por Bernardo Brum

Para o paramédico Frank Pierce, New York faz algo além de apenas estar sempre acordada – ela também agoniza de dor, vinte e quatro horas por dia, gritando, sangrando, vomitando… E tirando seu sono. Voltando ao tema do cruzado solitário que atravessa um cenário desolado, sujo e violento onde imperam cenas de puro desespero de Taxi Driver, Scorsese e Paul Schrader costuraram em Vivendo no Limite outra narrativa character-driven que desce até os becos mais profundos de uma cidade que afeta e é afetada pela degradação mental, física e moral dos seus milhares de personagens.

Essa é a investigação de um determinado tipo de imaginário, o cristão. Pierce é uma espécie de santo autodestrutivo, vivendo em um lugar onde a fina linha entre vida e morte não é sempre clara, mas está presente o tempo todo. Ele e todos os seus outros colegas de profissão estão numa profissão da qual jamais conseguem se demitir, por mais que o emprego os consuma e jogue-os dentro de uma espiral sem volta de loucura.

Nessa história episódica e sem trama, o paramédico é uma espécie de “esponja de dor”, expiando os pecados da decadência dos homens comuns, sofrendo com a angústia, insanidade e perda alheia. E pior ainda: há algumas semanas, todos que passam na mão de Pierce, de recém-nascidos a idosos, todos vão perecendo em suas mãos. Grande parte das vezes, alucina com Rose, uma menina inocente que morreu em suas mãos e que iniciou sua “crise de fé”. Ao mesmo tempo, fica obcecado por uma ex-junkie de nome Mary – cujo pai Frank salvou e levou para a emergência, após um ataque cardíaco. Antes irritada com seu progenitor, agora ela está arrependida, esperando que o pai saia do “limbo”, ou seja, do estado vegetativo.

Há também um “falso Messias”, que vende tranquilizantes e promete paz para todos aqueles angustiados demais com os próprios erros e com o mundo que os cerca – e que acaba tendo que enfrentar uma espécie de crucificação no meio de uma comemoração com fogos de artifício, em uma das cenas mais absurdas da filmografia de Marty, substituindo o Monte Calvário de Cristo por um arranha-céu, cruzando o sacrifício do falso cordeiro com uma paródia perversa – e transcendente – do final apoteótico de Manhattan, do ateu Woody Allen.

Schrader, assim como fez com Travis Bickle, repete sua lógica dostoievskiana de autodestruição, sofrimento e catarse tão vista nas principais histórias do russo – entrando em choque direto com o mundo selvagem e violento, que sempre ataca repentinamente de Scorsese, onde o maior exemplo reside na comédia de muitos erros Depois de Horas. Chame de versão secular de uma história “sacra”, ou de uma versão hardcore de Kundun – onde longe de ser um líder espiritual, Frank Pierce dá uma sobrevida ao povo de New York para eles conseguirem viver mais dias violentos e conturbados.

Os olhos cansados e com olheiras profundas de Nicolas Cage testemunham algumas das mais bizarras cenas do puro surrealismo scorseseano,  projeção intensa e dramática do inconsciente sob quilômetros de asfalto manchados de sujeira e sangue. Logo a racionalidade deixa de importar quando a câmera passa a seguir o dia-a-dia de Frank Pierce, que jamais alcança a redenção em momento algum. Humano antes de tudo, imperfeito, ainda guiado por pulsão de sexo e morte – enquanto tenta salvar os inocentes, xinga, quebra, mente e persegue.

Uma nova referência distorcida surge no plano final, que invoca num cenário moderno o tema Pietá, onde o abraço sofrido do Cristo e da Virgem substituídos pelo sono redentor da ex-viciada e do paramédico, que por um momento podem esquecer seus demônios em um abraço afetivo e justamente piedoso e caridoso.

Se por séculos foi lembrada a importância da Paixão de Cristo, Deus que se fez carne,  Scorsese agora nos entrega a Paixão do Homem – o homem comum, o homem medíocre, figura central em sua filmografia – que desta vez, expurgará os pecados no mais secular  das narrativas – o cinema, a projeção de uma tela, onde o espaço também se torna tempo, que irá desmoronar e acabar com o passar das horas.  Nascido carne, o cordeiro humano, que sacrifica por nós todos os dias na mais insone das cidades para expurgar nosso pecado original – existir? -, também merece dormir um pouco, afinal de contas.

