– por Michael Barbosa

Warrior é um filme sobre basicamente duas coisas: família e exteriorização da violência inerente ao homem, e efetivamente é tudo o que o filme tem a oferecer, diálogos poderosos co as feridas familiares das três protagonistas sendo cutucadas (de cara, na primeira cena, com o pai revendo seu filho após 14 anos e ouvindo um “eu preferia quando você era alcoólatra”) e lutas de MMA incrivelmente bem filmadas, que são várias ao longo do filme, sem miséria; entre essas duas frentes, como trama mesmo temos uma série de acontecimentos absurdos e nada críveis que exigem ao máximo da capacidade de abstração do espectador e que em última análise podem acabar por prejudicar sim a apreciação daqueles dois fatores básicos a se dedicar.

Conhecemos dois irmãos separados pelo destino, filhos do mesmo pai ex-alcoólatra e ausente. O caçula fugiu com a mãe e se tornou um fuzileiro. O segundo ficou com o velho e com a namorada, teve duas filhas, fracassou na sua carreira no UFC e virou professor de física… É tudo bem claro: tem um torneio de mixed martial arts com um prêmio de cinco milhões de dólares em jogo e desde o começo é bastante óbvio que a trama vai se desdobrar para que a tal luta dos irmãos seja o clímax do filme, nesse percurso veremos uma série realmente grande de eventos realmente improváveis acontecendo para que se torne possível o encadeamento desejado, vai ser neguinho quebrando a perna correndo, vídeos virando virais no Youtube, técnicos de academia de bairro super influentes e por ai vai.

 E assim hora ou outra teremos esses diálogos muito bons, esses daddy issues que moldam o caráter do homem, o diretor Gavin O’Connor acaba dialogando constantemente sobre a vontade de ser perdoado de um, a incapacidade de perdoar do outro. É sobre o quanto marcas podem ser profundas. Tommy, o que fugiu com a mãe não consegue perdoar nem o pai nem o irmão e acaba tendo que exteriorizar sua raiva nos ringues ainda que se convença constantemente que existe motivos muito nobres por trás de suas lutas. Brendan, o irmão mais velho, não faz muito diferente, na superfície precisa pagar a hipoteca da casa, mas tanto quanto o irmão o tesão pela luta está ali, sempre esteve. Paddy, o pai, não parece de todo consternado com a ideia dos filhos se digladiando e trocando socos e chutes, assustador, pois.

A outra frente são as lutas em si, O’Connor se mostra um diretor com um domínio bem grande disso de filmar dois atores se espancando, digno dos melhores momentos dessas lutas esportivas no cinema, seja em Rocky, Touro Indomável, Ali, Punhos de Campeão, Luzes da Cidade (hehehe) ou onde quer que seja que elas aconteceram. Fica a curiosidade de ver o vale-tudo, esse esporte sensação dos últimos anos agora substituindo o que era lugar cativo do boxe. Talvez a constatação mais valiosa esteja no fato de que em todas lutas do filme, tirando a última talvez, o vencedor parece potencialmente óbvio, mas elas funcionam, a tensão é segurada completamente aparte do quão manjado seja quem vai vencer, ou mais, tem que vencer. E assim a luta contra o russo (sim! Tem uma luta contra o russo, com direito até a vestimenta vermelha com [e se registre aqui minha alegria em usar isso num texto]) se torna um exercício de cinema absolutamente fantástico: edição frenética, jogo de luz e câmera e muita porrada bem filmada, tudo culminando com o clímax com o russo “batendo” para a derrota. De assistir de pé, de verdade. É tipo O Último Dragão Branco para ver depois de crescido, sobre MMA, com personagens bem mais complexas e sem o Van Damme.

A quem for bem sucedido na árdua tarefa de abstração vai ficar essas lutas incríveis, esses três atores pra lá de inspirados e esse drama familiar vigoroso, sobre pais bêbados se recuperando e ouvindo a Bíblia e recaindo, filhos subjugando esse esforço com um gosto amargo na boca e palavras duras, Tom dizendo que escolheu o pai para treinador porque um demônio que você conhece é melhor que um que desconhece. Essas coisas familiares tão complicadas e sem solução.

