– por Guilherme Bakunin

Tudo Pelo Poder mostra Ryan Gosling no papel de Stephen, uma espécie de co-gerente de campanha de um candidato democrata  (embora eu não me lembre se fica indubitavelmente claro que o candidato assessorado por Stephen seja democrata), interpretado por George Clooney, à presidência nos Estados Unidos. Depois de receber uma excelente proposta do candidato oponente, Stephen tenta esclarecer a situação para seu chefe, Paul, gerente principal da campanha presidencial do personagem de Clooney. Os dois discutem, em plano americano, nos bastidores de um efervescente debate entre os dois candidatos, a bandeira americana estendida ameaçadoramente no segundo plano. Essa cena é particularmente significativa, pois torna explícito exatamente o que Tudo Pelo Poder almeja ser: um filme de caráter humano a respeito dos bastidores das primárias presidenciais norte-americanas.

Para falar desse caráter e nesse contexto, o filme acompanha Stephen durante as duas semanas que antecedem o que parece ser uma pré-primária no estado de Ohio, região centro-oeste americana. É interessante que, ao começo do filme, todas as artimanhas parecem ser completamente sinceras e éticas, e toda a situação parece estar completamente espetacular; então você simplesmente sabe que as coisas vão começar a dar errado pros personagens, mas não sabe ao certo de onde surgirá o conflito. Pois o conflito surge de Stephen, que num descompasso singular, desestrutura todas as condições até então positivas para ele, Paul (Philip Seymour Hoffman) e o candidato Mike Morris.

O descompasso de Stephen revela, no entanto, que dentro do jogo dos bastidores parece haver ainda outro jogo, mais obscuro e secreto; descortina-se para nós, expectadores, que o mundo da política para o diretor de Tudo Pelo Poder é um mundo de adultos, selvagens ou astutos, e que a reação otimista de Stephen a respeito de seu candidato e das possibilidades de todos os tipos de avanços que esse candidato supostamente traria para seu governados (ver como Stephen é bem entusiasmado ao falar sobre o impacto que Morris teria na vida do homem comum) era ingênua e infantil. Ao final do filme, Stephen não manterá esse posicionamento, mas estará parcialmente corrompido ou adaptado para existir naquele mundo.

O título original de Tudo Pelo Poder é, literalmente, os idos de Março, em referência ao dia que o imperador romano Júlio Cesar foi esfaqueado pelas costas por um de seus senadores, Marcus Junius Brutus. Apesar da mitologia romana mais superficial sugerir uma mera traição, sabe-se, obviamente, que as coisas são mais complicadas do que isso. Também o são em Tudo Pelo Poder, onde não há necessariamente um culpado ou um grande protagonista. Existe um jogo de planos e truques que acabam, impessoalmente (como declara o personagem de Paul Giamatti num determinado momento do terceiro ato do filme), atingindo o personagem de Stephen; tampouco há heróis, vale dizer. O estrago que atinge os personagens, enfim, se descortinam através de fontes variadas, de arcos narrativos mais ou menos independentes (a garota da campanha, a proposta do adversário político, as idiossincrasias de Paul, etc).

Ao final do filme, pouco antes da cena final onde o Stephen de Ryan Gosling mais ou menos recria a primeira cena (Stephen agindo como Morris para testar o som e a iluminação de onde, mais tarde no mesmo dia, será realizado um discurso), desta vez um pouco mais ciente da sujeira por trás do trabalho que ele realiza, o personagem de Max Minguella é visto flertando com uma garota da campanha, exatamente da mesma forma que Stephen se aproximou de Molly Stearns (Evan Rachel Wood); o olhar de Clooney-cineasta é óbvio:  o problema não são esses personagens, mas a situação, irremediável. É antes de tudo um filme político; um filme político de 100 minutos, com todas as implicações deste fato (não se pode aprofundar-se demais em sistemas e situações tão intricadas quanto o jogo da política americana com tão pouco tempo). Mas Clooney faz o que pode, e se sai muito bem.

