– por Michael Barbosa

Banksy é um fenômeno, e, caramba, tome isso no sentido que bem entender porque a afirmação continuará válida. É um fenômeno por ser um dos maiores nomes das artes no século XXI, por ser uma síntese de um momento e contexto, por ser ousado e comtemporâneo, por falar de política, ambientalismo e coisas-século-vinte-e-um do tipo e por as vezes não falar de nada tão relevante e ainda se mostrar interessante. É grafiteiro, desenhista e escultor. É pop e cool, em essência. É – e lá vou eu fazer uma comparação sem saber muito bem até que ponto faz algum sentido – o Andy Warholl repaginado. E se, até agora, Banksy não produziu e alavancou nenhuma banda sensacional tipo The Velvet Underground dá pra dizer que essa primeira incursão do misterioso artista na sétima arte é certamente mais relevante (sim, é essa a palavra que quero usar) que todos os experimentalismos ocos de Warholl, do nível de filmar um cara recebendo um boquete.

Bem, a ideia não é sustentar a coisa nessa comparação inconsistente, a questão é que o artista extrapola a arte em si, ele é  uma celebridade, ou ao menos uma figura pública, parte do revés da coisa toda de ser um artista famoso é a fama, os jantares de graça, as festas e a coisa toda sobre comer de graça e sexo fácil. E Banksy abriu mão disso tudo, é uma figura anônima, um rosto na multidão, um cidadão comum de Bristol, Inglaterra.  Há quem diga que ele sequer existe, que Banksy é um “crew”, um grupo de caras que trabalham em conjunto. E isso torna tudo ainda mais interessante. Mais e mais.

Feita a introdução e babação de ovo toda (entender Exit… passa por entender Banksy, tenhamos isso em mente) vamos ao premiado documentário em questão. Essa é a história de um francês dono de uma loja de roupas vintage e compulsivo por filmar (Thierry Guetta) que acaba catapultado diretamente para o meio da street art e as suas filmagens, outrora ordinárias imagens cotidianas, passam a ser valiosos registros de toda uma legião de artistas de rua, que vivem à margem da legalidade e na periferia do circuito e das revistas de arte, correndo da polícia, escondendo o rosto, vivendo esse sonho bonito de viver pela arte e ser underground. A partir desse momento, aquele excêntrico francês se torna quase um messias com uma câmera, o homem que quase sem querer estava eternizando momentos muito importantes de caras muito bons.

E ao aproveitar isso tudo Banksy presta sua homenagem à street art, e essa é a primeira razão desse ser um documentário sensacional, o retrato filmado de toda uma cena artística. Pois Guetta filmava só pela compulsão mesmo, jogava as fitas em caixas e deixava lá, sem etiquetas para dar uma organizada, sem assisti-las ou tampouco se dar ao trabalho de realizar algum tipo de edição com o material. Quando o francesinho pentelho se torna um peso Banksy o incube de transformar todo aquele material muito legal em um filme, um registro de fato dessa história de fazer arte no muro alheio. O resultado é um aborto de nome Life Remot Control, vendo que tudo isso foi uma ideia idiota e que o trabalho de Guetta são 75 transloucados minutos Banksy sugere agora que Guetta produza sua arte, tanto tempo vendo caras trabalhando deve ter resultado em algo. Agora que a coisa fica boa.

A essa altura já está claro o bastante o tanto que Guetta é prosaico, sem noção, irreponsável, pouco talentoso e tem pouquíssima auto-crítica, mas, agora como o artista Mister Brainwash, ele se mostra mais maroto do que poderíamos prever, vende tudo que tem e contrata gente a beça; paga outros artistas para produzirem a sua “arte”, faz “arte” de photoshop, faz “arte” a atacado, estúpido que é quebra a perna e fica sentado numa cadeira motorizada gritando e dando ordens. E a gente vê, ali na tela, que tudo isso está muito errado. Mas vocês conhecem a palavra mágica, não é? Hype. Com muito disso MBW fatura na sua primeira exposição na casa de um milhão de dólares, recebe críticas das mais positivas e se torna o coqueluche na casa de senhoras colecionadoras moderninhas.