3/5

Ficha Técnica: Guerreiro (Warrior) – EUA, 2011. Dir: Gavin O’Connor. Elenco: Joel Edgerton, Tom Hardy, Jennifer Morrison, Nick Nolte, Noah Emmerich, Bryan Callen,Kevin Dunn, Denzel Whitaker, Kurt Angle

Anúncios

Equipe do Cine Cafe

Melhor filme

Cavalo de Guerra, de Steven Spielberg
O Artista, de Michel Hazanavicious – por Guilherme Bakunin [2/5]
O Homem que Mudou o Jogo, de Bennett Miller – por Guilherme Bakunin [3/5]
Os Descendentes, de Alexander Payne por Allan Kardec Pereira [1/5]
Árvore da Vida, de Terence Malick – por Allan Kardec Pereira [4,5/5]
Meia-Noite em Paris, de Woody Allen – por Guilherme Bakunin [3/5]
Histórias Cruzadas, de Tate Taylor – por Guilherme Bakunin [1/5]
A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese – por Allan Kardec Pereira [5/5]
Tão Forte e Tão Perto, de Stephen Daldry

 Melhor ator

Demián Bichir, por A Better Life
George Clooney, por Os Descendentes – por Allan Kardec Pereira [1/5]
Jean Dujardin, por O Artista – por Guilherme Bakunin [2/5]
Gary Oldman, por O Espião que Sabia Demais – por Bernardo Brum [4/5]
Brad Pitt, por O Homem que Mudou o Jogo – por Guilherme Bakunin [3/5]

Melhor atriz

Glenn Close, por Albert Nobbs – por Guilherme Bakunin [2/5]
Viola Davis, por Histórias Cruzadas – por Guilherme Bakunin [1/5]
Rooney Mara, por Os Homens que Não Amavam as Mulheres
Maryl Streep, por A Dama de Ferro
Michelle Williams, por Sete Dias com Marilyn

Melhor ator coadjuvante

Kenneth Branagh, por Sete Dias com Marilyn
Jonah Hill, por O Homem que Mudou o Jogo – por Guilherme Bakunin [3/5]
Nick Nolte, por Warrior – por Mike Dias [3/5]
Max von Sydow, por Tão Forte e Tão Perto
Chrisopher Plummer, por Beginners

Melhor atriz coadjuvante

Octavia Spencer, por Histórias Cruzadas – por Guilherme Bakunin [1/5]
Bérénice Bejo, por O Artista – por Guilherme Bakunin [2/5]
Jessica Chastain, por Histórias Cruzadas – por Guilherme Bakunin [1/5]
Janet McTeer, por Albert Nobbs – por Guilherme Bakunin [2/5]
Melissa McCarthy, por Missão Madrinha de Casamento – por Guilherme Bakunin [2/5]

Melhor roteiro original

O Artista, de Michel Hazanavicious – por Guilherme Bakunin [2/5]
Missão Madrinha de Casamento, de Annie Mumolo – por Guilherme Bakunin [2/5]
Margin Call, de JC Chandor – por Guilherme Bakunin [3/5]
Meia-Noite em Paris, de Woody Allen – por Guilherme Bakunin [3/5]
A Separação, de Asghar Farhadi – por Mike Dias [5/5]

Melhor roteiro adaptado

Os Descendentes, de Nat Faxon e Jim Rash – por Allan Kardec Pereira [1/5]
A Invenção de Hugo Cabret, de Josh Logan – por Allan Kardec Pereira [5/5]
Tudo Pelo Poder, de Grant Heslov e Beau Willimon – por Guilherme Bakunin [4/5]
O Homem que Mudou o Jogo, de S. Zaillian e A. Sorkin – por Guilherme Bakunin [3/5]
O Espião que Sabia Demais, de O’Connor e Straughan – por Bernardo Brum [4/5]

//

A lista ainda está incompleta, mas até o final de fevereiro esperamos completá-la (inclusive, daqui a um tempo, com os indicados ao Melhor Filme de Língua Estrangeira, cujos downloads devem demorar um pouco mais para sair). Ainda em relação aos Oscars, nós temos preparado um outro especial, pra cobrir de forma panorâmica todos os 84 anos da premiação. As coisas estão meio difusas, ainda, mas certamente vai acontecer, em breve. Vocês são obviamente bem vindos com sugestões e opiniões, tanto a respeito de qualquer especial, quanto a respeito dos filmes que compõe a premiação do Oscar desse ano, ou a premiação de um modo geral.