Outras observações:

– Você provavelmente não vai ter notícia de um casting tão incrível quanto desse filme esse ano. Hoffman, Clooney, Gosling, Tomei, Rachel Wood, Giamatti e um grande elenco de apoio, estão à vontade em seus papéis e dão credibilidade total à história; não são os diálogos, mas sim a maneira como eles são ditos, como já diria Ricky Gervais.

– O olhar de Clooney é pessimista e descrente, e seu personagem é obviamente inspirado em Barack Obama (é bastante claro o desapontado que milhões de eleitores democratas tiveram com o governo de Obama, considerado por eles como insosso e insubstancial). Mas independentemente do forte viés político do filme, é realmente uma história contada dum jeito incrível: objetiva e veloz, apesar de mais ou menos densa. Revela sem a menor dúvida a capacidade de Clooney no comando de um filme.

4/5

Ficha técnica: Tudo Pelo Poder (The Ides of March) – EUA, 2011. Dir.: George Clooney. Elenco: Ryan Gosling, George Clooney, Philip Seymour Hoffman, Paul Giamatti, Evan Rachel Wood, Marisa Tomei, Jeffrey Wright, Max Minguella, Jennifer Ehle, Hayley Meyers.

por Bernardo Brum

A vingança. A reação mais quente e passional presente em nosso instinto. Agressiva e desvairada,  com um toque de destruição e pestilência que só piora através dos anos, décadas e séculos. Um dos sentimentos que o ser humano mais está familiarizado desde seu início como humanidade, a retribuição já foi tema de inúmeros filmes, nos mais variados graus qualitativos.

Exemplos mil surgem à cabeça, como a mega-estilização de Kill Bill e Bastardos Inglórios, a estranheza crônica de Oldboy ou a força bruta e tosca de um Desejo de Matar. Bravura Indômita, readaptação dos Coen do livro de Charles Portis (a primeira havia sido de Henry Hathaway, com John Wayne no papel central, lá nos idos 1969), é outro que vem a somar nessa longa fileira da justiça com as próprias mãos.

E acrescenta como nunca a essa espécie de “subgênero” com uma maturidade e controle do que se filma só adquiridos depois de anos esculpindo tempo e espaço de uma forma toda particular. Bravura Indômita não tem medo de se longo, de se demorar no desenvolvimento das relações entre seus personagens, de apostar em leit-motivs, de jogar luz em detalhes escabrosos, intercalar a árida imensidão e a carniceira escuridão, e de destilar aquele misto de humor negro e tensão que impera em cada filme dos manos.

É incrível como o faroeste se encaixa desde o primeiro momento dentro das obsessões Coenianas. Bravura Indômita é um filme sobre uma terra sem lei onde vivem pessoas perdidas que nem de longe lembram o sonho americano (o tipo de personagem favorito dos irmãos, como ladrões interioranos de E Aí Meu Irmão, Cadê Você? e os losers viciados em boliche de O Grande Lebowski). É dessa terra que saem o federal alcoólatra Rooster e a menina Hattie, que quer encontrar de qualquer maneira o assassino do seu pai.

É um filme que de maneira nenhuma quer ser um faroeste clássico (até porque é um gênero que está desfalecendo; dá pra contar nos dedos quantos filmes relevantes do gênero foram produzidos desde Os Imperdoáveis). Apesar de haver concessão para os tiroteios que o gênero pede, o filme se constrói basicamente por palavras: discussões, brigas, alianças, separações e conspirações. A violência, quando vem, é ao gosto de seus diretores: bruta, seca e explícita.

Esqueça a adaptação anterior; Bravura Indômita é um filme encaixado nos novos tempos e não só o gênero como o cinema mudaram demais para que se possa traçar uma base decente de comparação. A adaptação dos irmãos é vista sob o prisma dos valores modernos – o mesmo tom derrotado, cinzento e duro de Fargo e Onde Os Fracos Não Tem Vez.

A dicotomia dos Coen é ambígua: se por um lado eles reforçam o tempo todo o contraste entre experiência e inocência encarnados no velho e na garota, também mostram-se os tons de cinza: esse homem tão destemido e impiedoso é um doente, um guerreiro movido por álcool que pouco sabe fazer além de rastrear e matar; a garota teve sua adolescência roubada no momento que lhe tiraram o pai. O Texas Ranger que acompanha os dois não é de forma nenhuma um mediador, e sim, mais outro para reforçar os conflitos: arrogante, espalhafotoso e orgulhoso, pouco disposto a respeitar qualquer um dos dois, seja o velho caolho ou a pirralha pentelha.