E quando retrata isso tudo Banksy, consequentemente, faz uma ácida crítica. Joga tudo de uma vez. O tanto que é tênue a linha que separa autoral de pré-fabricado; a facilidade com que se pode enganar uma séria de “especializados”; o senso crítico do próprio público. Ou de forma mais sintetizada: todo o conceito moderno de arte. E no meio disso acabamos por perceber que o que até agora há pouco era uma homenagem a grafiteiros se tornou um ataque de enormes proporções a toda a forma como uma indústria inteira se entende. Como pode um palhaço, um sujeito caricato como aquele, enganar tanta gente? O Senhor Lavagem Cerebral é a própria metáfora de onde os tortuosos caminhos da arte nos levaram.

O que fica é um misto de fascínio e estranheza. Fascinado com o filme todo e em como um cara saído de algo aparentemente tão distante do cinema mostra tanto domínio da linguagem documental e da narrativa no seu primeiro trabalho e com aquela pulga atrás da orelha de se isso tudo é verídico. Não deve fazer muita diferença. Banksy, agora cineasta, berrou em alto e bom som sua mensagem, cagou em cima da indústria e saiu dando risada e mais consagrado do que nunca.

5/5

Ficha Técnica: Exit Through The Gift Shop (Idem) – EUA/Inglaterra, 2010. Dir. Banksy. Elenco: Banksy, Thierry Guetta, Rhys Ifans, Space Invader

Anúncios

 

Certamente todos nós enfrentamos um doloroso dilema na noite de ontem, 27 de fevereiro de 2011. Assistir ao Academy Awards, evento anual que prestigia o cinema mainstream americano, ou o fabuloso Big Brother Brasil, melhor programa da televisão aberta brasileira, que traça um olhar emocional sobre as relações sociais em blocos confinados? Apesar de que desde de 2008, quando Sangue Negro e Onde os Fracos Não Têm Vez lutavam pelo prêmio, o Oscar não nos prestigia com boas vitórias e sequer boas indicações, a gente persevera, pra entrar no ritmo da festa e nos embriargarmos, pelo menos naquela noite, em toda a loucura da política que rege o cinema nos Estados Unidos.

Bom, dane-se. Assistimos perplexos a Wally Pfsiter (A Origem), sem o menor pudor, levantar-se e assaltar ao nosso bom velhinho Roger Deakins, fotógrafo de carteirinha de Joel e Ethan Coen (claramente entediados com a festa, desejando estar em outro lugar pelo amor dos deuses), favorito para o prêmio (Bravura Indômita). Vimos Alice No País das Maravilhas pegando Figurino e Direção de Arte, deixando bem claro que ainda vai levar algum tempo pras pessoas perceberam que Tim Burton não é mais autor. Choramos com Kirk Douglas mostrando que a vida é realmente uma merda, porque ele está pateticamente velho (e, sabem, ele ainda sim, sabem, conseguiu ser o melhor, sabem, momento da noite) e porque ele deu o prêmio da Melissa ‘sim-eu-bebo’ Leo (O Vencedor, dirigido pelos Los Hermanos), tirando o glamour da nossa Hailiee eterna em nossos corações.

Banksy (Exit Through the Gift Shop) perdeu pra Inside Job, documentário sobre polí-zzzzzzzzzzz-tica eco-zzzzzzzzzzzz-nômica. O filho perdido de Roberto Benigni foi lá receber o prêmio pra melhor curta-metragem (God of Love), rendendo outro momento que não deu sono na cerimônia. Os outros curtas a gente não liga. Animação foi pra Toy Story 3, esse filme da Pixar, que é realmente, como disse Lee Unchester, o melhor lugar para se fazer filmes no planeta (bom, na verdade eu não sei como é fazer filmes na Pixar, mas certamente é muito bom ver seus filmes), que é o melhor filme do ano.

Os prêmios para roteiro foram bem óbvios também. Discurso do Rei e Rede Social. Legal ver o Aaron Sorkin, o gênio por trás de The West Wing (assistam séries, caras!) recebendo o Oscar, falando que não é gay, etc. Rede Social também ganhou edição, como não poderia deixar de ser, e trilha sonora original, deixando o Hanz Zimmer (A Origem) pra trás.

Os atores foram óbvios também. Bale e Leo por O Vencedor, Firth por O Discurso do Rei, e Natalie Portman, a estrela da noite, que teve a decência de não fingir que foi uma surpresa ganhar o prêmio (alou, Melissa Leo). Eu pessoalmente acho que a Jennifer Lawrence poderia ter vencido sem prejúizo algum, mas né, deixa a Portman que o ano foi dela.

