girls

– por Guilherme Bakunin

Como parte do meu trabalho de conclusão de curso, eu tenho pesquisado um pouco a respeito de Lena Dunham, a mente criativa por trás do seriado Girls. Esse texto é a primeira parte de uma exploração a respeito do que eu tenho pesquisado, e vai lidar principalmente com Tiny Furniture, o filme de estreia da diretora, e um pouco sobre Girls, falando a respeito da narrativa e de como os personagens funcionam dentro dela. É spoiler-free, de forma que, mesmo quem não viu nenhuma das duas obras, é muito bem-vindo a ler.

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Eu não sei muito bem o que eu vou falar agora, mas já faz algum tempo que eu quero escrever sobre Girls, série transmitida & produzida pela HBO, criada por Lena Dunham e Jennifer Konner e produzida pelo Judd Apatow.

Lena Dunham é uma cineasta da tradição mumblecore, talvez, e eu já falei um pouco sobre isso, acho, no texto sobre Uncle Kent. Mas ela se desvia bastante dessa tradição, porque Tiny Furniture (estreou aqui em Belo Horizonte na mostra de cinema INDIE, em 2011, se não me engano) é um filme de camadas que estão constantemente em sobreposição. No filme, a própria diretora interpreta Aura, uma garota que acaba de se formar e volta para a casa, em Nova York, para tentar se decidir na vida. O que era de se esperar naturalmente acontece e Aura não consegue se decidir a respeito de nada, exceto que a vida é bem trágica mesmo. Isso É o mumblecore. É o esvaziamento completo de sentido e de objetivos, é uma mensagem tão preguiçosa ao mesmo tempo que bela justamente por isso. Mas o debut de Dunham oferece muito mais em questões narrativas do que os filmes que são geralmente rotulados como mumblecore.

Vocês provavelmente se lembram de Greenberg, de Noah Baumbach, em que Ben Stiller interpreta um cara bastante depressivo e patético. Acredito que o filme de Baumbach seja o advento mais assimilável e mainstream desse movimento do cinema independente americano. Em Tiny Furniture, assim como em Greenberg, a narrativa é mais coesa, estruturada, é como se as coisas tivessem uma melhor razão de ser do que em filmes como LOL ou Hannah Takes the Stairs. Mas é a sobreposição de camadas que realmente impressiona, porque a gente, enquanto espectador, não é muito capaz de definir os personagens principais. Eles permanecem enigmas indecifráveis e nós simplesmente somos obrigados a aceitá-los dessa forma. Porque sabemos que Aura é egocêntrica, mas sabemos também que é realmente difícil demais trazer algum sentido pessoal no caos da urbanidade de hoje (ou ao menos eu sei disso, porque é uma coisa que eu sinto).

E Tiny Furniture coloca espectador e personagens em um estado de letargia surpreendente, porque existe um esforço ludoviciano, pelo menos na minha apreciação cinematográfica, de tentar elevar qualquer narrativa a um sentido coeso, (fomos treinados a assimilarmos cinema dessa forma) e Lena Dunham jamais permite que esse sentido seja alcançado, porque os rumos da história sempre contradizem as expectativas e os personagens sempre contradizem a si mesmos.

É um puta espetáculo estético quando um diretor consegue dizer ao espectador que o personagem está dizendo “sim” enquanto o personagem está dizendo “não”; é um puta espetáculo estético de outa natureza quando um filme é absolutamente o tempo todo assim, exceto que em Tiny Furniture, ao invés de “sim” e “não” existem outros tipos de diálogos sendo travados, eu acho, que parecem mais murmúrios e questionamentos do que uma mensagem realmente límpida e objetiva.

Porque, voltando a questão da frustração de expectativas, existe uma relação diferente de diálogo entre obra-espectador sendo travado em um filme de suspense, onde o sentido da coisa DEVERIA ser o de surpreender. No caso de Tiny Furniture, que é apenas um exemplo de filmes que fazem isso, a questão de interesse não é a surpresa, mas em como o espectador perceberá a obra a partir do contra-senso.