Esta não é uma obra apenas sobre declínio de valores, como grande parte dos faroestes revisionistas fizeram: Rooster passa a ver na chacina o único jeito de se provar o valor para a próxima geração, encarnada em Hattie. É um mergulho a fundo nesse tal sentimento citado no início do texto, onde os diretores esmiuçam como é cansativo, desgastante e quase enlouquecedor se entregar numa caçada sem tréguas atrás de alguém que fez algo contra você.

Pouco une os personagens nisso além dos cem dólares prometidos pela menina: e é agarrando-se nisso que dois derrotados cheios de gana darão o troco em um mundo árido que pouco fez além de tirar entes queridos e apresentar vícios. O bode expiatório é o assassino, Tom Chaney.  Suas roupas negras e a cara manchada por pólvora denunciam: ele é a própria injustiça a ser enfrentada – e, como bem prova o final da obra, nunca totalmente compensada.

Terminando duro e seco, em duas ou três cenas que resumem toda uma vida, a idade não trouxe nenhuma experiência, apenas amargura. O que restou para aquelas pessoas além da vingança? Agora um ser cinzento, Hattie pouco fez além de tudo aquilo. A retribuição pagou uma vida? Compensou outra? Novamente, eles não respondem, novamente eles tiram nosso chão. Tudo o que resta é a lembrança de pólvora e sangue manchando uma vida inexperiente. Vidas marcadas pela violência, em uma terra violenta. E o significado de tudo isso? Novamente, o vazio.

5/5

Ficha técnica: Bravura Indômita (True Grit) – EUA, 2010. Dir.: Joel e Ethan Coen. Elenco: Matt Damon, Jeff Bridges, Barry Pepper, Josh Brolin, Leon Russom, Paul Rae, Domhnall Gleeson, Hailee Steinfeld, Ed Corbin,Elizabeth Marvel

– por Michael Barbosa

É sensacional ver Clint Eastwood, aos 80 anos de idade, ainda surpreendendo. Não, não é isso, Além da Vida é sim um melodrama, assim como quase todos os filmes recentes do diretor, mas quem poderia prever que viria de um diretor como Clint uma das melhores sequências de cinema catástrofe em muito tempo?  Pois é, foi ele, e se Além da Vida terminasse aos 5 minutos ainda assim é provável que ter visto o incrível do tsunami  devastando a Tailândia por si só faria valer o ingresso.

Hereafter é um daqueles filmes que apresentam a história de várias pessoas – aparentemente sem ligação nenhuma – e que acabam por se cruzar (Magnólia, Short Cuts e A Trilogia das Cores são exemplos de obras que de um modo ou outro passam pela mesma ideia). Aqui o que liga essas três pessoas é a estreita relação que elas têm com a morte, George consegue fazer a comunicação entre os mortos e vivos e se sente amaldiçoado por isso, Marie após uma experiência de quase-morte está obcecada com o tema e Marcus, o gêmeo tímido e acanhado, não consegue lidar com a morte do irmão.

Em marcha lenta e passando de maneira sequencial pelas histórias dessas três pessoas Clint mostra que ainda está em boa forma e consegue efetivamente dialogar com uma sensibilidade latente sobre questões cada vez mais complexas. Se a morte já se fazia presente de maneira ativa no debate de Menina de Ouro sobre a eutanásia ou no sacrifício final de Gran Torino aqui é mais do que um mero elo de ligação, mas sim quase uma personagem viva e onipresente na tela, que persegue a todos e insiste em cruzar suas vidas por mais de um vez. Como numa sequência filmada a maestria e realmente de arrepiar em que Marcus se salva de estar no vagão detonado do metrô de Londres graças ao boné do seu falecido irmão que cai no chão.

