– por Luiz Carlos Freitas

Sexo, drogas, violência e rock setentista. Ou, em outras palavras, Martin Scorsese. Bem, pelo menos o foi um dia.

O diretor norte-americano, conhecido por suas obras de caráter subversivo, crítico e despido de valores moralistas, desde Cassino, em 1995, não nos brindava com  algo à altura de seus grandes trabalhos do passado. Cambaleando entre o patético (Gangues de Nova York) e o meramente desnecessário (Kundun), realizou ótimos trabalhos (O Aviador e Os Infiltrados). Todavia, ainda não eram suficientes para resgatar a imagem de grande gênio responsável por Taxi Driver e Touro Indomável, entre outros dos maiores filmes americanos da história.

Eis que, após meses de desenvolvimento e muitos contratempos, finalmente sai Ilha do Medo, adaptação do romance de Dennis Lehane, a incursão do diretor no thriller de suspense. Na trama, Leonardo DiCaprio vive Teddy Daniels, um agente Federal que é enviado a uma ilha-prisão do governo para criminosos com problemas mentais e de alta periculosidade para investigar o desaparecimento de uma das detentas, Rachel Solando, que havia sido presa por afogar os três filhos, um a um. Com ele no caso, está Chuck Aule, seu novo parceiro (interpretado por Mark Ruffalo).

Mas não se enganem com esse resumo. A última coisa que devemos esperar daqui é algo tão convencional quanto esse plot faz parecer. Ilha do Medo, acima de tudo e além de qualquer delimitação de ‘gênero’, é um filme de Martin Scorsese, o que, para bem ou mal, já nos deixa a impossibilidade de qualquer classificação de prateleira de locadora. Partindo de uma trama aos moldes do cinema clássico, somos brindados com um primoroso exercício de estilo, narrativa e atmosfera. E é evidente o quanto o diretor tem o domínio exato de cada um desses elementos.

Carregado de referências, boa parte do cinema dos 40’s/50’s, como a caracterização ao estilo film noir, Scorsese chega até mesmo a relembrar momentos da própria carreira (a cena do sonho onde DiCaprio e sua esposa se abraçam rodeados por cinzas é parecidíssima com  a chuva de pétalas em Quem Bate à Minha Porta?). Podemos dividir o filme com base nessas referências, alternando entre uma condução essencialmente Hitchcockiana, com o desenrolar de uma trama cada vez mais intrincada e complicada aos olhos do espectador e do personagem central, onde a grande revelação acerca dos fatos parece paradoxalmente mais distante à medida em que o final se aproxima, e uma atmosfera de medo e paranóia bem semelhante a de Stanley Kubrick em seu clássico O Iluminado. Shutter Island, tal como o Overlook Hotel da obra de Kubrick, transparece certa onisciência, como se soubesse de tudo que acontecia e estava para acontecer ali, quem eram vítimas e culpados e, ainda mais, tinha participação e controle sobre. A entrada na ‘Ala C’, com seus corredores escuros de metal enferrujado, é fácil um dos momentos mais tensos do filme.

O propósito da obra é bem claro desde o início: nos sufocar. Não interessa nada que vá além disso. Scorsese pega o Dilema Kafkiano e, em cima disso, faz o seu espetáculo. Os flashbacks e delírios do protagonista rendem algumas das imagens mais pesadas e chocantes de sua carreira, além de reafirmar o quanto os anos apenas o fizeram bem no trato das imagens. As cenas do campo de concentração são tecnicamente perfeitas, com um plano-sequência que já consta fácil entre os mais memoráveis do diretor; o mesmo para os delírios de Teddy com sua finada esposa e o final, o maior clímax do filme.

A trama serve como um mero artifício para nos imergir no pesadelo da estada de Teddy em Shutter Island, tanto que o twist no final, de certo bem previsível, irá decepcionar os que estão na espera de algo mais convencional, apoiado nas tais reviravoltas surpreendentes do roteiro. A proposta lembra muito as malucadas de Argento e demais representantes do Cinema Fantástico Italiano, com a diferença de que o roteiro, se não surpreende, também não deixa margens para furos ou lacunas, mantendo até os minutos finais, inclusive, um ar de ambiguidade acerca do óbvio.

Ao fim, com a revelação e o destino do protagonista, temos mais que uma simples sensação de incompletude. Indo além, esse é o grito de reafirmação do autor. É Scorsese nos mostrando que seu cinema, apesar de descaracterizado (pelo menos aparentemente) por suas últimas obras, não morreu, apenas ganhou força, voltando tão implacável e violento quanto antes. É, talvez, a mesma visão do final de Taxi Driver, onde ele nos mostrava uma sociedade que reverenciava um assassino (Travis matou bandidos e clamou por justiça, mas ainda assim, era um assassino), só que agora bem mais amarga e fatalista.

O que nos resta é como a bala que entra pela boca, esfarela o rosto, mas não atinge o cérebro; o grito da criança afogada que não chega aos nossos ouvidos; o beijo de amor que acaba em cinzas e sangue; a agonia dos que enfrentaram o pelotão de fuzilamento e não conseguiram um tiro fatal; o sonho interrompido pelo grito rasgado de uma infanticida: é a violência pura, da que excede hipergrafismos, se instala na mente e nos perturba por dias após, nos fazendo sentir como se precisássemos clamar por uma morte rápida e instantânea que nunca chega; é a renúncia ao mal à perpetuação no desespero e na demência, representados por meio de um exercício cinematográfico completo.

Em outras palavras: Martin Scorsese.

