de como o poder estabelecido forja uma outra imagem (mais inserida no campo da sensibilidades, na comoção pública da nação), que é a do heróis genuinamente americano, do homem comum cumprindo seu dever no American way of life. O diretor reflete através das memórias de um veterano (uma constante na filmografia do diretor) de guerra sobre os valores morais da nação frente uma guerra. Nunca é demais lembrar, tais fatos vão dialogar intensamente com as angústias do Estados Unidos do presente.

No fabrico de uma imagem, Clint mostra o acaso. Quando da tomada de um monte de Iwo Jima, importante frente de batalha da Segunda Guerra, um oficial pede que alguns soldados asteiem uma bandeira. Diante da reação de euforia dos que ali estavam presentes, o sentido de um ato simples se transforma. O registro fotográfico, porém é quem vai transpor as barreiras do campo de guerra. Quando a foto estampa todos os jornais importantes dos Estados Unidos no outro dia, o showbizz, algo que, certamente, os americanos sabem fazer como nenhum povo no mundo irar produzir uma imagem outra, uma ilusão de vitória frente uma guerra ainda incerta. Com o objetivo declarado – e essa é uma dentre tantas ironias mordazes no filme – de capitalizar fundos de financiamento a guerra.

O registro mostra bravura, dificuldade. Clint Eastwood desconstrói. Por dentro. Mina a história oficial. Questiona o estatudo de verdade e tira da sombra (uma metáfora comum nos seus personagens, geralmente pessoas idosas revirando seu passado, algo que sempre é evidenciado por sua magistral iluminação de cena). Diante do sorvete em formato dos novos três heróis nacionais (o enfermeiro, John Bradley; o soldado descendente de índios, Ira Hayes; e o soldado Rene Gagnon), os únicos sobreviventes dos que astearam a bandeira , escorre uma calda de morango que Bradley imediatamente vai lembrar do sangue de milhares de companheiros seus na frente de batalha. Uma cena de um poder pacifista equiparável à cena do massacre dos sapos fantasiados de astecas que abre o lendário “A Montanha Sagrada” de Jodorowsky.

Em seguinda, segue-se uma turnê de consagração dos heróis nacionais. Se da bandeira é real, o sentido que lhe é atribuido é falso. Clint Eastwood vai pensar como o poder oficial confecciona o mito atraves de festas, propaganda, publicidade. A História com H maiúsculo esconde outras tantes verdades. Parte de uma intensão de unir corações e mentes. Entretanto, os heróis da nação não se comprazem da mesma maneira do projeto. Ira, o índio, o que talvez seria o americano legítimo, é descrente com todo aquele circo e cada vez mais lamenta o destino de seus colegas mortos, segundo ele os verdadeiros heróis da guerra. Gagnon, entretanto, parece se iludir com uma possível fama e busca se aproveitar da situação. Bradley, por seu turno, havia vivenciado os horrores da guerra, desde então seria atormentado por fantasmas do confronto, sentindo a ausência dos verdadeiros heróis que morreram em sua frente, quando não em seus braços.

Longe de um heroismo à Spilberg (que curiosamente é produtor do longa), o filme de Eastwood é rico não apenas por desmistificar, revelar, debater e insurgir contra a história oficial, mas também por ser um libelo pacifista que vai de encontro à Mallick (a obra-prima do “gênero” Além da Linha Vermelha), a Nicholas Ray (Amargo Triunfo), e também  Sam Fuller (Agonia e Glória). Diante de um idoso Bradley moribundo, o filme dá sua prova decisiva de que a construção de um herói é algo, até mesmo, desnecessário para aqueles que enfrentaram os terrores da guerra. Clint louva os heróis anônimos e esquecidos, os fora do quadro.

5/5

Ficha-Técnica: A Conquista da Honra (Flags of our Fathers) – EUA, 2006. Dir. Clint Eastwood. Elenco: Ryan Phillipe, Jesse Bradford, Adam Beach, Jamie Bell, Robert Patrick.

