– por Messias Rodrigues

Ao fim de Martyrs, de Pascal Laugier, senti um grande incômodo oriundo da carnificina, mas também me pareceu que acabava de participar de uma festa. E como pode ocorrer a qualquer um, o evento pode ser muito desagradável, mesmo que você não faça parte do cardápio. E, aliás, em Martyrs o corpo humano é o principal ingrediente. De modo que, para os amantes do carnaval cinematográfico, temos um filme que não economizou em efeitos quando a violência era o foco.

Laugier nos convida a acompanhar Lucie (Mylène Jampanoï) e Anna (Morjana Alaoui) num passeio cujo objetivo é vingar os abusos que uma delas sofreu em sua infância.

Antes do grande delírio final, as personagens passarão por uma longa via-sacra, em que é ofertado para nós o gradual desintegrar do corpo e da sanidade delas. Para o caso da desintegração física, esta é provavelmente correspondente a gula do espectador ávido do gênero horror e drama, mas que também flerta com aquilo que alguns chamam de porn torture .

Quando Mel Gibson realizou sua versão de A Paixão de Cristo, optando por captar meticulosamente os sucessivos ferimentos de Cristo, gozando para isto de impecáveis recursos da indústria de cinema norte-americana, acredito que ele farejara esta carência alimentar que ainda existe em certo nível, em nossa espécie. Sede de sangue e fascínio pelo sofrimento alheio.

Sabendo disso também, Laugier não poupou quando teve que adotar o sofrimento, como o tempero principal na sua cozinha. Um sofrimento que não cessa ao atravessar a carne, ele continua até aquele “seja lá o que for” dentro de nós, vulgarmente chamado de espírito. Quando Laugier resolve por isto, ele sabe que está adicionando caras questões cristianas à luz da mesa, como a culpa (sentimento que aqui de certo modo, se materializa e age), a dúvida ou incredulidade (abordagem que ocorre na relação de Lucie e Anna, principalmente, calcada na confiança que alimentam uma ante a outra) e na minha opinião a questão mais cruel, mas que não pretendo demorar nela: a resignação.

Outro ponto forte em Martyrs é o erotismo, superficialmente ele parece negado, se tivermos em mente seu caráter sexual objetivo. Prova disto, é que os médicos reponsaveis pelo tratamento de Lucie, afirmam que ela não sofreu abuso sexual. Contudo, Laugier parece relembrar algo dos antigos cultos a Dionísio, em que a violência e morte, via sacrifício, eram elementos chaves das orgias. Impossível também não mencionar Saló, de Píer Paolo Pasolini. Se Pasolini escolheu ser claro sobre o sexo propriamente dito em seu filme por um lado, contrário de Martyrs, por outro ele também retrata os excessos do desejo e o total desequilíbrio de forças entre os pares, mais especificamente no capitulo Circulo de Sangue. Laugier e Pasolini mostram o corpo, o corpo jovem e belo, estandartes da sedução, sujeitos ao gigante perverso que a Igreja, Estado e a Cultura podem assumir.

Quanto à sedução, vale ressaltar que a mulher sempre foi encarada como fonte deste adjetivo, e ao longo da história isto lhe valeu muito desgosto. Acredito que Laugier não ignorou este “fato”, para potencializar a parte psicológica da composição ocupada pela sensualidade.

Quando o prazer em Martyrs mostra-se aparentemente ignorado, como já dito, por ambas as partes no jogo da tortura, surge outro vínculo com a religião cristã, que desde sempre se mostrou avessa a isto. Contudo, mesmo que o romance latente entre Lucie e Anna não se consubstancie ao longo do filme e sequer ocorra um estupro assumidamente, a atmosfera sexual do filme não é destruída, mas ampliada. O sadomasoquismo se afirma e firma-se como a possível forma de afetividade, a forma mais duradoura e funcional nas relações estabelecidas entre as personagens. Sobretudo, não devemos esquecer o nosso papel nesta estória : o seguro e protegido voyeur.

4/5

Ficha técnica: Martyrs – França/Canadá, 2008. Dir.: Pascal Laugier. Elenco: Morjana Alaoui, Mylène Jampanoï, Catherine Bégin, Robert Tupin, Patricia Tuslane, Juliette Gosselin, Xavier Dolan.

por Bernardo Brum

Teorema, por Euclides: “a afirmação que pode ser provada”. Provar teoremas é a principal atividade de um matemático.  Para provar um teorema social, Pasolini.

Perguntado certa vez se  gostava de viver, dada a carga pesada e pessimista dos seus filmes, o diretor respondeu que sim, e emendou: “É a sociedade burguesa que não me agrada. É a degeneração da vida no mundo.

Terence Stamp é o visitante. Hóspede de uma família burguesa que acaba seduzindo um por um – o pai, a mãe, o filho, a filha e a empregada. Com isso, Pasolini dava a sua visão da presente revolução, que estourava naquele ano em Paris e em outros países – a mulher e o jovem revisavam seu papel na sociedade. No filme, é mais ou menos isso que acontece quando o visitante seduz cada membro da família, representante fiel de algum segmento da sociedade. Essa representação é devastada, encara uma transformação e tem seus instintos liberados.

Clara tentativa de opor-se aos grandes filmes comerciais da época, mais do que cinema moderno, Teorema é aquilo que Pasolini teorizou por “cinema de poesia”: deixada a prosa e a narrativa tradicional de lado, o lugar agora é dos simbolos, das figuras de linguagem, da experimentação de elementos fílmicos que servissem à proposta.

Particularmente indigesto para iniciantes na proposta, é um filme onde encontramos metáforas a rodo. O tempo todo, como numa metralhadora, sem tempo para respirar.

Ao afirmar a degeneração burguesa, Pasolini em momento algum culpa o visitante – a família já tinha o ‘potencial’ para entrar em crise de uma forma muito simples, com seus homens ausentes e/ou reprimidos  e suas mulheres que não sabem o papel na sociedade. Tudo o que precisava para provar isso, era a simples demonstração. Nada melhor que, assim como Buñuel, inserir um “anjo exterminador” que traria à tona os problemas burgueses e provaria, com a precisão matemática que o diretor queria, sua citação do início do texto. Com isso, a poligamia, a homossexualidade, o incesto, a individualidade e demais tabus e desejos suprimidos pela mola mestra capitalista – a unidade familiar burguesa – vem à tona. Quando o visitante vai embora, além da transformação, resta o vazio.

Uns buscam Deus, outros entram em estado catatônico, outros entram de cabeça em estilos de vida que a burguesia consideraria “degenerados”, outros cruzam o deserto que sua vida virou – longe  da vida que estava acostumado, mas por seus valores incutidos, longe de saber para onde irá depois disso. Mas o que sobra mesmo é o grito de angústia – que continua ecoando por muito, muito tempo após o término do filme.

4/5

Ficha técnica: Teorema (Teorema) – 1968, Itália. Dir.: Pier Paolo Paolini. Elenco: Terence Stamp, Silvana Mangano, Massimo Giroti, Anne Wiazemsky, Ninetto Davoli, Alfonso Gatto