Agora aqui o negócio fica sério. Porque beleza, Crash venceu melhor filme, mas pelo menos tiveram a decência de premiar a melhor direção indicada. Mas em 2011,Tom Whooper pegou o caneco, deixando David Fincher estarrecido. O que é que o cara tem que fazer pra ganhar o careca, Deus? E o que é que vai fazer a academia deixar de ser tão idiota? Porque Hooper não dirige o filme, ele tipo liga as câmeras, manda o cameraman colocar as lentes e o fotógrafo ligar a luz. É um negócio mecânico, sem paixão, sem criatividade.

Como os prêmios principais, a cerimônia foi uma porcaria, cheia de piadas sem graça, James Franco e Hattaway constrangidos diante duma plateia que provavelmente não dá mais importância pros prêmios do que pro tapete vermelho.

2/5, to zoando.

 

– O Discurso do Rei (2010) – Mike Dias [3/5]

 

– Inverno da Alma (2010) – Guilherme Bakunin [5/5]
– Cisne Negro (2010) – Bernardo Brum [5/5]
– Bravura Indômita (2010) – Bernardo Brum [5/5]
– Toy Story 3 (2010) –  Mike Dias [5/5] (melhor filme da história)
– A Origem (2010) –  Mike Dias [4/5]
– Minhas Mães e Meu Pai (2010) – Bernardo Brum [4/5]
– O Vencedor (2010) – Allan Kardec Pereira [4/5]
– A Rede Social (2010) – Guilherme Bakunin [3/5]
– Minhas Mães e Meu Pai (2010) – Guilherme Bakunin [2/5]
– 127 Horas (2010) – Guilherme Bakunin [1/5]

por Guilherme Bakunin

Eu acredito que Minhas Mães e Meu Pai tenha o propósito bem claro de falar a respeito dessa dinâmica social em que duas mulheres são perfeitamente capazes de formar uma família, uma família que não possui nada de muito especial, a não ser pelo fato de que são duas mulheres mesmo. Todos os problemas que o filho, as mães e a menina, terminando no clássico ‘mãe(s), tou indo pra faculdade’ já foram feitos, refeitos, vistos. No cinema, na televisão, na nossa vida. É tão importante mostrar essa normalidade cotidiana, que a diretora Lisa Cholodenko, que honestamente eu nunca ouvi falar na minha vida, faz questão de quase não mencionar homossexualismo.

Aí entra o dilema a respeito  do filme: a história abusa de clichês e de normalidade com o óbvio objetivo de ressaltar a normalidade de uma relação homossexual. Mas ainda sim, o filme se baseia em pressupostos batidos e pouco  criativos. E aí, é bom ou ruim? O que vai fazer o espectador ficar sentado durante cem minutos assistindo ao filme? O que o filme de Lisa Cholodenko oferece ao público além de sua premissa?

Aparentemente nada. Uma história sem gosto e sem cheiro que fala sobre como Jules (Julianne Moore) começa a se sentir subjulgada pelo sucesso profissional de sua parceira, Nic (Annette Bening) ao passo que seus dois filhos, Laser (Josh ‘abc-do-amor-ponte-para-terabithia’ Hutcherson) e Joni (Mia ‘alice-no-país-das-maravilhas’ Wasikowska) conhecem o seu pai, Mark ‘doei-esperma-sou-vegan-e-namoro-uma-pretinha’ Ruffalo. E entrada do personagem de Ruffalo na vida da família vai desestruturar as bases tida como sólidas nas relações entre mães e filhos, trazendo à tona as incertezas de Jules em relação a sua própria vida e ao casamento, e a suposta necessidade dos filhos de uma figura paterna.

Mas não se preocupem, o estrago não vai ser muito grande. Eventualmente Anettão vai mandar Mark Ruffalo de volta pro seu flat no coração ecologicamente correto de Los Angeles, vai perdoar a esposa, vai mandar a filha pra faculdade, e vai continuar transando pela casa ao som de Joni Mitchell, regada a pornografia homossexual masculina, vinho do porto e modernidade. Eu não sabia que o filme era tão ruim antes de começar a escrever isso daqui. Diante de uma folha em branco, a gente acaba percebendo que até pra criticar o aborto de Lisa Cholodenko é vazio e preguiçoso. Enquanto a gente assiste, é bem possível se deixar levar pela ilusão de que se trata de uma história bacana, porque o elenco interage muito bem, o grupo de atores é excelente, mas acredito que diante dum olhar -um pouco- mais crítico, o filme não se mantém em pé.

