– Luiz Carlos Freitas

“10 segundos – a dor começa.
15 segundos – você não pode respirar.
20 segundos – você explode.”

O trecho acima foi transcrito da edição nacional do DVD de Scanners – Sua Mente Pode Destruir, referenciando a épica cena da cabeça que explode, e que coloca a obra em um curioso paradoxo: longe de ser a contribuição máxima de David Cronenberg ao cinema, possui a cena que talvez seja a mais forte expressão do propósito do diretor enquanto cinematógrafo.

A trama aborda a existência dos Scanners, humanos dotados de terríveis poderes telepáticos (que mais tarde descobrimos serem frutos de uma experiência com drogas aplicadas em mulheres grávidas). Ao todo, são 237 Scanners espalhados pelos EUA, dentre os quais está Darryl Revok (Michael Ironside), conhecido como o mais poderoso de todos, e que planeja liderá-los em um megalômano plano de dominação mundial, mas vê-se confrontado por Kim Obrist (Jennifer O’Neill) e Cameron Vale (Stephen Lack), seu irmão mais novo e que compartilha dos mesmos poderes que ele. No meio dessa batalha, está a ConSec, uma poderosa corporação liderada pelo Dr. Ruth (Patrick McGoohan), cientista responsável pela criação dos Scanners.

Dessa fantástica premissa, após um breve início, somos levados à sede da ConSec, onde um experimento com Scanners está sendo feito e, após algo sair errado, um homem tem a cabeça implodida por Revok utilizando apenas os poderes da sua mente. A cena – fácil um dos momentos mais antológicos de toda a história do cinema -, retrata toda a crueza e poder destrutivo que o Cronenberg, que até então só tinha feito projetos quase independentes e de baixo orçamento, trazia consigo para o grande cinema de massas.

A sequência de menos de um minuto, onde alternam-se planos do algoz manifestando seu poder e da vítima sufocando e agonizando lentamente, é excruciante, sádica e, acima de tudo, uma genial metáfora visual ao conflito que pontua a trama e a filmografia do canadense: a bestialidade humana como uma força suprema que vê o corpo como uma prisão e que, ao se forçar a sair, destrói essa carcaça em que “habitamos” de modo devastador, tal qual um vulcão em erupção. O nosso corpo não nos basta. No cinema de Cronenberg, ele serve apenas para representar estados de espírito.

Claro, a força de Scanners não reside apenas na metáfora visual, também constituida por um embate final entre os dois irmãos telepatas (um espetáculo visual que impressiona até hoje por seu realismo gráfico) com um desfecho que reforça a tese de que o “corpo” é nocivo ao ser, sendo preciso abrir mão dele para sobreviver, mas também em seu argumento rico de contexto, que envolve uma evolução tecnológica que ainda impressionava (devemos considerar a época em que o filme foi feito, início dos 80’s e um embate de gigantes da tecnologia já entrando em voga: IBM versus Microsoft) e que jogava no lixo grandes abordagens anteriores da telecinesia no cinema que tinham em seu sustentáculo preceitos sobrenaturais (a exemplo de Carrie, A Estranha – que se não usava o religioso declaradamente, também não se despia da áurea de ocultismo sob os poderes da personagem).

Se Scanners falha, é justamente na construção do ritmo, em vários momentos arrastado, e na condução da trama, com personagens que poderiam ser facilmente descartados, algumas reviravoltas mal explicadas ou mesmo desnecessárias, como o plano extremado do traidor da ConSec para destruir Cameron, além de muito tempo perdido com passagens quase “didáticas” acerca dos Scanners e suas motivações. Todavia, essas limitações se viam presentes em todas as obras do diretor até aquele período, colocando Scanners também como um marco divisor, tanto por abrir as portas aos grandes orçamentos, quanto por ser um ensaio de Cronenberg ao seu filme seguinte, que seria provavelmente a sua maior obra-prima: Videodrome – A Síndrome do Vídeo.
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3/5
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Scanners – Sua Mente Pode Destruir (Scanners) – Canadá, 1981 – Diretor: David Cronenberg – Elenco: Stephen Lack, Michael Ironside, Jennifer O’Neill, Patrick McGoohan, Lawrence Dane, Adam Ludwig, Mavor Moore, Robert A. Silverman

por Bernardo Brum

A grande fábula cinematográfica de Paul Verhoeven, O Vingador do Futuro tem a estética absurda, cafona e brutal dos anos oitenta. Anos que não voltam mais celebrados por um cineasta que reconhece no seu dispositivo de comunicação com o resto uma possibilidade para o ser humano se reinventar – e como não poderia deixar de ser, tratando-se da fase americana do diretor, uma redenção alcançada na base da porrada. Filosofia de bar da melhor qualidade, combinada com diversão de primeira. Simples assim.

