por Bernardo Brum

Chamar Essa Pequena é Uma Parada de “a última screwball comedy”  de Hollywood é um engodo, apesar de correto. Os cineastas  americanos da época nitidamente buscavam, assim como os franceses dos anos sessenta, verter o cinema de gênero feito pela necessidade de criar e manter um público alvo em algo tipicamente autoral. Esse tipo de cinema, então, só serviria de uma espécie de disfarce, já que a essência se mantinha a mesma. Por exemplo, com pouquinho de paciência para a semiótica, não é difícil de detectar que William Friedkin queria dizer a mesma coisa tanto em Operação França quanto em O Exorcista. Tal técnica era chamada de “contrabando”.

Aproveitando desse tráfico de mercados e autorias, Bogdanovich fez a mais insuspeita das misturas, para aqueles anos tão loucos e sérios: uma comédia romântica frenética, sensual e escrachada (afinal, há de se perceber que seus contemporâneos investiam no território do drama urbano e do terror violento) digna dos melhores anos do star system de estrelas como Cary Grant, Marilyn Monroe e Jack Lemmon.

Mas Ryan O’ Neal, como o aparvalhado e desajeitado doutor Howard Bannister e Barbra Streisand como Judy Maxwell, uma garota bon vivant imã de encrenca e com trejeitos de Pernalonga, servem unicamente à velha obsessão de Peter Bogdanovich de desconstruir a sociedade americana; todos os trejeitos engraçadinhos e piadas classudas são todas donas de uma ironia cáustica que move o roteiro sempre à frente na sua missão de causar anarquia no mundo burguês e ir fundo à mente do americano branco, anglo-saxão e protestante e descobrir seus preconceitos arraigados. Porém diferente de outros filmes seus (inclusive o dramático A Última Sessão de Cinema), a amargura aqui é disfarçada e às vezes até esquecida a favor de nos arrancar risada atrás de risada com o absurdo que uma simples engrenagem fora de lugar pode causar.

Tudo vale, e a única coisa previsível, de fato, são os tema-fetiche do diretor, que diga-se de passagem, dificilmente funcionariam tão bem novamente com o passar dos anos. Especialmente de forma tão criativa. Não à toa que Samuel Fuller ajudou Bogdanovich em seu primeiro filme e, inclusive, também era seu amigo pessoal: aquele  “adolescente furioso” tinha muito a dizer sobre as pequenas grandes hipocrisias do maior país do mundo. E talvez tenha a dizer até hoje – uma pena que ninguém mais dê bola.

Apesar de desconhecido, um dos filmes americanos mais essenciais da década mais tresloucada de todas.

5/5

Ficha técnica: Essa Pequena é Uma Parada (What’s Up, Doc?) – 1972, EUA. Dir.: Peter Bogdanovich. Elenco: Ryan O’ Neal, Barbra Streisand, Madeline Kahn, Michael Murphy, Austin Pendleton, Kenneth Mars.