Um exemplo para ilustrar esse ponto: no começo do filme somos apresentados a uma questão – Aura e sua amiga de faculdade Frankie possuem planos concretíssimos de morarem juntas em Nova York dentro de algumas semanas. Depois de mais ou menos uma hora de filme, há uma cena em que as duas conversam pelo celular e a gente descobre que 1. Aura tem ignorado as ligações da amiga porque 2. ela não quer mais morar com ela. Embora haja certa antecipação sobre essa questão, não é nada razoável ou suficiente do ponto de vista de antecipação narrativa. Essas coisas são, a todo momento, elevadas à superfície de Tiny Furniture sem que haja qualquer tipo de olhar para as coisas que podem estar submersas. Acredito que o lance aqui é que o espectador é colocado numa posição onde ele terá que mergulhar por conta própria.

Agora é importante que eu faça a observação de que, dependendo do tipo de relação que se tem com cinema, essa ausência de antecipação pode se tornar tanto uma benção quanto uma maldição. Meu posicionamento a respeito é que eu absolutamente não me importo com nada disso, enquanto o filme estiver bom (é, portanto, uma ausência de posicionamento basicamente), e Tiny Furniture é bastante bom.

Agora, um pouco sobre bagagem: a minha não é, certamente, muito extensa, e eu cada vez desisto mais de correr atrás disso. Não vi metade dos filmes que já quis ver; não vi metade dos filmes que eu considero fundamentais. Obviamente me falta repertório pra analisar historicamente qualquer coisa, mas eu vou analisar mesmo assim, porque eu prefiro o erro ao silêncio: a não-antecipação é uma questão profundamente ligada a um outro programa da HBO: Sopranos. Os episódios da icônica série de máfia eram construído de forma a funcionarem como pequenos filmes que poderiam ser assimilados isoladamente. Isso não significa dizer Joãozinho não precisa acmopanhar Sopranos para entender. Joãozinho obviamente precisa. Mas em termos de apreciação estética, em termos de ação e reação imediatas dos personagens, basicamente todos os episódios de Sopranos funcionam por si só.

Tiny Furniture parece lidar com a história da mesma forma: são os mesmos personagens, que caminham em direção a algum lugar, mas praticamente cada cena parece se bastar em funções imediatas, como se pequenas esquetes muito bem planejadas ao redor de um arco geral. E, à Sopranos, a situação é posta na lata, de maneira impetuosa. O problema da assimilação sai das mãos do autor e cai violentamente nas mãos de quem assiste ao filme.

Essa parece ser uma posição vulgar para um autor certo? Mas aí a questão do mumblecore retorna ao filme de Dunham porque autor e questionamento estão juntos, nesse tipo de filme, em direção a lugar nenhum.

A grande convergência entre Tiny Furniture e Girls vem dessa questão: se o filme é episódico, e a série obviamente também o é (ou seja, as situações não funcionam necessariamente para cobrir um arco narrativo claro), o risco para que a contradição exista é extremamente maior do que num filme clássico, de forma que, tanto no filme quanto na série de Dunham, os personagens são capazes de expressar inconsistência. É quase como se um mesmo personagem pudesse ser vários ao mesmo tempo, tamanha a discrepância entre seus discursos e atitudes entre as cenas; a pergunta que a cineasta parece fazer a partir dessa questão é: e não somos todos assim?

Girls, desconfio, é uma grande coletânea de histórias que possui, assim como a maioria dos dramas da HBO, a pretensão de se confundir com o grande romance americano. Dezenas de personagens existindo dentro de um arco amplo e aparentemente desconexo. É com Girls que cada uma das características de Tiny Furniture é levada à exaustão e agora, após duas temporadas, as pessoas têm a grata surpresa de que a série se sustenta cada vez mais como uma das séries mais intricadas, narrativamente falando, dos últimos anos.

O aspecto mais superficial digno de nota é que Girls é uma série extremamente feminina e isso é algo extremamente raro. Isso quer dizer que a série vai enaltecer o tempo todo os poderes e as fraquezas de ser mulher, de acordo com a percepção que as escritoras tem do que é ser uma. Isso é tão importante e necessario que, através de reações das pessoas aos episódios a gente consegue perceber que não, o mundo não está ainda completamente pronto pra aceitar que todas as pessoas são iguais. Um dos exemplos mais comentados na segunda temporada, foi um texto da revista Slate, morbidamente misógino. Um exemplo:

I felt trapped by my unwillingness to buy into the central premise. Narcissistic, childish men sleep with beautiful women all the time in movies and on TV, so why should this coupling be so difficult to fathom? I think it’s because Hannah is especially and assertively ugly in this episode. She’s rude (“what did you do?” she asks Joshua, referring to his broken marriage), self-centered (“I’m too smart and too sensitive”), sexually ungenerous (“no, make me come”), and defiantly ungraceful (naked ping-pong). In sum, the episode felt like a finger poked in my guys-on-Girls eyeball, or a double-dog dare for me to ask, How can a girl like that get a guy like this? Am I small-minded if I’m stuck on how this fantasy is too much of a fantasy and remembering what Patrick Wilson’s real-life partner looks like?