2/5

Ficha Técnica: Minhas Mães e Meu Pai (The Kids Are All Right) – EUA, 2010. Dir: Lisa Cholodenko. Elenco: Annette Bening, Julianne Moore, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska, Josh Hutcherson, Yaya DaCosta.

ou aqui: – Minhas Mães e Meu Pai (2010) – Bernardo Brum [4/5]

– por Guilherme Bakunin

Na Austrália, mais ou menos seis pessoas desmaiaram ao assistir 127 Horas. Nos Estados Unidos e em alguns outros lugares do mundo, uma galerinha impressionável também acabou indo parar nos hospitais. Sinceros parabéns a Danny Boyle, um dos grandes abortos dessa hollywood academia da última década, que conseguiu retirar do pública reações tão viscerais a ponto de não deixar que seu filme tivesse um alcance apenas emocional/psicológico na plateia. Não, 127 Horas, aparentemente e pruma grande parte do público, atinge o espectador fisicamente, incita a claustrofobia e nojo em alguns momentos enquanto o personagem principal, Aron, interpretado por James Franco, está preso à uma rocha no fundo de um canyon de Utah, Estados Unidos.

O filme transita entre a experiência meditativa de autodescoberta do protagonista e o suspense ao narrar a história de Aron Ralston, o engenheiro que ganhou fama ao cortar o próprio braço para se salvar, em 2003. Um homem solitário que é forçado através de forças misteriosas que podem ou não existir a se conhecer e a se transgredir é um palco armado prum grande trabalho e nas mãos de uma equipe inteligente certamente daria resultado a uma obra emocionante e life changing. Infelizmente o roteiro saiu mesmas mãos responsáveis pelo crime  humanitário que foi Quem Quer Ser Um Milionário?, e portanto, transgredir a mente e os sentimentos para atingir reações físicas viscerais (ainda que as reações sejam causadas pela  percepção gerada pela mente, que é física, mas enfim, vocês entendem eu acho) é o máximo que eu consigo ir para elogiar 127 Horas.

O filme é todo intercortado por cenas terríveis e mal colocadas, que vão desde anúncios de relógio e Gatorate até câmeras em canudinhos e sons de talk show. Quer dizer, achei que a gente tava falando sobre transgressão pessoal, I Me Mine, Índia, Buda, religiões oritentais dos anos setenta, vida moderna inócua, auto reflexão e etc aqui. Ao invés disso sou atingido por setas comerciais ofensivas e uma câmera documental preguiçosa e simplesmente errada. Porque, vamos refletir. O filme fala de um cara que está isolado. Toda a condição do filme parte da ideia que Aron está sozinho e o gênio do Danny Boyle transforma isso num documentário. Percebam a ironia do negócio. Percebam a falta de tato. Agora imaginem Tarkovsky com um negócio dessa nas mãos. Overthinking, eu sei, mas imaginem então a Debra Granik ou o Andrew Stanton, então, pra ficarmos na galera de agora. Mas não, o filme é entregue nas mãos do cara que fez Quem Quer Ser Um Milionário?, que é tão ruim a ponto de ser indecifravelmente ruim. É como falar mal de um pedaço de bosta (sic) no meio da sua sala de estar. É tão errado, é tão absurdo, é tão fedido que você mal sabe por onde começar. É mais ou menos assim que eu me sinto em relação ao Boyle, eu quero só sair logo da sala pra esquecer.

127 Horas não me parece ser tão horrível, mas é incômodo por toda a atmosfera que tenta criar, por toda a pretensão não atingida. É um filme sobre redenção, mas a gente não conhece o cara que está se redimindo, então a gente nem ao menos sabe do  que ele tá se rendendo. Ele cortou o próprio braço, demais, e essa cena é muito boa, e a forma explícita como ela foi feita, o som e a maquiagem e o cgi e o James Franco atuando em conjunto ali. É harmônico, é preciso, é estático. É plano e contraplano, é ação e reação, é cinema. Mas Boyle não age assim o filme todo, e o cara fez Transpotting, que eu só assisti uma vez em 2004 e então eu nem lembro se é bom ou não, mas eu acho que é, acho que é tão bom quanto a amputação de 127 Horas. Mas então o Boyle sabe dirigir filmes e não dirige porque? Então, não sei responder. Ele pode tentar andar mais do que suas pernas conseguem, ele pode simplesmente querer fazer filmes ruins mesmo, mas fica aí a ideia jogada no ar, a dúvida, a perplexidade. Eu sou o Jack Nicholson no final de Chinatown, eu to diante de algo horrível, speechless.