5/5

Crítica

por Bernardo Brum

Foi com O Vingador do Futuro que Verhoeven, além de dirigir seu filme mais otimista (à sua moda pervertida, é claro), fez a sua maior declaração de amor ao cinema. Ficção científica básica, movimentada e frenética adaptada de uma história de Philip K. Dick, estrelando o astro de ação definitivo Arnold Schwarzenegger e que com o passar dos anos foi considerado apenas mais um exemplar da ação descerebrada que reinou nos anos 1980, com tiros em profusão, efeitos especiais em quantidade inacreditável, sangue, tripas e buracos de bala explícitos, piadinhas sexuais um tanto inocentes hoje em dia…

Devido a abordagem diferente que Verhoeven quis dar a uma obra de K. Dick, longe, por exemplo, da abordagem  mais “moral” que Ridley Scott mostrou em Blade Runner (se utilizando do sci-fi para perguntar sobre ser ou não ser), O Vingador do Futuro pouco se assemelha ao clima da história original: longe do clima de derrota de We Can Remember It for You Wholesale e dos demais romances e contos cyberpunks, que tornam seus protagonistas indivíduos fora da lei e desesperados batalhando contra um inimigo muito maior que ele, Schwaza é um homem que tem que igualmente lutar contra o governo, mas além de ser mais esperto, rápido, inteligente e foda que qualquer um que cruze o seu caminho, ele também é um daqueles personagens de trinta anos atrás, como o próprio diretor revela no início, mostrando ao medíocre e ignorante protagonista a possibilidade de conseguir memórias falsas, ou seja, uma óbvia encenação, como um filme mesmo, onde ele vai conseguir matar os caras maus, ficar com a gostosinha e salvar o planeta.

Quando o protagonista é confrontado com o fato que ele nao precisa implantar memórias falsas porque ele é de fato como os astros de filme de ação tão cohecidos e tinha apagado a memória por um motivo que ele só vai descobrir lá na frente, O Vingador do Futuro finalmente se transforma em um exercício de estilo explosivo, movimentado e algo brega, sem muito tempo para pensar nos conceitos cyberpunks. Só podendo manter a concentração na ação, o que temos é uma história  que, em velocidade vertiginosa, muda de rumo várias vezes – é uma saraivada de aparentes inimigos que se revelam aliados, aliados traíras que trabalham para o sistema do mal, cientistas e agentes secretos loucos e por aí vai, onde o protagonista, homem comum jogado naqueles enquadramentos de cenários azuis e gélidos ou de um vermelho nauseante, terá de brigar na raça com quem quer que seja – inclusive ele mesmo.

Ao longo da projeção, Douglas Quaid tentará salvar Marte das garras da corrupção das grandes companhias, que como em muitas das piadas sobre o futuro, também comercializam o ar e se negam a acionar as grandes fontes de oxigênio que transformariam Marte em um planeta habitável. Para isso, terá que seguir e então desobedecer todos os roteiros que foram traçados para ele; quando descobrir a si mesmo como alguém sujo, se reinventar na base da força, do poder de fogo e dos cojones. Para poder contribuir com a sociedade como um todo será preciso derrotar a máquina, negar a si mesmo e cumprir o itinerário que as falsas memórias determinaram para ele.

O “total recall” ou lembrança total de Quaid torna ele um ninguém – um elo perdido na transição entre o homem comum e o espião insuperável que teve seu cérebro tão remexido que perde a identidade. Numa cadeira que foi pensada para David Cronenberg e um lugar na frente das câmeras que sondou de Patrick Swayze a William Hurt, Verhoeven e Schwarzenegger revivem a clássica jornada heróica rumo à salvação e a redenção de uma forma absolutamente cinematográfica – a idéia de realidade é destruída e qualquer verossimilhança é abandonada; o principal personagem morre quando senta numa cadeira para então reviver em um novo e excitante mundo; e em um clima que só o cinema blockbuster consegue proporcionar, uma história sobre – como diria o Renatão – “o sistema é mau, mas a minha turma é legal”.

Simples e maniqueísta assim, mas também, tremendamente funcional. O que queremos  quando sentamos a bunda na cadeira para ver uma obra de ação? Certamente, abandonar  uma carcaça limitada e nos jogar no mundo das possibilidades infinitas, conseguir a mulher dos nossos sonhos, explodir e metralhar tudo que aparecer no caminho e assim. Esse foi sempre o fetiche de Douglas Quaid, a porcentagem “pessoa normal” de Scharwzenegger no filme que recusa o que não quer de sua faceta Arnold-andróide-fodão e pega a parte útil (força capaz de dobrar e partir aço, pontaria de um elfo de Tolkien, reflexos de um gato, e lá vamos nós) para a velha reinvenção que o sistema de ação sempre se propôs.

Esse “cérebro” possuído pela obra, apesar de servir como ponto de partida de reflexão, é antes um comentário bem humorado e também, como já dito, uma “carta de amor” à sétima arte e um convite ao espectador; um inspirado agradecimento ao lugar onde, por tantas vezes, por mais ou menos uma hora e meia, nunca erramos um alvo, abrimos um buraco no meio de uma testa, salvamos os necessitados e acabamos admirando o alvorecer e beijando a gostosa. Nós não conseguiríamos nos sentir como Rambo, Braddock, o Exterminador em nenhuma outra arte, só no cinema mesmo. E, obviamente, esse lance infantil e plenamente consciente do filme encontra voz em muitas pessoas – mesmo depois de tantos e tantos filmes mais artisticamente comprometidos, ainda nos resta a lembrança gostosa do nosso primeiro contato com o cinema, que foi em muitos casos, vejam vocês, com a ação descerebrada. E O Vingador do Futuro é um tributo a isso e, talvez, uma das únicas vezes que ocorreu esse reconhecimento dessa faceta específica de uma cultura…

… Mas é claro, e como não poderia deixar de ser, um reconhecimento sem frescura, com mais de dois mil tiros disparados, muito mau gosto estético e uma mina com três peitos!

Screenshots

5/5

Ficha técnica: O Vingador do Futuro (Total Recall) – EUA, 1990. Dir.: Paul Verhoeven. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Sharon Stone, Ronny Cox, Michael Ironside, Rachel Ticotin, Marshall Bell, Mel Johnson Jr., Michael Champion, Robert Picardo, Debbie Lee Carrington, Dean Norris, Bob Tzudiker