Eu poderia me alongar nesse parágrafo e comentar exatamente meus problemas com ele e o porque de eu achar que ele é extremamente sexista, mas eu sinceramente acredito que ninguém precisa se convencer disso, porque o sexismo está bastante aparente ali. A questão que me atraí é que Girls incita esse tipo de reação e provoca o intercâmbio de ideias a respeito disso; Lena Dunham nunca se acorvadou diante dessas críticas, muito pelo contrário, segundo as palavras da própria autora, na segunda temporada, todas as coisas que as pessoas usaram para falar mal de Girls foram utilizadas mais recorrentemente ainda – a nudez, o sexo desconfortável, os temas femininos, os personagens masculinos carentes e desequilibrados emocionalmente, personagens egocêntricos, etc. O fato de que Dunham insiste nesses temas, mesmo com críticas, demonstra não apenas uma certa coragem, mas também demonstra que ela sabe exatamente o que está fazendo com sua série; ela sabe exatamente o que QUER dizer.

As coisas começam a se aprofundar, no entanto, a respeito da questão já mencionada de que arcos e personagens são livres para serem o que querem ser em determinado momento, e depois serem outra coisa em um momento diferente. Isso é importante para uma série como Girls porque ela lida com personagens que são a certo modo infantis, ou possuem, pelo menos, certas questões de auto-estima a serem trabalhadas; pressupõe-se que esses personagens não estão completamente formados (e podem nunca estar), de forma que a questão da inconsistência seja parte determinada na própria personalidade não-completamente-desenvolvida deles. Obviamente existem aspectos claros da personalidade de cada um: Adam é impetuoso, explosivo, ao passo de que Shoshanna é inocente, mas incrivelmente perceptiva, etc. Mas existem partes não preenchidas naquilo que cada personagem é, e essas partes vão sendo completadas com diferentes peças a cada momento, quase como se as pessoas que criaram esses personagens (Dunham, junto de seus escritores e atores) não soubessem muito bem como preencher essas lacunas.

 Ficha Técnica: Tiny Furniture – Estados Unidos, 2010. Direção: Lena Dunham. Elenco:  Lenha Dunham, Laurie Simmons, Grace Dunham, Meritt Wever, Jemima Kirke, Alex Karpovsky, Amy Seimetz, Rachel Howe.

Ficha Técnica: Girls – Estados Unidos, 2012. Direção: Lena Dunham. Elenco:  Lenha Dunham, Jemima Kirke, Zosia Mamet, Adam Driver, Alisson Williams, Alex Karpovsky, Christopher Abbott.

Na parte 2: mais sobre Girls e sua narrativa; ironia e pós-ironia na obra de Lena Dunham; Mike Leigh, Kubrick e Hal Hartley; hipsters?

– por Guilherme Bakunin

Decidi fazer esse texto duplo, porque não acho que consigo enrolar muito a respeito de cada um deles separadamente, e Uncle Kent, o qual já vi há alguns meses, vem sendo presença constante nos meus inócuos pensamentos.

Joe Swanberg, o diretor dos dois longas, é um proeminente cineasta usualmente categorizado como parte do movimento mumblecore. O movimento consiste, na maior parte das vezes, em pequenos dramas de baixíssimo orçamento a respeito das vidas de jovens relativamente independentes e recém-graduados.

Kissing on the Mouth, debut do diretor, é de 2005 e segue a vida de Ellen (Kate Winterich), uma jovem recém-graduada que está em neurose a respeito dos rumos de sua vida. Enquanto reflete, Ellen passa as tardes transando com o ex-namorado e conversando com sua amiga Laura (Kriss Williams). Uncle Kent, por sua vez, é parcialmente metalinguístico, segue Kent (Kent Osborn), animador de As Aventuras de Flapjack, que passas suas tardes desenhando, se masturbando e fumando.

