por Bernardo Brum

Do alto de arranha-céus até os bares mais enfumaçados em New York nada parece o suficiente para o desejo de Brandon que, sob as lentes de McQueen nesse seu terceiro filme, parece incorporar bem a cidade onde vive; seu desejo sexual incontrolável nunca pára – no trabalho, em casa, em boates. A paleta cromática de Shame – quente feito o inferno, fria, úmida e cinzenta feito qualquer acrópole, escura e ameaçadora nas suas ruas desertas à noite – é mais expressionista que realista. Com uma linguagem que é movida pelo ímpeto lascivo do personagem – centralizando o olhar em todos os indivíduos que quer seduzir, passeando entre ambientes das mais diferentes classes e formações, McQueen fez um filme austero, com uma composição plástica limpa, de ritmo lento e preciso, de planos estáticos, longos silêncios e olhares perdidos.

Shame, vergonha em nosso idioma, é uma obra sobre indivíduos que se auto-renegam. E o diretor nunca responde de imediato a razão, nunca julga; Shame também é desejo, desejo, e mais desejo. Seus angustiados personagens vivem no clássico dilema freudiano de Eros e Tânatos. Tendo tudo que é material e corporal e segregando qualquer valor humanista, laço familiar ou relação subjetiva de suas vidas. O diretor explicou numa entrevista: é um comentário sobre a cultura excessiva, física demais, intelectual de menos. É o mundo do regime estético, dos corpos perfeitos, das roupas elegantes, das mentes obsessivas e de almas solitárias, em metrópoles onde ninguém sabe seu nome…

Dois momentos parecem marcar a condição e reação dos protagonistas frente à vida: o protagonista, Brandon, após transar com inúmeras mulheres, mostra-se sem jeito ao conversar com uma, em uma mesa de jantar, no clássico jogo de máscaras que precede a relação sexual hoje em dia entre a burguesia. Brandon não sabe responder porque nenhum relacionamento seu passou de quatro meses. Sequências mais tarde, falha na cama com a mulher. Cabisbaixo, não descansará até conseguir ter uma transa fenomenal com outra.

Já Sissy, a depressiva irmã que não consegue se ajustar na vida canta em um bar – com seu irmão e o chefe dele olhando – uma triste e lenta versão de New York, New York – e talvez só naquele arranjo lento, faça sentido “a tristeza de cidade pequena” ter desejo de “acordar na cidade que nunca dorme”, onde “se você conseguir lá, conseguirá em qualquer lugar”.

Distante do swing e mais próximo do cool jazz, McQueen virou a canção de cabeça pra baixo nessa versão minimalista. Nos lábios de Carey Mulligan, não é um sonho de vitória que tanto representa o espírito cosmopolita e megalômano da simbólica cidade – é um grito sussurrado, desesperado por conseguir ser ouvida em algum canto dessa cidade, por alguém – talvez pelo seu irmão. O jogo econômico de planos, com o irmão a ouvindo contra a vontade e o longo close no rosto da garota, retrata sutilmente, com a elegância poderosa que a sugestão pode ter, o mote principal do filme: a grande distância que separa os indivíduos hoje em dia – época em que, apesar de tantas distâncias físicas e de contato reduzidas, nunca fomos tão estéreis em matéria de relações humanas.

 E a base da sociedade capitalista – a família – é a mais prejudicada no filme. Sissy, sem ter para onde ir, pede para ficar alguns dias na casa de Brandon – chegando sem avisar, a reação do irmão, ao pensar que é um bandido e sua subseqüente irritação, mostra que aquele homem tão adaptado não suporta intimidade ou proximidade. Numa das primeiras sequências, vemos Brandon fazer uma série de rituais matutinos nos planos de tom cinza e cor branca realizados pelo diretor de fotografia Sean Bobbitt – e o som, fora do plano, é a secretária eletrônica com ligações cada vez mais  desesperadas da irmã – e nem a mais triste delas consegue arrancar alguma reação do homem. Ela logo se vê forçada a invadir sua vida. Ele, como sempre, fica irritado.

Tudo que invade a vida apática de Brandon só expressa mais e mais sua vontade de se enclausurar na corrida desesperada por sexo e distanciar-se de tudo que exige algum envolvimento e comprometimento – mas o problema de competir com o mundo real é que ele sempre ganha. Não existe maneira possível de harmonizar o caos. Brandon sempre corre, sempre transa, sempre segrega, sempre se distancia – mas existe um indivíduo do qual ele jamais poderá fugir: dele mesmo, e de seus atos. Com sua angustiada última sequência, Brandon lembra-se que é finito, que é condenado a viver em sociedade, a ter família, que o mundo não é uma extensão do seu falo. Resta a vergonha, o grito suprimido, encarar um mundo que está indiferente às suas angústias, mas sempre cobrando pelos seus erros.

Shame é justamente a jornada da vergonha, o tráfego que começa no desejo e na amoralidade, e que termina no pudor, no respeito, no auto-flagelo. Shame, estático, estéril, desesperado porém silencioso, e sutil como poucos filmes nos últimos anos conseguiram ser, é um dos projetos estéticos mais fortes e consistentes da nova década até agora.  Um conto de sangue e silêncio, grito e sufoco na mesma intensidade.