– por Guilherme Bakunin

Margin Call pondera a respeito do que teria sido o passo em direção ao abismo da crise econômica de 2008 através de uma narrativa minimalista que toma curso num período de 24 horas numa empresa de investimentos-ou-qualquer-coisa-assim. É de fato um filme pouco convencional, segue pacientemente o curso das tomadas de decisições faustianas dos high-profiles executives de alguma companhia de Wall Street. O principal delas parece ser: abrir mão de toda a fortuna pessoal, declarando a falência da empresa, ou vender todas as ações antes que a bolsa de valores possa especular a inexorável desvalorização da companhia, causando um desastre econômico sem precedentes.

J.C. Chandor, em seu debut, não menospreza a inteligência do espectador ao simplificar a conversa sobre economia. A questão é: entender sobre economia não é pre-requisito pra inteligência, e se você não entende, aí é só uma questão de quanto tempo de filme você é capaz de suportar sem fazer a menor ideia do que está causando todos os conflitos.

Contudo, há gratificações para os que conseguirem passar da metade: o filme acaba sendo mais sobre os personagens responsáveis pela crise do que pela crise em si. Que as bolsas estão sinistras, todo mundo sabe, e Margin Call não parece interessado no explanar dos porquês (apesar de gastar um tempo considerável fingindo o fazer). O roteiro de Chandor parece ter uma urgência em decifrar as personalidades que foram capazes de tomar a decição que tomaram, e não consegue, obviamente. Não poderia: na mesma medida em que o roteiro tem o desejo de decrifar os personagens, também os investe de individualidade e humanidade. São pessoas, afinal, religiosamente gananciosas e fatalmente humanas.

Há uma questão de marginalidade explícita também: o filme trata de pessoas que são, de certa forma, marginais. A sociedade não é, obviamente, formada pelos 1%. Não são pessoas necessitadas, mas também não são comuns (alguns estão no caminho para não serem, é bem verdade, como o personagem de Zachary Quinto). Se auto exilaram da vida ordinária e ocupam suas próprias e intransponíveis fronteiras – a do dinheiro, do status social, etc. Mas a margem do título parece ser outra. É uma linha, um limite, de ordem não social, mas ética. Num dos últimos momentos de Margin Call, o personagem de Jeremy Irons profere um discurso niilista refutando a concepção do personagem de Kevin Spacey de que a decisão tomada por eles foi errada ou inapropriada. É um discurso eloquente, que convence ao mesmo tempo que delineia a referida linha ética que o filme parece traçar: ironicamente, após o discurso do Irons, a amoralidade das ações dos personagens fica mais evidente.

Essas ações alcançaram essa linha. O filme ao menos parece trepidar junto com esse conflito moral (os personagens estão reflexivos ao mesmo tempo que descrentes, praticamente desde o começo). Não fica muito claro, porém, em qual dos dois lados ela ficou – do correto ou do inescrupuloso, por exemplo. Mas com certeza ela terminou perigosamente perto demais.

3/5

Ficha técnica: Margin Call – O Dia Antes do Fim (Margin Call) – EUA, 2011. Dir.: J.C. Chandor. Elenco:  Kevin Spacey, Jeremy Irons, Zachary Quinto, Paul Bettany, Stanley Tucci, Penn Badgley, Simon Baker, Demi Moore.

– por Guilherme Bakunin

O Homem que Mudou o Jogo toca em questões delicadas a respeito do esporte, e parece proselitisar a respeito de uma superioridade palpável no esquema gerencial de Billy Beane (interpretado por Brad Pitt). O esquema per se não importa de verdade, valendo mencionar apenas que é gerado por computador e baseado em estáticas afim de burlar os favoritos e abocanhar bons jogadores a preços risivelmente baixos. À comparação com o futebol, seria como se um banco de dados atestasse a garantia de que um jogador de passa muito tempo com a bola nos pés é mais valioso do que um jogador de marca muitos gols.