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4/5
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Ficha Técnica:

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Ilha do Medo (Shutter Island) –  EUA, 2010 – Dir.: Martin Scorsese – Elenco: Leonardo DiCaprio, Mark Ruffalo, Ben Kingsley, Max von Sydow, Michelle Williams, Emily Mortimer, Patricia Clarkson, Jackie Earle Haley, Ted Levine, John Carroll Lynch, Elias Koteas, Robin Bartlett, Christopher Denham, Nellie Sciutto, Joseph Sikora

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– por Bernardo Brum

Injustamente um dos filmes menos lembrados de Martin Scorsese entre os seus bons, Depois de Horas é nada mais nada menos que uma obra-prima. Se alguém achou que depois de dar a volta por cima de um inferno pessoal regado à fama, grana, drogas e estafa em Touro Indomável o diretor havia arregado, errou feio. A bem da verdade, a década de oitenta pode ser considerada o verdadeiro auge criativo de Scorsese. Nunca mais o diretor que na década de 70 havia despontado com Caminhos Perigosos e Taxi Driver chegaria tão longe após contar  história de Jake La Motta – ciclo este que terminaria em Os Bons Companheiros.

Se ele já havia feito o tremendamente cáustico O Rei da Comédia e ainda faria um dos retratos mais humanos (e, por que não, controversos) de Jesus em A Última Tentação de Cristo, Depois de Horas figura facilmente entre os meus cinco favoritos de Martin. Sem compromisso com fama, com prêmio, em dar a volta por cima, ou em se firmar como realizador,  a única coisa que Scorsese parecia querer ao contar a história de um yuppie que tem a pior noite da sua vida (argumento tão simples mas que dá vazão à uma verdadeira avalanche criativa) era extravasar todas as suas idéias e seu tesão pelo cinema. O resultado não poderia ser diferente: o espectador é literalmente preso, então, a um dos maiores pesadelos do cinema, sem volta, mergulhado em um clima de loucura sem precedentes na carreira do diretor. Cada mílimetro de película transpira puro surrealismo urbanista, mal estar da modernidade, e a sensação de perigo vem justamente de estarmos mergulhados na cidade mais cosmopolita, onde literalmente tudo existe, ao mesmo tempo.

A selvageria metropolitana que o diretor já filmou tantas vezes aqui só serve de pretexto não para isolar quem assiste no meio do nada enlouquecedor – como acontece em O Iluminado, A Hora do Lobo e O Ciclo do Pavor – mas no meio de tudo, onde uma vez preso no meio daquele lugar, pronto, não há mais volta. O vórtice já nos tragou com a desculpa mais tola – viramos cúmplice do paspalho que só queria dar uma metidinha – e então, estamos vítimas do humor negro, da ironia e da irrealidade Scorseseana.

Absolutamente qualquer coisa vira palco para Scorsese criar uma atmosfera do que não existe, mas que dado a proximidade, bem que poderia – a casa de uma artista plástica tem iluminações e enquadramentos assustadores demais para um filme vendido como comédia, os moradores excêntricos de um prédio logo se transfiguram numa legião do inferno saída de um poço de lava escaldante, os clássicos maconheiros Cheech and Chong dirigindo uma caminhonete cheia de coisas roubadas parecerem, na verdade, saídos da mitologia grega – como Caronte e seu barquinho que leva as almas penadas ao mundo inferior. E toda vez que eles aparecem, tudo só tende a ficar pior. Vamos para uma boate punk-gótica-new wave cheia de suas surubas sonora-etílica-sexuais é fotografada como o inferno de Dante – e durante alguns segundos nessa boate iremos testemunhar Scorsese de figurante segurando um holofote, olhando para o espectador de modo enigmático e logo em seguida o cegando com a luz, como se denunciando que estar em New York fosse estar condenado à paixão e ódio, à violenta ironia, solidão e multidão, e assim vamos nós. Tudo está sujeito a um dos mais geniais desajustes esquizofrênicos do cinema.

E logo após termos experimentados de tudo – um surto de sangue, sadomosaquismo, cortes moicanos, gritaria, artes plásticas, desobediência civil, invasão de domicílio, correria, água, torneiras, queimadura, mortes, overdoses, pichações, pessoas excêntricas, provando que de fato, “depois do expediente” tudo é válido, tudo pode acontecer e, de fato, talvez aconteça mesmo, que o barquinho de Caronte, ou melhor, a caminhonete fuleira dos maconheiros vem buscar o literalmente petrificado protagnista pela última vez, e devolvê-lo ao inferno cotidiano, ou melhor, o purgatório das almas perdidas – ou seria dos espíritos entediados da Nova York careta e trabalhadora? E acabamos então, tão insones e embasbacados quanto o protagonista de Griffin Dune.

Um verdadeiro monumento cinematográfico de Scorsese, quase desconhecido por alguma sacanagem um tanto inexplicável. Jamais ele teria coragem novamente de dissolver realidade e esquizofrenia no mesmo copo e nos forçar garganta abaixo. Se ele queria provar porque raios faz cinema, conseguiu. Aqui que ele declara, num filme que é puro e clássico exemplo de cinema pelo cinema: largue dessa rotina de merda e vá assistir um filme. Simples, perturbador e belo assim.

5/5

Ficha técnica: Depois de Horas (After Hours) – 1985, EUA. Dir.: Martin Scorsese. Elenco: Griffin Dune, Rosana Arquette, Teri Garr, John Heard, Cheech Marin, Tommy Chong, Will Patton.