4/5

Ficha técnica: Shame – 2011, Reino Unido. Dir.: Steve McQueen. Elenco:  James Badge Dale, Michael Fassbender, Carey Mulligan, Nicole Beharie,Hannah Ware, Elizabeth Masucci, Lucy Walters, Jake Richard Siciliano, Robert Montano.

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– por Michael Barbosa

Quando Matthew Vaughn fez Kick Ass, no ano passado, arrancou suspiros de boa parte da crítica e dos cinéfilos. Era um cinema estilístico, visualmente arrebatador e tematicamente ousado. Parecia ser um daqueles caras que respiravam Tarantino e que, quando finalmente pegavam nas câmeras, conseguiam fazer mais do que uma versão, faziam um cinema com um quê de autoral bem forte, uma pegada realmente corajosa. Mais ou menos esses mesmos  que suspiraram por Kick Ass torceram o nariz quando a Fox anunciou que seria ele o responsável por tentar tirar do buraco a franquia do X-Men, depois de dois filmes bastante mal sucedidos (o terceiro episódio e um filme dedicado ao Wolverine) e mais ainda quando se revelaram as pretensões dessa tentativa derradeira para reerguer os mutantes: um prequel focado na origem da rivalidade entre o Professor Xavier e Magneto e fortemente focado no contexto histórico, além da evidente censura à violência gráfica tão expressiva em Kick Ass. Parecia marcada para dar errado.

Bem, como já diria Douglas Adams, vamos evitar expectativas desnecessárias e adiantar que Matthew Vaughn sai dessa história fortalecido e que o filme é, sim, bem sucedido, e é por uma série de questões que parecem realmente estritamente conectadas à capacidade de Vaughn. Primeira Classe é uma vitória, mais do que tudo, por não ter pretensões fracassadas, é tudo aquilo que queria ser e até além.

Um dos argumentos principais do enredo parece ser desconstruir a imagem mal construída do personagem Magneto pelos primeiros filmes. Ora, aquele maniqueísmo todo de time do bem e time do mal só não é mais tosco porque já estava no limite. Simplista num nível quase ofensivo. E é esse “mito do maquiavelismo do Magneto” que é devidamente desconstruído, dessa vez dando a devida complexidade a fazendo dele um personagem – finalmente – crível. O mesmo é feito com a Mística (Jennifer Lawrence, a gatinha de Inverno da Alma, aparece pela primeira vez pós Oscar e manda bem de novo). Até mesmo Xavier sai ganhando nisso tudo, continua sendo aquele sonhador da trilogia original e dos quadrinhos, mas agora um tanto mais complexo nos seus porquês.

Falando em quadrinhos, essa acaba sendo uma boa oportunidade para discutir a coisa toda sobre fidelidade na adaptação. Vaughn, nerd de carteirinha, conhece sim a HQ. Não resta dúvida disso quando vemos que esse prequel tem sim a preocupação de desfazer detalhes que incomodavam os fãs, mas ao mesmo tempo deixa prevalecer a autonomia criativa e fica claro que o que tem que vir como prioridade é o resultado final. A transposição de mídia (seja lá de qual para qual) não é lá um processo muito lavoisiano; inevitavelmente, material é perdido, esquecido ou ignorado, mas há também de aceitar isso de bom grado desde que seja em prol do resultado final: um bom filme.

A história em si é boa, os X-Men são uma dádiva do entretenimento, o tema das mutações genéticas vem se mostrando bastante atemporal e há ali potencial de sobra para boas histórias para esse e mais alguns filmes, jogos ou o que quiserem fazer, e essa sobre como se forma a polarização da causa mutante entre Xavier e Magneto é uma delas. É por não se subestimar, por acreditar no poder de convencimento do contexto histórico de Guerra Fria (num recorte histórico realmente muito bem feito), por não ter medo de usar a metáfora USA-CCCP/Xavier-Magneto de forma inteligente e por dispensar análises, conclusões ou personagens rasas, tudo isso suportado por um diretor que sabe o que faz, que, mesmo  claramente podado (e nisso um dos medos lá do início se confirma) no quesito violência e com um orçamento não lá tão pomposo, consegue entregar algumas sequências que enchem os olhos e trabalhar de maneira bem acima da média com os recursos que tem: dos efeitos que se não são o suprassumo ao menos seguram dão conta do recado ao elenco cheio de bons atores, como a já citada Lawrence e os protagonistas Fassbinder e McAvoy.

X Men: Primeira Classe parece ser, no fim das contas, um acerto a se comemorar, pela escolha do estúdio por um sujeito que vai bastante adiante daqueles estereótipos de pau-mandado-do-produtor (tão comum no segmento dos blockbusters das grandes franquias) e por essa escolha ser recompensada com uma realização feliz do Vaughn que, desconfianças à parte, mais ganha do que perde gente simpática ao seu estilo, que, mesmo com as restrições que teve, deixa bem clara a sua marca. Cinéfilos, fãs do quadrinho e meros espectadores, comemorem, Matthew Vaugh sabe a que veio e veio para ficar.

4/5

Ficha Técnica: X Men: Primeira Classe (X-Men: First Class) –  EUA, 2011. Dir: Matthew Vaughn. Elenco: Kevin Bacon, James McAvoy, Michael Fassbender, Rose Byrne, Oliver Platt, Álex González, Jason Flemyng, Zoë Kravitz, January Jones, Edi Gathegi, Caleb Landry Jones, Nicholas Hoult, Lucas Till, Jennifer Lawrence, Laurence Belcher, Bill Milner.