 

 por Allan Kardec Pereira

Ten é um filme político. Especialmente por duas frentes: a cinematográfica e a social, digamos assim. Cinematográfica – e o tempo demonstrou toda a imensa relevância que esse filme tem, certamente – no sentido de ansiar um filme quase que “sem diretor”. Ora, nesse instante mesmo, o filme de Kiarostami revela-se um pleno filme de Kiarostami. Nesse processo, quando o diretor iraniano decide colocar duas câmeras dentro de um carro, uma acompanhando a motorista, outra acompanhando o carona, sua obra toma a naturalidade das interpretações e o processo de Montagem do filme como elementos de norteação de sua obra. Social – e nunca é demais pontuarmos de que se tratando de um país com regimes historicamente repressores das liberdades femininas como o Irã, o discurso sobre tal problema sempre é necessário – especialmente na medida em que tece relações importantíssimas acerca das relações de poder na sociedade iraniana de forma brilhante, sem nunca apelar para sentimentalismo barato, leveza e coragem passeiam de uma forma interessante demais por Ten.

O filme mostrará Dez sequencias nesse carro. Dirigido por uma (belíssima) iraniana, recém-separada, com um filho de 7 anos que não suporta sua mãe pelo fato dela ter se casado com outro homem. Sequências filmadas com duas câmeras DV, sem equipe de filmagem, sem roteiro, somente com algumas indicações que  Kiarostami dá através de um microfone de ouvido.  O embate inicial, se dá entre mãe e filho. Não apenas o fato de a motorista ser uma mulher que usa batom e o véu na metade da cabeça, o grande conflito se dá porque o garoto não vê ela como um “ideal de mulher” padrão entre as iranianas. O garoto sempre reclama do tempo que ela não tem pra fazer os serviços domésticos, das idéias da mãe, sempre a tratando de forma grosseira. O jovem Amim parece ser um reflexo perfeito do patriarcalismo, ele mostra que tais costumes naquela sociedade são preconizados desde cedo.

Entretanto, o painel de análise comportamental, digamos assim, de Kiarostami se estende por mais outros casos. A sequencia seguinte mostra a motorista e uma amiga passeiando pelas ruas de Teerã: enquanto a protagonista estaciona o carro por um minuto, vemos a moça da carona com muito calor, abanando-se, e contudo com o calorento véu intocado. Cena de um simbolismo intocável. Essa “segunda pele”, pra muitas motivos de orgulho, é uma dupla barreia contra o mundo, na imagem daquela mulher agoniada com o calor vemos a dupla face do artefato, o incômodo de se ver impossibilitada de tirar o véu. Mais a frente, as outras sequencias mostrarão uma prostituta (outra cena de incomensurável beleza), uma senhora idosa e muito religiosa…

E é nesse ponto que o filme de Kiarostami revela-se mais uma vez como um grito de liberdade. É a já antológica cena “2”, quando voltamos à companhia da amiga da motorista que no começo se mostrava ansiosa pela decisão de seu noivo para saber se ele quer se casar com ela ou não. Ela conclui: ele decidiu-se por não se casar. Pela primeira vez, a decisão no que tange aos homens é tomada com serenidade, sem o riso histérico da prostituta, sem a veemência cega da religiosa, sem o ataque neurótico da motorista com seu filho, sem o choro incontido da mulher abandonada. Interessante que diante de tão “terrível”, no ponto de vista daquilo que o filme até então vinha mostrando, as decisões masculinas dilacerando as mulheres,  sem o riso histérico da prostituta, sem o fanatismo cego da religiosa, sem o desespero neurótico da motorista com seu filho, a decisão está tomada, não há muito o que fazer agora. A motorista questiona a amiga do porque ela usar o véu tão apertado. É quando a moça afrouxa o pano, deixando à mostra um cabelo raspado. Rompimento completo com o padrão de mulher, de beleza, afronta direta ao jugo masculino do regime iraniano. Impossível não acompanhar às lágrimas daquela mulher. Uma das cenas mais bonitas e libertárias do cinema recente, tão forte, tão política quanto a cena de Um Filme Falado, do Manoel de Oliveira, em que a criança portuguesa se conversa com uma boneca islâmica, quando de um atentado terrorista cometido por radicais islâmicos no navio em que ela estava.

Na cena seguinte, a derradeira, quando a mãe vê o seu filho reclamar mais uma vez, e dizer que ela não é uma boa mãe, o filme já eliminou qualquer possibilidade de divisão entre documentário e ficção (a grande herança estética da obra, afinal). Entre um riso amarelo, e uma lágrima que cai de leve no rosto daquela libertária mulher há muito, muito o que se pensar.

5/5

Ficha Técnica: Dez (Ten) Irã/França/Estados Unidos, 2002. Direção: Abbas Kiarostami. Elenco: Mania Akbari, Amin Maher.