Sobre nenhum ponto de vista mais lógico Hereafter vai deixar de ser um filme feito com uma quase obsessão pelo “emocionar”, um filme feito sobre os preceitos classicistas que Clint mostrou durante quase toda carreira que acredita serem os melhores pra discursar sobre seus temas, um dramalhão, tanto quanto A Troca e Menina de Ouro, mas dentro dessa consciência fílmica de saber exatamente por quais caminhos está andando o que temos é um filme tocante, a despeito de diálogos piegas e de um discurso que tem que fazer um esforço enorme e nem sempre muito natural para conseguir se afastar de parecer panfletário ou proselitista – já que não dá para dizer que o filme preze exatamente pela imparcialidade ao menos quanto à questão de haver algo além da morte que está enraizado no argumento da história e apresentado como fato quase irrefutável todo o tempo.

Mas quando vemos o menino Marcus chorando e pedindo por favor para não ser deixado e George tomando coragem para agir rumo ao direito de tentar ser feliz  dá para ter a certeza: Clint Eastwood com sua sensibilidade latente e uma direção de atores das melhores – e que faz Matt Damon parecer o sujeito mais melancólico do mundo – chegou lá, de novo, ainda que abaixo da média dos filmes de Clint e possivelmente o mais fraco dele na direção, na pior das hipóteses, Além da Vida ainda assim é um filme incrivelmente bonito e com umas 3 ou 4 sequências de encher os olhos.

3/5

Ficha Técnica: Além da Vida (Hereafter) –  EUA, 2010. Dir: Clint Eastwood. Elenco: Matt Damon, Cécile De France, Frankie McLaren, George McLaren.

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– por Murilo C. Ceccone

Os Infiltrados não é apenas o remake de um ótimo filme chinês chamado Conflitos Internos. Isso porque Scorsese, e o roteirista William Monahan, não transportam simplesmente a trama para Boston, mas imprimem um estilo próprio à narrativa, fazendo modificações pertinentes e incluindo personagens que conferem maior densidade e dinamismo ao filme.

A história todos conhecem: Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), um policial recém-formado, e cuja família possui um passado de ligação com o crime, recebe a ingrata missão de se infiltrar na organização criminosa chefiada por Frank Costello (Jack Nicholson), o qual, por sua vez, tem seu protegido Colin Sullivan (Matt Damon) dentro da força policial com o intuito de servir como informante.

Logo no início do filme podemos verificar a mão de Scorsese, com seus travellings habituais, a narração (neste caso, de Nicholson – recurso interessante é a opção de mostrá-lo apenas nas sombras durante a sequência inicial), e uma certa semelhança com o estilo narrativo de Os Bons Companheiros e Cassino. Mas isso apenas durante os primeiros 20 minutos. Depois disso o filme ganha “vida própria”, num crescente de suspense no jogo de gato e rato dos protagonistas. Para citar dois exemplos: a perseguição após a cena no cinema pornô, e o longo silêncio de ambos no celular são de roer as unhas.

O elenco está perfeito, com destaque para as atuações de DiCaprio e Damon, que conseguem demonstrar os estragos emocionais causados pela situação em que se encontra o personagem (no caso do primeiro) e a arrogância e a ambição desmedida (no caso de Damon). Nicholson é um show a parte, divertidamente psicótico e exagerado, mas nunca caindo na caricatura, transforma Costello em uma ameaça iminente e constante. Martin Sheen, Mark Wahlberg, Alec Baldwin, Vera Farmiga e Ray Winstone fecham o ótimo elenco secundário.

Vale elogiar o ótimo gosto musical de Scorsese (comparável ao de Tarantino) quanto à escolha das músicas que compõem a trilha sonora do filme: de Gimme Shelter a Confortably Numb, e a pesada I’m Shipping Up To Boston. A propósito, Confortably Numb encaixa-se perfeitamente com o estado emocional vivido pelo personagem de DiCaprio.

Não caindo na tentação de modificar bruscamente o final do filme original apenas para satisfazer o público americano, Scorsese consegue ser ainda mais cínico e irônico (muitos discordam) com seu final. E o último plano do filme, com o rato e a Assembléia Legislativa é genial.

5/5

Os Infiltrados (The Departed) – 2006, EUA. Dir.: Martin Scorsese – Elenco: Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Vera Farmiga, Martin Sheen, Mark Wahlberg, Alec Baldwin, Ray Winstone.