4/5

Ficha técnica: Vivendo no Limite (Bringing Out The Dead) – EUA, 1999. Dir.: Martin Scorsese. Elenco: Nicolas Cage, Mary Beth Hurt, Ving Rhames, John Goodman, Tom Sizemore, Patricia Arquette, Marc Anthony, Aida Turturro, Martin Scorsese, Cliff Curtis, David Zayas, Terry Serpico.

– por Guilherme Bakunin

É interessante você pegar pegar Gosto de Sangue e Arizona Nunca Mais, colocar os dois frente a frente e depois olhar pra além do horizonte de Joel e Ethan Coen em 1987. Porque são dois filmes extremamente polarizados: Gosto de Sangue, neonoir coeso, extremamente sério (não num sentido tarkovskiano, por exemplo, mas relativo aos próprios Coens) e Arizona Nunca Mais extremamente cômico, até bobo de vez enquanto.

A introdução as personagens é feita rapidamente numa cena de mais ou menos oito minutos, com narração do própro protagonista HI. Nicolas Cage interpreta H. I. McDunnough, um assaltante de segunda categoria que se apaixona e se casa com Ed (Holly Hunter), uma policial local. Depois de algum tempo morando juntos em um trailer, Hi e Ed descobrem que eles não podem ter um filho. Arrasada, Ed bola um plano para sequestrar um dos cinco bebês de Nathan Arizona, um comerciante de móveis local.

Arizona Nunca Mais ainda faz parte dos anos 80 na carreira dos dois diretores, onde seus trabalhos não alternavam entre o dramático e o cômico de forma tão sutil, com uma comédia meio errada, meio rasgada mesmo. Dá pra ver, por exemplo, quando o casal de amigos interpretados por Frances McDormand e Sam McMurray visitam a casa de Hi e Ed que existem umas gags interessantes que ficam bem a margem do verossímil ali, com aquelas crianças terríveis e diabólicas, aquele “peido” escrito na parede, transformando-se num emblema indecifrável, etc. Mas nos diálogos o negócio ainda não fica caricato o bastante. Pra quem não conhece os filmes dos Coen, talvez funcione. Pra mim, não.

Pois é, não funciona tanto quando comédia, mas é um puta filme de aventura. Vai trabalhando com esses personagens esquisitos como se não quisesse desenvolver nada, e acaba trabalhando na dinâmica da família, daquela que tá nascendo agora, casal noivo e inexperiente, até que o filme entrega a eles um pouco de maturidade pra resistir ao primeiro problema (a esterilidade da personagem da Holly Hunter) pra continuar em frente e sei lá. Tem a figura do motoqueiro, personagem duplo. O motoqueiro também é o HI. É a parte de HI que ele tem que exterminar de si mesmo. É a vida bandida, ou é a reificação dos problemas do casal, ou é a imaturidade. E vai ver são todas as coisas encarnadas ali naquela ameaça física e extremamente real. Uma ameaça que diz respeito ao casal, sim, mas principalmente ao HI, que como pai daquela nova família, vivendo aquela nova vida, tem que se olhar no espelho e falar “é isso aí, a partir de agora mudou”.

É uma aventura introspectiva, se vocês me entendem. As coisas funcionam no exterior principalmente pra fazer o espectador olhar pro interior daqueles personagens. O roubo de um dos bebês do Arizona, por exemplo, aquela coisa de “uns têm tanto e outros têm tão pouco” é um questionamento filosófico possível, mas porra, chegar e roubar um bebê é eticamente errado. Imaturidade do casal, despreparo desde o começo. E o título original, Criando Arizona (porque no Brasil o filme se chama Arizona Nunca Mais é algo que eu não entendi até hoje) é quase uma ironia. Porque o Nathan Jr. não chega a ser criado, a história se passa em no máximo alguns meses, mas quem cresce mesmo são HI e Ed. É quase como se o bebê, através de todas as experiências que ele proporcionou, tivesse educado o casal.