Tanto Kissing on the Mouth quanto Uncle Kent se concentram bastante na questão de pessoas que lutam para não se moverem na vida; Ellen e Kent são dois jovens deliberadamente estagnados e se armam constantemente de discursos para justificar suas posturas passivas em relação ao amadurecimento.

Mais uma vez, porém, ambos os filmes usarão artifícios para armar o auto-confronto de seus dois personagens principais; em Kissing on the Mouth, depois de muita conversa, Elle permanece indecidida, porém, será obrigada a tomar alguma postura (e manter-se na mesma postura é uma das opções) diante da descoberta de que seu ex-namorado, Patrick (Kevin Pittman), está em um novo relacionamento; quanto para Kent, ele recebe a visita de uma de suas amigas virtuais, a jornalista ambiental Kate (Jennifer Prediger). Depois de algumas investidas e muitos foras, Kent, chateado, se reconforta vendo um vídeo no youtube de quando ele e seu sobrinho bebê brincaram juntos.

Joe Swanberg não parece interessado em completar o ciclo narrativo. É incerto se Ellen e Kent realmente vão dar um passo para frente. Os dois filmes armam o confronto de forma que seus protagonistas não podem ignorá-lo. Ellen e Kent podem continuar presos nessa vida pós-universidade-pós-adolescente, se quiserem. Os roteiros de Swanberg só fazem questão do confronto, e parecem valorizar tanto os personagens, que os filmes se encerram assim que esse confronto ocorre, como se desejasse dar a essas pessoas privacidade (a cinematografia é extremamente invasiva, quase documental) para refletirem e decidirem por si mesmas.

Outras observações: 

Uncle Kent, de 2010, foi a estreia de Joe Swanberg no Festival de Sundance. O filme é, como comentei, parcialmente autobiográfico. Provavelmente provém de uma história original do próprio Swanberg, mas não se pode ignorar o fato de que Kent é um maconheiro-animador de desenhos infantis, assim como o ator, Kent Osborn (que trabalhou em Bob Esponja e As Aventuras de Flapjack).

– A respeito da cinematografia intrusiva. Kissing on the Mouth possui uma câmera extremamente irritante, mas que se concentra em diversos closes, de corpos e rostos, como se quisesse ir realmente a fundo em seus personagens. Uncle Kent já utiliza câmeras mais distantes, muitas vezes estáticas.

– A respeito disso, o crítico Brandon Judell diz: “Apesar de extremamente contemporâneo, o problema com Uncle Kent é que parece completamente desforme, como se não fosse sequer um filme. Como se alguém escolhesse um nome num catálogo e então levasse os esquipamentos de filmagem para aquela casa, os ligasse, saísse e então voltasse três dias depois para recolher as filmagens e as chamassem de filme”. O que Judell parece argumentar fala muito a respeito de uma ausência de elaborada decupagem, o que é absurdo. Se nos filmes o diretor dispõe principalmente de duas ferramentes para criar a visualidade (a composição e a decupagem), ele articulará a melhor relação entre esses dois artifícios na hora de produzir seu próprio material. Há filmes sem elaborada composição (documentários), há filmes sem elaborada decupagem (Arca Russa, O Cavalo de Turin), e nem por isso chamaremos esses filmes de outras coisas. O cinema digital e o compartilhamento de arquivos são algumas das inúmeras novas dinâmicas de produção disponíveis, com suas próprias particularidades. Essa tal maturidade do cinema deve abrir espaço para os mais variados exercícios de expressão (não somos inquisitores, afinal, somos expectadores/admiradores), não suprimi-los ou moldá-los.

Kissing on the Mouth: 2/5
Uncle Kent: 4/5

Ficha técnica: Kissing on the Mouth – EUA, 2005. Dir.: Joe Swanberg. Elenco:   Joe Swanberg, Kate Winterich, Kris Williams, Kevin Pittman, Julie VanDeWeghe.

Ficha técnica: Uncle Kent – EUA, 2011. Dir.: Joe Swanberg. Elenco: Kent Osborn, Jennifer Prediger, Joe Swanberg, Kevin Bewersdorf, Josephine Decker.