1/5

Ficha Técnica: 127 Horas (127 Hours) – EUA, 2010. Dir: Danny Boyle. Elenco: James Franco, Kate Mara, Amber Tamblyn, Koleman Stinger, Peter Joshua Hull.

– por Guilherme Bakunin

Uau, é difícil falar desse filme. É um dos trabalhos mais concisos do Lumet, que provou lá pelos meados dos anos setenta que é especialista nesse tipo de situação claustrofóbica em tempo real, e um dos melhores filmes do mundo, já digo o porquê: não me recordo de nenhuma experiência tão bem sucedida no que diz respeito a dicotomia entre homem e filosofia, justamente porque é um filme agradável, superficialmente leve, mas que te convida a explorar os lados mais obscuros de quem realmente somos nós.

Se você chegou até aqui, certamente já sabe que a história se passa durante todo o tempo numa sala de tribunal, onde onze jurados desejam preciptadamente levar um adolescente à cadeira elétrica. As dimensões éticas e morais são inenarráveis, mas o roteiro perpassa por cada uma delas, num estudo social meio pró-América, meio pró-democracia (é, eu sei). Como um guerreiro poeta do ano IV a.C., aquele mesmo que é narrado com façanhas sobrenaturais, Henry Fonda se levanta perante os onze carrascos negligentes e apressados, na esperança de injetar bom senso e misericórdia no julgamento de cada um deles. O que vemos a partir de então é uma jornada que vai explorar os lados mais inflexíveis dos homens, que vai medir até aonde nós, humanos, consiguimos elevar uma mentira ao patamar de uma verdade. No começo do filme, um dos jurados (se não me engano, aquele meio italiano) olha pra trás e vê o garoto  acusado de assassinato. As palavras que seguem o filme parecem nos convencer de que ele não é culpado, mas também testificam que o que os jurados estão julgando, na verdade, é se há provas conclusivas contra ele. A verdade, no final das contas, pouco importa. Mas Godard, por outro lado, diz que o cinema é a verdade em vinte e quadro frames por segundo, e Sydney Lumet parece acreditar nisso. A imagem nesta cena (perdi o fio da meada, mas ainda falo sobre quando o jurado olha pra trás e vê o garoto) parece confirmar a inocência do garoto. Óbvio que alguém que está de frente a frente com a morte temeria, mas não é disso que a imagem do garoto fala. Antes, fala sobre um sistema de segregação social, que reserva oportunidades para quem quase sempre não precisaria delas, que excluí, que incita o ódio, o preconceito, a ordem permanente das coisas, de qualquer coisa. É difícil explicar exatamente o que eu sinto, e o Henry Fonda e Jack Klugman fizeram isso melhor do que eu, mas toda a questão que Lumet coloca nessa cena é que é moralmente inadequado acusar aquela CRIANÇA de assassinato, quando na verdade o próprio sistema cuidou de arranjar as coisas daquela maneira.

Ética à parte, parece redundante falar que somente um criador de filmes (filmaker, um termo que parece não ter a mesma conotação aqui no Brasil) conseguiria arquitetar um suspense tão emocionante dentro de um mesmo ambiente, com condições estritamente reais e passado em tempo quase real. Alguns brasileiros fizeram um filme, para quem não sabe, chamado Quarta B, uma espécie de cópia (sem pejorações) de Doze Homens, transferindo o cenário para uma reunião de um colégio público de São Paulo. É um filme divertido, e até subversivo em muitas questões, mas é óbvio que como cinema, não chega a fazer jus ao filme que o inspirou. Você não consegue ligar uma cãmera e fazer Donze Homens e Uma Sentença (já deixei de falar de Quarta B aqui, que fique claro). Você precisa saber criar um filme. E Lumet soube. O filme foi indicado a três Oscars em 1958, nenhum por atuações, e não venceu nenhum deles. Redundante dizer que merecia. Ao invés disso, a academia premiou A Ponte do Rio Kwaii. A história, que supera quaisquer sistemas, tomou conta de premiar o merecedor. Rio Kwaii é interessante, mas é datado, possui apenas valor histórico. Doze Homens e Uma Sentença, se vocês me permitirem a declaração meio profética, vai sempre ser exibido em qualquer lugar que ouse discutir o direito, a justiça, a verdade, enquanto o homem existir. Um dos dez maiores pra mim.