Apesar da gerência de Beane na liga de 2002 ter se provado efetiva, ela também se mostra desumana. Se no jogo há a paixão, capaz de turbinar as limitações do próprio atleta (há, afinal, O Triunfo da Vontade, que embora glorifique mais o povo ariano do que a figura do esportista, é um bom exemplo a ser levado em consideração), há os olheiros, responsáveis por fisgar esses jogadores antes que eles despontem, usando muitas vezes a própria intuição. A paixão e a intuição. Dois aspectos humanos, mais do que isso aliás, dois aspectos românticos que o filme definitivamente tenta desmitificar.

Essa questão acaba repercutindo no principal problema de O Homem que Mudou o Jogo. Semelhantemente ao esquema de Beane, o filme é por diversas ocasiões automático, como que gerado por máquinas. Seus personagens falam e se relacionam com a mesma incomunicabilidade de uma calculadora e um fogão. É, afinal, A Rede Social dos filmes de baseball: personagens que rompem talentosamente com um determinado status quo, mas que falham em ter o controle sobre suas próprias vidas.

Nesse sentido, Bennet Miller (cujo debut foi Capote, em 2006) pode não ter sido a melhor escolha para estar a frente desse projeto. Se David Fincher é eloquente o bastante pra extrair poesia das talking heads de A Rede Social, Miller parece olhar pra sua história como um amontoado de nomes e números e fatos. Embora haja uma grande vontade em tornar o personagem de Pitt humano, relacionando suas conquistas dentro da gerência do Oakland A’s com seu relacionamento familiar e seu passado de falhas (Billy Beane foi durante algum tempo um jogador de baseball tido como promessa por olheiros, mas que fracassou), durante muitas cenas ele é apenas um personagem frio com sede por vitória.

Uma abordagem mais interessante talvez fosse demarcar mais algo que possui apenas levas tracejados durante o filme: Miller esboça os jogadores do time como párias do universo do beiseball, como se eles fossem marginais renegados de suas próprias sociedades. Existe algo de Nicholas Ray nas cenas em que somos levados a percorrer os salões de treinamento do Oakland A’s, olhando para homens gordos, mancos e tortos. Diante dessa visão, podemos pensar que esse grupo está fadado ao fracasso. Eles mesmo parecem pensar assim. É preciso que o personagem de Pitt entre no vestiário e seja ríspido, firme, mas compreensível: eles não valhem muito enquanto indivíduos, mas serão insuperáveis como um grupo.

Uma mensagem não muito humana ou otimista, vale dizer, mas que vai, por outro lado, na contra-mão  do que se costuma fazer com filmes de esporte: criar heróis. Não há um homem que muda o jogo em Moneyball, há um grupo que consegue subverter uma expectativa. Um grupo sob a gerência de um homem, claro, mas ainda assim, um coletivo.

Miller, portanto, não tem o olhar mais confiante sobre sua história, e isso sem dúvida prejudica o resultado final. Mas é, afinal, uma história escrita por Aaron Sorkin e Steven Zaillian, dois dos grandes roteiristas e escritores de diálogos que hollywood tem à disposição nesse momento. É o suficiente pra atiçar a curiosidade, e Miller pelo menos deixa as coisas simples e corretas o bastante pra fazer deste um bom filme.

3/5

Ficha técnica: O Homem que Mudou o Jogo (Moneyball) – EUA, 2011. Dir.: Bennett Miller. Elenco:  Brad Pitt, Jonah Hill, Philip Seymour Hoffman, Robin Wright, Chris Pratt, Stephen Bishop, Tommy Blanchard, Nick Porazzo, Spike Jonze.

