– por Guilherme Bakunin

Os primeiros minutos dessa jóia de John Ford possuem um ritmo frenético, onde todos os personagens e a situação na qual eles se encontram são competentemente apresentados, através de uma edição que, mesmo não sendo inovadora, já denota a autoridade e autonomia do diretor. No filme, um grupo de pessoas se une em uma diligência que tem o objetivo de atravessar algumas cidades americanas até chegar em Lordsburg. A trama é simples e o estilo é clássico. John Ford inova na questão de tratamento de personagens, subverte o western, adiciona os mais variados simbolismos e constrói um dos grandes filmes sobre a América de todos os tempos.

O aspecto mais transgressor do filme são os personagens, longe dos padrões maniqueístas recorrentes no western, e que formam uma história muito distante da clássica trama de bandido e mocinho. No Tempo das Diligências se apresenta como uma trama emblemática sobre o nascimento e ascensão dos Estados Unidos em um território desbravado. Porque esse é o viés principal do filme: colocar toda uma sociedade dentro de um lugar que pudesse com clareza representar a jornada de um grupo de milhares à chegada de seu destino. Cada persona dentro daquela diligência representa uma clássica personalidade americana, e não se enganem: nada é feito a partir do clichê, e o desenvolvimento não é superficial. O banqueiro, a prostituta, o bêbado; todos, representam uma pequena parcela daquela nação. E a diligência, sua descoberta.

Dessa forma, o filme de Ford é um épico, já que um indivíduo é esquematizado para ser referência de um incontável número de pessoas. Mas afinal de contas, o que isso tudo significa? Bem, o berço da América é a jornada em direção ao Oeste, então não existe nada mais propício do que representar esse épico a partir de um filme que é, pressupostamente, um western. Os Estados Unidos cresceram com a investida militar, que dizimou os índios com a desculpa de estarem fazendo o Bem (isto é, o divino), mas que só foi realmente consolidada com a ocupação de civis na região. Ora, não há nenhum militar de relevância no filme, nos restando recorrer ao simbolismo: se a diligência representa a investida inicial do exército americano contra os índios, tudo parece se encaixar; logo após a passada do carro, toda a sociedade americana desembarca, suja os pés na terra do Monnument Valley.

John Wayne, que é a grande estrela do filme e que se consolidou como um dos grandes atores americanos, interpreta Ringo Kid, um fora-da-lei determinado à chegar a Lordsburg para terminar a sua vingança e que é  preso pelo xerife local e também embarca na diligência. Uma ironia necessária, fazer embarcar um bandido no vagão da sociedade americana, e não um bandido qualquer, mas o herói. Paralelo ao Kid, temos Lucy Mallory, esposa de um militar, grávida do “filho da América”, que é, vejam só, mulher, ressaltando sua função primordial de reproduzir-se e ocupar aquele local. Lucy assume o papel de clássica americana, boa esposa, fiel, obstinada, uma garota ideal, mas que demonstra já num dos seus primeiros momentos um lado obscuro de sua personalidade, ao interessar-se pela sedução de Hatfield, the Con Man. Uma vertente interessante se nota a partir daqui: nessa obra, pouca interação temos entre o mocinho e a mocinha; ambos estão presentes, é verdade, mas subversão de Ford é notável, e as intenções do diretor de distanciar seu filme de um romance clássico e aproximá-lo de um trabalho autoral sobre qualquer coisa – e aqui eu defendo essa idéia de épico sobre América – se escancaram para o espectador. Kid, bandido mas herói dentro da diligência se apaixona pela prostituta Dallas, logo no começo, quando ainda estava algemado, preso, como que se tivesse um selo grudado em sua testa dizendo “renegado”. Kid mais tarde iria conquistar sua redenção para aquele povo, ao utilizar-se a força bruta do revólver para salvá-los do perigo e da selvageria dos nativos; ao ser um assassino, conquista respeito e simpatia no seu meio. Lucy, por outro lado, a partir da chegada de Kid, começa sutilmente a afastar-se dos holofotes – antes retratada primordialmente em primeiro plano, com closes e muita luz, vai cedendo progressivamente seu protagonismo à prostituta. Não antes, porém, de dar a luz ao seu filho, num momento sublime onde a criança, que nasce em meio à tragédia daqueles acontecimentos, já recebe ao nascer a incubência, subliminar, de continuar as ações de seus antepassados. A bebê será mãe dos construtores da rodovia, avó dos acionistas da bolsa de valores, bisavó dos fuzileiros da primeira guerra. Vai dar continuidade à ocupação americana, não apenas no Oeste, mas em todo o mundo.

Antes de terminar seu filme, Ford ainda faz questão de mostrar que a predestinação de seus personagens é certa: Kid e Dallas se casam, e após a permissão das autoridades (e por consequência, da lei) de cumprir sua vingança de assassinato, vai para seu rancho nas terras próximas ao Oeste. Ocupa seu pedaço de terra, para viver com sua esposa e seus futuros filhos, trabalhando duro na plantação todos os dias, voltando para casa após o labor, dando um beijo na sua fiel companheira e brincando com os filhos e consolidando o american dream. Não creio que nem por um segundo Ford se desvie desse olhar ácido, crítico, mostrando toda a sujeira por debaixo do chapéu do tio Sam, e toda a podridão por trás da estabilização do estilo de vida americano. Então, não, No Tempo das Diligências não é um western. É um drama, poderoso e consistente, sobre o horror de todas as guerras e as tragédias de todas as vidas, que foram e continuam sendo até hoje sendo dizimadas a favor do Bem.

5/5

Ficha Técnica: No Tempo das Diligências (Stagecoach) – EUA, 1939 – Dir.: John Ford. Elenco: Claire Trevor, John Wayne, Andy Devine, John Carradine, Thomas Mitchell, Louise Platt, George Bancroft, Donald Meek, Berton Churchill, Tim Holt, Tom Tyler.

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