5/5

Ficha técnica: Doze Homens e Uma Sentença (12 Angry Men) – 1957, EUA. Dir.: Sydney Lumet. Elenco: Edward Binns, Lee J. Cobb, E.G. Marshall, Jack Klugman, Martin Balsam, John Fiedler, Jack Warden, Henry Fonda, Joseph Sweeney, Ed Begley, George Voskovec, Robert Webber, John Savoca.

– por Luiz Carlos Freitas

Você sabe, as danças, essas festas – elas acertam aonde a ciência falhou. Porque você sabe, eu posso ir a um salão de beleza e ficar sentada lá por horas com o meu cabelo e minhas unhas polidas, mas não me sinto mais jovem. Mas essas danças loucas e selvagens… Elas fazem algo para mim lá dentro.”

.

John Cassavetes representa bem aquela máxima de Glauber Rocha sobre o cinema, de “uma boa idéia na cabeça e uma câmera na mão”. Suas obras, quase todas feitas com o apoio de amigos (que além de atuarem sem cobrar cachê, ajudavam com alguns dos custos de produção), encontravam uma série de problemas por todo o processo de realização. Faces é um desses trabalhos de longa gestação. Começando a ser rodado em meados 1965, entre filmagens e pós-produção, só chegou a ganhar o mundo em 1968.

Todavia, mesmo com todo esse tempo gasto, Faces não chega a ser uma produção grandiloquente. Bem longe disso, o filme é todo passado em uma noite, dividido praticamente entre dois cenários com sua trama girando em torno de dois casais em crise e seus conflitos. De um lado, Richard (John Marley), um empresário que, após mais uma discussão com sua mulher Maria (Lynn Carlin), sai no meio da noite para se encontrar com Jeannie (Gena Rowlands), uma jovem garota de programa que conhecera num bar. Maria, por sua vez, sai com as amigas para beber e conhece Chet (Seymour Cassel), um rapaz bem mais jovem que leva imediatamente para a sua casa.

Partindo daí, Cassavetes pega o casamento, uma das instituições mais básicas e, ao mesmo tempo, falidas da sociedade, e faz dela um rico microcosmo como poucas vezes se viu no cinema para analisar justamente esse declínio do homem dentro de seu próprio meio. Polarizando a trama de modo quase sexista, de um lado estão os homens com as jovens com menos da metade de suas idades, do outro as quarentonas  e o garotão de vinte anos. Disso, o casamento é só o fio condutor que pontua sobre a velhice  e que, por sua vez, remete a questões muito mais fortes.

Os homens bebem e, num diálogo corriqueiro, vão gradativamente elevando a voz, como numa rinha, onde o vencedor é o que falar por último e mais alto na presença das fêmeas; as mulheres, como num ritual pagão,  giram bêbadas ao redor do jovem de corpo atlético que, como se em um altar, tem de escolher com qual irá dançar de corpo colado. Eles gritam, são broncos e lembram a cada nova fala dos cargos que ocupam. Elas sorriem, fazem voz meiga, colocam dedo na boca. Tudo é travestido por risos, piadas sem nexo e a eventual desculpa do efeito do álcool, mas o que gira essa roda é mais que evidente: tudo não passa de um jogo onde as relações de poder, o conflito de gerações e classes sociais, a virilidade e o embate intelectual são as cartas que, na verdade, são postas à mesa por um grande pulso de afirmação imposto por todo um sistema que se mostra bem acima de qualquer individualidade.