– por Michael Barbosa

É curioso pensar que no mesmo 2011 em que Jafar Panahi lançou This Is Not a Film diretamente da sua prisão domiciliar por crimes políticos, filmando clandestinamente em seu apartamento por ter sido proibido de fazê-lo pelo governo iraniano e sua censura, Asghar Farhadi nos entregue um filme como A Separação, corajoso, escrito com primazia e que amarra o espectador num híbrido absolutamente único de drama familiar e filme de crime.

A história começa da premissa de uma separação conjugal num Estado fundamentalista islâmico como o Irã; Simin quer sair do país, o marido Nader diz que não pode, o pai é doente, tem alzheimer, se é assim ela quer o divórcio, mas tem a filha dos dois e a lei patriarcal que não a deixa partir, ai tem a câmera no lugar do juiz, ela argumentando, ele onisciente da lei machista, ainda que meio constrangido com estar se valendo dela, ele é um bom homem, ela quer o melhor pra família, é complicado, se posicionar é um desafio desde o princípio. Só que essa separação do título logo se revela uma das duas facetas do filme, na outra temos Nader sendo acusado de homicídio por causa do aborto da mulher que trabalhava cuidando de seu pai e o desenrolar sufocante do caso. E é assim, com essas duas frentes sendo tocadas e se misturando o tempo todo, que Farhadi conduz A Separação.

Nisso a narrativa se desenrola de forma a nos tornar privilegiados espectadores ocultos do desmoronamento daquela família de classe média e do caso criminal que a envolve. Acabamos mergulhados nos meandros jurídicos do Irã, num desses sistemas em que a burocracia e os trâmites da lei vão causando uma sensação de claustrofobia, é Kafka, descarado, O Processo.

Enquanto isso o nosso protagonista, Nader, é construído com cuidado, somos condicionados a priori a simpatizar por ele, afinal ele é um sujeito decente, é islâmico e pai de família sem ser misógino e extremista, como manda o nosso clichezão ocidental, mas a trama nos entrega aos poucos seus erros e mentiras e com maestria acabamos por nos ver imersos numa relação relativamente conflituosa de torcer por ele e achá-lo um filho da puta vez ou outra. E de certa forma o mesmo se aplica a Simin, à vítima de aborto Razieh e ao seu marido explosivo; são personagens bons porque são críveis, têm nuances e humanidade, é possível odiá-los e respeitá-los, simultaneamente, igual é com as pessoas ao nosso redor. Não há vilão. Farhardi faz um legítimo esforço para evitar maniqueísmos e bravamente consegue.

Farhardi ainda tem suas artimanhas, se vale de Nader saber ou não que Razieh estava grávida quando do incidente que impulsiona a trama para em última instância garantir que tem o suficiente para prender a atenção até do menos atento dos espectadores. E não foge também do lugar óbvio a se tratar num filme passado no Irã, a religião, é o islã, a religiosidade e incapacidade de mentir sob o Corão que a certa altura permitem a catarse do filme e seu clímax, é o medo de Alá – ou talvez o próprio Deus – entrando como uma personagem da trama, força propulsora do agir das personagens, de diálogo em diálogo ouvimos “Alá” e ele ou a crença nele influenciam diretamente no desenvolver da história.

E se a crítica social é menos clara do que poderia é por questões legais, da dificuldade em se lançar um filme como esse no Irã, mas está tudo ali, pode procurar: é religião, justiça, família e política, tudo na história dessas personagens tão boas e tão bem interpretadas.

Por fim temos a filha do casal principal, entregue nisso tudo, que chora a lágrima mais sincera do filme e é a maior afetada por tudo isso, e que no fim haverá o poder de decidir com quem ficar. A gente não sabe, não podemos saber, Farhardi deixa as respostas para gente, os julgamentos, se assim quisermos que sejam feitos por nós, assumindo essa responsabilidade, a câmera estava parada na primeira cena quando conhecemos Simin e Nader e pouco se mexe na última, analítica apenas, quando nos despedimos deles, a mensagem é óbvia, a história é contada e só, a análise é nossa. A Separação é intenso à medida que é humano. E a verossimilhança que não é obrigação alguma aqui é um trunfo, porque a gente acredita naquilo tudo mesmo, soa razoável sem soar burocrático. E o Irã é isso ai, essa meca oriental do cinema contemporâneo, apesar de tudo. Um Filmaço.

