por Bernardo Brum

Perdido entre a fase mais narrativa – de O Segredo do Bosque dos Sonhos e Zombie – e a fase mais alucinada – com Terror Nas Trevas, A Casa do Cemitério, O Estripador de New York e A Cat In The Brain, está Pavor na Cidade dos Zumbis, uma obra de transição, com todas as qualidades e defeitos que obras do tipo carregam.

Aqui Fulci ainda mostrava-se, na falta de uma palavra melhor, contido. Percebia o poder violador que só o cinema tem, mas era só uma vaga impressão. Por várias vezes, fica nítida a impressão de abandonar a história de um espírito de um padre suicida que volta dos mortos e cerca uma cidade com seus poderes sobrenaturais junto a outros zumbis e apenas um grupo de quatro sobreviventes para tentar deter o mal, ou uma besteira qualquer dessas. O que acontece: sempre que o filme se desdobra mais sobre a história do que sobre as imagens, fica uma lenga-lenga interminável. E quando concentra toda a atenção em volta da atmosfera, do sangue, da nojeira, e enfim, tudo aquilo que entendemos por gore, cresce espantosamente.

Não que Fulci não soubesse dirigir da outra maneira – afinal, O Segredo do Bosque dos Sonhos com suas interpretações intensas, direção crua e roteiro sarcástico e filho da puta não me deixa mentir para ninguém. Mas Pavor Na Cidade dos Zumbis parece um tanto indeciso. Fulci não soube dosar o quanto queria de narrativa e o quanto queria de atmosfera. E, necessário salientar, a narrativa é algo muito pouco interessante.

Mas eis que o fime vai melhorando de pouco a pouco. Logo os zumbis (que estão mais para espectros) aparecem, some logo aquele papo mala de livro amaldiçoado, cidade amaldiçoada, grupo de xeretas investigando e coisa e tal e entrega, de bandeja, sequências incrivelmente tensas, assustadoras e angustiantes, para não dizer nojentas, repulsivas e de uma insanidade inacreditável; catalepsia, chuva de vermes, lágrimas de sangue, vômito do intestino, uma broca atravessando as duas extremidades da cabeça, além de um clímax quase lisérgico onde não se entende porra nenhuma, seguido por um final em suspenso. Quase não dá para lembrar que começou chato e continuou indeciso, para só se entregar ao completo absurdo em seu final.

Pena que Fulci só sacou lá para o final do filme que a maluquice, irrealidade e doideira casavam muito bem ao seu cinema. Então, depois das experimentadas, ele estava pronto; em 1981, viria Terror nas Trevas; e o velho Lucio, sentaria, enfim, no trono de Rei do Terror oitentista.

3/5

Ficha técnica: Pavor Na Cidade dos Zumbis (Paura nella Città dei Morti Viventi) – Itália, 1980. Dir.: Lucio Fulci. Elenco: Christopher George; Katherine MacColl; Carlo De Mejo; Antonella Interlenghi; Giovanni Lombardo Radice; Daniela Doria; Fabrizio Jovine; Janet Agren; Luca Venantini; Michele Soavi; Venantino Venantini; Enzo D’Ausilio; Adelaide Aste; Luciano Rossi; Robert Sampson; Lucio Fulci

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– por Guilherme Bakunin

O Segredo do Bosque dos Sonhos é mais uma das numerosas obra-primas produzidas na década de setenta e é um dos trabalhos mais elogiados do grande diretor italiano Lucio Fulci. Um mix interessante de faroeste, thriller e filme policial, a história se concentra em misteriosos assassinatos a crianças de um pequeno e supersticioso vilarejo no interior da itália.

À época do modernismo, o contraste feito por Fulci é bastante interessante. O vilarejo é tão atrasado e fechado em sua própria cultura mística, que tem-se a impressão de se tratar de um outro universo. Com o início dos assassinatos (primeiramente, três crianças são assassinadas), pessoas de outras cidades – dentre elas jornalistas – chegam ao vilarejo (localizado na região da Sicília), e tornam-se perplexos diante da cultura supersticiosa do povo. Um assunto tratado de forma no mínimo interessante pelo filme – direção e roteiro trabalhando em conjunto, para evidenciar esse ‘combate’.

O que mais se percebe no filme, apesar da boa história – que funciona não somente como crítica pertinente à época, mas especialmente como suspense mesmo -, é a direção magistral de Fulci. Com uma câmera objetiva e ágil, o diretor conseguiu empregar um ritmo maravilhoso ao filme – muito mais agradável do que os gênios italianos das décadas de 60 e 70 conseguiram ser. Lucio Fulci se dá ao luxo de inclusive flertar com o noir e com o expressionismo, dando à luz a um dos grandes filmes europeus da história.

Violência e horror nas doses certas, um orçamento médio para uma produção impecável, O Segredo do Bosque dos Sonhos é tido como um dos grandes trabalhos de Fulci, é angustiante, veloz e sincero, tendo servido de inspiração para grandes trabalhos dos nossos dias, inclusive a cena mais famosa (a tortura de Mr. Blonde) em Cães de Aluguel, de Quentin Tarantino. Indispensável para os fãs e futuros fãs do gênero, e volto a dizer, um trabalho de direção e fotografia que devem ser invejados por quem trabalha no mundo cinematográfico.

5/5

O Segredo do Bosque dos Sonhos (Non si sevizia un paperino) – 1972, Itália. Dir.: Lucio Fulci – Elenco: Florinda Bolkan, Barbara Bouchet, Tomas Milan, Irene Papas, Marc Porel, Georges Wilson, Antonello Campodifiori, Ugo D’Alessio, Virgilio Gazzolo.