Essa era a sociedade que John Cassavetes retratou lá em meados dos 60’s e, em uma conclusão assustadora, ainda se mostra pouco (ou quase nada) mudada. É uma sociedade que estabelece normas e padrões, conceitua o que é certo ou não, como se deve viver, a que dar importância e, principalmente, como são excomungados os que não se adequam a essas instituições. É um sistema que, no literal sentido do termo, nos distancia do humano e nos aproxima do mecânico, nos condicionando a um conformismo que nos torna cada vez mais impotentes ante ao que nós queremos, nos fazendo questionar até mesmo se realmente queremos aquilo que desejamos.

No fim das contas, todo aquele hedonismo inconsequente da noite só serve para nos mostrar que, ao raiar do dia, somos nós, homens e mulheres, todos fracos, carentes e vazios, os verdadeiros falidos sob a teia de um sistema que se faz cada vez mais forte, e que não nos resta muito mais a fazer que apenas sentar em meio à bagunça que restara da madrugada, acender um cigarro e encarar mais um dia que começa.

.

5/5

Faces (Idem) – EUA, 1968 –  Dir.: John Cassavetes – Elenco: John Marley, Gena Rowlands, Lynn Carlin, Fred Draper, Seymour Cassel, Val Avery, Dorothy Gulliver, Joanne Moore Jordan, Darlene Conley, Gene Darfler, Elizabeth Deering, Ann Shirley, Dave Mazzie, Anita White, Julie Gambol

– por Luiz Carlos Freitas

De uma forma ou de outra, o Oscar sempre foi referência no meio cinéfilo, tanto por seus admiradores quanto pelos detratores. Até mesmo aos mais ‘neutros’ (meu caso) fica impossível se manter completamente indiferente quando a discussão envolve as supostas injustiças da Academia. Ao longo de seu quase século de premiação, são várias as queixas (grande maioria referentes à premiação principal), desde grandes filmes que nem sequer foram indicadas, como 2001: Uma Odisséia no Espaço, aos vários casos aonde os tido comumente como melhores não foram agraciados com a estatueta, como Apocalypse Now, Uma Rua Chamada Pecado, Os Bons Companheiros, Touro Indomável, O Exorcista e vários outros, sendo talvez, após a derrota de Cidadão Kane para Como Era Verde o Meu Vale (que, apesar da polêmica feita pelos mais afoitos, nem pode ser considerada uma injustiça), a vitória de Rocky: Um Lutador a mais condenada. O drama dirigido por John G. Avildsen desbancou Taxi Driver, de Martin Scorsese (considerado por boa parte da crítica especializada como um dos maiores filmes americanos já feitos).

Interpretando quase que a si mesmo, Sylvester Stallone vive o personagem-título, um lutador medíocre que deve até as partes íntimas e sobrevive às custas de pequenos serviços braçais e que se vê diante da oportunidade de mudar de vida quando recebe o convite do boxeador Apollo Creed (Carl Weathers) para uma disputa à parte de campeonatos valendo o seu título de Campeão Mundial. Para Apollo, era apenas mais uma jogada de marketing; Para Rocky, a chance de uma vida digna. Bastava apenas manter-se alguns rounds de pé e receber seu pagamento (além, é claro, de ter seu nome divulgado e poder, quem sabe, arranjar um emprego de verdade). Mas esse era um desafio certo de derrota. Assim, Rocky pede a ajuda de seu antigo treinador, Mickey (Burgees Meredith), para ajudá-lo em sua preparação.

O filme foi um sucesso estrondoso, gerando uma franquia com outros cinco longas (que, à exceção do penúltimo, foram igualmente bem sucedidos comercialmente). Contudo, sua vitória na categoria principal naquele ano, ao passo que trouxe notado prestígio à obra (e principalmente a Stallone, que fora lançado definitivamente ao estrelato), bastou para despertar a fúria dos que não concordaram com a decisão da Academia, atraindo até hoje críticas excessivamente negativas, boa parte delas sem nenhuma justificativa que vá além do discurso clichê de “não mereceu o prêmio que ganhou”, entre outras comparações desnecessárias com os demais indicados (além de Taxi Driver, Todos os Homens do Presidente e Rede de Intrigas são tomados constantemente como referência).