Terminando o filme tem a sequência do sonho do Nicolas Cage. O povo costuma não gostar, chama de piegas. Eu já falei aqui antes, no texto sobre Um Mundo Perfeito que a gente que gosta um pouco mais de cinema (no sentido de que a gente não vê apenas os filmes que passam no shopping, deixando claro que não existe nenhuma autoindulgência intelectual atuando aqui) costuma torcer o nariz pra quando o melodrama é acentuado demais. Uma má criação, certamente. Alguns filmes, e o Clint Eastwood é perito nisso, trabalham intensamente com o drama, buscando transferir a emoção do personagem ao espectador. Quando não consegue, é pieguice descarada mesmo. Mas quem viu o filme e acompanhou o crescimento –existencial- do HI TEM que se sentir tocado por esse sonho. É inverossímil porque a gente não costuma acreditar no milagre de fertilização em mulheres estéreis, mas é emocionante, é lindo, casal tendo filhos e envelhecendo juntos, criando netinhos e etc. Fofo demais. A sequência final de Arizona Nunca Mais inspirou aquela da A Origem e A Última Noite (de Spike Lee).

3/5

Ficha Técnica: Arizona Nunca Mais (Raising Arizona) – EUA, 1987. Dir. Joel Coen. Elenco: Nicolas Cage, Holly Hunter, John Goodmann, Trey Wilson, William Forsythe, Sam McMurray, Frances McDormand.

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– por Michael Barbosa

Quão sincero, amargo e depressivo um filme pode ser? É difícil saber, mas Despedida em Las Vegas muito provavelmente chega perto do limite. A história do homem que decide beber para se matar (ou se matar para beber, ele não lembra) e acaba encontrando o seu anjo em uma prostituta é de uma lisura poucas vezes vista. Um filme que consegue ser prosaico e extremamente adulto ao mesmo tempo. É um exercício de direção de atores incrível e mais do que tudo um filme livre de maneirismos, moralismo ou proselitismo que disserta de maneira única sobre o homem, o álcool e tudo que essa combinação interfere.

Ben Sanderson (Nicolas Cage) é um homem que chegou ao fim da linha. Outrora um roteirista de sucesso, casado e pai de família é agora apenas os restos do que já foi. Entregue a bebida decide pegar o que lhe resta e ir para Las Vegas beber até morrer, simples assim. E lá está ele, em Vegas, mas em uma Vegas diferente, ainda que cheia de luzes, cassinos e prostitutas não parece tão glamorosa, tem algo quebrando o clima, esse algo é Ben e sua odisséia suicida que em belo momento é interrompida por Sera (Elisabeth Shue) uma prostituta que mais do que aceitá-lo necessita daquele indivíduo beberrão e depressivo, se apóia nele e faz dele uma razão pra seguir adiante, e isso é recíproco da parte de Ben. E ali está um dos mais francos relacionamentos já vistos. Por um curto período Ben e Sera coexistem. Na mais completa relação de dependência.

Nesta caminhada onde um está rumo à morte e o outro só tentando se suportar o que vemos mais do que um mero exercício narrativo de anticlímax, é um enorme ciclo de criar e quebrar expectativas. É o sexo que nunca acontece, a ternura que nunca é possível, o aconchego que é sempre interrompido e a volta por cima que não vai chegar. E esse é o tom, com uma montagem contemplativa na maior parte do tempo e ágil em momentos específicos (como nos desabafos de Sera ao divã). Mike Figgis, que aqui extrai o melhor mais um pouco de seu elenco (o tão criticado Cage mostrando que é tudo questão de ser bem dirigido e orientado) e faz um filme assaz autoral imprimindo sua marca em tudo no filme, inclusive na trilha sonora de sua composição, jamais voltaria a fazer algo que chegasse perto do reconhecimento de Despedida em Las Vegas, ficando assim como um diretor de um filme só, uma pena. Sorte sua que não é um filme qualquer.

E quando, finalmente, depois de idas e vindas e mais e mais derrotismo, o ato se consuma é triste, derradeiro, final. Quase que como um último desejo de ambos. Não, não tem uma lição de moral. O “Anjo Sera” não foi o suficiente. As coisas foram como tinham de ser e nós fomos meros espectadores da estrada da vida e morte de duas pessoas que chegaram bem perto do fundo do poço e não pareciam fazer grande questão de sair de lá. Amoral, na mais pura acepção da palavra. Ben foi o derrotado que pintava ser e Sera a prostituta que tinha como motivação ir para casa para tirar o gosto de sêmem da boca. Eles se aceitaram mutuamente, e se realizaram com isso. Basta.

5/5

Ficha Técnica: Despedida em Las Vegas (Leaving Las Vegas) – 1995, EUA. Dir.: Mike Figgis. Elenco: Nicolas Cage , Elisabeth Shue , Julian Sands , Richard Lewis , Steven Weber