5/5

Ficha Técnica: A Separação (جدایی نادر از سیمین) Irã, 2011. Direção: Asghar Farhadi. Elenco: Sabrina Fahardi, Leila Hatami, Sareh Bayat, Merila Zarei, Peyman Moadi.

– por Guilherme Bakunin

Uou!, esse filme é um saco. Não porque o roteiro é completamente previsível, pois geralmente uma boa storytelling se ocupa em encantar mesmo na previsibilidade. Mas existe uma certa mediocridade oculta em O Artista, como um sorriso de político meio a um discurso festivo. O filme é todo uma celebração do processo de se fazer filmes, embora só tenhamos acompanhado o fazer de um filme dentro da história, o que fracassou. E isso não é por acaso.

O Artista acompanha George Valentin (Jean Dujardin), um superastro do cinema mudo enfrentando dificuldades para se adaptar ao mundo do cinema falado, e a aspirante a atriz Peppi Miller (Berenice Bejo) tentando se tornar uma estrela. Valentin se esbarra com Peppi na premiere de seu filme e ali, os dois se apaixonam. Ele como o grande ícone de uma era em decadência meteórica; ela como o futuro rosto dos talkies. Mas Valentin está engajado em um casamento que também está prestes a ruir; a falta de entusiasmo de sua esposa para com ele é similar a sua falta de fé nos filmes falados.

Mas os filmes falados chegam para ficar, assim como o crack de 29. Bem, ninguém precisa de cartas de tarot pra adivinhar o que sai daí. Sim, Valentin é abandonado pela esposa, pelo produtor, perde todas as suas economias numa última tentativa vaidosa de emplacar um hit mudo. O filme fracassa nas bilheterias e é isso aí, Valentin está completamente derrotado. E então as coisas se complicam para O Artista.

É durante esse entreatos obscuro que narra os momentos mais baixos da vida de Valentin que o filme torna-se mais enfadonho; esse também é, aliás, o ato mais longo. Hazanavicious simplesmente parece não fazer ideia pra onde levar a história, e então sobrepõe cenas dispensáveis, desgasta cada plano até o último segundo, cria romances e distrações para seus personagens (eles não poderiam, afinal, ficar quarenta minutos sem fazer absolutamente nada). Tudo para orquestrar um final grandioso e impressionante à Se Meu Apartamento Falasse, mas que falha estruturalmente, por ser capenga (o filme não estabelece que Peppi Miller é má motorista, por exemplo – qual é, até Scoop antecipa melhor as coisas) e previsível.

Após o reencontro do casal injutificavelmente apaixonado, a epifania: Valentin se recusa a falar, mas através da sua dança ele poderá se expressar, sapateando seu caminho de volta ao estrelato cinematográfico.

O problema: o filme se chama O Artista e eu ainda estou procurando a quem o título faz referência (muito provavelmente ao cachorro) porque, até onde me consta, a função de um artista não é adaptar-se a qualquer circunstância, moldando-se ao gosto popular para manter-se em evidência: não existe ao menos um artista de renome que tenha trabalhado com essa postura. Nos cinemas, talvez Chaplin, mas mesmo ele ficou sem falar até os anos 40, e só abriu a boca para discursar sobre o que acreditava.

Mas Hazanavicious tenta extrair leite de pedra e quer convencer-nos que o metade galã metade mímico personagem principal da sua comédia romântica revisionista faz arte. Não, não faz. Provavelmente não antes, e certamente não depois dos talkies. O diretor trabalha muito bem, contudo, com a dinâmica do filme mudo, e o uso do som em algumas sequências (particularmente uma sequência de sonho no meio do filme) é sublime. Fora todos os dispositivos visuais e as gags gestuais que estão espalhadas pelo filme, o único outro grande destaque de O Artista é a atuação magnética de Jean Dujardin, canastrão em partes, e humano em outras, sempre à necessidade da história.