A bem da verdade, Rocky é, sim, bem inferior aos seus concorrentes na disputa à estatueta,  mas isso não diminui em nada seus méritos, uma vez que o filme é uma obra independente em seu desenvolvimento, estando relacionado aos outros apenas pela disputa ao mesmo prêmio e, livre de comparativos, cumpre perfeitamente sua proposta. Boa parte da força do filme deve-se ao roteiro (escrito pelo próprio Stallone), bastante simples, porém eficiente ao ponto de gerar uma empatia considerável com o personagem por parte do público. E, talvez, tenha sido essa aproximação a grande responsável pela premiação de Melhor Filme. Mas, antes de tudo, devemos avaliar o contexto histórico à época de lançamento do filme.

Quatro anos antes, explodira o escândalo de Watergate, com o arrombamento da sede do Comitê do Partido Democrata meses antes das eleições. Nas investigações, foi constatado o envolvimento do presidente Nixon que, dois anos após, abandona seu cargo na Casa Branca. Um escândalo que manchou a imagem da América. Nesse mesmo período, os EUA amargavam um grande desastre chamado ‘Vietnã’. O tão famoso ‘Orgulho Americano’ estava aos pedaços. Os estadunidenses sentiam vergonha de seu governo e de sua nacionalidade e nada parecia reverter aquilo. Algo precisava ser feito para dar a ‘injeção de ânimo’ que aquele povo precisava. Além do que, o Oscar nunca foi tomado por avaliar necessariamente a qualidade artística de seus indicados, quem foi ou não o melhor naquele ano, mas muito mais por uma extensa rede de puro lobby. Os votantes da Academia, críticos e profissionais do meio cinematográfico, baseavam suas escolhas no mercado, na receptividade que determinadas obras poderiam vir a ter ou não e os efeitos de ter seu nome relacionado a elas. Assim, antes os demais indicados, que abordavam a sujeira e baixeza da sociedade americana (Todos os Homens do Presidente trata justamente do Caso Watergate), Rocky pareceu ser a escolha mais acertada.

As cenas de treinamento árduo e ostensivo eram mostradas paralelamente a seus dramas pessoais e aos efeitos que aquela disputa tem em sua vida e na de todos ao seu redor. E são essas tramas paralelas que ganham o filme e o apreço do espectador, que via nos personagens imagens de si mesmos. Entre um soco e outro, vemos o desenrolar do romance entre Rocky e a tímida Adrian (Talia Shire), seus conflitos com o amigo Paulie (Burt Young) que, assim como ele, era mais uma vítima da falácia social daquele sistema. Mas o essencial nos remete de volta ao treinamento. Aquele homem simples que treinava com vigor, mesmo estando de estômago vazio, com as mãos ensangüentadas dando socos em uma peça de carne no frigorífico por não ter onde treinar, era um perfeito retrato do cidadão americano de classe baixa àqueles tempos.

Rocky Balboa se mostrava feito com um pouco de cada americano revoltado e envergonhado que, além dos parentes e amigos perdidos em uma guerra tola e dos escândalos do alto escalão do Governo, tinha suas humilhações diárias em uma vida simples que todo o resto da sociedade tentava fazer pequena, tomando-as como ‘causas perdidas’. Sly encarnava um novo tipo de herói, sem os super poderes de um Superman ou o charme e a inteligência de um James Bond: um homem simples, de carne e osso (e que mal sabia falar), que não pretendia sair por aí eliminando bandidos com as próprias mãos ou derrubar toda uma bancada de políticos corruptos, apenas provar a si mesmo e (se possível) aos outros que podia melhorar de vida e proporcionar isso à sua mulher.

Comparações à parte, da direção segura de Avildsen (que, fora esse e Karatê Kid – clássico das reprises na TV aberta -, não fez mais nada que mereça alguma menção) às grandes atuações (Talia Shire, Burt Young e Burgess Meredith estão fantásticos) e a trilha sonora assinada por Bill Conti, sempre lembrada na maioria das apresentações de boxe desde então (e que embala a sequência do treinamento de Rocky e a subida na escadaria da Biblioteca da Filadélfia, uma das cenas mais antológicas do cinema),  Rocky: Um Lutador consegue aliar perfeitamente uma plena eficiência cinematográfico a um grande valor humano. E isso, dentro da Sétima Arte,  é algo que não deveria ser ignorado.

“Não há nada que você não possa fazer. Se o gongo ainda não soou,
então a luta ainda não acabou. Agora vá lá e vença!”

.

4/5

Rocky – Um Lutador (Rocky) – 1976, EUA – Direção: John G. Avildsen – Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Thayer David, Jimmy Gambina,  Joe Spinell