O mais incômodo em relação ao filme é que não se trata, na verdade, de um filme revisionista. O Artista é agradável e medíocre nas mesmas proporções de qualquer filme inofensivo dos anos 1920, mas não elabora nenhum comentário à respeito do período (não chega nem ao menos perto do discurso de Cantando na Chuva, por exemplo), mas limita-se a mimetizar toda a estrutura que foi, há quase um século, consagrada nos circuitos mais populares. Mais populares no sentindo de ressaltar  a ideia de que os anos 1920 não foram preenchidos exclusivamente por chick flicks em preto & branco. Na verdade, muitas das grandes obras do cinema, americano e europeu, estão lá, mas são negligenciados na história por serem obras atemporais, não sujeitas à dispositivos tecnológicos de som e imagem. Os artistas de verdade, aparentemente, não têm nada a temer.

2/5

Ficha Técnica: O Artista (The Artist) França/Bélgica, 2011. Direção: Michel Hazanavicious. Elenco: Jean Dujardin, Bérenice Bejo, John Goodman, James Cromwell, Penelope Ann Miller, Missi Pyle, Beth Grant, Ed Luter.

– por Allan Kardec Pereira

Os americanos adoram uma lição de moral familiar. Isso é um elemento forte nas narrativas hollywoodianas, desde o cinema clássico. Sempre a relação conflituosa entre pais e filhos. Na maioria das vezes a harmonia familiar que se fortalece diante das adversidades. Qualquer referência a um cenário econômico e político nada animador, nunca é mera coincidência. Isso vem desde, sei lá, Capra?

The Descendants, novo filme de Alexander Payne, que venceu o Globo desse ano, é mais um filme que nessa América pós-11 de Setembro, reforça esse filão moralista barato. Tal como “Amor sem Escalas”, Clooney interpreta um “homem sensibilizado”, distante do herói imbatível, que parece carregar todo esse mal estar da atual classe média americana, todas essas dúvidas. Dialoga, portanto, com o o estilo de filmes que o Oscar adora premiar. Atuações espalhafatosas com choros, gritos, esculhambações familiares, tudo bem ao gosto de “Crash – No Limite”. No fundo, uma mensagem rasteira de otimismo pregando a união familiar em tempos de crise – no caso do filme, Clooney interpreta um rico proprietário de terras do Havaí, chamado Matt King, que está com sua mulher em estado terminal e saí em busca do amante da mesma ao lado das filhas, buscando se aproximar destas.

O problema, contudo, não reside nem no moralismo. O azar de “Os Descendentes” é ele ser um legítimo filme ruim, muito ruim. Tanto no que concerne às atuações (as premiações americanas sempre tentam me desmentir, mas fazer o que?), como também com a trilha sonora intrusa, quanto nas segundas intenções do filme: afinal, nas entrelinhas, o filme parece ter sido encomendado pelo ministério do Turismo tentando divulgar as belíssimas praias do Havaí, afinal, divulgar as belezas naturais de casa é um bom caminho em tempos de crise. Muitas cenas são de uma falta de necessidade tão grande, que parecem servir apenas pra dar um passeio pelo lugar.

É um filmeco, enfim. Depois da catarse, tem aquele final bonitinho e pra cima que o público americano adora. Tem a valorização de preceitos morais, como o apego à suas propriedades (em detrimento da especulação imobiliária, a mensagem foi claríssima), a união familiar. Geralmente isso resulta em filmes ruins, nesse caso, o resultado me parece ser ainda pior, já que o filme parece ser “arrastado” demais pra o padrão fácil do grande público, tem horas que parece até aqueles filmes do Sundance que crescem durante a temporada de premiação e acabam abocanhando alguma coisa (quiçá algumas atuações, roteiro etc), mas não. A forma como Payne trabalha seu filme não acrescenta nada de interessante ao cinema atual. É um cinema fácil, um filme rasteiro, sem muitas possibilidades, sem vôos maiores. Um tipo frequente no cinema americano, e isso é que é o pior.

2/5

Ficha Técnica: Os Descendentes (The Descendants) Estados Unidos, 2011. Direção: Alexander Payne. Elenco: George Clooney, Shailene Woodley, Amara Miller, Mattew Lillard, Judy Greer.